Um ciclope (que significa "de olho circular") é um gigante de um só olho que surge pela primeira vez na mitologia da Grécia Antiga. Os gregos acreditavam na existência de toda uma raça de ciclopes que vivia numa terra longínqua, privada de lei e de ordem. Homero, na obra Ilíada (tít. original Ἰλιάς; Iliás), descreve os ciclopes como pastores, porém selvagens — algo típico das criaturas estranhas que os gregos criavam para representar as sociedades estrangeiras que não consideravam tão civilizadas como a sua.
Contudo, os ciclopes não deixam de ter talentos: são creditados como os fabricantes dos raios que Zeus utilizava como uma terrível arma de arremesso, e como os construtores de gigantescas muralhas de fortificação, como as que ainda hoje se podem observar em locais micénicos. O ciclope mais famoso é Polifemo, que capturou o herói grego Odisseu e os seus homens, acabando estes por escapar após cegarem o pobre gigante. Os ciclopes, e particularmente a história de Odisseu/Ulisses, foram temas populares e duradouros em todas as formas de arte grega e romana.
As Origens e o Nome
Hesíodo (cerca de 700 a.C.), escrevendo na sua Teogonia (tít. original: Θεογονία - Theogonía), conta-nos que os ciclopes eram filhos da Terra (Gaia) e do Céu (Urano), o que os coloca na geração anterior à dos deuses olímpicos. Acreditava-se que os ciclopes habitavam uma terra longínqua, de localização ou nome desconhecidos, onde não existiam leis. Ali, estas criaturas gigantescas levavam uma existência pastoral simples, pastoreando ovelhas e cabras e vivendo em grutas.
Hesíodo nomeia três ciclopes: Brontes (Trovão), Estérope (Relâmpago) e Arges (Brilhante). Este grupo continuaria a gerar mais elementos da sua espécie, embora o trio tenha sido mais tarde morto por Apolo, em vingança pelo assassínio, por parte de Zeus, do seu filho Asclepius, o semideus e mestre da medicina. Dizia-se que os fantasmas dos três assombravam o vulcão Monte Etna, na Sicília. De facto, muitas tradições gregas locais associavam os ciclopes a vulcões, talvez porque as suas crateras faziam lembrar o olho único dos ciclopes, frequentemente descrito na literatura antiga como "ardente". Hesíodo também faz dos ciclopes mestres artesãos e assistentes do deus Hefesto, ele próprio o ferreiro supremo e inventor genial (e, por vezes, residente no Monte Etna).
Hesíodo explica também o nome deles:
Eram como os deuses noutros aspetos, mas apenas um olho estava colocado no meio das suas testas; e eram chamados de Ciclopes (de olhos circulares) por nome, uma vez que um único olho em forma de círculo estava colocado nas suas testas. Força, vigor e engenho estavam nas suas obras.
(Teogonia, 142-147)
O famoso historiador e especialista em mitologia grega Robert Graves estabelece a seguinte ligação entre os ciclopes, o fogo e a metalurgia:
Os ciclopes parecem ter sido uma guilda de bronzistas do Heládico Antigo. Ciclope significa 'de olho em anel' e é provável que fossem tatuados com anéis concêntricos na testa, em honra do sol, a fonte dos fogos das suas forjas... Os ciclopes eram também caolhos no sentido de que os ferreiros frequentemente protegem um olho com uma pala contra as faíscas que saltam.
(3b 2)
Hesíodo descreve os ciclopes como tendo "corações muito violentos" (139-140), tornando-os típicos de outras criaturas fantásticas da mitologia grega, como os centauros, que representam a ausência de leis e que estão sujeitos às forças caóticas que a falta de razão traz. Vivendo em isolamento, os ciclopes levam vidas solitárias e insulares; não possuem governo, sociedade ou sentido de comunidade — deficiências que os gregos civilizados consideravam abomináveis.
Homero, na obra Odisseia (tít. original Ὀδύσσεια - Odýsseia) do século VIII a.C., tal como Hesíodo, sublinha a falta de civilização entre os ciclopes:
Não têm leis, nem conselhos para debate;
Vivem nos picos de altas montanhas,
Em grutas ocas; cada homem dita a lei
À esposa e aos filhos, sem respeito pelo vizinho.
(Livro 9, 112-115)
Esta mesma passagem é repetida por Platão na obra As Leis (tít. original: Νόμοι - Nómoi - Livro III, 680b). O filósofo, escreveu a obra em meados do século IV a.C. e coloca as suas personagens a discutir as virtudes e os defeitos dos sistemas políticos existentes enquanto procuram a forma ideal de governo, e os ciclopes são apresentados como um dos piores exemplos de existência comunitária.
Talvez não seja surpreendente que, devido ao seu estatuto de monstruosidades sem lei em vez de deuses, os ciclopes não tenham desempenhado um papel relevante na religião grega. Houve, contudo, um lugar onde os gigantes de um só olho eram venerados: o Istmo de Corinto, talvez devido a uma ligação com Posídon, frequentemente visto como o pai do ciclope Polifemo (cf. infra). Os Jogos Ístmicos realizavam-se de dois em dois anos em honra de Posídon, e existia um altar que recebia os sacrifícios destinados aos Ciclopes.
Os Mestres Artesãos e os Construtores
Os ciclopes ajudaram os deuses olímpicos, liderados por Zeus, a derrotar os Titãs na sua batalha de dez anos, conhecida como Titanomaquia, pelo controlo do universo. Em gratidão pela sua libertação — após Urano os ter aprisionado no Tártaro devido ao seu comportamento indisciplinado —, os ciclopes fabricaram os raios que Zeus utilizou como arma para derrubar os seus inimigos. Entre as vítimas atingidas pelos raios bem direcionados de Zeus estava Asclepius, quando Zeus considerou que as suas capacidades médicas se tinham tornado tão prodigiosas que constituíam uma ameaça à divisão eterna entre a humanidade e os deuses. Os ciclopes também fabricaram o elmo de Hades, que tornava o seu portador invisível, o tridente de Posídon e o arco de prata de Ártemis.
Outra área de especialização em que os ciclopes se destacaram foi a construção de muralhas. As grandes muralhas de fortificação micénicas foram-lhes atribuídas, dada a dimensão colossal e a forma irregular dos blocos utilizados. A acrópole de Micenas e de Tirinto ainda hoje conservam longos troços destas "muralhas ciclópeas".
Odisseu e Polifemo
O encontro mais famoso entre humanos e um ciclope ocorreu durante a longa viagem de regresso da Guerra de Troia, suportada pelo herói Odisseu. A história é contada, da forma mais célebre, na Odisseia de Homero. A meio da jornada, num local desconhecido, o herói aporta numa ilha em busca de mantimentos. Infelizmente, a ilha era também habitada pelo ciclope Polifemo, filho da ninfa Toosa e de Posídon, e o gigante sentiu um interesse peculiar pelos viajantes gregos. Aprisionando-os na sua gruta, ao bloquear a entrada com um enorme rochedo que só um gigante poderia mover, ele devorou rapidamente dois como aperitivo e, mais tarde, mais alguns dos infelizes viajantes.
Percebendo a gravidade da situação, Odisseu, conhecido pela sua inteligência e rapidez de espírito, desenvolveu um plano astuto de fuga. Tentando Polifemo com vinho até que o ciclope ficasse ébrio, o herói ordenou aos seus homens que transformassem o cajado de madeira de oliveira de Polifemo numa estaca; endureceram-na então no fogo e utilizaram-na para cegar o ciclope enquanto este dormia. Incapaz de ver e compreensivelmente furioso pelo tratamento recebido, Polifemo tentou apanhar os viajantes, ainda aprisionados, apalpando as suas ovelhas à medida que estas saíam da gruta para pastar. Odisseu instruiu então os seus homens a atarem-se às barrigas das ovelhas, enquanto ele próprio escolheu um carneiro para o mesmo fim, e assim escaparam para continuar a sua viagem. Contudo, o ciclope, após arremessar, sem sucesso, um rochedo na tentativa de destruir o navio grego que se afastava rapidamente, amaldiçoou Odisseu, prevendo a perda dos seus homens, uma viagem de regresso penosa e o desastre quando finalmente chegasse a casa. Invocando a ajuda do seu pai Posídon, Polifemo garantiu que haveria muitas tempestades e dez longos anos antes de Odisseu chegar a Ítaca.
Os Ciclopes na Literatura e na Arte
Os Ciclopes são tanto o título como o tema de um drama satírico de Eurípides (cerca de 484-407 a.C.), o grande autor da tragédia grega. O enredo é muito semelhante ao da Odisseia de Homero, mas com a adição da personagem do velho sátiro chamado Sileno, que presta ajuda adicional a Odisseu e aos seus homens enquanto estes medem forças com Polifemo. Outra história tradicional sobre Polifemo envolve-o na tentativa infrutífera de cortejar a ninfa marinha Galateia, um conto popular entre os antigos escritores pastoris e um protótipo inicial do conto de fadas "A Bela e o Monstro". Na versão mais conhecida, Polifemo canta uma canção de amor a Galateia, mas sem qualquer efeito, exceto o de surpreender o amante real da ninfa, Ácis, que tenta fugir a nado, mas é esmagado e afogado depois de o ciclope empregar a sua arma de eleição e lhe atirar um enorme rochedo. Na versão menos conhecida, Polifemo é mais bem-sucedido nas suas ambições, e ele e Galateia têm um filho chamado Galas (ou Galates), que se tornou o antepassado dos gauleses.
A luta entre Odisseu e Polifemo foi um tema popular para os pintores de cerâmica grega, sendo o cegamento do ciclope, de longe, a cena mais comum e duradoura escolhida. Aparecendo na cerâmica de figuras negras de muitas cidades-estado gregas diferentes, o exemplo mais antigo conhecido deste ato terrível encontra-se no colo de uma ânfora proto-ática do século VII a.C., proveniente de Elêusis. Odisseu e dois homens carregam a estaca pontiaguda acima das suas cabeças e, curiosamente, uma figura está pintada de branco, uma cor geralmente reservada às mulheres, mas talvez aqui uma tentativa de destacar Odisseu como o líder do grupo. O vaso pode ser visto hoje no museu arqueológico de Elêusis. Nesta e noutras cenas semelhantes, Polifemo está tipicamente sentado no chão, provavelmente para mostrar o seu estado de prostração provocado pela embriaguez — por vezes segura um copo ou um odre de vinho pende de forma sugestiva de uma árvore no fundo —, embora possa também tratar-se de uma necessidade artística para ajustar o gigante e os homens no mesmo plano horizontal. Em algumas destas cenas, Polifemo nem sempre tem apenas um olho, ou pelo menos não de forma óbvia. A cena do cegamento e também a da fuga atados às ovelhas de Polifemo aparecem em vasos durante os dois séculos seguintes, embora esta parte da história da Odisseia tenha deixado de ser um tema popular para os pintores posteriores de cerâmica de figuras vermelhas.
Os Ciclopes na Cultura Romana
Os Ciclopes, de um modo geral, continuaram a ser um tema popular na arte até ao período romano. Os romanos representavam frequentemente os gigantes com um olho no centro da testa e dois olhos normais que se encontram fechados; a história de amor entre Galateia e Polifemo foi um tema especialmente popular. Representadas em pinturas, mosaicos e esculturas, as interpretações de um ciclope que sobreviveram neste último meio incluem uma impressionante cabeça de pedra de Polifemo, oriunda do anfiteatro de Salona (século I d.C.), na Croácia, e o grupo escultórico de Ulisses (nome romano para Odisseu) e os seus amigos a cegarem o seu inimigo, proveniente da villa de Tibério em Sperlonga (também do século I d.C.). Os romanos utilizavam, por vezes, um ciclope como face de uma máscara de pedra que adornava piscinas exteriores e funcionava como uma fonte decorativa. Novamente, estas máscaras possuem, frequentemente, três olhos, e um exemplo notável do século I pode ser visto no museu arqueológico de Orange, em França.
