A Mesopotâmia (do grego, que significa «entre dois rios») foi uma região antiga situada no Médio Oriente, delimitada a nordeste pela Cordilheira de Zagros e a sudeste pelo Planalto Arábico; corresponde ao que é presentemente o Iraque e a partes do Irão, Síria, Kuwait e Turquia, sendo conhecida como o Crescente Fértil e o «berço da civilização».
Os "dois rios" do nome referem-se ao Tigre e ao Eufrates, e a terra era conhecida como Al-Jazirah (a ilha) pelos árabes como uma terra fértil cercada por água. O termo "Crescente Fértil" foi cunhado pelo egiptólogo J. H. Breasted (1865-1935) em 1916 para descrever a região no extremo norte do Golfo Pérsico, associada ao Jardim do Éden bíblico.
A Mesopotâmia foi o berço de muitas civilizações diferentes ao longo de milhares de anos, que contribuíram significativamente para a cultura e o progresso mundial. Muitos dos aspectos da vida quotidiana considerados naturais nos dias de hoje, como a escrita, a roda, um código de leis, a vela, o conceito do dia de 24 horas, a fabricação de cerveja, os direitos civis e a irrigação de culturas, foram desenvolvidos pela primeira vez na terra entre os dois rios, que foi o berço das grandes civilizações mesopotâmicas, o início dos inícios.
O Berço da Civilização
Ao contrário das civilizações mais unificadas do Egipto ou da Grécia, a Mesopotâmia era um conjunto de culturas variadas cujos únicos laços reais eram a escrita, os deuses e a atitude em relação às mulheres. Os costumes sociais, as leis e até mesmo a língua do povo sumério diferem do período acádio, por exemplo, e não se pode presumir que correspondam aos das civilizações babilónicas; no entanto, parece que os direitos das mulheres (durante alguns períodos), a importância da alfabetização e o panteão dos deuses eram de facto compartilhados por toda a região, embora os deuses tivessem nomes diferentes em várias regiões e períodos.
Como resultado, a Mesopotâmia deve ser mais adequadamente entendida como uma região que produziu vários impérios e civilizações, em vez de uma só civilização. Mesmo assim, a Mesopotâmia é conhecida como o «berço da civilização» principalmente devido a dois desenvolvimentos que ali ocorreram, na região da Suméria, no quarto milénio a.C.:
- a ascensão da cidade como a conhecemos hoje
- a invenção da escrita (embora se saiba que a escrita também se desenvolveu no Egipto, no Vale do Indo, na China e tenha surgido independentemente na Mesoamérica)
A invenção da roda é também atribuída aos mesopotâmicos; em 1922, o arqueólogo Sir Leonard Woolley descobriu «os restos de dois vagões de quatro rodas [no local da antiga cidade de Ur], os veículos de rodas mais antigos da história alguma vez encontrados, juntamente com os seus pneus de couro» (Bertman, pág. 35). Outros desenvolvimentos ou invenções importantes atribuídos aos mesopotâmicos incluem, mas não se limitam de forma alguma a: a domesticação de animais; a agricultura e a irrigação; ferramentas comuns; armamento e guerra sofisticados; a biga; o vinho; a cerveja; a demarcação do tempo em horas, minutos e segundos; ritos religiosos; a vela (barcos à vela); e os códigos jurídicos. De facto, o orientalista Samuel Noah Kramer elenca no Indície da sua obra A História Começa na Suméria trinta e nove "primados" na civilização humana que incluem:
- As Primeiras Escolas
- O Primeiro Caso de «Adulação»
- O Primeiro Caso de Delinquência Juvenil
- A Primeira «Guerra de Nervos»
- O Primeiro Congresso Bicameral
- O Primeiro Historiador
- O Primeiro Caso de Redução de Impostos
- O Primeiro «Moisés»
- O Primeiro Precedente Jurídico
- A Primeira Farmacopeia
- O Primeiro «Almanaque do Agricultor»
- A Primeira Experiência de Jardinagem de Sombras
- A Primeira Cosmogonia e Cosmologia do Homem
- Os Primeiros Ideais Morais
- O Primeiro «Job»
- Os Primeiros Provérbios e Ditos
- As Primeiras Fábulas de Animais
- Os Primeiros Debates Literários
- Os Primeiros Paralelos Bíblicos
- O Primeiro «Noé»
- O Primeiro Conto de Ressurreição
- O Primeiro «São Jorge»
- O Primeiro Caso de Plágio Literário
- A Primeira Idade Heroica do Homem
- A Primeira Canção de Amor
- O Primeiro Catálogo de Biblioteca
- A Primeira Idade de Ouro do Homem
- A Primeira Sociedade «Enferma»
- As Primeiras Lamentações Litúrgicas
- Os Primeiros Messias
- O Primeiro Campeão de Longa Distância
- A Primeira Imaginética Literária
- O Primeiro Simbolismo Sexual
- A Primeira Mater Dolorosa
- A Primeira Canção de Embalar
- O Primeiro Retrato Literário
- As Primeiras Elegias
- A Primeira Vitória do Trabalho
- O Primeiro Aquário
As escavações arqueológicas iniciadas na década de 1840 revelaram assentamentos humanos datados de 10.000 a.C. na Mesopotâmia, sugerindo que as condições férteis da terra entre os dois rios permitiram que um antigo povo de caçadores-coletores se estabelecesse na região, domesticasse animais e voltasse a sua atenção para a agricultura e o desenvolvimento da irrigação. O comércio seguiu-se rapidamente e, com a prosperidade, surgiu a urbanização e o nascimento da cidade. Pensa-se, geralmente, que a escrita foi inventada devido ao comércio, pela necessidade de comunicação a longa distância e para manter um registo mais rigoroso das contas.
A Aprendizagem e a Religião
A Mesopotâmia era conhecida na antiguidade como um centro de saber, e acredita-se que Tales de Mileto (cerca de 585 a.C., conhecido como o Primeiro Filósofo) estudou ali. Como os babilónios acreditavam que a água era o «princípio primordial» de onde tudo o resto fluía, e como Tales é famoso precisamente por essa afirmação, parece provável que ele tenha estudado na região
As actividades intelectuais eram altamente valorizadas por toda a Mesopotâmia, e as escolas parecem ter sido mais numerosas do que os templos, com o ensino da leitura, da escrita, da religião, da lei, da medicina e da astrologia. Havia mais de 1 000 divindades no panteão dos deuses das culturas mesopotâmicas, e muitas histórias relativas aos deuses, incluindo o mito da criação, o Enuma Elish. É geralmente aceite que contos bíblicos, como a 'Queda do Homem' e o 'Grande Dilúvio' (entre muitos outros), tiveram origem na tradição mesopotâmica, uma vez que aparecem pela primeira vez em obras mesopotâmicas como o Génesis de Eridu, o Mito de Adapa e A Epopeia de Gilgamesh, a obra literária mais antiga do mundo. Os mesopotâmicos acreditavam que eram colaboradores dos deuses e que a terra estava impregnada de espíritos e demónios (embora os demónios não devam ser entendidos no sentido moderno e cristão).
Acreditavam que o início do mundo fora uma vitória dos deuses sobre as forças do caos; no entanto, embora os deuses tivessem vencido, tal não significava que o caos não pudesse regressar. Através de rituais diários, da devoção às divindades, de práticas funerárias adequadas e do simples dever cívico, o povo da Mesopotâmia sentia que ajudava a manter o equilíbrio no mundo e a manter as forças do caos e da destruição à distância. A par da expectativa de que cada um honrasse os mais velhos e tratasse o próximo com respeito, os cidadãos daquela terra deviam também honrar os deuses através do trabalho que realizavam quotidianamente.
As Profissões
Tanto os homens como as mulheres trabalhavam e, "como a antiga Mesopotâmia era fundamentalmente uma sociedade agrária, as principais ocupações eram o cultivo de cereais e a criação de gado" (Bertman, pág. 274). Outras ocupações incluíam as de escriba, curandeiro, artesão, tecelão, oleiro, sapateiro, pescador, professor e sacerdote ou sacerdotisa, entre muitas outras. Bertman escreve:
No topo da sociedade estavam os monarcas e os sacerdotes, servidos pelo numeroso pessoal do palácio e do templo. Com a instituição de exércitos permanentes e a propagação do imperialismo, os oficiais militares e os soldados profissionais ocuparam o seu lugar na crescente e diversificada força de trabalho da Mesopotâmia.
(Idem)
As mulheres gozavam de direitos quase iguais e podiam possuir terras, pedir o divórcio, ter os seus próprios negócios e fazer contratos comerciais. Os contratos, acordos comerciais e correspondência eram escritos em escrita cuneiforme em tabuinhas de argila e assinados com a impressão do selo cilíndrico de uma pessoa, que era a sua forma de identificação. Depois que a tabuinha secava, às vezes era colocada num envelope de argila e selada para que apenas o destinatário, ao quebrar o selo, pudesse ler a carta ou o contrato. A escrita cuneiforme era usada para escrever línguas semíticas, como o babilónico e outras, como o sumério, e permaneceu em uso até ser substituída pela escrita alfabética. Os recibos de mercadorias recebidas também eram escritos em tabuinhas cuneiformes (como tudo, incluindo a literatura), e todos eles duraram muito mais tempo do que os documentos escritos em papiro ou papel.
O recibo de cerveja mais antigo do mundo vem da Mesopotâmia, conhecido como Recibo de Alulu (cerca de 2050 a.C.), escrito na cidade de Ur. Os primeiros fabricantes de cerveja e vinho, bem como os curandeiros da comunidade, eram inicialmente mulheres. Estas profissões foram posteriormente assumidas pelos homens, ao que parece, quando se tornou evidente que eram ocupações lucrativas. O trabalho que se realizava, no entanto, nunca foi considerado simplesmente um "emprego", mas uma contribuição para a comunidade e, por extensão, para os esforços dos deuses em manter o mundo em paz e harmonia.
Os Edifícios e o Governo
O templo, no centro de cada cidade (conhecido como o zigurate, uma estrutura piramidal escalonada típica da região), simbolizava a importância da divindade padroeira da cidade, que também era adorada por todas as comunidades que a cidade governava. Cada cidade tinha o seu próprio zigurate (as cidades maiores, tinham mais do que um) para honrar a divindade protetora. A Mesopotâmia deu origem às primeiras cidades da história, que foram construídas em grande parte com tijolos secos ao sol. Nas palavras de Bertman:
A arquitectura doméstica da Mesopotâmia surgiu do solo em que se erguia. Ao contrário do Egipto, a Mesopotâmia — especialmente no sul — era pobre em pedras que pudessem ser extraídas para a construção. A terra também era desprovida de árvores para madeira, então o povo "recorreu a outros recursos naturais que estavam abundantemente à mão: a argila lamacenta das margens dos rios e os juncos e caniços que cresciam nos pântanos. Com eles, os mesopotâmios criaram as primeiras colunas, arcos e estruturas cobertas do mundo.
(pág. 285)
Casas simples eram construídas com feixes de juncos amarrados e inseridos no solo, enquanto casas mais complexas eram construídas com tijolos de argila secos ao sol (uma prática seguida mais tarde pelos egípcios). As cidades e os complexos de templos, com os seus famosos zigurates, eram todos construídos com tijolos de argila cozidos no forno, sendo posteriormente pintados.
Acreditava-se que os deuses estavam presentes no planeamento e na execução de qualquer projecto de construção, e orações muito específicas, recitadas numa ordem definida para a divindade apropriada, eram consideradas de extrema importância para o sucesso do projecto e a prosperidade dos ocupantes da casa.
Qualquer que fosse o reino ou império que dominasse a Mesopotâmia, em qualquer período histórico, o papel vital dos deuses na vida das pessoas permanecia inalterado. Esta reverência pelo divino caracterizava a vida tanto do trabalhador rural quanto do monarca. A historiadora Helen Chapin Metz escreve:
A precariedade da existência no sul da Mesopotâmia levou a um senso de religião altamente desenvolvido. Centros de culto como Eridu, que datam de 5000 a.C., serviram como importantes centros de peregrinação e devoção mesmo antes da ascensão da Suméria. Muitas das cidades mesopotâmicas mais importantes surgiram em áreas ao redor dos centros de culto pré-sumérios, reforçando assim a estreita relação entre a religião e o governo.
(pág. 2)
O papel do rei foi estabelecido em algum momento após 3600 a.C. e, ao contrário dos sacerdotes-governantes anteriores, o rei lidava directamente com o povo e deixava clara a sua vontade por meio de leis da sua própria autoria. Antes do conceito de rei, acredita-se que os governantes sacerdotes ditavam a lei de acordo com os preceitos religiosos e recebiam mensagens divinas por meio de sinais e presságios; o rei, embora ainda honrasse e apaziguasse os deuses, era considerado um representante poderoso o suficiente dos deuses para poder expressar a sua vontade por meio dos seus próprios ditames, usando a sua própria voz.
Isto é visível de forma mais clara nas famosas leis de Hamurabi da Babilónia (Babilônia - reinou 1792-1750 a.C.), mas era bastante comum ao longo da história mesopotâmica um monarca reivindicar contacto directo com os deuses, sendo o caso mais notável o do rei acádio Naram-Sin (reinou 2254-2218 a.C.), que chegou ao ponto de se proclamar um deus encarnado. O rei era responsável pelo bem-estar do povo e um bom soberano, que governava de acordo com a vontade divina, era reconhecido pela prosperidade da região sobre a qual reinava.
Ainda assim, mesmo governantes muito eficientes, como Sargão de Acádia (reinou 2334-2279 a.C.), tiveram que lidar com revoltas e levantes perpétuos por parte de facções ou regiões inteiras que contestavam a sua legitimidade. Como a Mesopotâmia era uma região tão vasta, com tantas culturas e etnias diferentes dentro das suas fronteiras, um único governante que tentasse impor as leis de um governo central invariavelmente encontraria resistência em algum sector.
A História da Mesopotâmia
A história da região e o desenvolvimento das civilizações que ali floresceram são mais facilmente compreendidos quando divididos em períodos:
Idade Neolítica Pré-Cerâmica
Também conhecida como Idade da Pedra (cerca de 10.000 a.C., embora evidências sugiram que seja muito anterior a habitação humana), há confirmação arqueológica de assentamentos rudimentares e sinais precoces de guerra entre tribos, provavelmente por terras férteis para cultivo e campos para pastagem de gado. A criação de animais foi cada vez mais praticada durante este período, com uma mudança de uma cultura de caçadores-coletores para uma cultura agrária. Mesmo assim, o historiador Marc Van De Mieroop observa:
Não houve uma mudança repentina da caça-recoleção para a agricultura, mas sim um processo lento durante o qual as populações aumentaram a sua dependência de recursos geridos directamente, embora continuassem a suplementar as suas dietas através da caça de animais selvagens. A agricultura permitiu um aumento da sedentarização contínua das populações.
(pág. 12)
À medida que mais assentamentos cresciam, os desenvolvimentos arquitectónicos lentamente se tornaram mais sofisticados na construção de moradias permanentes.
Cerâmica Idade Neolítica (cerca de 7000 a.C.)
Nesse período, houve um uso generalizado de ferramentas e potes de barro, e uma cultura específica começou a surgir no Crescente Fértil. Bertman escreve: "durante esta era, a única tecnologia avançada era literalmente 'de ponta'", à medida que as ferramentas e armas de pedra se tornavam mais sofisticadas. Bertman observa ainda que "a economia neolítica baseava-se principalmente na produção de alimentos através da agricultura e da pecuária" (pág. 55) e era mais sedentária, em oposição à Idade da Pedra, em que as comunidades eram mais móveis. Os avanços arquitectónicos seguiram naturalmente na esteira dos assentamentos permanentes, assim como os desenvolvimentos na fabricação de cerâmica e ferramentas de pedra anteriores ao período Ubaide (cerca de 6500-4000 a.C.).
Idade do Cobre (5900-3200 a.C.)
Também conhecida como Período Calcolítico, devido à transição das ferramentas e armas de pedra para as de cobre, esta Era inclui o Período Ubaide (nomeado em homenagem a Tell al-'Ubaide, local no Iraque onde foi encontrado o maior número de artefatos), durante o qual foram construídos os primeiros templos na Mesopotâmia e se desenvolveram aldeias sem muralhas a partir de assentamentos esporádicos de habitações individuais. Estas aldeias deram origem ao processo de urbanização durante o Período Uruque (cerca de 4000-3100 a.C.), quando surgiram cidades, principalmente na região da Suméria, incluindo Eridu, Uruque, Ur, Quis (Kish), Nuzi, Lagash, Nipur e Ngirsu; e em Elão, com a cidade de Susa.
Hoje, acredita-se que a cidade mais antiga tenha sido Uruque, embora Eridu fosse considerada a primeira cidade pelos antigos sumérios. Van De Mieroop escreve: "A Mesopotâmia era a região mais densamente urbanizada do mundo antigo" (conforme citado em Bertman, pág. 201), e as cidades que surgiram ao longo dos rios Tigre e Eufrates, bem como aquelas fundadas mais distantes, estabeleceram sistemas de comércio que resultaram em grande prosperidade.
Este Período viu a invenção da roda (cerca de 3500 a.C.) e da escrita (cerca de 3600/3500 a.C.), ambas pelos sumérios, o estabelecimento de reinos para substituir o domínio sacerdotal e a primeira guerra registrada no mundo entre os reinos da Suméria e Elão (2700 a.C.), com a Suméria como vencedora. Durante o Período Dinástico Inicial (cerca de 2900-2350/2334 a.C.), todos os avanços do período de Uruque foram desenvolvidos, e as cidades e o governo, em geral, estabilizaram-se.
O aumento da prosperidade na região deu origem a templos e estátuas ornamentadas, cerâmicas e estatuetas sofisticadas, brinquedos para crianças (incluindo bonecas para as meninas e carrinhos com rodas para os meninos) e o uso de selos pessoais (conhecidos como selos cilíndricos) para indicar a propriedade de bens e representar a assinatura de um indivíduo. Os selos cilíndricos seriam comparáveis ao actual cartão de cidadão ou à carta de condução de um indivíduo e, de facto, a perda ou o roubo de um selo seria tão significativo quanto o moderno roubo de identidade ou a perda de cartões de crédito.
Idade do Bronze Antiga (3000-2119 a.C.)
Durante este período, o bronze substituiu o cobre como material utilizado na fabricação de ferramentas e armas. O surgimento das cidades-estado lançou as bases para a estabilidade económica e política, que acabaria por levar ao aparecimento do Império Acádio (2350/2334-2154 a.C.) e ao rápido crescimento das cidades de Acádia e Mari, dois dos centros urbanos mais prósperos da época. A estabilidade cultural necessária para a criação artística na região resultou em projectos mais complexos na arquitectura e na escultura, bem como nas seguintes invenções ou melhorias:
... um conjunto de invenções específicas e transcendentais: o arado e a roda, o carro de combate e o barco à vela, bem como o selo cilíndrico — a forma de arte mais distintiva da antiga Mesopotâmia e uma demonstração omnipresente da importância da propriedade e do comércio no quotidiano do país.
(Bertman, págs. 55-56)
O Império Acádio de Sargão, o Grande, foi o primeiro reino multinacional do mundo, e a filha de Sargão, Enheduanna (cerca de 2300 a.C.), foi a primeira autora de obras literárias conhecida pelo nome. A biblioteca de Mari continha mais de 20.000 tabuinhas cuneiformes (livros), e o palácio local era considerado um dos melhores da região. O Império Acádio caiu nas mãos dos gutianos, e a Mesopotâmia entrou no chamado Período Gutiano (cerca de 2141 a cerca de 2050 a.C.).
Idade do Bronze Média (2119-1700 a.C.)
A expansão dos reinos assírios (Assur, Nimrud, Sharrukin, Dur e Nínive) e a ascensão da dinastia babilónica (centrada na Babilónia e na Caldeia) criaram uma atmosfera propícia ao comércio e, com isso, aumentaram as guerras. Os gutis, após derrubarem o Império Acádio, dominaram a política da Mesopotâmia até serem derrotados pelas forças aliadas dos reis da Suméria que governaram durante o Período Ur III (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.). Os amorreus, elamitas e gutis acabaram com a civilização suméria por volta de 1750 a.C.
Também durante a Idade do Bronze Médio, o rei amorrita Hamurabi, da Babilónia, emergiu de uma relativa obscuridade para conquistar a região e reinar durante 43 anos. Entre os seus muitos feitos, destaca-se o seu famoso código de leis, inscrito na estela dos deuses. A Babilónia tornou-se, nesta época, um importante centro de actividade intelectual e de grandes realizações nas artes e nas letras. Este centro cultural, contudo, não haveria de durar, acabando por ser saqueado e pilhado pelos hititas, aos quais se sucederam os cassitas.
Idade do Bronze Tardia (1700-1100 a.C.)
A ascensão da dinastia cassita (uma tribo originária da Cordilheira de Zagros, no norte, e que se acredita ter surgido no atual Irão) levou a uma mudança no poder e a uma expansão da cultura e do conhecimento após a conquista da Babilónia pelos cassitas. O colapso da Idade do Bronze ocorreu após a descoberta de como extrair minério e utilizar o ferro, uma tecnologia que os cassitas e, anteriormente, os hititas usavam exclusivamente na guerra.
Este período também viu o início do declínio da cultura babilónica devido à ascensão ao poder dos cassitas, até que eles foram derrotados pelos elamitas e expulsos. Depois que os elamitas deram lugar aos arameus, o pequeno reino da Assíria iniciou uma série de campanhas bem-sucedidas, e o Império Assírio foi firmemente estabelecido e prosperou sob o governo de Tiglate-Pileser I (reinado 1115-1076 a.C.) e, depois dele, Assurnasírpal II (reinado 884-859 a.C.) consolidou ainda mais o império. A maioria dos estados mesopotâmicos foi destruída ou enfraquecida após o colapso da Idade do Bronze, por volta de 1250 a 1150 a.C., levando a uma breve "idade das trevas".
Idade do Ferro (1000-500 a.C.)
Esta era testemunhou a ascensão e expansão do Império Neo-Assírio sob Tiglate-Pileser III (reinou 745-727 a.C.) e a ascensão meteórica do império ao poder e às conquistas sob o domínio de grandes reis assírios, como Sargão II (reinou 722-705 a.C.), Senaqueribe (reinou 705-681 a.C.), Esar-Hadom (reinou 681-669 a.C.) e Assurbanípal (reinou cerca de 668-627 a.C., que conquistou a Babilónia, a Síria, Israel e o Egipto). O império sofreu um declínio tão rápido quanto a sua ascensão devido aos repetidos ataques às cidades centrais pelos babilónios, medos e citas em 612 a.C.
As tribos dos hititas e dos mitanni consolidaram os seus respectivos poderes durante este período, o que resultou na ascensão dos impérios neo-hitita e neo-babilónico. O rei Nabucodonosor II (reinou entre 605/604 e 562 a.C.) da Babilónia destruiu Jerusalém (588 a.C.) durante este período e forçou os habitantes de Israel ao "exílio babilónico". Foi também responsável por extensas construções na Babilónia, criando edifícios famosos como a Porta de Ishtar e o grande zigurate conhecido como Etemenanki (associado à "Torre de Babel" da Bíblia). A queda da Babilónia perante Ciro II da Pérsia (o Grande, reinou por volta de 550-530 a.C.), em 539 a.C., pôs efetivamente fim à cultura babilónica.
Antiguidade Clássica (500 a.C. ao século VII)
Após Ciro II ter tomado a Babilónia, a maior parte da Mesopotâmia tornou-se parte do Império Persa Aqueménida; este período assistiu a uma rápida mudança cultural na região, incluindo várias alterações, sendo a mais notável a perda do conhecimento da escrita cuneiforme. A conquista dos persas por Alexandre, o Grande, em 331 a.C., trouxe a helenização da cultura e da religião, mas, embora Alexandre tenha tentado devolver à Babilónia a sua antiga importância, os seus dias de glória pertenciam agora ao passado.
Após a morte de Alexandre, o Grande, o seu general Seleuco I Nicátor (reinou de 305 a 281 a.C.) assumiu o controlo da região e fundou o Império Selêucida (312-63 a.C.), que governou até 63 a.C., quando a terra foi conquistada pelos partas, que, por sua vez, foram dominados pelos sassânidas, que estabeleceram o Império Sassânida (224-651). Os sassânidas honraram o legado das civilizações mesopotâmicas anteriores e preservaram as suas contribuições.
Entre o Império Parta (247 a.C. – 224 d.C.) e os Sassânidas, o Império Romano estabeleceu-se na região por volta de 198 (embora Roma tivesse chegado mais cedo, em 116-117, mas acabou por retirar-se). Os romanos melhoraram significativamente as infraestruturas das suas colónias através da introdução de melhores estradas e sistemas de canalização, tendo também levado o direito romano para aquela terra. Ainda assim, a região viu-se constantemente envolvida nas guerras que vários imperadores romanos travaram, primeiro com os partas e depois com os sassânidas, pelo controlo do território e dos recursos.
A cultura antiga da região, preservada pelos sassânidas, foi devastada pela conquista da Mesopotâmia pelos árabes muçulmanos no século VII, que resultou na unificação da lei, da língua, da religião e da cultura sob o Islão. Aspectos das culturas mais antigas foram mantidos, mas, como observa Bertman, "Com a conquista islâmica de 651, a história da antiga Mesopotâmia chega ao fim" (pág. 58). Hoje, as grandes cidades que outrora se erguiam ao longo dos rios Tigre e Eufrates são, em grande parte, montes não escavados ou tijolos partidos em planícies áridas, e a região do Crescente Fértil tem diminuído constantemente, transformando-se em áreas semelhantes a terras devastadas devido a factores humanos (como o uso excessivo da terra para actividades agrícolas ou desenvolvimento urbano) e às mudanças climáticas.
O Legado
O legado da Mesopotâmia perdura até hoje em muitos dos aspectos mais básicos da vida moderna, como o minuto de 60 segundos e a hora de 60 minutos. Helen Chapin Metz escreve:
Uma vez que o bem-estar da comunidade dependia da observação atenta dos fenómenos naturais, as atividades científicas ou protocientíficas ocupavam grande parte do tempo dos sacerdotes. Por exemplo, os sumérios acreditavam que cada um dos deuses era representado por um número. O número sessenta, sagrado para o deus An, era a sua unidade básica de cálculo. Os minutos de uma hora e os graus de notação de um círculo foram conceitos sumérios. O sistema agrícola altamente desenvolvido e os refinados sistemas de irrigação e controlo de águas, que permitiram à Suméria alcançar uma produção excedentária, levaram também ao crescimento de grandes cidades.
(pág. 4)
A urbanização, a roda, a escrita, a astronomia, a matemática, a energia eólica, a irrigação, os desenvolvimentos agrícolas, a pecuária e as narrativas que acabariam sendo reescritas como as Escrituras Hebraicas e forneceriam a base para o Antigo Testamento cristão vieram da terra da Mesopotâmia.
Como mencionado, Kramer elenca trinta e nove "primados" da Mesopotâmia no seu livro A História Começa na Suméria e, no entanto, por mais impressionantes que esses "primados" sejam, as contribuições mesopotâmicas para a cultura mundial não terminam neles. Os mesopotâmios influenciaram as culturas do Egipto e da Grécia através do comércio de longa distância e da difusão cultural e, através dessas culturas, impactaram a cultura de Roma, que estabeleceu o padrão para o desenvolvimento e a propagação da Civilização Ocidental. A Mesopotâmia, em geral, e Suméria, em particular, deram ao mundo alguns dos seus aspectos culturais mais duradouros e, embora as cidades e os grandes palácios tenham desaparecido há muito tempo, o legado continuou até à era moderna.
No século XIX, arqueólogos de várias nacionalidades chegaram à Mesopotâmia para escavar em busca de evidências que corroborassem as histórias bíblicas do Antigo Testamento. Naquela época, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo, e as histórias encontradas nas suas páginas eram consideradas composições originais. Os arqueólogos que procuravam evidências físicas para apoiar as histórias bíblicas encontraram exactamente o oposto quando as antigas tabuinhas de argila foram descobertas e se compreendeu que as marcas nelas não eram simplesmente ornamentos, mas uma forma de escrita.
As tabuinhas cuneiformes foram decifradas por estudiosos, incluindo o tradutor George Smith (1840-1876), em 1872, e revelou as antigas civilizações da Mesopotâmia ao mundo moderno. A história do 'Grande Dilúvio' e da 'Arca de Noé', a história da 'Queda do Homem', o conceito do 'Jardim do Éden' e até mesmo as queixas de Jó já tinham sido escritas séculos antes dos textos bíblicos pelos mesopotâmios.
Assim que a escrita cuneiforme pôde ser lida e o mundo antigo da Mesopotâmia foi revelado à era moderna, a compreensão que as pessoas tinham da história do mundo e de si mesmas transformou-se. A descoberta da civilização suméria e das histórias contidas nas tábuas cuneiformes incentivou uma nova liberdade de investigação intelectual em todas as áreas do saber. Passou a compreender-se que as narrativas bíblicas não eram obras originais hebraicas, que o mundo era obviamente mais antigo do que a Igreja vinha afirmando e que existiram civilizações que ascenderam e caíram muito antes do que qualquer pessoa anteriormente imaginara; e, se estas afirmações das autoridades da Igreja, das escolas e das instituições de ensino superior tinham sido falsas, talvez outras também o fossem.
O espírito de investigação no final do século XIX já estava a desafiar os paradigmas do pensamento aceite quando Smith decifrou a escrita cuneiforme, mas a descoberta da cultura e religião mesopotâmicas encorajou ainda mais o processo. Na antiguidade, a Mesopotâmia influenciou o mundo através das suas invenções, inovações e visão religiosa; nos dias de hoje, a sua descoberta mudou literalmente a forma como as pessoas compreendem toda a história e o seu lugar na história contínua da civilização humana.
