Calipso

A Ninfa que Manteve Prisioneiro Odisseu
Liana Miate
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Calypso (by George Hitchcock, Public Domain)
Calipso George Hitchcock (Public Domain)

Na mitologia grega, Calipso, cujo nome significa «esconder» ou «ocultar», é uma ninfa mais conhecida pela pela epopeia de Homero (c. 750 a.C.), a Odisseia (tít. original: Ὀδύσσεια transliterado: Odýsseia), por se ter apaixonado por Odisseu/Ulisses e o ter mantido preso na sua ilha, Ogígia, durante sete anos (ou cinco anos, dependendo da fonte), durante a sua longa viagem de regresso a casa.

Apaixonada pelo rei de Ítaca, Calipso queria tornar Odisseu imortal, para que ele ficasse com ela para sempre. No entanto, a mando de Zeus e Hermes, ela permite que ele deixe a ilha. É frequentemente referida como filha do titã Atlas e é comumente descrita na Odisseia como «a ninfa de tranças encantadoras» (Homero, Odisseia, 5.33).

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A Família

​De acordo com a maioria das fontes antigas, Calipso é filha do titã Atlas, que foi condenado a sustentar os céus para toda a eternidade como castigo após a Titanomaquia (a guerra entre os titãs e os deuses do Olimpo). No entanto, de acordo com outras fontes, ela pode também ser filha do titã Oceano e da ninfa do mar Tétis, ou mesmo do deus pré-olímpico Nereu, conhecido como «o velho do mar». A sua mãe raramente é mencionada.

A Ogígia

Na sua ilha bela, mas selvagem e isolada, Calipso manteve Odisseu prisioneiro durante anos.

A ilha de Calipso, Ogígia, estava coberta por densas florestas de ciprestes, amieiros e choupos, onde o seu palácio-gruta se erguia escondido num bosque. A entrada do seu palácio estava entrelaçada com videiras repletas de cachos de uvas douradas e roxas. O ar estava repleto do canto dos pássaros e do murmúrio das nascentes, e por onde quer que se pisasse, havia um tapete de violetas, musgo e salsa. Foi aqui, nesta ilha bela, mas selvagem e isolada, que Calipso manteve Odisseu prisioneiro durante anos.

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Atena implora a Zeus que resgate Odisseu

​Ficamos a saber pela primeira vez que Odisseu está prisioneiro de Calipso no Livro 1 da Odisseia durante a Assembleia dos Deuses, quando Atena implora a Zeus que resgate Odisseu das garras de Calipso. Ela concorda com Zeus que alguns dos homens que lutaram na Guerra de Tróia mereciam o seu destino, mas que Odisseu não era um deles.

Odysseus
Odisseu Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

​Ela diz a Zeus que o seu coração se parte por Ulisses, uma vez que este está cativo da filha de Atlas numa ilha banhada pelas ondas no meio do mar. Ele tenta esquecer Ítaca, a sua terra natal, mas, no fundo, deseja morrer. Zeus tranquiliza Atena, afirmando que nunca poderia esquecer o sábio e corajoso Ulisses, e concorda que este precisa de encontrar o caminho de regresso a casa. Atena sugere que enviem Hermes, o mensageiro dos deuses, para informar Calipso de que está na hora de libertar Odisseu.​

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A mensagem de Hermes para Calipso

No Livro 5 da Odisseia, Atena continua atormentada pela longa provação de Odisseu e pelo facto de ele permanecer cativo na ilha de Calipso. Odisseu está completamente sozinho, sem qualquer forma de regressar a Ítaca, sem barco nem tripulação para o ajudar.

Zeus ordena ao seu filho Hermes que leve a Calipso uma mensagem a dizer que Odisseu deve regressar a Ítaca, mas não com a ajuda dos deuses ou dos mortais, e sim numa jangada rudimentar, na qual demoraria cerca de 20 dias a chegar novamente a terra firme. Hermes obedece a Zeus e parte para a ilha de Ogígia. Hermes encontra Calipso na sua gruta, onde ela canta com uma voz de tirar o fôlego enquanto tece no seu tear. Hermes fica encantado com a beleza de Calipso e com as maravilhas de Ogígia. Calipso reconhece imediatamente Hermes como um companheiro imortal e deus e dá-lhe as boas-vindas, oferecendo-lhe uma cadeira polida para se sentar, ambrosia e néctar de um vermelho intenso.

Deus da vara dourada, por que vieste?
Um amigo querido e honrado,
mas já passou tanto tempo, as tuas visitas são demasiado raras.
Diz-me o que te vai na mente. Estou ansiosa por fazê-lo,
tudo o que puder fazer… tudo o que for possível.

(5.99-102)

​Depois de se ter revigorado com algumas iguarias, Hermes responde às perguntas de Calipso e diz-lhe que está ali por ordem de Zeus; caso contrário, não se teria dado ao trabalho de viajar até à sua ilha isolada. Diz-lhe que a única razão pela qual Odisseu chegou à sua ilha foi o facto dos seus homens terem irritado Atena, que se vingou desencadeando uma tempestade violenta da qual apenas Odisseu saiu ileso. Ele afirma que o destino de Odisseu não é morrer ali, mas regressar a casa para rever os seus entes queridos.

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Hermes and Calypso
Hermes e Calipso John Flaxman (Public Domain)

​Calipso contesta as suas palavras, afirmando que os deuses eram insensíveis e ficavam sempre escandalizados quando uma deusa se deitava com um homem mortal, mesmo quando esse homem era o seu marido, e que agora tinham voltado a sua ira contra ela.

Assim, agora, finalmente, vós, deuses, direis o vosso rancor contra mim
por manter um homem mortal ao meu lado. O homem que salvei,
montado na sua prancha de quilha, sozinho, quando Zeus
com um único lançamento de um raio incandescente esmagou
o seu veloz navio de guerra no mar escuro como o vinho.
Lá morreram todos os seus leais companheiros de tripulação,
mas o vento levou-o adiante, a corrente trouxe-o até aqui.
E eu recebi-o calorosamente, cuidei dele, e até jurei
tornar aquele homem imortal, sem idade, para sempre…

(5.143-151)

​Calipso sabe que tem de obedecer às ordens de Zeus, pois nenhum imortal poderia ir contra os seus desejos. No entanto, ela mandaria Odisseu seguir o seu caminho sozinho e sem um navio ou tripulação para o ajudar. Em vez disso, aconselhá-lo-ia sobre como chegar em segurança a Ítaca. Hermes concorda que seria sensato não desobedecer a Zeus; caso contrário, Zeus descarregaria a sua ira sobre ela.​

Calipso e Odisseu

​Assim que Hermes partiu de Ogígia, Calipso foi à procura de Odisseu e encontrou-o sentado no promontório, a chorar pela sua terra natal e pela sua família. Na escuridão da noite, ele dormia, com relutância, com Calipso no seu palácio-gruta, mas, à luz do dia, sentava-se sozinho na praia e soluçava por tudo o que tinha perdido. Calipso aproxima-se de Odisseu e diz-lhe que já não havia necessidade de chorar e que está finalmente disposta a deixá-lo partir.

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Odysseus Constructs a Raft to Depart the Island of Ogygia
Odisseu Constrói uma Jangada para Partir da Ilha de Ogígia Willem Basse (Public Domain)

​Ela instrui Odisseu a cortar madeira e a construir uma jangada com um convés suficientemente alto para o levar através dos mares agitados, enquanto promete dar-lhe comida, água e o vinho avermelhado de que ele tanto gostava, além de o vestir bem. Um Odisseu exausto hesita em acreditar que Calipso o ajudaria a deixar a ilha e recusa-se a embarcar na jangada até que ela faça um juramento solene de que não o enganará. Calipso jura pelo céu abobadado e pelas águas escuras do Estige que nunca conspiraria para lhe fazer mal e que, se estivesse no lugar dele, planearia a mesma fuga para si própria. Retiram-se para a gruta de Calipso, onde se deliciam com néctar e ambrosia. A astuta Calipso tenta uma última vez convencer Odisseu a ficar com ela:​

Então, ó filho real de Laertes, Odisseu, homem de feitos heróicos,
ainda ansioso por partir imediatamente e regressar apressadamente
para a tua própria casa, a tua amada terra natal?
Boa sorte para ti, mesmo assim. Adeus!
Mas se ao menos soubesses, no fundo do teu coração, que dores
estão destinadas a encher o teu cálice antes de chegares àquela costa.
ficarias aqui mesmo, a reinar na nossa casa comigo
e fosses imortal. Por mais que anseies por ver a tua esposa,
aquela por quem anseias todos os teus dias… e, no entanto,
eu poderia muito bem afirmar que não sou nada menos do que ela,
nem no rosto nem na figura. Não é bem correto, pois não,
que uma mulher mortal rivalize com uma deusa imortal?
Como assim, em constituição física? Em beleza?

(5. 224-237)

Odisseu pede a Calipso que não se zangue com ele e diz-lhe que ela tem razão: Penélope não pode comparar-se à beleza de Calipso, uma vez que Penélope é mortal, enquanto Calipso é imortal e nunca envelhece. Apesar disso, ele anseia mais do que tudo regressar a casa para junto de Penélope. À medida que a noite cai, retiram-se para o fundo da caverna e entregam-se ao amor. Na manhã seguinte, começa o trabalho para levar Odisseu a casa. Calipso dá a Odisseu um machado de bronze e conduz-no até onde as árvores crescem até ao céu. Enquanto Odisseu corta a madeira e constrói uma jangada, Calipso reaparece com verrumas e peças de pano para fazer a vela.

Após quatro dias de trabalho árduo, a jangada está finalmente pronta e Odisseu está pronto para partir de Ogígia. No quinto dia, Calipso dá banho a Odisseu e veste-o com roupas finas e perfumadas. Ela abastece a jangada com vinho, água e carne, e invoca um vento suave para o ajudar a partir.

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Odisseu Relata o Tempo que Passou com Calipso

No Livro 7 da Odisseia, Odisseu relata o tempo que passou com Calipso à rainha Arete da Feácia, depois de ter naufragado mais uma vez. Ele descreve a ilha de Ogígia como situada no alto mar e Calipso como uma «ninfa sedutora» com tranças encantadoras, que, apesar da sua bela aparência, também representa um perigo, razão pela qual tanto os deuses como os mortais não se atrevem a aventurar-se na sua ilha. Antes de chegar a Ogígia, sobreviveu no mar durante nove dias agarrado à quilha do seu navio e, no décimo dia, os deuses entregaram-no a Calipso, que o acolheu por bondade e cuidou dele, oferecendo-se para torná-lo imortal. Mas, apesar da bondade dela e das promessas de imortalidade, ele nunca conseguiu amá-la. Ficou com ela durante sete anos, passando a maior parte dos seus dias a chorar. No oitavo ano, por ordem de Zeus e devido a uma mudança de opinião, ela finalmente deixou-o partir de Ogígia, fornecendo-lhe provisões, ajudando-o a construir uma jangada com madeira da sua ilha e invocando um vento favorável para o pôr a caminho.

Mapa da Viagem de Uma Década de Odisseu para Casa
Mapa da Viagem de Uma Década de Odisseu para Casa Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

As Várias Narrativas

​Embora a Odisseia de Homero seja, de longe, o relato mais famoso do tempo que Odisseu passou com Calipso — e nunca mencione quaisquer filhos —, outras fontes relatam o contrário. De acordo com o erudito e historiador grego Apolodoro (cerca de 180 a.C.), Odisseu e Calipso tiveram um filho chamado Latinus (outras fontes indicam Circe como sua mãe), enquanto na (cerca de 776 a.C.) , ele escreve que Odisseu e Calipso tiveram dois filhos: Nausítous e Nausinous. Embora a aparição de Calipso na «Odisseia» termine com a partida de Odisseu de Ogígia, outras fontes antigas, como as Fabulae do escritor antigo Higino, mencionam que Calipso se suicida por amor a Odisseu depois de ele ter deixado a sua ilha.

O Legado

Tal como Circe, Calipso é frequentemente retratada como uma mulher bela, mas astuta, que inicialmente constitui um obstáculo ao regresso de Odisseu a casa, mas que, no final, acaba por ajudá-lo. O seu amor por Odisseu é uma faca de dois gumes: ela ama-o tanto que não consegue deixá-lo partir da sua ilha, apesar de quanto lhe custa a ele permanecer ali. Odisseu é frequentemente visto como a vítima durante o tempo que passam juntos, enquanto Calipso é vista como a sedutora encantadora que o engana e o mantém refém, longe da sua família e do seu lar. No entanto, a poetisa inglesa Letitia Landon (1802-1838) traçou um retrato mais compreensivo de Calipso no seu poema Calypso Watching the Ocean (década de 1830), no qual descreve de forma belíssima uma Calipso de coração partido, sentada sozinha, a contemplar o oceano, desejando poder chorar ou abandonar a sua ilha solitária.

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Na produção épica de Christopher Nolan, The Odyssey (2026), Calipso é interpretada pela atriz sul-africana e norte-americana de primeira linha Charlize Theron.

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Miate, L. (2026, julho 17). Calipso: A Ninfa que Manteve Prisioneiro Odisseu. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24943/calipso/

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Miate, Liana. "Calipso: A Ninfa que Manteve Prisioneiro Odisseu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24943/calipso/.

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Miate, Liana. "Calipso: A Ninfa que Manteve Prisioneiro Odisseu." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 17 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24943/calipso/.

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