Egito Antigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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The Great Sphinx of Giza (by Jorge Láscar, CC BY)
A Grande Esfinge de Gizé Jorge Láscar (CC BY)

O Egito é um país do Norte de África, situado no Mediterrâneo, e o berço de uma das mais antigas civilizações da Terra. O topónimo «Egito» deriva do grego Aegyptos, que correspondia à pronúncia grega do nome egípcio antigo Hwt-Ka-Ptah («Mansão do Espírito de Ptah»), originalmente a designação da cidade de Mênfis. Mênfis foi a primeira capital do Egito e um célebre centro religioso e comercial; a relevância do seu estatuto é comprovada pelo facto de os gregos aludirem a todo o país através desse nome. Para os próprios egípcios da Antiguidade, o seu país era conhecido simplesmente como Kemet, que significa «Terra Negra», assim denominado devido ao solo rico e escuro ao longo do rio Nilo, onde se estabeleceram os primeiros colonatos.

Mais tarde, o país ficou conhecido como Misr, que significa «país», uma designação ainda hoje utilizada pelos egípcios para se referirem à sua nação. O Egito prosperou durante milénios (desde antes de cerca de 6000 a.C. até 30 a.C.) como uma nação independente, cuja cultura se celebrizou pelos grandes progressos culturais em todas as áreas do conhecimento humano, das artes à ciência, passando pela tecnologia e pela religião.

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Para facilitar o seu estudo, os investigadores contemporâneos dividiram a história da civilização egípcia da Antiguidade em diferentes eras. São elas:

  • Período Pré-Dinástico: cerca de 6000 a cerca de 3150 a.C.
  • Época Tinita (ou Período Arcaico): cerca de 3150 a cerca de 2613 a.C.
  • Império Antigo: cerca de 2613-2181 a.C.
  • Primeiro Período Intermediário: 2181-2040 a.C.
  • Império Médio: 2040-1782 a.C.
  • Segundo Período Intermediário: cerca de 1782 a cerca de 1570 a.C.
  • Império Novo: cerca de 1570 a cerca de 1069 a.C.
  • Terceiro Período Intermediário: cerca de 1069-525 a.C.
  • Época Baixa (ou Período Tardio): 525-323 a.C.
  • Egito Ptolomaico (ou Época Ptolomaica): 323-30 a.C.

A diferença entre um «império» e um período «intermediário» reside no facto de o primeiro contar com um governo forte e centralizado, ao passo que os períodos «intermediários» careciam dessa estrutura.

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Os grandes monumentos do Antigo Egito refletem a profundidade e a grandeza da cultura egípcia, a qual influenciou inúmeras civilizações da Antiguidade, entre as quais a Grécia e Roma. Uma das razões para a perene popularidade da cultura egípcia é o seu enfase na dignidade e na grandeza da experiência humana. Os seus grandes monumentos, túmulos, templos e manifestações artísticas celebram a vida e subsistem como testemunhos do que outrora existiu e daquilo que os seres humanos, no seu melhor, são capazes de alcançar.

Para os egípcios, a vida terrena constituía apenas uma etapa de uma jornada eterna.

Embora o Antigo Egito seja frequentemente associado, na cultura popular, à morte e aos ritos funerários, os egípcios da Antiguidade amavam a vida e atribuíam um elevado valor ao usufruto pleno do tempo que lhes era concedido. Para os egípcios, a vida terrena constituía apenas uma etapa de uma jornada eterna. A alma era imortal, habitando o corpo neste plano físico apenas por um curto período. Aquando da morte, o indivíduo seria submetido ao julgamento no Tribunal de Ma'at (ou Salão da Verdade) e, se fosse declarado justo, transitaria para um paraíso eterno conhecido como o Campo de Juncos, o qual refletia, como um espelho, a sua vida na Terra. Uma vez alcançado o paraíso, era possível viver pacificamente na companhia daqueles que se tinha amado em terra, incluindo os animais de estimação, na mesma vizinhança, junto ao mesmo curso de água e sob as mesmíssimas árvores que se julgavam perdidas com a morte. Esta vida eterna, contudo, estava apenas acessível aos que tivessem vivido retamente e de acordo com a vontade dos deuses, no local mais perfeito e propício a esse fim: a terra do Egito.

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O Egito possui uma longa história que recua muito para além da palavra escrita, dos mitos teológicos ou dos monumentos que celebrizaram esta cultura. Os vestígios de sobrepastoreio de gado bovino nas terras que hoje constituem o Deserto do Sara foram datados de cerca de 8000 a.C. Esta evidência, a par dos artefactos descobertos, aponta para a existência de uma próspera civilização agrícola na região por essa época. Como o território já era maioritariamente árido nesses tempos, as comunidades nómadas de caçadores-recolectores procuraram o amanho e a frescura do vale do rio Nilo, começando a fixar-se ali num período anterior a 6000 a.C.

Naqada II pottery
Cerâmica Nacada II Guillaume Blanchard (CC BY-SA)

A prática de uma agricultura organizada teve início na região por volta de 6000 a.C., época em que as comunidades integradas na chamada Cultura Badariense (ou Badari) começaram a florescer ao longo das margens do rio. Quase em simultâneo, assistiu-se ao desenvolvimento da atividade oficinal, como testemunham as oficinas de faiança descobertas em Abidos, datadas de cerca de 5500 a.C. À Cultura Badariense sucederam-se as culturas Amratiense, Gerzeense e de Nacada (também designadas como Nacada I, Nacada II e Nacada III), tendo todas elas contribuído significativamente para a génese e o desenvolvimento daquela que viria a ser a civilização egípcia.

A história registada desta terra tem o seu início algures entre 3400 e 3200 a.C., período em que a escrita hieroglífica foi desenvolvida no seio da cultura Nacada III. Por volta de 3500 a.C., a mumificação dos defuntos já era praticada na cidade de Hieracómpolis, ao mesmo tempo que se erguiam grandes túmulos pétreos em Abidos. A cidade de Xois é já registada como antiga no período compreendido entre 3100 e 2181 a.C., de acordo com as inscrições da célebre Pedra de Palermo. À semelhança do que sucedeu noutras culturas a nível mundial, as pequenas comunidades agrárias centralizaram-se, expandindo-se em direção a grandes centros urbanos.

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A História Primitiva do Egito

A Época Tinita (ou Período Dinástico Primitivo) no Egito (cerca de 3150 a cerca de 2613 a.C.) testemunhou a unificação dos reinos do Norte e do Sul sob o comando do rei Menés (também conhecido como Meni ou Manes) do Alto Egito, que conquistou o Baixo Egito por volta de 3118 a.C. ou 3150 a.C. Esta versão da história primitiva provém da obra Aegyptiaca («História do Egito») do historiador da Antiguidade Manetom, que viveu no século III a.C., sob a dinastia ptolomaica (323-30 a.C.).

Embora a sua cronologia tenha sido contestada por historiadores posteriores, continua a ser regularmente consultada no que concerne à sucessão dinástica e à história primitiva do Antigo Egito.

Narmer Palette [Two Sides]
Paleta de Narmer [dois lados] Unknown Artist (Public Domain)

A obra de Manetom constitui a única fonte que cita Menés e a respetiva conquista, estimando-se atualmente que a figura por ele designada como «Menés» fosse o rei Narmer, que unificou o Alto e o Baixo Egito sob o mesmo poder. Contudo, a identificação de Menés com Narmer está longe de ser universalmente aceite, sendo Menés associado com idêntica credibilidade ao rei Hor-Aha (cerca de 3100-3050 a.C.), seu sucessor. Uma das explicações para a associação de Menés quer ao seu predecessor, quer ao seu sucessor, reside no facto de «Menés» constituir um título honorífico que significa «aquele que perdoa» (ou «aquele que perdura») e não um nome próprio, podendo, por isso, ter sido utilizado para designar mais do que um monarca.

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A tese de que o território teria sido unificado através de uma campanha militar é igualmente contestada, uma vez que a famosa Paleta de Narmer, que representa uma vitória militar, é considerada por alguns investigadores como propaganda régia. O país poderá ter sido inicialmente unificado por via pacífica, embora este cenário pareça pouco provável.

A designação geográfica no Antigo Egito segue o curso do rio Nilo; como tal, o Alto Egito corresponde à região meridional e o Baixo Egito à área setentrional, mais próxima do Mar Mediterrâneo. Narmer governou a partir da cidade de Hieracómpolis e, posteriormente, a partir de Mênfis e Abidos.

Sob os soberanos da Época Tinita registou-se um incremento significativo das trocas comerciais registaram e as elaboradas mastabas — precursoras das pirâmides posteriores — desenvolveram-se no âmbito das práticas funerárias egípcias, as quais passaram a incluir técnicas de mumificação progressivamente mais complexas.

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Os Deuses

Para os egípcios da Antiguidade, o seu país era a terra dos deuses, o local mais perfeito à superfície da Terra. Desde o Período Pré-Dinástico (cerca de 6000 a cerca de 3150 a.C.), a crença nos deuses definiu a cultura egípcia. Um antigo mito cosmogónico egípcio fala-nos do deus Atum, que se ergueu no meio do caos primordial antes do início dos tempos e, através da palavra, ordenou a criação do universo. Atum fazia-se acompanhar pela força eterna da heka (a magia), personificada no deus Heca, e por outras forças espirituais que animariam o mundo. A heka era a força primordial que infundia o universo e fazia com que todas as coisas operassem tal como operavam; era ela também que viabilizava o valor central da cultura egípcia: ma'at, o equilíbrio e a harmonia.

Todos os deuses e as respetivas esferas de competência radicavam em ma'at e em heka. O sol nascia e punha-se conforme o fazia, a lua percorria o seu curso no firmamento e as estações sucediam-se em conformidade com o equilíbrio e a ordem, o que era possível graças a estas duas instâncias. Maat era igualmente personificada como uma divindade, a deusa da pluma de avestruz, à qual cada monarca prometia total empenho e devoção. O rei era associado ao deus Hórus em vida e a Osíris na morte, com base num mito que se tornou o mais popular da história egípcia.

Egyptian God Osiris
O Deus Egípcio Osíris A.K. (Copyright)

Osíris e a sua irmã-esposa, Ísis, foram os monarcas primordiais que governaram o mundo e outorgaram à humanidade as dádivas da civilização. O irmão de Osíris, Set, nutria profundos ciúmes dele e assassinou-o, mas este foi devolvido à vida por Ísis, que subsequentemente concebeu o seu filho, Hórus. Contudo, Osíris encontrava-se incompleto, pelo que desceu para governar o Além (ou Mundo Subterrâneo), enquanto Hórus, ao atingir a maturidade, vingou o seu pai e derrotou Set.

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Este mito ilustrava o modo como a ordem triunfava sobre o caos, vindo a tornar-se um motivo perene na religião egípcia, nos rituais funerários, nos textos religiosos e na produção artística. Não existiu qualquer período em que os deuses não desempenhassem um papel fulcral no quotidiano dos egípcios, algo que se observa claramente desde os primórdios da história do país.

O Império Antigo

Durante o período conhecido como o Império Antigo do Egito (cerca de 2613-2181 a.C.), a arquitetura de aparato em honra dos deuses desenvolveu-se a um ritmo acelerado, tendo sido erguidos alguns dos monumentos mais célebres do Egito, tais como as pirâmides e a Grande Esfinge de Guizé.

O soberano Djoser, que reinou por volta de 2670 a.C., mandou construir a primeira Pirâmide de Degraus em Sacará, cujo projeto pertenceu ao seu arquiteto-chefe e médico Imhotep (cerca de 2667-2600 a.C.). Imhotep foi também o autor de um dos primeiros tratados de medicina, no qual descrevia o tratamento de mais de duas centenas de patologias distintas e defendia que a etiologia das doenças podia ter uma etiologia natural, e não decorrer da vontade dos deuses.

A Grande Pirâmide de Quéops (a última das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda subsistente) foi edificada durante o seu reinado (2589-2566 a.C.), a que se seguiram as pirâmides de Quéfren (2558-2532 a.C.) e de Miquerinos (2532-2503 a.C.).

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The Pyramids, Giza, Egypt
As Pirâmides, Gizé, Egito Shellapic76 (CC BY)

A imponência das pirâmides no planalto de Guizé, tal como teriam surgido originalmente — revestidas a calcário branco resplandecente —, constitui um testemunho do poder e da opulência dos soberanos deste período. Abundam as teorias relativas ao modo como estes monumentos e túmulos foram edificados, mas os arquitetos e investigadores contemporâneos estão longe de alcançar um consenso em torno de uma hipótese única. Atendendo à tecnologia da época, argumentam alguns, um monumento com a dimensão da Grande Pirâmide de Guizé não deveria sequer existir. Outros sustentam, contudo, que a existência de tais edificações e complexos sepulcrais indicia uma tecnologia superior que se desvaneceu com o tempo.

Inexiste em absoluto qualquer evidência de que os monumentos do planalto de Guizé, ou quaisquer outros no Egito, tenham sido erguidos por mão de obra escrava, bem como não há qualquer prova que sustente uma leitura histórica do livro bíblico do Êxodo. A maioria dos investigadores reputados rejeita hoje a tese de que as pirâmides e os demais monumentos tenham sido construídos por escravos, muito embora tenham efetivamente existido no Egito escravos de diversas nacionalidades, os quais eram regularmente empregues nas explorações mineiras.

Os monumentos egípcios eram considerados obras públicas executadas para o Estado, mobilizando na sua construção tanto operários especializados como trabalhadores não qualificados, sendo todos eles remunerados pelo seu labor. Ficou claramente demonstrado que os operários no complexo de Guizé — que constituía apenas um entre muitos outros estaleiros — recebiam uma ração de cerveja três vezes ao dia, tendo sido igualmente identificados as suas habitações, as suas ferramentas e até os fundos afetados à assistência médica de que usufruíam.

Do Primeiro ao Segundo Período Intermediário

O Império Médio é considerado a «época clássica» do Egito, período em que a produção artística e a cultura atingiram o seu apogeu.

O período conhecido como o Primeiro Período Intermediário do Egito (2181-2040 a.C.) testemunhou um declínio do poder centralizado na sequência do seu colapso. Desenvolveram-se por todo o Egito distritos amplamente independentes, governados pelos respetivos nomarcas, até à emergência de dois grandes centros políticos: Heracleópolis no Baixo Egito e Tebas no Alto Egito.

Estes centros fundaram as suas próprias dinastias, as quais governaram as respetivas regiões de forma independente e combateram entre si, de forma intermitente, pela soberania absoluta até cerca de 2040 a.C., data em que o soberano tebano Mentuhotep II (cerca de 2061-2010 a.C.) derrotou as forças de Heracleópolis e unificou o Egito sob a égide de Tebas.

A estabilidade proporcionada pela governação tebana permitiu o florescimento daquilo que é conhecido como o Império Médio do Egito (2040-1782 a.C.). O Império Médio é considerado a «época clássica» do Egito, período em que a produção artística e a cultura atingiram o seu apogeu, tornando-se Tebas a cidade mais importante e opulenta do país. De acordo com os investigadores Oakes e Gahlin:

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Os soberanos da XII Dinastia foram monarcas fortes que estabeleceram o controlo não apenas sobre a totalidade do Egito, mas também sobre a Núbia, a sul, onde foram erguidas diversas fortalezas para salvaguardar os interesses comerciais egípcios.

(pág. 11)

O primeiro exército permanente foi criado durante o Império Médio pelo rei Amenemhat I (cerca de 1991-1962 a.C.), a construção do templo de Carnaque teve início sob Sesóstris I (cerca de 1971-1926 a.C.) e assistiu-se à produção de algumas das mais excelsas obras da literatura e da arte egípcias. Contudo, a XIII Dinastia revelou-se mais débil do que a anterior e foi assolada por dissensões internas, o que permitiu que um povo estrangeiro, conhecido como os Hicsos, ascendesse ao poder no Baixo Egito, na região do Delta do Nilo.

Os Hicsos constituem um povo enigmático que surgiu inicialmente no Egito por volta de 1800 a.C., fixando-se na cidade de Ávaris. Se, por um lado, os antropónimos dos monarcas hicsos têm uma origem semítica, por outro, ainda não foi estabelecida uma etnicidade definitiva para este grupo. Os Hicsos expandiram o seu poder a ponto de conseguirem assumir o controlo de uma parte significativa do Baixo Egito por volta de 1720 a.C., reduzindo a dinastia tebana do Alto Egito à condição de quase Estado vassalo.

Map of the Middle Kingdom of Egypt, c. 2000 BCE
Médio Império do Egito, cerca de 2000 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Esta era é conhecida como o Segundo Período Intermediário do Egito (cerca de 1782 a cerca de 1570 a.C.). Se, por um lado, os Hicsos (cujo nome significa simplesmente «soberanos estrangeiros») eram hostilizados pelos egípcios, por outro, introduziram inúmeras melhorias na sua cultura, tais como o arco composto, o cavalo e o carro de guerra, a par da rotação de culturas e de progressos nas indústrias do bronze e da cerâmica.

Em simultâneo com o controlo dos portos do Baixo Egito por parte dos Hicsos, por volta de 1700 a.C., o Reino de Cuxe emergira a sul de Tebas, na Núbia, retendo agora essa fronteira. Os egípcios empreenderam diversas campanhas militares para expulsar os Hicsos e submeter os núbios, mas todas fracassaram até que o príncipe Amósis I de Tebas (cerca de 1570-1544 a.C.) logrou alcançar o sucesso, unificando o país sob a égide tebana.

O Império Novo e o Período de Amarna

Amósis I deu início ao período conhecido como o Império Novo do Egito (cerca de 1570 a cerca de 1069 a.C.), o qual testemunhou, uma vez mais, uma era de grande prosperidade no território sob um poder central forte. O título de «faraó» para designar o soberano do Egito provém precisamente deste período do Império Novo; os monarcas anteriores eram simplesmente conhecidos como reis. Grande parte dos soberanos egípcios mais célebres na atualidade governou durante esta época, e a maioria das grandes estruturas da arquitetura egípcia — tais como o Ramesseum, Abu Simbel, os templos de Carnaque e Luxor, e os túmulos do Vale dos Reis e do Vale das Rainhas — foi criada ou significativamente ampliada neste período.

Entre 1504 e 1492 a.C., o faraó Tutmósis I consolidou o seu poder e expandiu as fronteiras do Egito até ao rio Eufrates, a norte, a Canaã, a nordeste, e à Núbia, a sul. Ao seu reinado sucedeu o da rainha Hatshepsut (1479-1458 a.C.), que incrementou significativamente as trocas comerciais com outras nações, destacando-se a mítica Terra de Ponto. O seu reinado de vinte e dois anos caracterizou-se por uma era de paz e de grande opulência para o Egito.

Portrait of Queen Hatshepsut
Retrato da Rainha Hatshepsut Rob Koopman (CC BY-SA)

O seu sucessor, Tutmósis III, deu continuidade às suas políticas (embora tenha tentado erradicar toda a memória da rainha, estimando-se que o fez para evitar que ela servisse de modelo a outras mulheres, dado que apenas os indivíduos do sexo masculino eram considerados dignos de governar) e, à data da sua morte, em 1425 a.C., o Egito firmara-se como uma nação grandiosa e poderosa. Esta prosperidade propiciou, entre outros aspetos, um incremento na produção de cerveja em diversas variedades e uma maior disponibilidade de tempo de lazer para a prática de desportos. Os avanços na medicina traduziram-se igualmente em melhorias na saúde pública.

O banho constituía, desde há muito, uma componente fundamental do quotidiano no Antigo Egito, sendo incentivado pela religião egípcia e praticado de forma modelar pelo clero. Nesta época, contudo, passaram a construir-se banhos mais elaborados, presumivelmente mais direcionados para o lazer do que para a mera higiene. O Papiro Ginecológico de Kahun, focado na saúde da mulher e nos métodos contracetivos, fora redigido por volta de 1800 a.C. e, durante este período, parece ter sido objeto de uma utilização extensiva por parte dos médicos. Tanto a cirurgia como a medicina dentária eram amplamente praticadas e com assinalável perícia, sendo a cerveja prescrita pelos clínicos para mitigar os sintomas de mais de duas centenas de patologias distintas.

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Kahun Gynaecological Papyrus
Papiro Ginecológico Kahun Francis Llewellyn Griffith (Public Domain)

Em 1353 a.C., o faraó Amen-hotep IV (ou Amenófis IV) sucedeu ao trono e, pouco tempo depois, mudou o seu nome para Aquenáton («espírito vivo de Áton») de modo a refletir a sua crença numa divindade única, Áton. Os egípcios, como se referiu supra, criam tradicionalmente numa multiplicidade de deuses, cuja importância influenciava todos os aspetos do seu quotidiano. Entre as divindades mais populares contavam-se Amon, Osíris, Ísis e Hátor. Por esta altura, o clero de Amon enriquecera de tal forma que os seus sacerdotes detinham um poder quase equiparável ao do próprio faraó. Aquenáton e a sua rainha, Nefertiti, renunciaram às crenças e costumes religiosos tradicionais do Egito e instituíram um novo sistema de crenças monoteísta, baseado no reconhecimento de Áton como o único Deus verdadeiro.

Aquenáton foi o primeiro soberano a decretar a edificação de estatuária e de um templo em honra da sua rainha, em detrimento de uma dedicação exclusiva a si próprio ou aos deuses.

As suas reformas religiosas cercearam, com efeito, o poder dos sacerdotes de Amon, concentrando-o nas suas próprias mãos. O soberano mudou a capital de Tebas para Amarna com o propósito de distanciar ainda mais a sua governação da dos seus predecessores. Este hiato histórico é conhecido como o Período de Amarna (1353-1336 a.C.), durante o qual a cidade de Amarna se desenvolveu como a capital do país, tendo as práticas religiosas politeístas sido proibidas.

De entre as suas inúmeras realizações, Aquenáton foi o primeiro monarca a decretar a edificação de estatuária e de um templo em honra da sua rainha, em detrimento de uma dedicação exclusiva a si próprio ou às divindades, canalizando os fundos que outrora reverteriam para os templos para o financiamento de obras públicas e de parques.

O poder do clero registou um declínio acentuado à medida que o do governo central se expandia — o que parecia constituir o desígnio de Aquenáton —, todavia, o soberano malogrou na utilização desse mesmo poder em prol dos interesses do seu povo. As Cartas de Amarna evidenciam claramente que o monarca se encontrava mais imerso nas suas reformas religiosas do que na condução da política externa ou na satisfação das necessidades da população do Egito.

Sucedido pelo filho, Tutankámon, o mais reconhecível soberano egípcio na atualidade, que governou de cerca de 1336 a cerca de 1327 a.C. Inicialmente designado como Tutankáton, de modo a refletir as convicções religiosas de seu pai, alterou o seu nome para Tutankámon ao assumir o trono, com o intuito de honrar o antigo deus Amon. O monarca procedeu à restauração dos santuários ancestrais, suprimiu todas as alusões à divindade única de seu pai e reinstalou a capital em Tebas. O seu reinado foi abruptamente interrompido pela sua morte e, hoje em dia, a sua celebridade deve-se sobretudo à intata imponência do seu túmulo, descoberto em 1922, que constituiu uma sensação internacional à época.

Death Mask of Tutankhamun
Máscara Mortuária de Tutankhamon Richard IJzermans (CC BY-NC-SA)

O maior soberano do Império Novo, contudo, foi Ramessés II (também conhecido como Ramessés, o Grande, 1279-1213 a.C.), que encetou os projetos de edificação mais elaborados de entre todos os monarcas egípcios e cujo reinado foi de tal forma eficiente que lhe garantiu os meios necessários para o efeito. Embora a célebre Batalha de Cadexe de 1274 a.C. (travada entre Ramessés II do Egito e Muwatalli II dos Hititas) seja hoje considerada um empate nulo, Ramessés interpretou-a como uma retumbante vitória egípcia, celebrando-se a si próprio como um campeão do seu povo e, em última instância, como uma divindade nas suas inúmeras obras públicas.

O seu templo de Abu Simbel (mandado erguer para a sua rainha Nefertari) ostenta representações da Batalha de Cadexe, e o templo menor existente no complexo, seguindo o precedente de Aquenáton, é dedicado à sua consorte. Sob o reinado de Ramessés II, foi assinado, em 1258 a.C., o primeiro tratado de paz do mundo (o Tratado de Cadexe), tendo o Egito desfrutado de uma opulência quase sem precedentes, como o atesta o volume de monumentos construídos ou restaurados durante a sua governação.

O quarto filho de Ramessés II, Khaemwaset (cerca de 1281 a cerca de 1225 a.C.), é frequentemente designado como o «Primeiro Egiptólogo» devido aos seus esforços na preservação e no registo de monumentos e templos antigos, bem como dos nomes dos seus proprietários originais. É em grande parte graças à iniciativa de Khaemwaset que o nome de Ramessés II figura com tanto relevo em múltiplos sítios arqueológicos no Egito. Khaemwaset legou um registo dos seus próprios trabalhos de salvaguarda, da identidade do construtor ou proprietário original do monumento ou templo e, de igual modo, do nome do seu pai.

Abu Simbel Panorama
Panorama de Abu Simbel Dennis Jarvis (CC BY-SA)

Ramessés II tornou-se conhecido pelas gerações posteriores como o «Grande Ancestral» e reinou durante tanto tempo que sobreviveu à maioria dos seus filhos e das suas esposas. Com o passar do tempo, todos os seus súbditos tinham nascido conhecendo apenas Ramessés II como o seu soberano, não guardando memória de qualquer outro. O monarca desfrutou de uma longevidade excecional de noventa e seis anos, o que representava mais do dobro da esperança média de vida de um antigo egípcio. Aquando da sua morte, encontra-se registado que muitos temeram que o fim do mundo tivesse chegado, uma vez que nunca haviam conhecido outro faraó.

O Período Raméssida e os Povos do Mar

Um dos seus sucessores, Ramessés III (1186-1155 a.C.), deu continuidade às suas políticas, mas, por esta altura, a imensa opulência do Egito atraíra a atenção dos Povos do Mar, que começaram a efetuar incursões regulares ao longo da costa. Os Povos do Mar, à semelhança dos Hicsos, têm uma origem desconhecida, embora se estipule que fossem oriundos da região meridional do Egeu.

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Entre 1276 e 1178 a.C., os Povos do Mar constituíram uma constante ameaça à segurança egípcia. Ramessés II derrotara-os numa batalha naval no início da sua governação, tal como fizera o seu sucessor Merenptah (1213-1203 a.C.). Contudo, após a morte de Merenptah, estes invasores intensificaram as suas investidas, saqueando Cadexe — que se encontrava então sob o controlo do Egito — e devastando o litoral. Entre 1180 e 1178 a.C., Ramessés III repeliu-os, derrotando-os na Batalha de Djahy, em 1178 a.C., e na Batalha do Delta, em 1175 a.C.

Mapa do Colapso da Idade do Bronze Tardia, cerca de 1200 - 1150 a.C.
O Colapso do Final da Idade do Bronze, c. 1200-1500 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

No rescaldo do reinado de Ramessés III, os seus sucessores tentaram manter as suas políticas, mas depararam-se com uma resistência cada vez maior por parte da população do Egito, dos povos dos territórios conquistados e, muito particularmente, da classe sacerdotal. Nos anos que se seguiram à restauração da antiga religião de Amon por Tutankámon, e sobretudo durante a era de grande opulência sob Ramessés II, o clero de Amon adquirira vastas extensões de terra e acumulara uma imensa riqueza, a qual ameaçava agora o governo central e comprometia a unidade do Egito. À data de Ramessés XI (1107-1077 a.C.), que marcou o fim da XX Dinastia, o governo egípcio encontrava-se de tal forma debilitado pelo poder e pela corrupção do clero que o país se fragmentou novamente, colapsando a administração centralizada e iniciando o denominado Terceiro Período Intermediário do Egito (c. 1069-525 a.C.).

O Declínio do Egito e as Invasões Estrangeiras

Sob o soberano cuxita Pié (752-722 a.C.), o Egito conheceu uma nova unificação e a cultura floresceu; contudo, a partir de 671 a.C., os Assírios, sob o comando de Assaradão, iniciaram a sua invasão do território egípcio, conquistando-o definitivamente por volta de 666 a.C., sob o seu sucessor Assurbanípal. Não tendo delineado planos a longo prazo para o controlo do país, os Assírios deixaram-no em ruínas nas mãos de potentados locais, abandonando o Egito à sua sorte.

O Egito logrou, no entanto, reerguer-se e reforçar as suas defesas, sendo este o estado em que o país se encontrava quando Cambises II da Pérsia desferiu o seu ataque na Batalha de Pelúsio, em 525 a.C. Conhecedor da profunda reverência que os egípcios devotavam aos gatos (vistos como representações vivas da popular deusa Bastet), Cambises II ordenou aos seus soldados que pintassem felinos nos seus escudos e que conduzissem gatos, bem como outros animais sagrados para os egípcios, na vanguarda do exército em direção a Pelúsio. As forças egípcias renderam-se e o país caiu em mãos persas. O território permaneceria sob ocupação persa até à chegada de Alexandre, o Grande, em 332 a.C.

Alexandre foi acolhido como um libertador e conquistou o Egito sem oposição. Fundou a cidade de Alexandria e prosseguiu a sua marcha para subjugar a Fenícia e o resto do Império Persa. Após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C., o seu general, Ptolomeu I Sóter, transladou o seu corpo para Alexandria e fundou a Dinastia Ptolomaica (323-30 a.C.).

A última soberana da linhagem ptolomaica foi Cleópatra VII, que se suicidou em 30 a.C., na sequência da derrota das suas forças (e das do seu consorte Marco António) frente aos Romanos, sob o comando de Octávio, na Batalha de Áccio (31 a.C.). O Egito converteu-se, então, numa província do Império Romano (30 a.C. a 476 d.C.) e, posteriormente, do Império Bizantino (c. 527-646 d.C.), até ser conquistado pelos árabes muçulmanos sob o califado de Omar, em 646 d.C., ficando sob o domínio islâmico.

Conclusão

O esplendor do passado do Egito foi, contudo, redescoberto durante os séculos XVIII e XIX, exercendo um impacto profundo na compreensão contemporânea da História Antiga e do mundo. O historiador Will Durant traduz um sentimento partilhado:

O efeito ou a memória daquilo que o Egito realizou no próprio alvorecer da História ecoa em cada nação e em cada época. «É inclusive possível», como afirmou Faure, «que o Egito, através da solidariedade, da unidade e da disciplinada variedade das suas produções artísticas, através da enorme duração e do poder sustentado do seu esforço, ofereça o espetáculo da maior civilização que jamais surgiu na Terra.» Faremos bem em igualá-lo.

(pág. 217)

A cultura e a história egípcias exercem, desde há muito, um fascínio universal sobre a humanidade, seja através do trabalho dos primeiros arqueólogos e investigadores do século XIX (tais como Champollion, que decifrou a Pedra de Roseta em 1822), seja através da célebre descoberta do Túmulo de Tutankámon por Howard Carter em 1922. A mundividência dos antigos egípcios, que concebiam a vida como uma jornada eterna, criada e perenizada pela magia divina, serviu de inspiração a culturas posteriores e a sistemas de crenças religiosas subsequentes.

Howard Carter & Tutankhamun
Howard Carter e Tutankhamon New York Times (Public Domain)

Grande parte da iconografia e das crenças da religião egípcia tendeu a integrar-se na nova religião cristã, sendo muitos dos seus símbolos reconhecíveis na atualidade com um significado amplamente idêntico. Constitui um importante testemunho do poder da civilização egípcia o facto de tantas obras da imaginação — desde produções cinematográficas a livros, pinturas e inclusive convicções religiosas — terem sido e continuarem a ser inspiradas pela sua mundividência elevada e profunda do universo e do lugar que a humanidade nele ocupa.

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Perguntas & Respostas

De onde veio o nome do Egito?

"Egito" vem do nome grego "Aegyptos", a pronúncia grega para o nome da cidade egípcia de Mênfis.

Quão antiga é a cultura egípcia?

A cultura egípcia remonta a cerca de 6000 a.C., durante o Período Pré-Dinástico, todavia, o território já se encontrava povoado antes dessa época, tendo-se já estabelecido um certo nível de civilização.

O Egito é um país africano?

O Egito está localizado na África do Norte e, assim, é considerado um país africano.

Quem construiu as pirâmides?

As pirâmides foram construídas por trabalhadores especializados e não especializados, seja através de pagamento ou de serviço comunitário devido ao rei. Elas não foram construídas por escravos.

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Mark, J. J. (2026, junho 26). Egito Antigo. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-74/egito-antigo/

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Mark, Joshua J.. "Egito Antigo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-74/egito-antigo/.

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Mark, Joshua J.. "Egito Antigo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-74/egito-antigo/.

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