Crescente Fértil

9 dias restantes

Campanha de Angariação de Fundos para Servidores 2026

Manter os nossos servidores em funcionamento custa 20 000 $ por ano, e precisamos da sua ajuda para os pagar!

$10967 / $20000
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Imprimir PDF
Mapa do Crescente Fértil (by Simeon Netchev, CC BY-NC-ND)
Mapa do Crescente Fértil Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O Crescente Fértil, frequentemente designado como o «berço da civilização», é a região do Médio Oriente que se curva em forma de quarto crescente, desde o Golfo Pérsico até ao atual sul do Iraque, Síria, Líbano, Jordânia, Israel e norte do Egito.

A região é desde há muito reconhecida pelas suas contribuições vitais para a cultura mundial, decorrentes das civilizações da antiga Mesopotâmia, do Egito e do Levante, as quais incluíam os sumérios, os babilónios, os assírios, os egípcios e os fenícios, todos eles responsáveis pelo desenvolvimento da civilização.

Remover Publicidades
Publicidade

Praticamente todas as áreas do conhecimento humano foram impulsionadas por estes povos, incluindo:

  • a ciência e a tecnologia
  • a escrita e a literatura
  • a religião
  • as técnicas agrícolas
  • a matemática e a astronomia
  • a astrologia e o desenvolvimento do zodíaco
  • a domesticação de animais
  • o comércio de longa distância
  • as práticas médicas (incluindo a medicina dentária)
  • a roda
  • o conceito de tempo

O termo foi cunhado em 1916 pelo egiptólogo James Henry Breasted na sua obra Ancient Times: A History of the Early World (Tempos Antigos: Uma História do Mundo Primitivo), onde escreveu:

Este crescente fértil é aproximadamente um semicírculo com o lado aberto voltado para o sul, tendo a extremidade ocidental no canto sudeste do Mediterrâneo, o centro diretamente a norte da Arábia e a extremidade oriental na extremidade norte do Golfo Pérsico.

(págs. 193-194)

A sua expressão circulou amplamente através das publicações da época, tornando-se, por fim, a designação comum para esta região. O Crescente Fértil está tradicionalmente associado, nas fés judaica, cristã e muçulmana, à localização terrena do Jardim do Éden. A área figura com destaque na Bíblia e no Alcorão, e vários dos seus locais estão associados a narrativas nestas obras.

Remover Publicidades
Publicidade
Representation of the Port of Eridu
Representação do Porto de Eridu Таис Гило (Public Domain)

O Berço da Civilização

Conhecido como o «berço da civilização», o Crescente Fértil é considerado o local de nascimento da agricultura, da urbanização, da escrita, do comércio, da ciência, da história e da religião organizada. Foi povoado pela primeira vez por volta de 10 000 a.C., quando a agricultura e a domesticação de animais tiveram início na região. Por volta de 9000 a.C., já estava generalizado o cultivo de grãos e cereais silvestres e, por volta de 5000 a.C., a irrigação de culturas agrícolas encontrava-se totalmente desenvolvida. Perto de 4500 a.C., a criação de ovinos lanígeros era já amplamente praticada.

A geografia e o clima da região eram propícios à agricultura, e as sociedades de caçadores-recolectores transitaram para comunidades sedentárias.

A geografia e o clima da região eram propícios à agricultura, e as sociedades de caçadores-recolectores transitaram para comunidades sedentárias na zona, uma vez que conseguiam sustentar-se a partir da terra. O clima era semiárido, mas a humidade e a proximidade dos rios Tigre e Eufrates (e, mais a sul, do Nilo) incentivaram o cultivo de terras. As comunidades rurais desenvolveram-se a par dos avanços tecnológicos na agricultura e, assim que estas se estabeleceram, seguiu-se a domesticação de animais.

Remover Publicidades
Publicidade

As primeiras cidades começaram a erguer-se na Mesopotâmia, na região da Suméria: Éridu foi a primeira, segundo os sumérios, em 5400 a.C., seguida por Uruque e outras. Por volta de 4500 a.C., o cultivo de trigo e de grãos já era praticado há muito, a par de uma maior domesticação de animais. Perto do ano 3500 a.C., a imagem da raça de cão conhecida como Saluki surgia regularmente em vasos e outras cerâmicas, bem como em pinturas murais, juntamente com raças como o Serodésio, o Galgo e o Mastim.

O solo invulgarmente fértil da região incentivou o cultivo continuado de trigo, bem como de centeio, cevada e leguminosas, e produziram-se algumas das primeiras cervejas do mundo nas grandes cidades ao longo dos rios Tigre e Eufrates sob os auspícios da deusa Ninkasi. A cerveja era considerada uma dádiva dos deuses e uma fonte de nutrição diária, para além de um inebriante. Era utilizada para pagar os salários das pessoas, mas as inscrições também deixam claro que era produzida para fins festivos, e o famoso Hino a Ninkasi (incipit: bor-ja mu-un-na-dim) louva a bebida por tornar o coração mais leve.

Esta cerveja era bastante diferente da dos dias de hoje, pois era espessa e tinha de ser consumida com uma palhinha para filtrar os resíduos do processo de fermentação. A produção de cerveja evoluiu provavelmente do ofício dos padeiros, à medida que a cevada e o trigo que estes armazenavam fermentavam. A evidência mais antiga da produção de cerveja provém do entreposto sumério de Godin Tepe, no atual Irão.

Remover Publicidades
Publicidade
Agriculture in the Fertile Crescent and Mesopotamia - Timeline
Agricultura no Crescente Fértil e na Mesopotâmia - Linha do tempo Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O trigo emmer, a cevada, o grão-de-bico, as lentilhas e muitas outras culturas eram plantados, colhidos e enviados para os templos, onde as reservas alimentares eram armazenadas. A partir de cerca de 3400 a.C., os sacerdotes dos complexos de templos eram responsáveis pela distribuição de alimentos e pela monitorização cuidadosa dos excedentes destinados ao comércio.

O Comércio e o Império

As rotas comerciais expandiram-se até formarem viagens de longa distância em direção ao Reino de Sabá, no sul da Arábia, ao Egito e ao Reino de Cuxe, em África. Com o tempo, este comércio estabeleceria as chamadas Rotas do Incenso, que floresceram entre os séculos VII/VI a.C. e o século II d.C. As Rotas do Incenso facilitaram o intercâmbio intercultural, uma vez que os mercadores transportavam inovações em vários ramos do conhecimento a par das suas mercadorias.

Por volta de 2300 a.C., já se produzia sabão, uma mistura de sebo e cinzas, encontrando-se em ampla utilização, dado que a higiene pessoal era valorizada em função do estatuto de cada um perante a sua comunidade e para honrar os deuses. A atenção prestada à própria pessoa em termos de higiene era enfatizada pelo facto de se acreditar que os seres humanos tinham sido criados como auxiliares dos deuses, devendo, por isso, apresentar-se dignamente no desempenho das suas funções.

Remover Publicidades
Publicidade
A Map of the Ancient Fertile Crescent (From the Novel The Jericho River)
Um Mapa do Antigo Crescente Fértil (Do Romance O Rio Jericó) David Tollen (CC BY-NC-SA)

Tal como no Egito, o banho ritual e os cuidados pessoais eram especialmente importantes para o clero. Aqueles que serviam os deuses estavam sujeitos a um padrão ainda mais exigente, mas, mesmo para o trabalhador mais comum, a limpeza e a apresentação eram valores importantes. Os artefactos da região atestam-no, uma vez que foram encontrados espelhos, frascos de cosméticos, pentes, escovas de cabelo e escovas de dentes, bem como representações artísticas de banhos e inscrições que enfatizam a sua importância.

Entre 1900 e 1400 a.C., o comércio com a Europa, o Egito, a Fenícia e o subcontinente indiano encontrava-se em pleno florescimento.

Os povos da região viviam em cidades-estado urbanas independentes até à ascensão do primeiro império multicultural do mundo: a Acádia. Entre 2334 e 2279 a.C., Sargão de Acádia (Sargão, o Grande) governou a Mesopotâmia, permitindo o desenvolvimento de grandes projetos arquitetónicos, obras de arte e literatura religiosa, tais como os hinos a Inanna escritos pela filha de Sargão, Enheduana (cerca de 2300 a.C.), a primeira autora, de ambos os géneros, do mundo conhecida pelo nome.

Por volta de 2000 a.C., a Babilónia controlava o Crescente Fértil, e a região testemunhou avanços no direito (o famoso código de Hamurabi), na literatura (A Epopeia de Gilgamesh, entre outras obras), na religião (o desenvolvimento do panteão de deuses babilónico), na ciência (medições astronómicas e desenvolvimentos tecnológicos) e na matemática.

Remover Publicidades
Publicidade

Entre 1900 e 1400 a.C., o comércio com a Europa, o Egito, a Fenícia e o subcontinente indiano estava em pleno florescimento, resultando na difusão da literacia, da cultura e da religião para essas regiões. A deusa Nisaba, padroeira da escrita, dos grãos, da literacia e da sabedoria, tornou-se conhecida e adorada em regiões muito distantes da sua Suméria natal. A cerveja mesopotâmica era uma mercadoria valiosa no comércio, e muitas das divindades mesopotâmicas mais importantes viajaram para outras regiões ao longo das rotas comerciais.

A Terra Prometida

Especula-se que terá sido por volta de 1900 a.C. ou de 1750 a.C. que o patriarca bíblico Abraão deixou a cidade natal de Ur rumo à «terra prometida» de Canaã, levando consigo os contos e as lendas dos deuses mesopotâmicos que, com o tempo, surgiriam, transformados, como narrativas bíblicas. Se não tiver sido de facto Abraão a difundir o mito e a lenda mesopotâmicos, terá sido certamente alguém como ele. É evidente que os paralelismos entre histórias como a de Atrahasis mesopotâmica e a do Dilúvio de Noé, e o Mito de Adapa e a história da Queda do Homem no Livro do Génesis, entre muitas outras, partilham semelhanças significativas.

Flood Tablet of the Epic of Gilgamesh
Tabuinha do Dilúvio da 'Epopeia de Gilgamesh' Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Antes de meados do século XIX, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo, e pensava-se que as histórias que continha eram obras originais escritas por Deus ou por inspiração divina. No entanto, após as escavações arqueológicas na região do Crescente Fértil e a descoberta da civilização suméria, tornou-se claro que as narrativas bíblicas derivavam de obras mesopotâmicas anteriores. A religião e a literatura mesopotâmicas, de facto, inspirariam e fundamentariam as de muitas outras culturas posteriores.

Remover Publicidades
Publicidade

Os Impérios em Mudança

Ao longo dos tempos, a região mudou de mãos muitas vezes; por volta de 912 a.C., os assírios controlavam o Crescente Fértil e desenvolveram o seu vasto império. O Império Neoassírio foi governado por alguns dos reis mais conhecidos da antiguidade, incluindo Tiglate-Pileser III (reinou de 745-727 a.C.), Sargão II (reinou de 722-705 a.C.), Senaqueribe (reinou de 705-681 a.C.), Assaradão (reinou de 681-669 a.C.) e Assurbanípal (reinou de 668-627 a.C.). Assurbanípal valorizava imenso o conhecimento e ordenou que todas as obras literárias da região fossem copiadas e guardadas na cidade de Nínive, no edifício hoje conhecido como a Biblioteca de Assurbanípal.

Quando o Império Neoassírio caiu em 612 a.C., as forças invasoras deitaram fogo às bibliotecas das cidades, mas, como as obras estavam escritas em tábuas de argila, estas limitaram-se a cozer com mais força, o que evitou a sua destruição; os invasores, inadvertidamente, foram os responsáveis pela preservação da própria cultura que pretendiam destruir.

Por volta de 580 a.C., o Império Neobabilónico Caldeu, sob o comando de Nabucodonosor II (reinou de 605-562 a.C.), estava no poder, e a Babilónia floresceu como a maior cidade da Terra. Supostamente, por esta altura, Nabucodonosor mandou criar os famosos Jardins Suspensos da Babilónia para a mulher, para lhe recordar a sua terra natal. Em 539 a.C., a Babilónia caiu perante Ciro, o Grande († 530 a.C.) após a Batalha de Ópis, e as terras passaram para o controlo do Império Aqueménida, também conhecido como o Primeiro Império Persa.

Alexandre, o Grande, invadiu a região em 334 a.C. e, depois dele, esta foi governada pelos partos, entre outros, até à chegada de Roma em 116 d.C. Após a efémera anexação e ocupação romana, a região foi conquistada pelos persas sassânidas (cerca de 224-226) e, finalmente, pelos muçulmanos árabes no século VII.

Remover Publicidades
Publicidade
Achaemenid Lion Weight
Peso-Leão Aqueménida Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Por esta altura, as conquistas significativas das primeiras cidades que cresceram junto aos rios Tigre e Eufrates já tinham sido há muito difundidas por todo o mundo antigo, mas as próprias cidades encontravam-se, na sua maioria, em ruínas devido à destruição causada pelas muitas conquistas militares na região, bem como por causas naturais como as alterações climáticas, terramotos e incêndios. A urbanização desenfreada e a sobreexploração da terra também resultaram no declínio e eventual abandono das cidades do Crescente Fértil.

O nome da Babilónia ficaria para sempre ligado ao pecado e à corrupção pelos escribas hebreus posteriores.

A cidade de Éridu, considerada pelos primeiros mesopotâmios como a primeira cidade da Terra, construída e habitada pelos deuses, encontrava-se abandonada desde 600 a.C.; Uruque, a cidade de Gilgamesh, desde cerca de 700 d.C.; e a Babilónia, a cidade conhecida pela sua alta cultura, escrita, direito, ciência e todo o tipo de conhecimento no mundo antigo, era já uma ruína deserta no século VII.

O nome da Babilónia ficaria para sempre ligado ao pecado e à corrupção pelos escribas hebreus posteriores que redigiram as narrativas bíblicas, mas, no seu tempo, era grandemente respeitada como um centro de conhecimento e de civilização.

O Crescente Fértil na Atualidade

Em 2001, a National Geographic News noticiou que o Crescente Fértil estava a tornar-se rapidamente fértil apenas no nome, uma vez que, devido às alterações climáticas, à construção extensiva de barragens nos rios e a um programa massivo de obras de drenagem iniciado no sul do Iraque a partir da década de 1970, as férteis zonas pântanosas que outrora cobriam entre 15 000 e 20 000 km² (5800-7700 milhas quadradas) tinham encolhido para meros 1500 a 2000 km² (580-770 milhas quadradas).

À medida que os apelos de grupos ambientalistas e de agricultores regionais para travar os projetos de barragens e drenagem foram sendo ignorados pelos governos do Iraque, da Síria e da Turquia, a situação agravou-se de tal forma que, atualmente, a região que outrora foi um paraíso luxuriante e o berço da civilização consiste, em grande parte, em planícies secas e fustigadas de argila queimada pelo sol. As alterações climáticas, impulsionadas pelas emissões de combustíveis fósseis, apenas pioraram esta situação.

Mesmo após as ameaças contínuas e a longo prazo para o ambiente terem sido claramente expostas aos governos da região, não foram feitos esforços substanciais para preservar a terra ou reverter os danos. Tem sido observado por muitos académicos, historiadores, ambientalistas e escritores ao longo dos séculos que os seres humanos não conseguem aprender com o seu passado – seja individual ou coletivamente.

Remover Publicidades
Publicidade

O filósofo George Santayana observou celebremente que «aqueles que não conseguem lembrar-se do passado estão condenados a repeti-lo», e este paradigma ecoa de forma tão verdadeira para o Crescente Fértil como para qualquer outra região do mundo na atualidade.

Remover Publicidades
Publicidade

Perguntas & Respostas

O que é o Crescente Fértil?

O Crescente Fértil é a região que abrange os atuais Iraque, Síria, Líbano, Jordânia, Israel e o norte do Egito.

Quando é que a região começou a ser chamada de «Crescente Fértil»?

O termo «Crescente Fértil» foi cunhado pelo egiptólogo James Henry Breasted em 1916.

Pelo que é famoso o Crescente Fértil?

O Crescente Fértil é conhecido como o «berço da civilização» porque os povos da região inventaram inúmeros aspetos do mundo civilizado, incluindo a escrita, a roda, o tempo, a ciência, a medicina e o comércio.

O Crescente Fértil ainda é fértil hoje em dia?

O Crescente Fértil já não é tão fértil como era na antiguidade, devido à exploração excessiva dos solos, aos projetos de construção de barragens e de drenagem e às alterações climáticas.

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, May 25). Crescente Fértil. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-17/crescente-fertil/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Crescente Fértil." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, May 25, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-17/crescente-fertil/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Crescente Fértil." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 25 May 2026, https://www.worldhistory.org/trans/PT/1-17/crescente-fertil/.

Remover Publicidades