Francos

Definição

Cristian Violatti
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
publicado em 23 Dezembro 2014
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Texto original em inglês: Franks

Frankish Bird-Shaped Brooch (by Metropolitan Museum of Art, Copyright)
Broche Franco em Forma de Pássaro
Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Os francos formavam uma confederação de tribos germânicas constituídas originalmente por um conjunto de grupos estabelecidos entre os rios Reno e o Wesser. As tribos mais importantes da confederação eram os ripuarianos e os salianos, as quais lideravam as demais. Muito provavelmente constituíam sua confederação na Alemanha, em torno da região da moderna Mainz.

A origem do nome "francos" é controversa, alguns historiadores afirmam que a palavra tem uma ligação com a palavra inglesa "frank", significando "sincero, verdadeiro", enquanto outros rejeitam esta afirmativa, citando a origem mais provável como "franca" ou "frakka", palavra germânico-norueguesa para dardo, a arma preferida pelos francos nas batalhas. Como os romanos referiam-se a eles rotineiramente como ferozes e relatavam o uso de lançar dardo (em latim, francisca), esta é outra, e mais provável, fonte para o nome. Seu local de origem em proezas semi-mitológicas (como na Crônica de Fredegar do século VII) como Tróia, porém isto é rejeitado pelos historiadores.

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A partir do século V em diante, à medida que o poder romano entrava em declínio no norte da Gália, os francos expandiam-se pela Bélgica e norte da França. Mais tarde, prosseguiram com seu processo expansionista e, por volta da metade do século VI, assumiram o controle das regiões central e sul da França e uma pequena parte do norte da Espanha. Durante sua interação com os romanos, em diversas ocasiões os francos realizaram incursões predatórias no Império Romano, mas, no entanto, muitos francos prestaram serviço como soldados no exército romano. Diversos líderes francos poderosos encontram-se mencionados em antigos relatos, como Childeric e seu filho Clovis I, o qual consolidou o poder franco e foi convertido ao cristianismo. A expansão deles prosseguiu até o século VIII, durante a época de Carlos Magno, quando o território franco ocupava a maior parte da Europa Ocidental.

Central Europe 5th century CE
Europa Central no Século V EC
Varoon Arya (CC BY)

História Inicial

Os francos aparecem nas fontes latinas pela primeira vez em 257, mencionados entre os inimigos de Roma no Norte da Gália. Constituíam uma ameaça não somente por terra, mas também no mar (os salianos distinguiam-se no combate naval e os ripuarianos em terra). Mais tarde, no século III , alguns francos associaram-se aos saxões no sul do Mar do Norte e Canal Inglês, transformando-se em predadores, atacando as rotas navais e também pilhando a costa britânica e gaulesa. Sob o governo do Imperador Maximianus, os romanos assinaram um tratado com os francos em 287 e, como parte deste acordo, diversos francos alistaram-se no exército romano. A presença dos francos a serviço dos romanos cresceu até finalmente, durante o século IV, tornarem-se o maior contingente não-romano da força de combate romana do ocidente. Curiosamente, alguns francos mantiveram seus status tanto na hierarquia franca como na romana, por exemplo o Rei Mallobaudes, que teve uma longa carreira militar no exército romano e também é descrito como um rei dos francos. Por volta do ano 350, os francos já se encontravam com uma sólida presença no nordeste da Gália, porém foi durante a segunda metade do século V, sob a liderança de Childeric (c.440-481/482), quando deram início a outra fase de expansão e tornaram-se um poder importante.

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Map of the Frankish Kingdoms AD 481-511
Mapa dos Reinos Francos 481-511 DC
Peter Kessler (Copyright)

Em 451, Átila o Huno invadiu a Gália e os francos associaram-se aos romanos e aos visigodos para resistirem à invasão. A conquista de Átila foi interrompida em junho de 451 na Batalha dos Campos Cataláunicos, na França atual, retirando-se, em seguida, da Gália. Os francos continuaram a fornecer apoio militar a Roma para combater os inimigos imperiais, incluindo os visigodos em 463 e os saxões em Angers em 469.

Expansão Franca

Em 481 os francos encontravam-se com um novo governante: Clovis I (466-511/513), filho de Childeric, que fundaria a dinastia merovíngia. Designado rei na precoce idade de 15 anos, Clovis tornou-se um governante poderoso que se aproveitou da agonizante ordem romana. Já em 486 ele empurrou as fronteiras do Reino Franco para o Loire, na França Central. Combatendo contra romanos e bárbaros igualmente, ampliou o Reino dos Francos e consolidou seu poder ao conquistar a Gália e unifica-la sob o comando da dinastia merovíngia, pois seus descendentes iriam governa-la pelos próximos 200 anos.

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Partindo de uma modesta origem como uma confederação de tribos, os francos cresceram para se tornarem a instituição política mais poderosa na Europa Ocidental após o declínio de Roma.

A Dinastia Merovíngia foi uma linhagem franca que já havia sido implantada por Childeric. No sentido de manter a singularidade dos merovíngios, os francos criaram um relato ficcional a respeito da origem da linhagem de Childeric. Este relato começa com uma criatura semelhante a um touro, o qual se acasalou com a esposa de Clódio, um nobre franco. A mulher deu à luz a Merovech, o semi-lendário fundador da DInastia Meroovíngia e suposto pai de Childeric. Como com os relatos dos francos originando de Tróia, tendo o Rei Príamo como seus ancestral, esta história foi criada com a finalidade de fornecer um linhagem nobre para Childeric, relacionando-a com os antigos contos pagãos a respeito dos nascimentos de semi-deuses.

Frankish territory in 555
Território Franco em 555
Altaileopard (CC BY-NC-SA)

Os francos eram pagãos, ao contrário da maioria das tribos bárbaras que entravam, por essa época, nos territórios romanos e que seguiam o cristianismo ariano. Durante a época de Childeric, conform basicamente pagãos, somente sendo convertidos ao cristianismo tempos mais tarde sob Clovis I. Evidências encontradas no local da tumba de Childeric, descoberta em 1638, sugerem a prática de rituais pagãos na forma de traços de cavalos sacrificados. Gregório de Tours afirma que os francos

[...] moldaram ídolos para eles na forma de pássaros e animais selvagens, os quais eram venerados, no lugar de deuses, e para eles eram feitos sacri- fícios. (História Francorum, Livro 2:10)

Gregório também relata que os francos converteram-se ao Cristianismo Católico durante o reinado de Clovis I, o qual converteu-se após seu casamentos com Clotilde, uma princesa borgonhesa e também após ter derrotado os alemanni por volta de 496, uma vitória que foi atribuída à vontade de Deus. A data exata para a conversão ainda é assunto para discussão, com alguns historiadores colocando-a já em 486. Clovis tinha boas razões políticas para esta conversão, pois poderia tornar mais fácil a assimilação dos galo-romanos conquistados e, ao mesmo tempo, estava visando conseguir o apoio do Império Romano do Oriente.

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Quando da morte de Clovis, muitos aspectos do Reino Franco, tais como linguagem, crenças religiosas e leis, eram uma mescla das culturas germânica e romana. Os francos também preservaram diversas indústrias manufatureiras romanas e aplicaram a tradicional habilidade profissional germânica na arte e arquitetura. Seguindo o costume franco, o controle do reino passou aos filhos de Clovis, em número de quatro, e cada um assumiu o controle de uma parte do reino. Theuderic I, filho mais velho, ofuscou os demais em poder e foi sucedido em 533 pelo seu filho Theudebert, o qual tinha sob seu controle a margem ocidental do Reno desde o Mar do Norte até os Alpes.

Baptism of Clovis I
Batismo de Clovis I
Pethrus (Public Domain)

Conquista do Norte da Itália & Desordem Política

O Imperador bizantino Justiniano I, determinado a retomar a metade perdida do Império Romano, enviou uma grande força militar para reconquistar a Itália das mãos dos godos em 536. Theudebert tirou proveito desta situação apoiando ambos os lados, oferecendo ajuda tanto aos romanos quanto aos ostrogodos. Os francos tomaram o controle da Provença dos ostrogodos, os quais foram incapazes de defendê—la, e em 539 invadiram o Norte da Itália, saquearam Milão e ocuparam a maior parte da Ligúria. Há relatos de que Theudebert contava com uma força de aproximadamente 100.000 homens. A respeito dos acontecimentos daquela época há chegou até nós um relato escrito pelo historiador Procopius a respeito dos acontecimentos daquela época, contando que os francos

...começaram por sacrificar as mulheres e as crianças dos godos que se encontravam próximas e a lançar seus corpos no rio, como os primeiros resultados da guerra. Pois estes bárbaros, apesar de terem se tornado cristãos, preservam a maior parte da antiga religião, ainda praticam sacrifícios humanos e outros sacrifícios de natureza pecaminosa e, associado a isto, fazem suas profecias.

(De Bello Gothico, 6.25.1-18)

Theudebald, filho de Theudebert, sucedeu a seu pai em 548. Sob pressão dos bizantinos, Theodebald foi obrigado a ceder a eles o controle do Norte da Itália em 548 . Theodebald morreu em 555 e o poder foi transmitido para seu tio-avô, Clotário I, que se tornou, então, rei de todos os francos até sua morte em 561. O Reino Franco foi novamente dividido em quatro, cada parte do reino controlada por um dos quatro filhos de Theodebald: Charibert I, Sigebert I, Chilperic I e Guntram, com residências reais, respectivamente, em Paris, Reims, Soissons e Orléans. Esta nova estrutura política provou-se ser instável e propensa a disputas territoriais entre os governantes francos. Quando Charibert I morreu em 567, irrompeu uma guerra civil entre SIgebert e Chilperic quando ambos reivindicaram o controle da mesma área de Poitiers e Tours. Nos anos seguintes surgiram novos conflitos e disputas semelhantes. Como resultado das divisões e das desordens políticas, os quatro reinos se aglutinaram em três sub-reinos: Austrásia, Nêustria e Borgonha.

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O Fim dos Merovíngios & a Transição Medieval

Apesar desta nova divisão, o conflito entre os poderes políticos francos não desapareceu, alternando períodos de paz e guerra. Em 613, os francos ficaram novamente unidos sob o comando de Clotário II, o filho de Chilperic. A estabilidade do Reino Franco foi mais uma vez abalada devido ao aparecimento de mais divisões territoriais e ao crescimento dos conflitos internos. A Batalha de Terty em 687, entre Austrásia de um lado, Nêustria e Borgonha do outro, determinou um ponto sem volta: perda irreversível de poder, caracterizada pelo declínio gradual da autoridade dos reis francos até que o último governante merovíngio foi finalmente deposto pelo Papa Zacarias em 752.

Isto marcou o fim da Dinastia Merovíngia e o início de um novo governo dinástico, os Carolíngios, quando Pepino o Breve, foi indicado como rei dos francos em 754 e, posteriormente, sucedido pelo seu filho Carlos Magno em 768. Após Desiderius, governante lombardo, ter ameaçado o Papa Hadriano I, Carlos Magno invadiu a Itália, entrou em guerra com os lombardos derrotando-os em 774. Em consequência, os francos dissolveram o governo central lombardo, anexaram seu território e, lentamente, a cultura lombarda fundiu-se com a cultura dos francos. Os francos entraram na Era Medieval ocupando a maior parte da Europa Ocidental tendo Carlos Magno como rei.

Partindo de uma modesta origem como uma confederação de tribos, os francos cresceram para se tornarem a instituição política mais poderosa na Europa Ocidental após o declínio de Roma. Durante séculos de expansão, os francos atuaram para absorver um bom número de diferentes grupos para sua estrutura cultural, incluindo os Saxões, Galo-Romanos, Alemanni, Avaros e Lombardos. A origem da Europa Medieval não deve ser somente encontrada no Império Romano Tardio, mas também na vida e na história de muitos "povos bárbaros" como os francos, que auxiliaram a renomear as nações da Europa e a redesenhar seu mapa.

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Sobre o tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro is a retired paediatrician interested in Roman Empire and Middle Ages history, whose concern is disseminate WH´s articles for the public in portuguese speaking. Nowadays he lives in Santos, Brazil.

Sobre o autor

Cristian Violatti
Biografia do Autor Cristian è um palestrante para o público e autor independente com uma forte paixão pelo passado da humanidade, inspirado pelas ricas lições da história. O objetivo de Cristian é o de estimular ideias e encorajar o desejo de saber em sua audiência.

Cite este trabalho

Estilo APA

Violatti, C. (2014, Dezembro 23). Francos [Franks]. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13497/francos/

Estilo Chicago

Violatti, Cristian. "Francos." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. Última modificação Dezembro 23, 2014. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13497/francos/.

Estilo MLA

Violatti, Cristian. "Francos." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 23 Dez 2014. Web. 17 Set 2021.