O Império Novo (cerca de 1570 a cerca de 1069 a.C.) é a época da história egípcia que se segue à desunião do Segundo Período Intermediário (c. 1782-1570 a.C.) e que precede a dissolução do governo central no início do Terceiro Período Intermediário (c. 1069 a cerca de 525 a.C.). Esta é a era do Egito Imperial, quando este se tornou um império. É a época mais popular da história egípcia na atualidade, contando com os faraós mais conhecidos da XVIII Dinastia, tais como Hatshepsut, Tutmés III, Amen-hotep III (ou Amenófis III), Akhenaton e a sua esposa Nefertiti, e Tutankhamon; os da XIX Dinastia, como Seti I, Ramsés II (O Grande) e Merenptah; e os da XX Dinastia, como Ramsés III.
Foi durante o Império Novo que estes governantes egípcios passaram a ser conhecidos como "faraós", que significa "Grande Casa", a palavra grega para o termo egípcio Per-aa, a designação da residência real. Antes do Império Novo, os monarcas egípcios eram conhecidos simplesmente como "reis" e tratados por "sua majestade". O facto de a palavra "faraó" ser hoje tão comummente utilizada para referir qualquer governante egípcio de qualquer época atesta o impacto que o Império Novo teve na compreensão contemporânea da história do Egito.
O Império Novo é o período mais documentado de toda a história egípcia. A literacia tinha-se expandido durante o Império Médio (2040-1782 a.C.) e o Segundo Período Intermediário, pelo que, na época do Império Novo, mais pessoas escreviam e enviavam cartas. Além disso, o Egito estava agora em contacto com outras potências estrangeiras através de relações diplomáticas e comerciais, o que exigia contratos escritos, tratados, missivas entre reis e faturas de venda. O funcionamento do império exigia também uma vasta rede burocrática que, naturalmente, gerou uma imensa quantidade de material escrito, grande parte do qual ainda subsiste.
Durante o Segundo Período Intermediário, os reis estrangeiros conhecidos como Hicsos governaram no Baixo Egito a partir de Ávaris, marcando a primeira vez que elementos exteriores conseguiram acumular o tipo de riqueza e poder que lhes permitiu tornarem-se uma força política no Egito. Os Hicsos foram expulsos por Ahmósis I (cerca de 1570-1544 a.C.), fundador da XVIII Dinastia e do período do Império Novo, que tratou de imediato de assegurar e, posteriormente, expandir as fronteiras do Egito, de modo a criar uma zona de amortecimento contra eventuais invasões futuras. Faraós posteriores, com particular destaque para Tutmés III, expandiram estas zonas de amortecimento até formarem um império. Este império elevaria o estatuto do Egito no plano internacional, tornando-o membro da coligação a que os historiadores modernos chamam o "Clube das Grandes Potências", juntamente com a Assíria, a Babilónia, o Império Novo Hitita e o Reino de Mitani, todos eles intervenientes em relações comerciais e diplomáticas.
A XVIII, a XIX e o início da XX Dinastia levaram o Egito ao topo do seu poder, mas, durante a última parte da XX Dinastia (conhecida como o período raméssida), esse poder começou a declinar à medida que os sacerdotes de Amon ganhavam maior riqueza e influência, e o estatuto do faraó diminuía. O poder do culto de Amon pode ser melhor avaliado pela dimensão do templo do deus em Karnak, para o qual todos os governantes do Império Novo contribuíram. No final do Império Novo do Egito, havia mais de 80 000 sacerdotes empregados apenas no templo de Tebas, sem contar com outras cidades em diversos distritos. Os mais notáveis destes sacerdotes eram mais ricos e possuíam mais terras do que o próprio faraó.
A unidade e a força que caracterizaram a XVIII e a XIX Dinastias foram-se perdendo progressivamente durante a XX Dinastia. O Império Novo terminou quando os sacerdotes de Amon se tornaram suficientemente fortes para afirmar o seu poder em Tebas e dividir o país entre o seu próprio domínio e o do faraó, sediado na cidade de Pi-Ramsés (ou Per-Ramsés). Com a perda de um monarca e de um governo central fortes, o Egito entrou na época conhecida como o Terceiro Período Intermediário, a qual é caracterizada por um declínio contínuo do poder e que se encerra com a invasão persa do Egito em 525 a.C.
O Início do Império Novo
O Império Médio fora uma época de unidade e prosperidade que se dissolveu durante a XIII Dinastia, permitindo que, por volta de 1782 a.C., um novo poder emergisse no norte do Egito: o dos Hicsos. Os Hicsos eram povos semitas que estabeleceram a sua sede de poder em Ávaris, no Baixo Egito, enquanto, simultaneamente, o Reino de Cuxe emergia a sul, no Alto Egito. Estas duas potências conseguiram implantar-se de forma tão firme devido à negligência dos últimos governantes da XIII Dinastia. O domínio dos Hicsos e, em menor escala, a ascensão de Cuxe caracterizam a época a que os investigadores dos séculos XIX e XX chamaram o Segundo Período Intermediário.
Embora os escritores egípcios do Império Novo, e de períodos posteriores, tenham caracterizado o tempo dos Hicsos como um período de caos e destruição, o registo arqueológico, bem como os avanços tecnológicos da época, demonstram que se trata de um exagero literário com o intuito de contrastar a grandeza de um país forte e unificado (como o que prevaleceu no Império Novo) com a desunião que o antecedera. Todas as evidências apontam para uma relação cordial, se não mesmo calorosa, entre os reis estrangeiros em Ávaris e os governantes egípcios em Tebas até à eclosão das guerras que culminaram, finalmente, na expulsão dos Hicsos do Egito. Além disso, os Hicsos introduziram uma série de inovações culturais, especialmente no plano militar, que os egípcios viriam a utilizar na construção do seu próprio império. Os investigadores Brier e Hobbs escrevem:
Por muito satisfeitos que os egípcios pudessem estar por terem expulsos os Hicsos, tinham uma grande dívida para com os seus antigos ocupantes. O Egito conheceu os carros de guerra e os cavalos através dos Hicsos, bem como o segredo da produção do bronze, um metal mais duro do que o cobre que utilizavam.
As batalhas contra os Hicsos também levaram o Egito a olhar para além das suas fronteiras setentrionais pela primeira vez e, com um exército melhor equipado, a acabar por dominar o Médio Oriente.
(pág. 27)
A guerra contra os Hicsos começou quando o rei egípcio Seqenenré Taá (também conhecido como Taó) interpretou uma mensagem do rei hicso Apepi como um desafio e entrou em guerra com ele. Taá foi morto, muito provavelmente em batalha, e a causa foi assumida por Kamósis de Tebas (provavelmente filho de Taá), que reivindicou a vitória sobre os Hicsos após destruir a cidade de Ávaris.
Inscrições posteriores da época e o registo arqueológico demonstram que Ávaris ainda era um bastião hicso no tempo do rei seguinte, Ahmósis I, que travou três batalhas para a conquistar e empurrou os Hicsos primeiro para Canaã e, depois, para a Síria. Com a derrota dos reis estrangeiros e a sua expulsão do Egito, Ahmósis I restabeleceu as suas fronteiras, repeliu os caxitas (ou cushitas) mais para sul, unificou o país sob o seu domínio a partir da cidade de Tebas e iniciou, assim, o período do Império Novo.
A XVIII Dinastia
Ahmósis I compreendeu que os Hicsos tinham conseguido implantar-se de forma tão firme porque os anteriores monarcas egípcios o haviam permitido. Por conseguinte, decidiu criar zonas de amortecimento em redor do Egito para segurar as fronteiras e fortificou povoações negligenciadas em pontos estratégicos para proteger o país. A luta de Ahmósis I contra os Hicsos colocou-o a ele e ao seu exército em contacto com as regiões de Canaã e da Síria, onde continuou as suas campanhas, além de liderar expedições militares a sul contra o Reino de Cuxe, na Núbia. Quando faleceu, tinha consolidado o seu domínio e pacificado o país, deixando uma situação política e económica estável para o seu sucessor, Amen-hotep I (cerca de 1541-1520 a.C.).
Amen-hotep I e Tutmés I
Amen-hotep I manteve as políticas do seu pai e emulou-o como rei guerreiro nas inscrições, mas provavelmente apenas liderou campanhas na Núbia. Não existem registos de que tenha chefiado expedições em Canaã ou na Síria, embora possa tê-lo feito, uma vez que essas regiões se mantiveram seguras durante o seu reinado e o do seu sucessor.
Amen-hotep I é mais conhecido pelas suas contribuições para as artes e pelos desenvolvimentos religiosos. O Livro da Saída para o Dia (mais conhecido como o Livro dos Mortos do Antigo Egito) atingiu a sua forma final sob o seu reinado, tendo o monarca sido o patrono da colónia de artistas de Deir el-Medina, a aldeia responsável pelos trabalhos realizados nos túmulos do Vale dos Reis, onde os grandes faraós eram sepultados. Concentrou os seus esforços na edificação de templos, estelas e na segurança das fronteiras, mas não fez tentativas sérias de expandir o território do Egito. Aquando da sua morte, foi divinizado como o deus dos artesãos de Deir el-Medina e passou a ser venerado por um culto funerário em seu nome. Foi sucedido por Tutmés I (1520-1492 a.C.), que iniciou de imediato campanhas para alargar o alcance do Egito.
Tutmés I esmagou uma rebelião na Núbia, que eclodira pouco depois da sua subida ao trono, matando pessoalmente o rei núbio e pendurando o seu corpo na proa do seu navio como aviso a outros rebeldes. Expandiu, então, o domínio do Egito na Núbia ainda mais para sul, antes de voltar a sua atenção para Canaã e para la Síria. Fez ampliações no grande Templo de Karnak, em Tebas, e erigiu inúmeros outros templos e monumentos por todo o Egito. Foi sucedido por Tutmés II (1492-1479 a.C.), sobre cujo reinado pouco se sabe, uma vez que foi imediatamente ofuscado pela sua mais poderosa meia-irmã, Hatshepsut.
Tutmés II era filho de Tutmés I com uma rainha secundária, enquanto Hatshepsut era a filha legítima de Tutmés I e, de acordo com as suas próprias inscrições, a sua herdeira designada. Tutmés II casou-se com Hatshepsut para assegurar a sua sucessão após a morte de Tutmés I, mas não subsistem registos que sugiram que ele alguma vez tenha detido o poder real. Poderá ter ordenado expedições militares na Síria, mas não liderou nenhuma pessoalmente, pensando-se, na verdade, que essas campanhas terão sido encomendadas pela sua meia-irmã e esposa.
Hatshepsut e Tutmés III
Hatshepsut (1479-1458 a.C.) conta-se entre os mais poderosos e bem-sucedidos monarcas do Império Novo. Teve um filho com Tutmés II, tendo este tido outro com uma esposa secundária, o qual designou como sucessor: Tutmés III (1458-1425 a.C.). Hatshepsut foi nomeada regente do Egito aquando da morte de Tutmés II e, formalmente, correinou com a criança Tutmés III; no entanto, ela já fora o verdadeiro poder por trás do reinado do seu marido e continuou a agir como bem entendeu após a morte deste.
Hatshepsut é responsável por mais projetos de construção do que qualquer outro governante egípcio, à exceção de Ramsés, o Grande (1279-1213 a.C.). Organizou e encomendou a expedição mais bem-sucedida à Terra de Punt, contribuiu com as suas próprias obras para o templo de Karnak e governou em paz com a Núbia, a sul. Os seus projetos arquitetónicos eram tão belos e numerosos que os faraós posteriores os reivindicaram como seus. Conseguiram fazê-lo porque, por volta de 1458 a.C., o nome de Hatshepsut foi removido de todos os seus monumentos, incluindo o seu magnífico complexo em Deir el-Bahari.
Não é claro por que razão o seu nome foi removido, nem por quem, mas parece ter sido obra do seu sucessor, Tutmés III, que tentou apagar o reinado de uma mulher-faraó a fim de manter os papéis tradicionais de género na cultura egípcia. Poderá ter sentido que uma governante feminina forte e bem-sucedida daria alento a outras mulheres para procurarem o poder, perturbando assim o equilíbrio natural.
Tutmés III recebeu uma nação próspera e estável em 1458 a.C. e não perdeu tempo a começar a melhorá-la. É Tutmés III quem cria o Império Egípcio, o qual seria mantido pelos seus sucessores. Utilizou o carro de guerra herdado dos Hicsos, bem como armas de bronze e táticas superiores, para derrotar as nações vizinhas e expandir o domínio do Egito para além de tudo o que fora alcançado no passado. Em vinte anos, liderou pelo menos dezassete campanhas militares distintas, subjugando reinos desde a Líbia até à Síria como vassalos egípcios, e estendendo o controlo do Egito a sul, desde a região em redor de Buhen até Kurgus. As suas inscrições e monumentos narram a sua história de forma tão completa que é considerado um dos governantes mais bem documentados da história egípcia, logo a seguir a Ramsés II.
Foi sucedido pelo seu filho, Amen-hotep II (1425-1400 a.C.), que, tal como o pai, herdou um reino forte e seguro, tendo-o aperfeiçoado. Não foi tão ativo em campanhas militares como o seu progenitor, mas encomendou numerosos projetos arquitetónicos e celebrou tratados de paz e acordos comerciais com outras nações, tais como Mitani
O seu successor, Tutmés IV (1400-1390 a.C.), deu continuidade às suas políticas. Tutmés IV é considerado por alguns um usurpador — muito embora fosse o filho legítimo de Amen-hotep II —, baseando-se esta hipótese nas interpretações da sua famosa Estela do Sonho, que narra a história da sua ascensão ao trono. É maioritariamente conhecido como o faraó que restaurou a Grande Esfinge de Gizé.
Amen-hotep III e os Sacerdotes de Amon
Tutmés IV foi sucedido por Amen-hotep III (1386-1353 a.C.), também ele considerado um dos governantes mais bem-sucedidos e poderosos do Egito. Amen-hotep III reinou numa das épocas áureas do Egito a nível cultural, político e económico. O seu reinado conta-se entre os mais opulentos da história egípcia, tendo o monarca utilizado sistematicamente a sua riqueza no trato com os outros países para os persuadir a agir conforme os seus desejos. Manteve um governo estável no país, expandiu as suas fronteiras e dedicou-se às artes e a projetos arquitetónicos. Muitos dos mais impressionantes monumentos da arquitetura egípcia datam do seu reinado.
No seu tempo, contudo, os sacerdotes de Amon começaram a adquirir cada vez mais riqueza. Possuíam mais terras do que o próprio rei e faziam uso delas para se enriquecerem ainda mais. Amen-hotep III tentou refrear o seu crescente poder aliando-se a uma divindade menor, Aton (ou Aten), representada por um disco solar. Julgava ele, ao que parece, que o apoio do faraó ao culto de Aton aumentaria o prestígio dos sacerdotes deste deus em detrimento dos de Amon. O seu plano não funcionou, mas elevou a divindade Aton, que viria a desempenhar um papel proeminente no reinado do filho e sucessor de Amen-hotep.
O Período de Amarna
Amen-hotep IV é mais conhecido como Akhenaton (1353-1336 a.C.), o faraó célebre por instituir o monoteísmo no Egito e por banir os antigos deuses. A época do seu reinado ficou conhecida como o Período de Amarna, visto que a capital egípcia foi transferida de Tebas para a atual Tell el-Amarna. Subiu ao trono como Amen-hotep IV mas, no quarto ou quinto ano do seu reinado, mudou o seu nome para Akhenaton, aboliu a antiga religião egípcia — especialmente o culto de Amon — e elevou o deus Aton à condição de único deus verdadeiro.
Apenas o culto de Aton era visto como uma instituição religiosa legítima; todos os templos dedicados aos outros deuses foram encerrados e o seu culto foi proibido. No grande Templo de Amon em Karnak, que também mandou fechar, erigiu um templo a Aton. Akhenaton transferiu a capital de Tebas para uma nova cidade que mandara construir, Akhetaton, para onde se retirou, negligenciando em larga medida os assuntos de Estado. A sua esposa era a famosa Nefertiti (cerca de 1370-1336 a.C.), maioritariamente conhecida pelo magnífico busto moldado pelo escultor Tutmés (ou Thutmose).
As reformas de Akhenaton foram, durante muito tempo, consideradas um esforço sincero de reforma religiosa, mas poderão ter sido simplesmente a sua solução mais eficaz para o problema do crescente poder do culto de Amon. Como já foi referido, os sacerdotes de Amon eram um motivo de preocupação para o pai de Akhenaton, cujos esforços para refrear o culto falharam. Akhenaton neutralizou eficazmente o poder dos sacerdotes ao ilegalizar o seu culto e ao banir o seu deus.
Aquando da morte de Akhenaton, este foi sucedido pelo seu jovem filho, Tutankhaton, que rapidamente mudou o seu nome para Tutankhamon (1336-1327 a.C.), transferiu a capital de volta para Ménfis, restaurou o centro religioso de Tebas (que também detinha importância política), reabriu os templos e devolveu a antiga religião ao Egito. Embora tenha iniciado reformas importantes que estabilizaram o país, a descoberta do túmulo de Tutankhamon em 1922 por Howard Carter é o que o torna célebre na atualidade. Tutankhamon foi casado com a sua meia-irmã, Ankhesenamon, até à sua morte, por volta dos dezoito anos de idade.
Ankhesenamon poderá ter casado depois com o vizir Ay (possivelmente 1324-1320 a.C.) — que, segundo alguns investigadores, sucedeu a Tutankhamon — ou poderá ter tentado governar sozinha. Uma carta enviada por ela ao rei hitita Supiluliuma I (1344-1322 a.C.) pedia um dos seus filhos em casamento, o qual ela tornaria rei do Egito. Este filho foi enviado pelo monarca, mas acabou por ser assassinado ao chegar ao Egito, tendo sido sugerido que o crime foi executado ou por Ay ou por Horemheb. Independentemente do papel que Ay possa ter desempenhado na sucessão, Ankhesenamon desaparece pouco tempo após a morte de Tutankhamon, e o general Horemheb subiu ao poder, dedicando-se a restaurar a antiga glória do Egito.
Horemheb
Horemheb (1320-1295 a.C.) envidou todos os esforços para apagar os reis do Período de Amarna da história egípcia, destruindo todos os monumentos e inscrições de Akhenaton, o que incluiu a demolição do seu templo em Karnak de forma tão minuciosa que dele não restou qualquer vestígio. A única razão pela qual os historiadores posteriores souberam das reformas de Akhenaton foi o facto de Horemheb ter utilizado os monumentos, estelas e inscrições em ruínas como material de enchimento noutros projetos arquitetónicos.
Horemheb defendeu a antiga religião e as tradições do Egito Antigo. Sob o reinado de Akhenaton, as relações com as outras nações e a própria infraestrutura do Egito tinham sido negligenciadas. Horemheb restituiu ao Egito a sua antiga grandeza, muito embora não tenha conseguido elevá-lo ao patamar que conhecera sob Amen-hotep III. Faleceu sem herdeiro e foi sucedido pelo seu vizir, Paramessu (ou Paramesse), que adotou o nome de trono de Ramsés I (1292-1290 a.C.), dando início à XIX Dinastia.
A XIX Dinastia
Ramsés I era já um homem idoso quando subiu ao trono e, com relativa rapidez, nomeou o seu filho, Seti I, como sucessor. Ramsés I deu continuidade ao trabalho iniciado por Horemheb na reconstrução dos templos e santuários do Egito, bem como nas ampliações do grande Templo de Amon em Karnak. Autorizou Seti I a realizar expedições militares para reaver os territórios perdidos durante o reinado de Akhenaton.
Quando este faleceu, Seti I (1290-1279 a.C.) subiu ao trono e deu continuidade à reforma e revitalização do Egito, acrescentando o seu cunho pessoal ao grandioso projeto de Karnak e preparando o seu sucessor para o governo. O seu filho, Ramsés II (conhecido como O Grande, 1279-1213 a.C.), é o faraó mais conhecido do Egito na atualidade devido à sua associação de longa data ao soberano egípcio — cujo nome não é mencionado — no livro bíblico do Êxodo, bem como à sua representação em adaptações cinematográficas dessa narrativa.
Ramsés II (O Grande)
O Ramsés II histórico não foi o faraó da narrativa do Êxodo, existindo uma série de argumentos muito sólidos que o clarificam. Entre eles encontra-se o facto de, mais do que qualquer outro faraó na história, Ramsés II ter documentado minuciosamente o seu reinado. Este rei deixou mais monumentos e inscrições do que qualquer outro e, no entanto, em lado algum se faz qualquer menção a escravos hebreus, pragas ou à migração em massa de mais de 600 000 pessoas para fora do Egito.
Ramsés II celebrizou-se ao derrotar os Hititas na Batalha de Kadesh (ou Qadesh) em 1274 a.C., um feito do qual muito se orgulhava — embora a batalha tenha sido mais propriamente um empate —, vindo a assinar o primeiro tratado de paz do mundo. Também travou uma invasão por parte dos Povos do Mar e protegeu o país contra novos ataques. É frequentemente retratado como um grande caçador e rei-guerreiro, uma imagem que o próprio incentivou, muito embora tenha liderado poucas ou nenhumas campanhas após Kadesh.
O Egito prosperou sob o reinado de Ramsés II. O monarca erigiu tantos monumentos e deixou tantas inscrições que não existe um único sítio arqueológico antigo no país que não ostente alguma menção ao seu nome. Num esforço, talvez, para pacificar as regiões setentrionais do país, transferiu a capital de Tebas para uma nova cidade que mandou construir em Ávaris, denominada Pi-Ramsés (também conhecida como Per-Ramesu), a qual dividiu em quatro bairros, cada um dedicado a uma divindade — duas egípcias e duas asiáticas —, o que sugere que tentava fundir a cultura egípcia com a de outras regiões. Independentemente da sua motivação para mudar a capital, esta decisão viria a revelar-se um erro mais tarde, dado que permitiu aos sacerdotes do culto de Amon em Tebas consolidar o poder ao ponto de rivalizarem com os próprios faraós.
Ramsés II viveu até aos noventa e seis anos e, quando faleceu, o seu povo já não se lembrava de um tempo em que ele não tivesse sido rei. A sua morte causou um pânico generalizado entre a população, que enfrentava um futuro sem ele como monarca. Foi sucedido pelo seu filho Merenptah (1213-1203 a.C.), que tinha já perto de sessenta anos quando subiu ao poder.
Merenptah
Merenptah era o décimo terceiro filho de Ramsés II e não era o seu sucessor escolhido. Apenas se tornou faraó porque todos os seus irmãos mais velhos tinham falecido ao longo da longa vida e reinado do pai. Merenptah alinhou rapidamente a sua postura com a imagem de rei-guerreiro do seu progenitor, derrotando os Líbios em batalha e repelindo uma nova invasão dos Povos do Mar. O relato das suas campanhas inclui a famosa Estela de Merenptah, a qual fornece a primeira menção histórica ao povo de Israel como uma tribo.
Foi sucedido por Amenmés (1203-1200 a.C.), um usurpador que tentou retirar o poder ao herdeiro legítimo, Seti II (1203-1197 a.C.). Amenmés era, muito provavelmente, filho de Merenptah, mas não o sucessor escolhido. Os indícios sugerem que Amenmés tentou apagar qualquer vestígio de Seti II, tomou o poder em Tebas, estendendo-o para sul através da Núbia, e impôs o seu reinado à corte. A data da sua morte é desconhecida, mas ele desaparece do registo histórico após 1200 a.C., ao passo que o reinado de Seti II se estende até 1197 a.C.
Este último seguiu os preceitos de Merenptah e iniciou os seus próprios projetos arquitetónicos, incluindo melhoramentos e ampliações no Templo de Karnak. Foi sucedido por Merenptah Siptah (1197-1191 a.C.), que subiu ao trono com dez anos de idade e faleceu por volta dos dezasseis. A sua madrasta, Tausert (também conhecida como Twosret, 1191-1190 a.C.), reinou com ele como regente e sucedeu-lhe aquando da sua morte. Tausert governou por mais dois anos antes de falecer, sendo sucedida por Setnakht (1190-1186 a.C.), um usurpador que fundou a XX Dinastia do Egito.
A XX Dinastia
A evidente confusão dinástica que se seguiu à morte de Merenptah sugere que a linha de sucessão dos reis egípcios foi quebrada, permitindo que os usurpadores ignorassem as tradições anteriores. Isto teria constituído uma grave violação do conceito de maat (harmonia, equilíbrio), caso tivesse sido tolerado ou perdoado. Amenmés foi derrotado nas suas pretensões, mas Setnakht foi aceite, o que sugere que este último não seria um usurpador tão óbvio e que seria, muito provavelmente, um dos filhos de Seti II.
O Período Raméssida
Setnakht estabilizou o governo, mas os registos do seu reinado parecem confusos. Poderá ter repelido outra invasão dos Povos do Mar ou poderá ter estado simplesmente a repetir uma narrativa relativa ao passado do Egito.
Foi sucedido por Ramsés III (1186-1155 a.C.), maioritariamente conhecido por derrotar os Povos do Mar e por os expulsar das costas do Egito pela última vez. As inscrições de Ramsés III relativas à sua batalha contra os Povos do Mar sustentam a tese de alguns investigadores de que Setnakht os combatera anteriormente, mas esta alegação não colhe um apoio generalizado na academia.
Ramsés III é o último faraó forte do Império Novo. O poder dos sacerdotes de Amon continuara a crescer desde que Horemheb restaurara a antiga religião, e a sua ascensão contínua desviava receitas e influência do trono. Tal como no tempo de Akhenaton, os sacerdotes de Amon possuíam mais terras do que o faraó e detinham maior autoridade nas províncias. Esta situação viria a agravar-se ao longo do Período Raméssida da XX Dinastia. Ramsés III manteve um governo central forte, protegeu as fronteiras e conservou a prosperidade do Egito, mas o império começava a escapar-lhe por entre os dedos. O cargo de faraó do Egito já não impunha o tipo de respeito de outrora, uma vez que os sacerdotes de Amon desempenhavam agora o papel de intermediários junto dos deuses.
Ramsés III foi ferido numa tentativa de assassinato orquestrada por uma das suas rainhas secundárias, vindo a falecer mais tarde em consequência dos ferimentos. O seu sucessor, Ramsés IV (1155-1149 a.C.), apenas subiu ao trono porque os seus irmãos mais velhos tinham falecido. Envidou os seus melhores esforços para emular os grandes faraós do passado e realizou um certo número de projetos arquitetónicos enquanto lutava por manter o império em declínio, mas faleceu após um curto reinado.
Foi então sucedido pelo seu filho, Ramsés V (1149-1145 a.C.), que lutou para manter o poder face aos sacerdotes de Amon e para preservar a coesão do império. O seu successor, Ramsés VI (1145-1137 a.C.), continuou esta luta sem melhor sucesso. Em vez de grandes feitos em batalha ou de projetos monumentais, Ramsés VI é mais conhecido entre os historiadores contemporâneos pelo seu túmulo, mas não devido a quaisquer grandes riquezas descobertas no seu interior. Quando o túmulo de Ramsés VI foi construído, os operários soterraram inadvertidamente o túmulo anterior de Tutankhamon, mantendo-o a salvo de saqueadores de túmulos até ao século XX.
Foi sucedido por Ramsés VII (1137-1130 a.C.), depois por Ramsés VIII (1130-1129 a.C.) — sobre o qual nada se sabe —, e seguidamente por Ramsés IX (1129-1111 a.C.), Ramsés X (1111-1107 a.C.) e Ramsés XI (1107-1077 a.C.). Todos estes faraós lutaram para manter o império face às incursões de forças externas e às querelas internas com os sacerdotes de Amon.
Um episódio relacionado com estas contendas, embora longe de ser claro, envolve um homem chamado Amen-hotep, Sumo Sacerdote de Amon, que foi destituído do seu cargo pelo vizir Pinehasu (ou Pinehasy), o qual teve depois de fugir para sul, em direção à Núbia. Amen-hotep parece ter sido reinstaurado por Ramsés XI durante o período conhecido como Wehem Mesut (ou Whm Mswt), que significa literalmente "Repetição dos Nascimentos" (ou o "Renascimento da Cultura"), mas que parece corresponder à época em que o poder da monarquia egípcia declinou rapidamente. Embora alguns fragmentos de registos antigos pareçam indicar que o sumo sacerdote Amen-hotep foi reconduzido na sua posição em Tebas, outros sustentam que foi sucedido por um outro sacerdote chamado Herihor, o qual era suficientemente poderoso para governar o Egito a partir de Tebas, dividindo o país com Ramsés XI.
Ao contrário do restante Império Novo, os registos desta época são menos completos e muitos apresentam-se de forma fragmentária. O único aspeto desse período que parece inequívoco, contudo, é que os sacerdotes de Amon detinham agora poder suficiente para reinar como verdadeiros faraós a partir de Tebas.
A Queda do Império Novo
Esta divisão de governação entre Tebas, no Alto Egito, e o reinado de Ramsés XI, no Baixo Egito, resultou no mesmo tipo de desunião que caracterizara o Primeiro e o Segundo Períodos Intermediários. Mais uma vez, não existia um governo central forte no Egito, e as políticas do passado, que haviam preservado o império, já não eram eficazes. A investigadora Margaret Bunson escreve que os faraós raméssidas demonstraram "pouca competência militar ou administrativa" após Ramsés III e que "a XX Dinastia, e o Império Novo, foram destruídos quando os poderosos sacerdotes de Amon dividiram a nação e usurparam o trono" (pág. 81).
A decisão de Ramsés II de transferir a capital para norte, para Ávaris, enfraqueceu o governo ao abandonar Tebas aos sacerdotes. Embora, formalmente, o culto de Amon estivesse sob a autoridade do faraó, na realidade o poder repousava nas mãos da fação que detinha maior riqueza e influência. Os sacerdotes de Amon conseguiram adquirir extensões massivas de terra e lucrar com elas sem qualquer interferência dos faraós, que se encontravam agora distantes, no norte.
A Ascensão do Culto de Amon
Estes sacerdotes conseguiram, desde logo, acumular riqueza devido à forma como o deus Amon passara a ser encarado. Ele combinava os atributos do anterior deus criador, Atum, com os do deus solar, Ré (ou Ra), tornando-se reconhecido como o Rei dos Deuses. Os primeiros faraós do Império Novo, à semelhança dos reis que os antecederam, associavam-se ao deus Hórus; contudo, Seti I alinhou-se com o adversário de Hórus, Set, e os faraós raméssidas com o deus solar Ré. O nome "Ramsés" provém do egípcio Ra-messes, que significa "Filho de Ré".
Os sacerdotes de Amon, a divindade suprema, eram vistos como estando em contacto direto com o criador e sustentador do universo, um deus maior do que Ré, Hórus ou Set. À medida que o culto a Amon ganhava popularidade, o mesmo acontecia com o seu clero e com a sua riqueza. Mais importante ainda, porém, o poder do faraó diminuiu, uma vez que ele deixou de ser visto como um intermediário necessário entre o povo e os seus deuses. Agora, os sacerdotes de Amon podiam interceder em nome do povo e receber respostas diretamente. O investigador Jacobus Van Dijk comenta este aspeto:
O rei já não representava Deus na Terra, mas estava-Lhe subordinado; tal como todos os outros seres humanos, ele encontrava-se sujeito à vontade de Deus... Uma vez reconhecido que a vontade de Deus era o fator governante em tudo o que acontecia, tornou-se obrigatório conhecer a Sua vontade antecipadamente."
Os oráculos, que originalmente eram consultados apenas pelo rei — talvez já desde o Império Antigo —, começaram a ser utilizados no Período Raméssida para consultar o deus sobre todo o tipo de assuntos da vida dos seres humanos comuns. Os sacerdotes transportavam a barca sagrada portátil com a imagem do deus em procissão para fora do templo, e um pedaço de papiro ou um ostracon com uma pergunta escrita era colocado diante dela; o deus indicava então a sua aprovação ou desaprovação fazendo com que os sacerdotes se movessem ligeiramente para a frente ou para trás, ou através de outro movimento qualquer da barca.
Nomeações, disputas de propriedade, acusações de crimes e, mais tarde, até questões que procuravam a garantia do deus de que se viveria em segurança no além, eram assim submetidas à vontade divina. Todos estes desenvolvimentos minimizaram ainda mais o papel do rei como representante de Deus na Terra; o rei já não era um deus, mas o próprio Deus se tornara rei.
"Uma vez reconhecido Amon como o verdadeiro rei, o poder político dos governantes terrenos pôde ser reduzido ao mínimo e transferido para o clero de Amon.
(Shaw, pág. 306-307)
A XX Dinastia termina com a morte de Ramessés XI e o seu sepultamento pelo seu sucessor, Esmendes I (1077-1051 a.C.). Uma tradição que remontava ao Período Arcaico no Egito (cerca de 3150-2613 a.C.) ditava que quem sepultasse o rei lhe sucederia. Esmendes I era de Tânis, no Baixo Egito, e por isso, após sepultar o faraó falecido, proclamou-se sucessor e estabeleceu ali a sua capital. Ele governou apenas no Baixo Egito e, eventualmente, sobre um território bastante limitado.
Conclusão
O Novo Império ruiu cerca de 1069 a.C. sob o seu reinado, à medida que ele se tornava mais um monarca provincial. Os sacerdotes de Amon detinham o poder em Tebas, no Alto Egito, e os núbios no sul, sem nenhum poder central egípcio para os conter, recuperaram as terras que tinham perdido sob Tutemósis III e os outros grandes faraós do Novo Império. As regiões da Síria, Canaã e Líbia seguiram o mesmo caminho, e o Império Egípcio caiu. O país entrou então noutra era de divisão e fraqueza conhecida como o Terceiro Período Intermédio, mas, ao contrário dos períodos anteriores de transformação entre eras unificadas, o Egito não emergiria deste mais forte e avançado do que antes.
O Primeiro e o Segundo Períodos Intermédios conduziram ao Médio e ao Novo Império, mas o Terceiro Período Intermédio concluiu-se com a invasão persa do Egito, após a Batalha de Pelúsio em 525 a.C. Depois da chegada dos persas, o Egito nunca mais voltou a ser um Estado autónomo por qualquer período prolongado de tempo. A XXX Dinastia (cerca de 380-343 a.C.) conseguiu restabelecer o domínio egípcio, mas o país foi novamente tomado pelos persas, que governariam até à sua derrota por Alexandre o Grande. O mais próximo que o país chegaria novamente do domínio egípcio seria sob a dinastia ptolemaica (323-30 a.C.), os governantes gregos que reanimaram os costumes e as tradições egípcias. A sua seria a última dinastia do Egito antes da chegada de Roma.
