Continuidade e Mudança após a Queda do Império Romano

Ibolya Horváth
por Dr Michael Arnheim, traduzido por Filipa Oliveira
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O fim cataclísmico do Império Romano no Ocidente tendeu a mascarar os traços subjacentes de continuidade. O mapa da Europa no ano 500 teria sido irreconhecível para qualquer pessoa que vivesse cem anos antes. Tinha desaparecido a sólida linha de fronteira que dividia a civilização romana daquilo que tinha sido percebido como "barbárie". Tinham desaparecido as instituições familiares de quase meio milénio. E tinha desaparecido um governante que pudesse contemplar a totalidade do Ocidente como o seu domínio. Em vez disso, o Ocidente encontrava-se fragmentado num mosaico de reinos "bárbaros" em constante mutação, enquanto o Oriente, em gradual encolhimento, continuava sob o comando de um imperador subjugado por uma igreja dominadora e por eunucos camaristas prepotentes.

Why Rome Fell
A Razão da Queda de Roma Dr. Michael Arnheim / Wiley Blackwell (Copyright)

Embora sob uma forma diferente, a monarquia continuou a ser a ordem do dia nos reinos "bárbaros" da Europa, equilibrada por uma aristocracia mista romano-germânica. O éthos social, aristocrático desde tempos imemoriais, sobreviveu sem entraves, enraizado numa crença geral na desigualdade. No domínio da religião, o ponto de rutura já tinha ocorrido antes da queda do Império Romano do Ocidente, com a supremacia do cristianismo por favor imperial, formalizada por decreto em 380. Isto pôs fim a 800 anos de tolerância religiosa — ou mesmo de liberdade de culto — e deu início a 1500 anos de intolerância e perseguição religiosas.

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A dissolução do Império Romano do Ocidente deixou um anseio por algum tipo de unidade política, pelo menos em toda a Europa Ocidental.

Nada permanece exatamente igual para sempre, mas também é verdade que nada muda de forma tão completa que não reste qualquer vestígio da sua forma original. Aquilo que Edward Gibbon caracterizou como "A união indissolúvel e a obediência fácil que permeavam o governo de Augusto e dos Antoninos" (V. 51) deu lugar, no século IV, a uma sociedade fraturada de lealdades divididas.

No entanto, mesmo a dissolução do Império Romano do Ocidente deixou um anseio por algum tipo de unidade política, pelo menos em toda a Europa Ocidental — e de forma mais ampla —, que encontrou expressão na coroação de Carlos Magno em 800, seguida um século mais tarde pela instituição do duradouro, mas débil e mal denominado, Sacro Império Romano-Germânico, depois pela breve mas altamente influente ascensão de Napoleão e, atualmente, pela União Europeia. Em termos de religião, o cristianismo, cuja supremacia foi estabelecida por decreto imperial no século IV, permaneceu a principal religião da Europa desde então. E o éthos aristocrático que permeava o mundo antigo sobreviveu, de forma eficaz, aos esforços concertados para o destruir.

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O Declínio Militar

"A civilização romana não teve uma morte natural", escreveu o historiador francês André Piganiol: "foi assassinada" (Piganiol, pág- 732). Embora extrema, esta perspetiva não é inteiramente infundada. A longa era de superioridade militar romana chegou a um fim estrondoso com a derrota e morte do imperador romano Valente às mãos dos godos na Batalha de Adrianópolis, em 378. Valente foi demasiado impaciente para esperar pelos reforços sob o comando do seu irmão, o imperador Graciano.

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Mas a decadência tinha começado muito antes. Depois de 212, quando o imperador Caracala concedeu a cidadania romana a todos os homens adultos livres que residiam no império, o serviço militar perdeu a atratividade que tinha para os provinciais sem direitos políticos. Até essa altura, esses homens estavam dispostos a alistar-se por 25 anos para receberem a cobiçada cidadania romana. Assim, o exército teve de passar a procurar recrutas mais longe, nomeadamente entre os "bárbaros" fora do Império Romano, que não tinham a mesma lealdade a Roma, especialmente quando lhes era permitido lhes combater sob o comando dos seus próprios chefes nativos.

O Saque de Roma

Adrianópolis já tinha sido suficientemente grave, mas o pior estava para vir. Em 410, Roma foi saqueada por Alarico, o Godo, na primeira vez que a cidade foi capturada desde 390 a.C., 800 anos antes. Tanto cristãos como pagãos mergulharam no desespero. Mesmo de um local tão distante como Belém, o teólogo cristão Jerónimo lamentou: "Se Roma pode perecer, o que poderá estar seguro?" (Jerónimo, Ep. 123, 16). Em 455, Roma seria novamente saqueada, desta vez de forma mais minuciosa, pelos vândalos sob o comando de Genserico.

Alaric Entering Athens
Alarico Entrando em Atenas Unknown (Public Domain)

Entretanto, entre 407 e 409, os vândalos e os seus aliados cruzaram o Reno, varreram a Gália e entraram em Espanha. "A Gália inteira fumegava como se estivesse numa única pira funesta", escreveu o poeta cristão Orencio (Commonitorium, linhas 179-184). Tratava-se, provavelmente, de um certo exagero, mas não de uma total invenção. Foi por esta altura que a Grã-Bretanha foi permanentemente perdida para Roma, enquanto Ataúlfo liderava os seus visigodos do norte de Itália para a Gália, sobrevivendo à custa da terra à boa maneira antiga, e depois fez um acordo com o imperador romano Honório, selado pelo casamento com a irmã do imperador, Gala Placídia. Vália (reinou 415-418), o segundo sucessor de Ataúlfo como rei dos visigodos, recebeu terras na Aquitânia, que se tornou a base de um reino visigodo que cobria a maior parte da Gália e de Espanha. A concessão inicial de terras na Aquitânia foi feita por acordo com o governo imperial, mas a expansão foi alcançada por extorsão ou força bruta.

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Sob o comando de Quederico I (reinou 458-481) e Clóvis I (reinou 481 a c. 511), os francos ganharam o controlo da maior parte da Gália, forçando os visigodos a concentrarem-se, no meio de conflitos internos, na manutenção de Espanha, a maior parte da qual acabou por lhes ser arrebatada pelos muçulmanos (anteriormente conhecidos como mouros) entre 711 e 718.

A Itália sob o Domínio "Bárbaro"

Entretanto, a mudança disruptiva era igualmente implacável na própria Itália. A data tradicional de 476, que marca o fim formal do Império Romano no Ocidente, é mais simbólica do que real. Contudo, o nome do último imperador ocidental, Rómulo Augusto, continua a exercer um certo fascínio, combinando o nome do mítico fundador epónimo de Roma com o do seu refundador. Na verdade, não só o último imperador, de apenas onze anos, mas também os seus predecessores — pelo menos nas duas décadas anteriores — não passavam de meras marionetas nas mãos de generais "bárbaros". Mas, depois de 476, a Itália como um todo caiu sob o domínio "bárbaro", primeiro sob o comando de Odoacro (reinou 476-493) e depois de Teodorico, o rei ostrogodo (reinou 493-526). A reconquista de Itália pelo imperador bizantino Justiniano (reinou 527-565) teve vida curta e, entre 568 e 774, a maior parte de Itália caiu sob o domínio dos lombardos, uma tribo germânica.

Justinian I
Justiniano I Sponsored by a Greek banker, Julius Argentarius (CC BY-NC-SA)

Roménia, não Gótia

Apesar dos sucessos "bárbaros", o visigodo Ataúlfo reconheceu a força da tradição romana:

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Ao início, quis apagar o nome romano. [...] Ansei por que a Roménia se tornasse Gótia, e que Ataúlfo se tornasse o que César Augusto tinha sido. Mas a longa experiência ensinou-me que a selvajaria desregrada dos godos nunca se submeterá às leis, e que sem lei um Estado não é um Estado. Por conseguinte, escolhi de forma mais prudente a glória distinta de reavivar o nome romano com o vigor gótico, e espero ser reconhecido pela posteridade como o iniciador de uma restauração romana, já que me é impossível alterar o caráter deste império. (

Orósio, Historia Adversus Paganos, 7.43.4-6.)

Esta declaração viria a revelar-se profética. Até ao dia de hoje, a maior parte da área anteriormente ocupada pelo Império Romano do Ocidente faz agora parte da União Europeia, é governada por legislação de base romana e fala uma forma de latim moderno, como o italiano, o espanhol, o catalão, o português, o francês e o romeno. Apenas na Grã-Bretanha prevaleceu a língua do conquistador. Ainda assim, a língua anglo-saxónica, ou inglês antigo, ficaria, a seu tempo, de tal forma sobreposta pelo francês e pelo latim que acabaria por apresentar, na atualidade, um vocabulário maioritariamente de base latina.

A Estrutura de Poder

Outro indicador de continuidade é a estrutura de poder. A estrutura de poder de uma sociedade é a medida de quem detém o controlo absoluto nessa sociedade, o que se correlaciona, até certo ponto, com a mobilidade social, a liberdade e a igualdade. Os testemunhos de sociedades ao longo de três milénios revelam que só existiram duas formas puras de governo: a monarquia e a oligarquia (esta última, se hereditária, transformando-se em aristocracia).

A longa extensão da história romana constitui um recurso valioso para análise, uma vez que combinou ambas as formas de governo. A República Romana, um exemplo de manual de oligarquia que durou quase 500 anos (509-44 a.C.), foi sucedida pelo Principado de Augusto, três séculos de verdadeira monarquia com apoio popular e uma aristocracia complacente (27 a.C. a 284 d.C.). Ao Domínio militar de Diocleciano (284-305), de curta duração, sucedeu a atitude de Constantino de ignorar as classes mais baixas enquanto reintegrava a aristocracia no governo do Ocidente, onde a importância desta cresceu até à dissolução do Império Ocidental num mosaico de reinos "bárbaros". A influência de uma aristocracia mista romano-germânica continuou, na verdade, bem adentro da Idade Média, especialmente naquilo que é hoje a França.

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Mapa do Período das Migrações na Europa nos Séculos IV–VI
Período de Migração na Europa Durante os séculos IV e V Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Entretanto, na metade oriental do império — que se separou do Ocidente em 395, sob a designação pela qual é hoje conhecido de Império Bizantino —, o Domínio continuou teoricamente em vigor por mais mil anos, até cair definitivamente nas mãos dos Otomanos em 1453. Carecendo tanto do apoio popular do Principado de Augusto como do contrapeso do lastro aristocrático, os imperadores bizantinos, aparentemente todo-poderosos, partilhavam na prática o seu poder com eunucos camaristas prepotentes e com uma Igreja influente.

O Éthos Social

A crença milenar na desigualdade inerente das pessoas continua a servir de base à sociedade ocidental moderna.

Embora o Império Romano tenha sido uma monarquia de um tipo ou de outro desde a sua criação sob o comando de Augusto, o seu éthos social permaneceu incessantemente aristocrático, baseado numa crença fundamental na desigualdade dos seres humanos. Esta crença persiste até aos dias de hoje, mesmo quando pretensamente eclipsada pelos ideais igualitários do Iluminismo do século XVIII. Até a Revolução Francesa estabeleceu uma distinção entre cidadãos ativos e cidadãos passivos, concedendo o direito de voto a apenas cerca de 4,3 milhões de homens franceses adultos, num total de uma população de cerca de 29 milhões.

É também importante compreender que a igualdade não é o mesmo que a igualdade de oportunidades, a qual significa, na verdade, uma oportunidade igual para nos tornarmos desiguais. Por exemplo, o objetivo moderno de eliminar a discriminação racial, étnica, sexual, religiosa e outras formas de discriminação no acesso ao ensino superior não visa produzir uma sociedade uniforme de assalariados iguais que usufruem todos dos mesmos privilégios. Em vez disso, o objetivo é conceder rendimentos mais elevados, maior autoridade e maiores privilégios com base no mérito, seja qual for a forma como este é definido. Assim, a crença milenar na desigualdade inerente das pessoas continua a servir de base à sociedade ocidental moderna.

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A Tolerância Religiosa

A religião é uma área importante que combina continuidade e mudança. Até 380, quando o cristianismo se tornou a única religião oficial do Império Romano por decreto imperial, Roma tinha desfrutado de mais de 800 anos de tolerância religiosa e, inclusive, de liberdade de religião. Embora tivesse existido sempre uma religião de Estado romana, que era uma forma de paganismo politeísta, esta nunca tinha sido exclusiva. Pelo contrário, inumeráveis cultos e religiões estrangeiras floresceram, em grande parte, sem impedimentos ou obstáculos. Entre estes incluía-se o cristianismo, cujas alegações de ter sofrido perseguições antes de conquistar o favor imperial provaram recentemente ser, no essencial, infundadas (cf. Moss).

Porque é que o cristianismo dominante era intolerante, não só com outras religiões, mas também com todas as desviações "heréticas" da única ortodoxia "correta", enquanto a Roma pagã era um reduto de liberdade religiosa? É porque, ao passo que o cristianismo era (e é) uma religião de credo, o paganismo romano era uma religião comunitária. Pela sua própria natureza, uma religião de credo depende inteiramente da verdade do seu credo, ou conjunto de crenças, que são apresentadas como a chave única para a salvação. A rejeição deste credo, ou o mais ligeiro desvio dele, resulta em perseguição e, possivelmente, até na morte.

Mapa  O Crescimento do Cristianismo no Império Romano
O Crescimento do Cristianismo no Império Romano Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O cristianismo foi, na verdade, a primeira religião de credo. No mundo antigo, as religiões comunitárias eram a norma. A pertença a uma determinada nação, Estado ou sociedade trazia consigo a pertença automática à religião dessa mesma sociedade. A religião "pagã" romana era deste tipo. Não existia uma identidade religiosa separada. As crenças não desempenhavam um papel importante nas religiões comunitárias. Assumia-se e aceitava-se que cada sociedade tinha a sua própria religião e, como resultado, a conversão era praticamente desconhecida. A tolerância religiosa era, por isso, a norma e, num caldeirão cosmopolita como Roma, a adesão a várias religiões ou cultos diferentes não era invulgar.

A ascensão do cristianismo à supremacia através do favor imperial no século IV deu início a mais de 1500 anos de perseguições religiosas, guerras confessionais e fogueiras da Inquisição. Se os países cristãos são hoje mais tolerantes do que eram há apenas um século, não é porque o cristianismo em si tenha mudado, mas sim devido à secularização da sociedade ocidental.

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Conclusão

Em termos de estrutura de poder e éthos social, a fragmentação do Império Romano no Ocidente não representa verdadeiramente um ponto de rutura. Contudo, no que respeita à tolerância religiosa, é possível traçar uma linha reta desde a destruição dos templos pagãos e a perseguição dos heréticos no final do século IV até às fogueiras e guerras religiosas de mais de mil anos mais tarde.

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Arnheim, D. M. (2026, julho 04). Continuidade e Mudança após a Queda do Império Romano. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2027/continuidade-e-mudanca-apos-a-queda-do-imperio-rom/

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Arnheim, Dr Michael. "Continuidade e Mudança após a Queda do Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2027/continuidade-e-mudanca-apos-a-queda-do-imperio-rom/.

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Arnheim, Dr Michael. "Continuidade e Mudança após a Queda do Império Romano." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 04 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2027/continuidade-e-mudanca-apos-a-queda-do-imperio-rom/.

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