A Religião no Mundo Antigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Daniele S. B. Zatta
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Sumerian Worshipper Statue (by Osama Shukir Muhammed Amin, Copyright)
Estátua de Adorador Sumeriano Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Religião (do latim Religio, que significa 'restrição', ou Relegere, de acordo com Cícero, que significa 'repetir, releitura' ou, muito provavelmente, Religionem, 'mostrar respeito pelo que é sagrado') é um sistema organizado de crenças e práticas que giram em torno, ou conduzem, a uma experiência espiritual transcendente. Não há cultura na história da humanidade que não tenha praticado alguma forma de religião.

Nos tempos antigos, a religião não se diferenciava do que hoje conhecemos como 'mitologia' e consistia em rituais regulares baseados na crença de entidades sobrenaturais superiores que criaram e continuavam a manter o mundo e o cosmos circundante. Essas entidades eram antropomórficas e se comportavam de modo que espelhavam de perto os valores da cultura (como no Egito), ou às vezes se envolviam em atos contraditórios a esses valores (como é visto com os deuses da Grécia).

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A religião, daquela época e de agora, preocupa-se com o aspecto espiritual da condição humana, deuses e deusas (ou um único deus ou deusa pessoal), a criação do mundo, o lugar de um ser humano no mundo, a vida após a morte, a eternidade e como escapar do sofrimento neste mundo ou no próximo; e cada nação criou o seu próprio deus à sua própria imagem e semelhança. O filósofo grego Xenófanes de Cólofon (c. 570-478 a.C.) escreve:

Os mortais supõem que os deuses nascem e têm roupas, vozes e formas como as suas. Mas se bois, cavalos e leões tivessem mãos ou pudessem pintar com as mãos e realizar trabalhos como os homens, os cavalos pintariam imagens de deuses semelhantes a cavalos, e bois pintariam deuses semelhantes a bois, e cada um moldaria os corpos parecidos aos seus próprios. Os etíopes acreditam em deuses pretos e de narizes achatados; os trácios, em deuses de olhos azuis e cabelos ruivos. (Diógenes Laércio, Vidas)

Xenófanes acreditava que havia "entre os deuses e os homens, um deus, o maior, nada parecido com os mortais no corpo ou na mente", mas ele era a minoria. O monoteísmo não fazia sentido para os povos antigos, exceto para os visionários e profetas do Judaísmo. A maioria das pessoas, pelo menos até onde se pode discernir a partir do registro escrito e arqueológico, acreditava em muitos deuses, cada um dos quais tinha uma esfera especial de influência. Na vida de um indivíduo, não existe um outro indivíduo dedicado a apenas atender as necessidades do primeiro; este interage com muitos tipos diferentes de pessoas, a fim de alcançar a plenitude e ganhar a vida.

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Os povos antigos acreditavam que um só deus não poderia cuidar de todas as necessidades de um indivíduo.

Atualmente, durante sua vida, um indivíduo irá interagir com os pais de outro indivíduo, seus irmãos, professores, amigos, amantes, empregadores, médicos, frentistas de posto de gasolina, encanadores, políticos, veterinários, e assim por diante. Nenhuma pessoa pode preencher todos esses papéis ou suprir todas as necessidades de um indivíduo – assim como era nos tempos antigos.

Da mesma forma, os povos antigos acreditavam de que nenhum deus poderia cuidar de todas as necessidades de um indivíduo. Assim como alguém com um cão doente não procuraria um encanador, da mesma forma, alguém com um problema amoroso não procuraria um deus da guerra. Se alguém estivesse sofrendo com um coração partido, procuraria a deusa do amor; se quisesse vencer um combate, só então consultaria o deus da guerra.

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Os muitos deuses das religiões do mundo antigo realizaram esta função como especialistas nas suas respectivas áreas. Em algumas culturas, um certo deus ou deusa se tornaria tão popular que transcenderia a compreensão cultural da multiplicidade e assumiria uma posição tão poderosa e abrangente que quase transformaria uma cultura politeísta em henoteísta.

West Pediment of the Parthenon (Reconstruction)
Frontão Oeste do Partenon (Reconstrução) Tilemahos Efthimiadis (CC BY-SA)

Enquanto politeísmo significa a adoração de muitos deuses, henoteísmo significa a adoração de um deus em muitas formas. Essa mudança de entendimento foi extremamente rara no mundo antigo, e a deusa Ísis e o deus Amon do Egito são provavelmente os melhores exemplos da ascensão completa de uma divindade comum para o (a) criador (a) supremo (a) e sustentador (a) do universo reconhecido (a) em diferentes formas.

Como observado, toda cultura antiga praticava algum tipo de religião, mas não se pode identificar com certeza onde a religião começou. A controvérsia sobre se a religião mesopotâmica inspirou a dos egípcios já dura mais de um século e não está mais perto de ser resolvida do que quando começou. É muito provável que cada cultura tenha desenvolvido a sua própria crença em entidades sobrenaturais para explicar os fenômenos naturais (dia e noite, as estações do ano) ou para ajudar a dar sentido às suas vidas e às incertezas que os seres humanos se deparam diariamente.

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Embora tentar traçar as origens da religião possa ser um interessante exercício de intercâmbio cultural, não parece ser um uso muito proveitoso do tempo, quando parece bem claro que o impulso religioso é simplesmente uma parte da condição humana e que diferentes culturas em diferentes partes do mundo poderiam ter chegado às mesmas conclusões sobre o significado da vida independentemente.

Queen of the Night or Burney's Relief, Mesopotamia
Rainha da Noite ou Relevo de Burney, Mesopotâmia Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Religião na antiga Mesopotâmia

Como acontece com muitas invenções e avanços culturais, o 'berço da civilização' Mesopotâmia tem sido citado como o berço da religião. Não se sabe quando a religião se desenvolveu na Mesopotâmia, mas os primeiros registros escritos da prática religiosa datam de c. 3500 a.C. da Suméria. As crenças religiosas da Mesopotâmia sustentavam que os seres humanos eram cooperadores dos deuses, trabalhavam com eles e para que eles retivessem as forças do caos que haviam sido controladas pelas divindades supremas no início dos tempos. A ordem foi criada a partir do caos pelos deuses, e um dos mitos mais populares que ilustram este princípio fala do grande deus Marduk, que derrotou Tiamat e as forças do caos para criar o mundo. O historiador D. Brendan Nagle escreve:

Apesar da aparente vitória dos deuses, não havia garantia de que as forças do caos não recuperassem seus poderes e derrubassem a criação organizada dos deuses. Deuses e humanos estavam envolvidos na luta perpétua para conter os poderes do caos, e cada um deles tinha seu próprio papel a desempenhar nesta batalha dramática. A responsabilidade dos habitantes das cidades mesopotâmicas era fornecer aos deuses tudo o que precisavam para governar o mundo. (11)

Os deuses recompensaVam os seres humanos por seu serviço, cuidando de suas necessidades diárias na vida.

Os seres humanos foram criados, de fato, com este objetivo: trabalhar junto com os deuses e para os deuses com um propósito benéfico em comum. A afirmação de alguns historiadores de que os mesopotâmicos eram escravos dos seus deuses é insustentável, porque é bem claro que o povo compreendia a sua posição como cooperadores. Os deuses recompensavam os seres humanos pelo seu serviço, cuidando das suas necessidades diárias na vida (como fornecer-lhes cerveja, a bebida dos deuses) e mantendo o mundo em que viviam. Esses deuses conheciam intimamente as necessidades do povo porque não eram entidades distantes que viviam nos céus, mas habitavam em casas na terra construídas para eles por seu povo; essas casas eram os templos que foram erguidos em cada cidade da Mesopotâmia.

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Os complexos de templos, dominados pelo imponente zigurate, eram literalmente consideradas as casas dos deuses e suas estátuas eram alimentadas, lavadas e vestidas diariamente, enquanto os sacerdotes e sacerdotisas cuidavam deles como se fossem reis ou rainhas. No caso de Marduk, por exemplo, sua estátua foi carregada para fora de seu templo durante o festival em homenagem a ele e através da cidade de Babilônia para que ele pudesse apreciar sua beleza enquanto desfrutava do sol e ar fresco.

Ishtar
Istar Fae (Public Domain)

Inana era outra divindade poderosa que era muito reverenciada como a deusa do amor, sexo e guerra, e cujos sacerdotes e sacerdotisas cuidavam fielmente de sua estátua e templo. Inana é considerada um dos primeiros exemplos da figura de deus que morre e ressuscita, que desce ao submundo e retorna à vida, trazendo fertilidade e abundância à terra. Ela era tão popular que seu culto se espalhou da região sul da Suméria para toda a Mesopotâmia. Ela se tornou Ishtar dos acadianos (e mais tarde os assírios), Astarte dos fenícios, Sauska dos Hurritas-hititas, e foi associada a Afrodite dos gregos, Ísis dos egípcios e Vênus dos romanos.

Os templos foram o centro da vida da cidade ao longo da história da Mesopotâmia, desde o Império Acadiano (c. 2334-2150 a.C.) até o Assírio (c. 1900-612 a.C.) e dali em diante. O templo servia em múltiplas funções: o clero distribuía cereais e bens excedentes aos pobres, aconselhava os necessitados, prestava serviços médicos e patrocinava as grandes festas que honravam os deuses. Embora os deuses cuidassem bem dos humanos enquanto viviam, a vida após a morte da Mesopotâmia era um submundo sombrio, localizado sob as montanhas distantes, onde as almas bebiam água estragada das poças e comiam poeira por toda a eternidade na 'terra sem volta'. Essa visão sombria de sua morada eterna era notadamente diferente da dos egípcios, bem como de seus vizinhos, os persas.

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Antiga Religião Persa

A religião primitiva dos persas chegou ao Planalto Iraniano com as migrações dos arianos (devidamente entendidos como Indo-Iranianos) algum tempo antes do terceiro milênio a.C. A fé primitiva era politeísta com um deus supremo, Ahura Mazda, presidindo divindades menores. Entre os mais populares deles estava Atar (Deus do fogo), Mitra (Deus do sol nascente e das Alianças), Hvar Khshsata (Deus do sol pleno) e Anahita (deusa da fertilidade, água, saúde, cura e sabedoria). Esses deuses representavam as forças da bondade e da ordem contra os espíritos malignos da desordem e do caos.

Em algum ponto entre 1500-1000 a.C., O Profeta e visionário Zoroastro (ou Zaratustra) reivindicou uma revelação de Ahura Mazda através da qual ele entendeu que este deus era o único ser supremo, criador do universo e sustentador da ordem, que não precisava de outros deuses além dele. A visão de Zoroastro se tornaria a religião do Zoroastrismo – uma das mais antigas do mundo ainda praticadas nos dias atuais.

De acordo com esta crença, o propósito da vida humana é escolher entre seguir Ahura Mazda e o caminho da verdade e da ordem (Asha) ou seguir seu eterno adversário, Angra Mainyu (ou Ahriman) e o caminho das mentiras e do caos (Druj). Os seres humanos eram considerados inerentemente bons e possuindo livre arbítrio para escolher entre esses dois caminhos; dependendo da escolha que a pessoa fizesse, isso moldaria sua vida e indicaria seu destino após a morte. Quando uma pessoa morria, atravessava a Ponte Chinvat, onde era julgada.

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Aqueles que viviam uma vida boa de acordo com os preceitos de Ahura Mazda eram recompensados com vida contínua no paraíso da Casa da Canção, enquanto aqueles que se deixavam enganar por Angra Mainyu eram jogados no inferno da Casa das Mentiras (druj-demana) onde eram torturados implacavelmente e, embora cercados por outras almas sofredoras, sentiriam-se eternamente sozinhos.

Embora os estudiosos frequentemente caracterizem o Zoroastrismo como uma religião dualista, parece claro que Zoroastro fundou uma fé monoteísta focada em uma única deidade todo-poderosa. Os aspectos dualistas da religião apareceram mais tarde na chamada heresia do Zorvanismo que fez Ahura Mazda e Angra Mainyu irmãos, filhos de Zorvan (tempo) e o próprio tempo tornou-se o poder supremo através do qual todas as coisas surgiram e faleceram.

O Zoroastrismo também sustentava que um Messias viria em alguma data futura (conhecido como Saoshyant - Aquele Que Traz Benefício) para redimir a humanidade em um evento conhecido como Frashokereti que foi o fim dos tempos e trouxe união com Ahura Mazda. Esses conceitos influenciariam as religiões posteriores do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. A crença em um único deus, diferente dos seres humanos e todo-poderoso, também pode ter influenciado a religião egípcia durante o Período de Amarna, no qual o Faraó Akhenaton (R. 1353-1336 a.C.) aboliu os rituais e práticas tradicionais egípcias e os substituiu por um sistema monoteísta focado no único deus, Áton.

Religião no Egito

A religião egípcia era semelhante à crença mesopotâmica no sentido de que os seres humanos colaboravam com os deuses para manter a ordem. O princípio da harmonia (conhecido pelos egípcios como ma'at) era muito importante na vida egípcia (e na vida após a morte), e sua religião estava totalmente integrada em todos os aspectos da existência. A religião egípcia era uma combinação de magia, mitologia, ciência, medicina, psiquiatria, espiritualismo, herbologia, bem como a compreensão moderna de 'religião' como crença em um poder superior e uma vida após a morte. Os deuses eram amigos dos seres humanos e buscavam apenas o melhor para eles, fornecendo-lhes a mais perfeita de todas as terras para viver e um lar eterno para desfrutar quando suas vidas na terra terminassem.

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Esse sistema de crenças continuaria, com vários desenvolvimentos, através da longa história do Egito, apenas interrompido pelas reformas religiosas de Akhenaton durante seu reinado. Após sua morte, a antiga religião foi restaurada por seu filho e sucessor Tutancâmon (r.C. 1336 a c. 1327 a.C.), que reabriu os templos e reacendeu os antigos rituais e costumes.

Chain of Ankhs
Corrente de Cruzes Ansatas Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Os primeiros registros escritos da prática religiosa egípcia datam de cerca de 3400 a.C. no período pré-dinástico no Egito (c. 6000 a.C. 3150 a.C.). Divindades como Ísis, Osíris, Ptah, Hathor, Atum, Set, Néftis e Hórus já estavam estabelecidas como forças poderosas a serem reconhecidas bem cedo. O mito da criação egípcia é semelhante ao início da história da Mesopotâmia, em que originalmente havia apenas águas caóticas e lentas. Tal oceano estava sem limitações, era raso e silencioso até que, sobre a sua superfície, se ergueu uma colina de terra (conhecida como ben-ben, o monte primordial que, imagina-se, as pirâmides simbolizam) e o grande deus Atum (o sol) estava sobre o ben-ben e falou, dando à luz o deus Shu (do ar), a deusa Tefnut (da umidade), o deus Geb (da terra) e a deusa Nut (do céu). Ao lado de Atum estava Heka, a personificação da magia, e a magia (heka) deu origem ao universo.

Mais tarde, Osíris serviu como juiz supremo das almas dos mortos no Palácio da Verdade.

Atum tinha a intenção de que Nut fosse sua noiva, mas ela se apaixonou por Geb. Zangado com os amantes, Atum os separou esticando Nut pelo céu, longe de Geb, na terra. Embora os amantes ficassem separados durante o dia, eles se reuniam à noite e Nut teve três filhos, Osíris, Set e Hórus, e duas filhas, Ísis e Néftis.

Osíris, como mais velho, foi anunciado como 'Senhor de toda a Terra' quando nasceu e recebeu sua irmã, Ísis, como esposa. Set, consumido pelo ciúme, odiava seu irmão e o matou para assumir o trono. Ísis então embalsamou o corpo de seu marido e, com poderes encantados, ressuscitou Osíris, que voltou dos mortos para trazer vida ao povo do Egito. Mais tarde, Osíris serviu como juiz supremo das almas dos mortos no Palácio da Verdade e, julgando o coração das almas, decidia a quem seria concedida a vida eterna.

A vida após a morte para os egípcios era conhecida como o Campo dos Juncos e era um espelho da vida na terra, desde a árvore, o riacho e até o cão favoritos. Os entes-queridos falecidos estariam esperando pela pessoa quando ela chegasse ou então seguiriam caminho. Os egípcios viam a existência terrena como simplesmente uma parte de uma jornada eterna e estavam tão preocupados em passar facilmente para a próxima fase que criaram seus túmulos sofisticados (as pirâmides), templos e inscrições funerárias (o Textos das Pirâmides, Textos do Esquife, e O Livro Egípcio dos Mortos) para ajudar a passagem da alma deste mundo para o outro.

Os deuses cuidavam da pessoa após a morte, assim como na vida desde o início dos tempos. A deusa Qebhet trazia água para as almas sedentas na terra dos mortos e outras deusas, como Serket e Néftis, cuidavam e protegiam as almas enquanto estas viajavam para o campo de juncos. Um egípcio da antiguidade compreendia que, desde o nascimento até a morte (e mesmo depois da morte), o universo tinha sido ordenado pelos deuses e todos tinham um lugar nessa ordem.

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Religião na China e na Índia

Este princípio de ordem também é fundamental na religião mais antiga do mundo ainda praticada hoje: o Hinduísmo (conhecido pelos adeptos como Sanatan Dharma, 'Ordem Eterna', que parece ter sido fundada já em 5500 a.C., mas certamente por c. 2300 a.C.). Embora muitas vezes visto como uma fé politeísta, o hinduísmo é, na verdade, henoteísta. Há apenas um deus supremo no Hinduísmo, Brahma, e todas as outras divindades são seus aspectos e reflexões. Como Brahma é um conceito amplo demais para ser compreendido pela mente humana, ele se apresenta em muitas versões que as pessoas reconhecem como as divindades Vishnu, Shiva e muitas outras. O sistema de crenças hindu inclui 330 milhões de deuses que vão desde aqueles conhecidos nacionalmente (como Krishna), até divindades locais menos conhecidas.

Vishnu as Varaha, Udayagiri Caves
Vishnu como Varaha, Cavernas de Udayagiri Jean-Pierre Dalbéra (CC BY)

O principal entendimento do Hinduísmo é que existe uma ordem para o universo e cada indivíduo tem um lugar específico nessa ordem. Cada pessoa no planeta tem um dever (dharma) que só ela pode realizar. Se agirmos corretamente (karma) no cumprimento desse dever, a pessoa é recompensada aproximando-se do Ser Supremo e, eventualmente, tornando-se uma com deus; se não o fizer, ela reencarna quantas vezes forem necessárias para finalmente entender como viver e aproximar-se da união com a alma suprema.

Essa crença foi herdada por Sidarta Gautama quando ele se tornou o Buda e fundou a religião conhecida como Budismo. No Budismo, no entanto, não se busca a união com um deus, mas com a própria natureza superior, pois se deixa para trás as ilusões do mundo que geram sofrimento e obscurecem a mente com o medo da perda e da morte. O Budismo tornou-se tão popular que viajou da Índia para a China, onde teve igual sucesso.

Na China antiga, acredita-se que a religião tenha se desenvolvido já em c. 4500 a.C., como evidenciado por desenhos em cerâmica.

Na China antiga, acredita-se que a religião tenha se desenvolvido já em c. 4500 a.C., como evidenciado por desenhos em cerâmica encontrados no Sítio Neolítico da Aldeia de Banpo. Essa estrutura inicial de crenças pode ter sido uma mistura de animismo e mitologia, pois essas imagens incluem animais reconhecíveis e dragões-porcos, precursores do famoso dragão chinês.

Na época da Dinastia Xia (2070-1600 a.C.), havia muitos deuses antropomórficos adorados com um deus principal, Shangti, presidindo a todos. Essa crença continuou, com modificações, durante o período da Dinastia Shang (1600-1046 a.C.), que desenvolveu a prática do culto aos antepassados.

As pessoas acreditavam que Shangti tinha tantas responsabilidades que ele ficou ocupado demais para lidar com as necessidades de seus adoradores. Pensava-se que, quando uma pessoa morria, ia viver com os deuses e tornava-se intermediária entre o povo e esses deuses. O culto aos antepassados influenciou os dois grandes sistemas de crenças chineses: o Confucionismo e o Taoísmo, ambos os quais fizeram deste culto o princípio fundamental de suas práticas. Com o tempo, Shangti foi substituído pelo conceito de Tian (céu), um paraíso onde os mortos residiriam eternamente em paz.

Chinese Oracle Bone
Ossos de Oráculo Chineses BabelStone (CC BY-SA)

Para passar da vida terrena para o céu, era preciso atravessar a ponte do esquecimento sobre um abismo e, depois de olhar para trás pela última vez, beber de um cálice que purificava toda a memória. Na ponte, se a pessoa era considerado digna do céu, ela passava; se fosse considerada indigna, ela escorregava da ponte caindo no abismo, para ser engolida pelo inferno. Outras versões deste mesmo cenário afirmam que a alma reencarnava depois de beber do cálice. De qualquer forma, esperava-se que os vivos se lembrassem dos mortos que haviam passado pela ponte para o outro lado e honrassem a memória deles.

Religião na Mesoamérica

A memória dos mortos e o papel que eles ainda desempenhavam na vida daqueles na terra era um componente importante de todas as religiões antigas, incluindo o sistema de crenças dos maias. Os deuses estavam envolvidos em todos os aspectos da vida dos maias. Assim como acontece com outras culturas, havia muitas divindades diferentes (mais de 250), todas com sua própria esfera especial de influência. Eles controlavam o tempo, a colheita, ditavam o cônjuge, guiavam cada nascimento e estavam presentes na morte.

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A vida após a morte para os maias era semelhante à mesopotâmica, pois era um lugar escuro e sombrio, mas os maias imaginavam um destino ainda pior, onde se estava constantemente sob ameaça de ataque ou engano pelos senhores demônios que habitavam o submundo (conhecido como Xibalba ou Metnal). O pavor da viagem através de Xibalba era uma força cultural tão potente que os maias são a única cultura antiga conhecida por honrar uma deusa do suicídio (Ixtab), porque se pensava que os suicídios contornavam Xibalba e iam direto para o paraíso (assim como aqueles que morreram no parto ou em batalha). Os maias acreditavam na natureza cíclica da vida, que todas as coisas que parecem morrer são simplesmente transformadas, e consideravam a vida humana apenas mais uma parte do tipo de padrão que viam ao seu redor na natureza. Eles constataram que a morte era uma evolução natural após a vida e temiam a possibilidade muito antinatural de que os mortos pudessem voltar para assombrar os vivos.

Era possível que uma pessoa se mantivesse viva por uma série de razões (a principal era o sepultamento impróprio), e assim eram realizadas cerimônias para lembrar dos mortos e honrar seu espírito. Além dos Maias, esta crença foi mantida também por culturas mesoamericanas como os Astecas e os Tarascanos. Com o tempo, tornou-se o feriado conhecido hoje como o Dia dos Mortos (El Dia de Los Muertos), em que as pessoas celebram a vida daqueles que faleceram e recordam os seus nomes.

Zapotec Priest Figure
Imagem de Sacerdote Zapoteco James Blake Wiener (CC BY-NC-SA)

No entanto, não eram apenas as pessoas que deveriam ser lembradas e honradas, mas também uma divindade muito importante que os estudiosos chamam de Deus do Milho. O Deus do milho é uma imagem de Deus que morre e ressuscita na forma de Hun Hunahpu que foi morto pelos senhores de Xibalba, trazido de volta à vida por seus filhos, Os Gêmeos Heróis, e emergiu do submundo como milho. O Deus do Milho 'tonsurado' ou o Deus do Milho 'folheado' são imagens comuns encontradas na iconografia maia. Ele sempre é retratado como eternamente jovem e bonito, com uma cabeça alongada semelhante a uma espiga de milho, cabelos longos e esvoaçantes como seda de milho, e ornamentados com jade para simbolizar o caule de milho. Ele era considerado tão importante pelos maias, que as mães amarravam a cabeça de seus filhos pequenos para achatar a testa e alongar a cabeça, com o intuito de se assemelhar a ele.

O Deus do Milho continuou sendo uma divindade importante para os maias, mesmo quando ofuscado pelo maior e mais popular dos deuses, Gucumatz (também conhecido como Kukulcan e Quetzalcoatl), cuja grande pirâmide em Chichén Itzá atualmente ainda é visitada por milhões de pessoas todos os anos. Nos equinócios duplos de cada ano, o sol lança uma sombra sobre as escadas da estrutura da pirâmide, que assemelha-se a uma grande serpente descendo escada abaixo; pensa-se que este seja o grande Kukulkan que regressa dos céus à terra para dar as suas bênçãos. Ainda hoje as pessoas se reúnem em Chichén Itzá para testemunhar este evento nos equinócios, lembrando o passado e esperando pelo futuro.

Religião Grega e Romana

A importância da lembrar dos mortos, como parte da adoração religiosa, integrava as crenças dos gregos também. Lembrar dos mortos fazia com que os vivos mantivessem viva a alma do falecido na vida após a morte. Os gregos, assim como as outras culturas mencionadas, acreditavam em vários deuses que cuidavam de suas incumbências humanas mas, com a mesma frequência, buscavam seu próprio prazer.

Platão criticava constantemente o conceito grego dos deuses e Critias afirmou que eles apenas foram criados pelos homens para controlar outros homens.

A natureza instável dos deuses pode ter contribuído para o desenvolvimento da filosofia na Grécia, uma vez que a filosofia só pode desenvolver-se numa cultura em que a religião não satisfaz as necessidades espirituais das pessoas. Platão criticava constantemente o conceito grego dos deuses e Critias afirmou que eles apenas foram criados pelos homens para controlar outros homens. Xenófanes, como mencionado acima, afirmava que a visão grega era completamente errada e que Deus era inimaginável.

Ainda assim, para a maioria dos gregos – e de maneira geral para o funcionamento da sociedade – os deuses deveriam ser honrados, assim como aqueles que haviam passado para o seu domínio. O fato de uma pessoa não estar mais viva na Terra não significava que ela deveria ser esquecida, assim como ninguém se esqueceria de honrar os deuses invisíveis. Assim como acontecia com outras culturas antigas, a religião na Grécia estava totalmente inserida na vida diária e na rotina.

The Parthenon
O Partenon Andrew Griffith (CC BY-NC-SA)

Os gregos consultavam os deuses em assuntos que iam desde assuntos de Estado até decisões pessoais amorosas, casamento ou trabalho. Uma história antiga conta como o escritor Xenofonte (430 a.C. 354 a.C.) foi a Sócrates perguntando se o filósofo achava que ele deveria se juntar ao exército de Ciro, o Jovem, em campanha para a Pérsia. Sócrates enviou-o para fazer a pergunta ao deus em Delfos. Em vez de fazer sua pergunta original, Xenofonte perguntou ao deus de Delfos qual dos muitos deuses era melhor cortejar favores, a fim de garantir um empreendimento bem-sucedido e um retorno seguro. Ele parece ter obtido a resposta correta, já que sobreviveu à desastrosa campanha de Ciro e, não só retornou a Atenas, mas salvou a maior parte do exército.

A religião de Roma seguiu o mesmo padrão da Grécia. A religião romana provavelmente começou como uma espécie de animismo e se desenvolveu à medida que entrava em contato com outras culturas. Os gregos impactaram significativamente a religião romana, e muitos dos deuses romanos são, simplesmente, divindades gregas com nomes romanos e características ligeiramente alteradas.

Em Roma, a adoração aos deuses estava intimamente ligada a assuntos de Estado, e acreditava-se que a estabilidade da sociedade dependia do grau de reverência que o povo tinha pelos deuses e da participação em rituais que os honravam. As Virgens Vestais são um exemplo famoso desta crença, em que contava-se com estas mulheres para manter os votos que tinham feito e desempenhar as suas funções de forma responsável, a fim de honrar continuamente Vesta e tudo o que ela dava ao povo.

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Embora os romanos tivessem importado seus principais deuses da Grécia, uma vez que a religião romana estava estabelecida e ligada ao bem-estar do Estado, nenhum deus estrangeiro era bem-vindo. Quando a adoração da popular deusa egípcia Ísis foi trazida para Roma, o imperador Augusto proibiu a construção de templos em sua homenagem, além de rituais públicos observados em sua adoração, porque ele achava que tal atenção dada a uma divindade estrangeira minaria a autoridade do governo e estabeleceria crenças religiosas. Para os romanos, os deuses tinham criado tudo de acordo com a sua vontade e mantido o universo da melhor maneira possível e o ser humano era obrigado a mostrar-lhes honra pelas suas bênçãos.

Vestal Virgin by Canova
Virgem Vestal de Canova Getty Museum (CC BY-NC-SA)

Isso era verdade não apenas para os 'principais' deuses do panteão romano, mas também para os espíritos do lar. O penates eram espíritos terrenos da despensa que mantinham a casa segura e harmoniosa. Esperava-se que as pessoas fossem gratas por seus esforços e se lembrassem deles ao entrar ou sair de casa. As estátuas dos penates eram retiradas do armário e colocadas sobre a mesa para serem honrados durante as refeições, e sacrifícios eram deixados junto à lareira para seu deleite. Se alguém fosse diligente em apreciar seus esforços, seria recompensado com saúde e felicidade constantes mas, se os esquecesse, sofreria por tal ingratidão. Embora as religiões de outras culturas não tivessem precisamente esses mesmos tipos de espíritos, a identificação dos espíritos locais – e especialmente os do lar – era comum.

Temas frequentes na religião antiga e sua continuidade

Embora as culturas possam nunca ter tido contato entre si, as religiões do mundo antigo compartilhavam muitos dos mesmos padrões umas com as outras. A iconografia espiritual das pirâmides maias e egípcias foi identificada desde que os maias foram trazidos pela primeira vez à atenção do mundo por John Lloyd Stephens e Frederick Catherwood no século XIX, mas a verdadeira estrutura das crenças, histórias e imagens mais significativas na mitologia antiga são consideravelmente semelhantes de cultura para cultura.

Em todas as culturas, encontram-se padrões iguais ou muito semelhantes, que as pessoas acharam importantes e que deram vitalidade às suas crenças. Esses padrões incluem a existência de muitos deuses que se interessam pessoalmente pela vida das pessoas; criação por uma entidade sobrenatural que fala, modela ou ordena a existência; outros seres sobrenaturais que emanam do primeiro e maior; uma explicação sobrenatural para a criação da terra e dos seres humanos; uma relação entre os humanos criados e seu deus criador exigindo adoração e sacrifício.

Há a repetição da imagem conhecida como o deus que morre e ressuscita, muitas vezes uma entidade poderosa, que morre e volta à vida para o bem do seu povo.

Existe ainda a repetição da imagem conhecida como deus que morre e ressuscita, muitas vezes uma entidade poderosa que é morta, ou morre, e volta à vida para o bem do seu povo: Osíris no Egito, Krishna na Índia, o deus do milho na Mesoamérica, Baco em Roma, Átis na Grécia, Tamuz na Mesopotâmia. Muitas vezes há uma vida após a morte semelhante a uma existência terrena (Egito e Grécia), contrária à vida na terra (Mesoamérica e Mesopotâmia), ou uma combinação de ambos (China e Índia).

A importante mensagem espiritual dessas diferentes religiões é repetida em textos da Fenícia (2700 a.C.), à Suméria (2100 a.C.), à Palestina (1440 a.C.), à Grécia (800 a.C.), à Roma (c. 100 d.C.) e passou a influenciar as crenças daqueles que vieram depois. Este tema é até abordado no judaísmo na figura de José (Gênesis 37, 39-45), que é vendido por seus irmãos como escravo no Egito, vai para a prisão após as acusações da esposa de Potifar e, mais tarde, é libertado e restaurado. Embora não morra literalmente, salva o país da fome após a sua simbólica 'ressurreição', sustentando o povo da mesma forma que outras figuras regenerativas.

O conto Fenício do grande deus Baal que morre e retorna à vida para combater o caos do deus Yamm já era antigo em 2750 a.C., quando a cidade de Tiro foi fundada (de acordo com Heródoto) e a história grega do deus que morre e ressuscita, Adonis (c. 600 a.C.), era derivada de contos fenícios anteriores baseados em Tamuz, que foi emprestado pelos sumérios (e mais tarde pelos persas) no famoso mito Descida de Inanna.

Baal Statue
Estátua de Baal Jastrow (Public Domain)

Este tema da vida após a morte e da vida proveniente da morte e, claro, do julgamento após a morte, ganhou grande fama através dos esforços evangelizadores do Apóstolo Paulo, que espalhou a palavra de Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou, por toda a antiga Palestina, Ásia Menor, Grécia e Roma (c. 42-62). A visão de Paulo sobre a figura de Jesus, o filho ungido de Deus que morre para redimir a humanidade, foi inspirada nos sistemas de crenças anteriores e influenciou a compreensão dos escribas que escreveriam os livros que compõem a Bíblia.

A religião do Cristianismo padronizou a crença na vida após a morte e estabeleceu um conjunto organizado de rituais, pelos quais um adepto poderia ganhar a vida eterna. Ao fazer isso, os primeiros cristãos estavam simplesmente seguindo os passos dos sumérios, dos egípcios, dos fenícios, dos gregos e dos romanos, sendo que todos tinham seus próprios rituais moldados para a adoração de seus deuses.

Depois dos cristãos, os estudiosos muçulmanos do Alcorão instituíram seus próprios rituais para compreender a divindade suprema que, embora muito diferente em forma dos do cristianismo, judaísmo ou qualquer uma das religiões 'pagãs' mais antigas, serviam ao mesmo propósito que os rituais outrora praticados na adoração do panteão egípcio, há mais de 5.000 anos: proporcionar aos seres humanos a compreensão de que não estão sozinhos em suas lutas, sofrimentos e triunfos, que podem controlar seus impulsos mais primitivos e que a morte não é o fim da existência. As religiões do mundo antigo forneciam respostas às perguntas das pessoas sobre a vida e a morte e, nesse aspecto, não são diferentes das religiões praticadas no mundo atual.

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Perguntas & Respostas

Qual é a religião mais antiga do mundo?

O Hinduísmo é a religião mais antiga do mundo ainda praticada atualmente. Foi estabelecida c. 5500 a.C.

Qual a origem da palavra religião, e o que significa?

A palavra religião vem do latim e significa "restrição", ou "repetição", ou "mostrar respeito por algo sagrado", ou, possivelmente, estes três significados de uma vez.

O Zoroastrismo ainda é praticado atualmente?

O Zoroastrismo ainda é praticado atualmente, principalmente no Irã e na Índia.

Qual é a religião mais popular e amplamente praticada no mundo?

O Cristianismo é a religião mais popular e amplamente praticada no mundo.

Sobre o Tradutor

Daniele S. B. Zatta
Me chamo Daniele Zatta, sou tradutora do Inglês para o Português Brasileiro. Atualmente cursando Letras Inglês - Português, estou interessada em aprendizagem contínua, especialmente de idiomas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, setembro 06). A Religião no Mundo Antigo. (D. S. B. Zatta, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-131/a-religiao-no-mundo-antigo/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "A Religião no Mundo Antigo." Traduzido por Daniele S. B. Zatta. World History Encyclopedia, setembro 06, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-131/a-religiao-no-mundo-antigo/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "A Religião no Mundo Antigo." Traduzido por Daniele S. B. Zatta. World History Encyclopedia, 06 set 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-131/a-religiao-no-mundo-antigo/.

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