Genserico (reinou nos anos de 428-47, também conhecido como Gaiserico) foi o maior rei dos vândalos, tendo permanecido invicto desde o momento em que assumiu o trono até à sua morte. Nasceu provavelmente em 389 perto do lago Balaton (na atual Hungria), embora tal seja incerto.
As fontes antigas relatam que era filho ilegítimo do rei vândalo Godegiselo, que o criou em pé de igualdade com os seus filhos legítimos. Ficou conhecido pela sua astúcia e pelas táticas militares brilhantes com que derrotou os exércitos de Roma em todos os confrontos. Tornou-se rei dos vândalos na Hispânia após a morte do seu meio-irmão Gunderico e liderou o seu povo rumo ao Norte de África, onde estabeleceu um reino vândalo — tão poderoso que controlou eficazmente o mar Mediterrâneo entre 439 e 534, apresando navios e saqueando vilas e cidades costeiras.
Após a sua morte, o reino passou para o seu filho, que governou de forma medíocre, o mesmo acontecendo com os seus restantes sucessores, até que Gelimero (reinou 530-534), o último dos reis vândalos, foi derrotado pelo general romano Belisário (505-565) em 533, tendo os vândalos deixado de existir como uma entidade política e cultural coesa por volta de 534.
Os Vândalos na Hispânia e a Ascensão de Genserico ao Poder
As invasões hunas forçaram muitas das chamadas "tribos bárbaras" a abandonar as suas pátrias tradicionais, cruzando as fronteiras em direção ao território romano.
Os vândalos migraram da Escandinávia para a região atualmente conhecida como Polónia por volta de 130 a.C. e, mais tarde, migraram ainda mais para sul, entrando em contacto com o Império Romano. Por volta de 166 d.C., alternavam entre aliados e antagonistas de Roma e, no ano de 270, mostravam-se ativamente hostis ao império. As invasões hunas do final do século IV e início do século V forçaram muitas das chamadas "tribos bárbaras" a abandonar as suas pátrias tradicionais, cruzando as fronteiras em direção ao território romano em busca de segurança.
A entrada foi negada aos vândalos mas, no inverno de 406, estes atravessaram o rio Reno congelado e invadiram a Gália. Da Gália, expandiram-se para a Hispânia (a atual Península Ibérica), onde entraram em conflito com os visigodos que já aí viviam. A complicar ainda mais a situação dos vândalos estava a presença de romanos na Hispânia, pelo que se viram a combater contra dois inimigos em frentes distintas. Sob a liderança de Gunderico (379-428), os vândalos conseguiram manter ambos os inimigos à distância e assumiram o controlo das cidades costeiras com muitos dos portos mais importantes.
Ainda assim, os vândalos estavam constantemente ameaçados por ataques, quer dos romanos, quer dos visigodos. Embora Gunderico fosse um líder capaz, que reivindicava a realeza sobre os vândalos e os alanos (possuindo, por isso, um exército consideravelmente grande), nada podia fazer para conquistar e manter a Hispânia como um todo. Gunderico morreu em 428 e foi sucedido por Genserico, então com 39 anos, que reconheceu a necessidade de encontrar uma solução para o problema do seu povo, deixando a Hispânia e estabelecendo um reino vândalo noutro local.
A Invasão do Norte de África
O problema, claro, era para onde ir, mas este acabou por ser resolvido pelos seus próprios inimigos romanos. Enquanto os vândalos repeliam os visigodos, o Império Romano sofria os seus problemas habituais com intrigas palacianas. O imperador no Ocidente era Valentiniano III (reinou 425-455), que era apenas uma criança, e o poder real residia na sua mãe, Gala Placídia (392-450), e no general Flávio Écio (391-454). Os romanos geralmente favoreciam ou Écio ou Gala, e ambos tentavam quase constantemente engendrar planos para frustrar as ambições do outro.
Por volta de 428, Écio concebeu uma intriga através da qual um rival seu, Bonifácio (que governava no Norte de África, † 432), foi acusado de traição contra Valentiniano III e Gala Placídia. Écio pediu a Gala que mandasse vir Bonifácio do Norte de África para responder às acusações, enquanto, ao mesmo tempo, enviava uma mensagem a Bonifácio avisando-o de que Gala planeava executá-lo assim que ele chegasse. Quando Bonifácio informou Gala de que não compareceria, Écio declarou que isso era a prova da sua traição.
Neste ponto, afirma o historiador Procópio, Bonifácio terá convidado os vândalos da Hispânia a deslocarem-se para o Norte de África como aliados contra uma invasão romana. Bonifácio, como Gala viria a reconhecer em breve, estava inocente das acusações e, uma vez que controlava seis províncias no Norte de África e possuía o poder militar para as defender, não teria necessidade de um acordo com os vândalos. Ainda assim, como Écio e Gala eram inimigos formidáveis, Bonifácio poderá ter enviado o convite a Genserico para reunir o maior número possível de homens. Outro relato sobre a invasão vândala do Norte de África sugere que Genserico tinha ficado ferido após uma queda de cavalo, o que o deixou coxo, tendo decidido, a partir de então, fazer a guerra por mar, o que o levou a invadir a região com o intuito de estabelecer uma base naval em Cartago.
Os historiadores têm argumentado a favor e contra ambas as alegações e continuam a fazê-lo. O mais provável é que Genserico quisesse simplesmente uma pátria para o seu povo que fosse rica em recursos e livre de visigodos, pelo que se aproveitou da situação confusa dos romanos e invadiu a região quando sentiu que Bonifácio nada podia fazer para o impedir (ou aceitou simplesmente o convite de Bonifácio já com o plano em mente de se apoderar da província). O Norte de África era o principal fornecedor de cereais do Império Romano e, se Genserico o controlasse, seria capaz de negociar eficazmente com os romanos em sua própria vantagem.
Independentemente dos seus motivos, Genserico liderou 80 000 pessoas do seu povo da Hispânia para o Norte de África em 429. Os historiadores continuam a debater se o número seria de 80 000 ou de 20 000, mas o historiador Walter A. Goffart (citando outros) escreve:
O facto de Gaiserico ter liderado 80 000 vândalos e povos associados da Hispânia para África em 429 tem sido apontado como a única informação segura que possuímos sobre a dimensão dos grupos bárbaros na era das invasões. A certeza decorre de ser atestado por informadores aparentemente independentes, um latino e o outro grego
(pág. 231).
Uma vez em África, e aceitando a alegação de que fora convidado por Bonifácio, ele virou-se contra o seu anfitrião e liderou as suas forças contra o exército imperial. Tomou a cidade de Hipona (onde Santo Agostinho, que morreu por esta altura, era bispo) após um cerco de catorze meses e invadiu os territórios de Marrocos e da Argélia atuais.
Genserico fez centenas de prisioneiros romanos, muitos deles cidadãos de alto perfil, mas tratou-os bem e ofereceu-lhes a liberdade caso jurassem nunca mais pegar em armas contra os vândalos. Muitos deles aceitaram a sua oferta e, entre eles, encontrava-se um oficial romano chamado Marciano, que mais tarde se tornaria imperador (reinou 450-457) e honraria o seu juramento.
Valentiniano III, entretanto, não teve outra escolha senão reconhecer as vitórias de Genserico e abandonar as províncias do Norte de África, à exceção de Cartago. Genserico consolidou firmemente a sua base de poder, conquistando outras cidades e, em 439, tomou Cartago. Continuou depois com uma sucessão de vitórias, conquistando cidades até se tornar senhor do Norte de África, alcançando assim os vândalos a sua própria pátria, para grande consternação de Roma. O historiador Roger Collins escreve: "A determinação em recuperar África dominou a política imperial ocidental ao longo dos quinze anos seguintes" (pág. 90). Contudo, os romanos não teriam sucesso nessa empresa senão após a morte de Genserico.
A Perseguição aos Católicos
Com os romanos derrotados, Genserico dedicou-se à governação do seu reino. Os vândalos eram cristãos arianos, enquanto os romanos eram trinitários (mais tarde conhecidos como católicos). O historiador Vítor de Vita descreveu as perseguições aos católicos durante o reinado de Genserico na sua obra Historia Persecutionis Africanae Provinciae (História da Perseguição da Província Africana - cerca de 484). Os vândalos arianos rejeitavam o conceito da Trindade como uma heresia politeísta, enquanto os católicos romanos condenavam o arianismo como uma ameaça à verdadeira fé. A Cambridge Ancient History descreve a situação após Genserico ter assumido o controlo total do Norte de África:
Gaiserico e os vândalos viam os provinciais africanos, especialmente a nobreza romana, com considerável suspeita. Membros de muitas famílias proeminentes foram exilados e tiveram as suas terras expropriadas. Da mesma forma, o conflito religioso entre os vândalos arianos e os romanos católicos foi invulgarmente selvagem. Muitos bispos e padres católicos foram sujeitos a exílio interno, e as suas igrejas e dotações de terras foram entregues aos arianos
(XIV, pág. 125).
O rei vândalo também tributou os católicos mais pesadamente do que os arianos, com especial atenção dedicada às igrejas católicas. A veemência com que Genserico encarava os cristãos trinitários provinha da crença destes na Trindade (Deus como Pai, Filho e Espírito Santo), bem como da sua antagonia aberta face à forma vândala de cristianismo ariano, que incorporava aspetos do cristianismo no antigo paganismo germânico da tribo.
No sistema de crenças pagão vândalo, Odin era o rei dos deuses e todos os outros estavam abaixo dele; por isso, na forma vândala de cristianismo, havia apenas um Deus supremo e Jesus desempenhava o mesmo papel que Thor tinha anteriormente como filho do deus mais alto. O conceito de três divindades igualmente poderosas reinando como um só Deus era totalmente inaceitável para Genserico, pois violava tudo aquilo em que ele acreditava relativamente ao divino. Não era permitido que católicos servissem no seu governo, e cada funcionário público tinha de ser um ariano leal que acreditasse precisamente naquilo que Genserico acreditava. Estas perseguições, contudo, não interferiram com o seu governo, e o Reino Vândalo prosperou.
O Saque de Roma
A partir do seu porto em Cartago, os vândalos lançavam agora a sua frota à vontade e controlavam o mar Mediterrâneo, que anteriormente pertencera a Roma. A marinha de Genserico saqueava todos os navios que se cruzavam no seu caminho e realizava incursões nas linhas costeiras. Os planos e tentativas dos romanos para expulsar ele e o seu povo do Norte de África redundaram em nada; assim, em 442, os romanos reconheceram o Reino Vândalo como uma entidade política legítima, e um tratado foi assinado entre Genserico e Valentiniano III.
Em 455, Valentiniano assassinou Écio e foi, pouco depois, ele próprio assassinado por conspiradores sob o comando de Petrónio Máximo, que se declarou então imperador. Genserico alegou que isto anulava o tratado de 442, que teria sido válido apenas entre ele próprio e Valentiniano. Navegou para a Itália com a sua frota, desembarcou sem oposição em Óstia e marchou sobre Roma. Os romanos reconheceram que a sua força militar era inadequada para enfrentar os vândalos e, por isso, depositaram a sua confiança nas capacidades diplomáticas do Papa Leão I (pontificado 440-461), enviando-o ao encontro de Genserico para implorar clemência.
Leão disse a Genserico que este estava livre para saquear a cidade, mas pediu-lhe que não a destruísse nem ferisse os habitantes — e Genserico concordou. Isto foi extremamente vantajoso para Genserico em vários aspetos, mas, principalmente, porque a Itália sofria uma fome e, quando desembarcou em Óstia, Genserico reconheceu que o seu exército seria incapaz de manter um cerco prolongado à cidade, pois não teriam nada para comer e as muralhas de Roma eram formidáveis. A sua concordância com o pedido de Leão foi, portanto, mais um ato de conveniência e prudência do que de misericórdia.
Tudo o que tinha valor, desde tesouros pessoais até ornamentos em edifícios e estátuas, foi levado pelos vândalos, mas estes não destruíram a cidade, e poucas pessoas foram feridas, com exceção de Petrónio Máximo, que foi morto por uma multidão romana quando tentou fugir e foi apanhado fora das muralhas. Os vândalos saquearam a cidade e depois marcharam de volta para os seus navios e navegaram para casa, levando consigo vários reféns de alto perfil, incluindo a viúva de Valentiniano III e as suas filhas. Collins escreve:
O saque de Roma de 455 teve o efeito imediato de tornar a ameaça vândala à Itália muito mais perigosa do que [outras ameaças]. Apesar de os vândalos terem regressado imediatamente a África com o seu saque, todo o episódio demonstrou, de uma forma que parece não ter sido apreciada anteriormente, o quão vulnerável a Itália, e Roma em particular, estava a ataques vindos do mar
(pág. 88).
Percebendo que já não podiam dar-se ao luxo de tolerar os vândalos no Norte de África, os romanos reuniram forças para lançar um ataque por volta de 460. Esperando vencer uma batalha decisiva, solicitaram a ajuda dos antigos inimigos dos vândalos, os visigodos, como aliados. A frota reuniu-se na Hispânia para uma invasão do Norte de África, mas Genserico, que estava sempre vigilante quanto aos movimentos militares romanos, lançou um ataque preventivo e destruiu ou capturou a maior parte da frota romana em 461.
A Batalha do Cabo Bon
Durante os sete anos seguintes, os vândalos continuaram a comandar o mar Mediterrâneo e a aterrorizar os povoados costeiros. Finalmente, em 468, Roma decidiu tentar novamente livrar o Norte de África dos vândalos e recuperar as suas províncias. As metades oriental e ocidental do império uniram-se contra os vândalos e enviaram a totalidade da sua frota contra eles. Esta campanha poderia ter sido bem-sucedida, não fosse a incompetência do general romano Basilisco (mais tarde imperador, reinou 475-476) e a astúcia de Genserico.
Basilisco ancorou a sua frota no Cabo Bon, em vez de prosseguir para tomar Cartago diretamente. Genserico, que já sabia que a invasão estava a caminho, fingiu surpresa e enviou a Basilisco uma mensagem a pedir uma trégua de cinco dias, para que pudesse preparar-se para negociar a paz e a rendição. Basilisco concedeu-lhe os cinco dias e permaneceu no porto do Cabo Bon a aguardar os emissários vândalos com a sua rendição.
Genserico, entretanto, ordenou que todos os navios antigos no porto de Cartago fossem carregados com mato seco, lenha e potes de azeite. Na noite do quinto dia, enquanto Basilisco ainda aguardava a chegada dos emissários vândalos, Genserico mandou rebocar os navios velhos lentamente na direção da frota romana. Os vândalos esperaram até que a noite estivesse completamente escura e, então, atearam fogo aos navios e enviaram-nos contra as galés romanas.
A frota romana estava concentrada e muito próxima no porto do Cabo Bon, não tendo espaço para manobrar e escapar aos navios em chamas dos vândalos. O fogo saltou de navio para navio e, sendo uma noite ventosa como era, as chamas propagaram-se mais rapidamente. Por entre o fumo e o fogo, a frota vândala surgiu, abalroou os navios romanos e abordou-os, matando quem quer que a bordo resistisse.
Quando os vândalos tiveram a certeza de que não restava qualquer frota com que se preocupar, retiraram-se; os navios romanos continuaram a arder durante toda a noite, e os que ainda podiam navegar retiraram-se de volta para Roma, com uma perda de mais de 600 navios e inúmeras vidas. Os romanos foram forçados a pedir a paz, e o general Ricimero (que era o chefe de Estado interino no Ocidente, m. 472) teve de aceitar os termos de Genserico, que eram, simplesmente, uma reafirmação do tratado de 442, permitindo aos vândalos fazerem o que quisessem e quando bem entendessem.
A Morte de Genserico e a Queda do Reino Vândalo
Na sequência desta derrota romana devastadora, que tinha paralisado o império do Ocidente, Genserico montou um assalto em larga escala ao império do Oriente como retaliação. Estes ataques continuaram entre cerca de 469 e 475, com mais vitórias do que derrotas para os vândalos. Os vândalos realizaram incursões nos territórios do império oriental, desde Alexandria, no Egito, até à Anatólia.
Quando o imperador Leão I morreu, foi sucedido por Zenão (reinou 474-475, 476-491), que quase instantaneamente iniciou negociações de paz. Genserico, com a sua equidade habitual, não exigiu termos exorbitantes; apenas exigiu que Roma reconhecesse o seu reino como legítimo e o deixasse em paz. Concedeu liberdade religiosa aos católicos que viviam no Norte de África, concordou em impedir que os seus navios atacassem a costa da Anatólia e libertou todos os prisioneiros romanos que tinha capturado. Permaneceu o senhor incontestado do mar Mediterrâneo e do Norte de África até à sua morte, por causas naturais, em Cartago, no ano 478.
Genserico foi sucedido pelo seu filho Hunerico (reinou 478-484), que perseguiu os católicos (cristãos trinitários) em detrimento de outras atividades mais proveitosas. Ao contrário das perseguições de Genserico, as de Hunerico foram particularmente intensas e desviaram tempo e esforço da administração efetiva do reino. Hunerico foi seguido por outros reis que governaram com maior ou menor sucesso, mas que nunca se aproximaram da grandeza de Genserico.
O último rei dos vândalos foi Gelimero, que foi derrotado por Belisário nas Batalhas de Ad Decimum e Tricamarão no ano de 533. Gelimero fugiu do campo de batalha, tendo sido perseguido e capturado em março de 534; depois, foi levado acorrentado até Constantinopla, onde foi exibido no desfile triunfal de Belisário pelas ruas, sendo posteriormente libertado.
O império do Oriente recuperou o controlo do Norte de África e os vândalos deixaram de existir como entidade cultural. O rei Genserico derrotou os romanos em quase todos os confrontos e venceu mais batalhas contra Roma do que qualquer outro líder militar na história. Parecia ser capaz de adivinhar o que os romanos iriam fazer antes mesmo de eles próprios o saberem, frustrando consistentemente os seus planos de o expulsar do seu reino. É lembrado nos dias de hoje como um dos maiores estrategas militares da história e o governante mais bem-sucedido das tribos germânicas da Antiguidade Tardia.
