A Eneida, escrita pelo poeta romano Virgílio (70-19 a.C.), é um poema épico de doze livros que descreve a mitologia inicial da fundação de Roma. O herói epônimo Eneias, príncipe troiano e filho de Vênus, enfrenta provações e adversidades enquanto escapa da Troia em chamas e navega pelo Mediterrâneo em busca de uma nova pátria. Virgílio passou os últimos dez anos de sua vida escrevendo a Eneida, apenas para morrer antes de sua conclusão. O poema foi escrito em hexâmetro dactílico, métrica conhecida por seu uso na poesia épica. Também apresenta temas de conflito e renovação, paralelos às décadas de guerra civil e conflitos que a República Romana suportou antes do estabelecimento do Império Romano sob o governo de Augusto e da paz ("Pax Romana") que o acompanhou.
A Eneida alude à Odisseia e à Ilíada, contos da Guerra de Troia compostos como poemas épicos pelo poeta grego Homero no século VIII a.C. Os primeiros seis livros da Eneida são as histórias de Eneias e outros sobreviventes troianos viajando pelo Mediterrâneo, no estilo de Odisseu e sua tripulação na Odisseia. A última metade do trabalho de Virgílio concentra-se na guerra, enquanto Eneias luta contra Turnus, rei dos Rutuli e um guerreiro considerado mais poderoso que Aquiles. A Eneida também contém tropos épicos que remetem a Homero. Por exemplo, no Livro V, Eneias organiza jogos fúnebres para seu falecido pai, Anquises. Esses jogos lembram fortemente os jogos fúnebres organizados em homenagem a Pátroclo, no Livro XXVIII da Ilíada. Mais tarde, no Livro VI da Eneida, Eneias desce ao Submundo, onde encontra seu pai e Dido, sua amante rejeitada e ex-rainha de Cartago; Odisseu faz uma viagem semelhante no Livro XI da Odisseia. A intervenção divina é outra característica proeminente na Eneida; deuses como Júpiter e Vênus obrigam e ajudam Enéias a cumprir seu destino, enquanto outras figuras divinas, Juno, por exemplo, conspiram ativamente contra Enéias e tentam frustrar suas tentativas de chegar à Itália e lançar as bases de Roma.
Livros I – VI
A epopeia começa in media res (expressão latina que significa "no meio dos acontecimentos", outra técnica padrão da poesia épica), quando Eneias e seus homens chegam a uma costa desconhecida. Ele é levado para o interior, à corte de Dido, Rainha de Cartago, onde, no Livro II, narra a queda de Troia sob a perspectiva troiana. Em seu relato, ele descreve o Cavalo de Troia na praia, fora dos muros da cidade; o aviso de Laocoonte ("Não confieis no cavalo, troianos... Temo os gregos, mesmo quando trazem presentes!" Eneida 2.49-50); a saída dos gregos de dentro do cavalo oco e a invasão dos portões; a morte do rei Príamo pelas mãos de Neoptólemo (sobrinho de Aquiles); e a revelação de sua missão de levar os deuses troianos e fundar uma nova cidade no Ocidente. Eneias prossegue descrevendo sua jornada pelo Mar Mediterrâneo. Ao terminar a história, Dido é atingida por uma flecha de Cupido, meio-irmão de Eneias, e apaixona-se pelo troiano. (Esse plano foi arquitetado por Juno para manter Eneias em Cartago.) O amor deles não estava destinado a durar, pois Júpiter, por meio de Mercúrio, lembra Eneias de seu destino e ordena que ele parta novamente em busca de seu novo lar. Após esse lembrete divino, Eneias zarpa pelo Mediterrâneo, ainda à procura do local que sucederá a Troia. Com o coração partido pela partida dele, Dido comete suicídio.
No Livro VI, a jornada de Eneias leva-o a Cumas (perto da atual Nápoles). A Sibila de Cumas, sacerdotisa de Apolo, guia Eneias pelo Submundo. Lá, o troiano encontra a sombra de Dido — ainda silenciosa e com o coração partido — e seu pai (dele Eneias), Anquises, que prenuncia a grandeza de Roma. Ele profetiza que Rômulo, descendente de Ascânio, fundará Roma, e que a cidade iniciará uma Era de Ouro quando um César (uma alusão óbvia a Augusto), outro descendente de Ascânio, reinar sobre ela. Eneias emerge do Submundo plenamente consciente da importância da missão que lhe foi confiada.
Livros VII – XII
Inspirado pelos deuses, Eneias estabelece os troianos no Lácio, uma região no oeste da Itália, a convite de Latino, rei da tribo latina. Eneias começa a cortejar a filha de Latino, Lavínia, com a bênção do pai dela. Turno, rei da tribo vizinha dos Rútulos, também disputa a mão de Lavínia em casamento; Amata, mãe de Lavínia, apoia seu namoro. (Este é outro conflito arquitetado por Juno para impedir o estabelecimento de Roma.)
No final, Eneias casa-se com Lavínia, um fato que leva Turno às armas. O rei dos Rútulos levanta um exército contra Eneias e os latinos. Vendo que está em desvantagem numérica, Eneias recorre aos estóquios e aos arcádios em busca de ajuda. Com a assistência deles e após muita luta, as forças dos Rútulos são repelidas com muitas baixas em ambos os lados. A epopeia termina abruptamente quando, em combate mano a mano, Eneias abate impiedosamente um Turno já ferido.
