O Período Arcaico da Grécia (cerca de 800-479 a.C.) iniciou-se no que apenas se pode designar por incerteza, e culminou com a expulsão definitiva dos persas do território grego, após as batalhas de Plateias e de Mícale em 479 a.C.
O Período Arcaico é precedido pela Idade das Trevas grega (cerca de 1200-800 a.C.), uma era da qual pouco se conhece, e seguido pelo Período Clássico (cerca de 510-323 a.C.), que é um dos períodos mais bem documentados da história grega, com tragédias, comédias, histórias, casos jurídicos e muito mais que chegaram até nós na forma de fontes literárias e epigráficas. Cada um destes períodos tinha a sua própria identidade cultural distinta, mas, apesar disso, há um certo grau de flexibilidade nas datas atribuídas aos períodos. Trata-se de termos modernos que procuram enquadrar vários aspetos da mutação na cultura grega, os quais de forma alguma ocorreram num ano específico ou em simultâneo.
No Período Arcaico, ocorreram grandes mudanças na língua, sociedade, arte, arquitectura e política gregas. Estas mudanças verificaram-se devido ao aumento da população da Grécia e ao aumento do comércio, o que, por sua vez, levou à colonização e a uma nova era de ideias intelectuais, sendo a mais importante delas (pelo menos para o mundo ocidental moderno) a democracia. Isto faria com que novas transformações culturais se processassem de forma cíclica.
A Política e o Direito
A política de Atenas passou por uma série de mudanças sérias durante o período arcaico, e a primeira mudança foi muito provavelmente para pior, com as leis de Drácon, por volta de 622/621 a.C. (deve-se notar a natureza semi-legendária das leis e do seu homónimo e, em segundo lugar, a natureza semi-legendária da maioria das ocorrências durante os primeiros duzentos anos da era). Como Aristóteles afirmou sobre Drácon, “não há nada de peculiar nas leis que seja digno de menção, exceto a sua severidade em impor punições pesadas” (Política 2.1274b).
O legado da sua infâmia (podiam ser feitos empréstimos com a garantia da própria pessoa) ainda existe na palavra moderna "draconiano". O mais brutal de tudo, porém, eram as penas de morte; Plutarco relata que "diz-se que o próprio Drácon, quando questionado sobre por que tinha decretado a pena de morte para a maioria dos crimes, respondeu que considerava que estes crimes menores a mereciam e que não tinha punição maior para os crimes mais importantes". Embora Aristóteles comente que não havia nada de especial nas leis, o importante é que, pela primeira vez em Atenas, as leis foram escritas para que todos pudessem ver e ler (para aqueles que sabiam ler).
As próximas grandes mudanças foram provocadas por Sólon (cerca de 594 a.C.), cuja autenticidade histórica é mais certa do que a de Drácon, devido a fragmentos da sua poesia que Plutarco relata como ainda existentes no seu tempo. As suas mudanças na lei ateniense foram as primeiras a dar às classes mais baixas uma oportunidade mais justa — no entanto, as posições de poder ainda estavam disponíveis apenas para aqueles que possuíam riqueza. Sólon abordou os efeitos da desigualdade de classes, contudo não as suas causas. A mudança mais notável implementada por Sólon foi a seisachtheia, a «libertação dos fardos». Este decreto cancelou as dívidas, baniu a utilização da própria pessoa como garantia para empréstimos e decretou o regresso de todos aqueles que tinham sido vendidos como escravos, bem como daqueles que tinham fugido para escapar a tal destino.
Sólon reformou as medidas e os pesos, introduziu o direito de recurso por terceiros, entre outros desenvolvimentos. Para não ser pressionado a alterar estas leis, Sólon deixou Atenas por uma década (segundo Heródoto) e foi para o Egito, onde escreveu poemas políticos.
Foi apenas após o consulado de Sólon que se começou a desenvolver em Atenas um sentido consciente de democracia; uma evolução que pode ser interpretada tanto como um fenómeno social quanto como um fenómeno político e institucional. A partir de então, as transformações sucederam-se a um ritmo vertiginoso. A era dos tiranos, inaugurada com Drácon, estava prestes a findar, embora os Pisistrátidas não estivessem dispostos a permiti-lo sem resistência.
Os Pisistrátidas foram uma curta linhagem de tiranos atenienses que teve início com Pisístrato, devendo notar-se que o termo "tirano", durante este período, não possuía as conotações negativas que detém hoje. Na verdade, Pisístrato não foi um governante draconiano, mas sim alguém que nutria uma certa simpatia pelas classes mais desfavorecidas de Atenas. Aristóteles oferece um relato detalhado dos acontecimentos que se seguiram. Após o falecimento de Pisístrato, os seus filhos, Hípias e Hiparco, mantiveram a tirania até serem alvo de uma conspiração urdida por Harmódio e Aristógito.
Clístenes ascendeu ao poder no vazio político deixado após os tiranicidas e é célebre por ter introduzido a isonomia (igualdade perante a lei) em Atenas. Logrou este objetivo através de diversas reformas que reduziram a importância da ascendência aristocrática. A reforma mais profunda de Clístenes incidiu sobre o sistema tribal de Atenas. Antes da sua intervenção, existiam quatro tribos (baseadas em laços familiares); Clístenes alterou este número para dez tribos, cada uma constituída por um subsistema algo complexo.
As tribos eram formadas por um conjunto de demes ([demos], semelhantes ao sistema de paróquia; pequenas localidades de residência) que, por sua vez, eram colocadas numa das trinta trittyes (tritias), "terços" (três por tribo); um deme estaria numa das três regiões, dependendo da sua localização: a costa, a cidade ou o interior. Os trittyes eram , portanto, uma amalgamação de dez demes de cada uma das três regiões; cada tribo tinha, portanto, três trittyes, um composto por demes da cidade, um com demes da costa e um com demes do interior. Além disso, os atenienses cessavam de usar o "sobrenome" do pai, passando a usar o do deme. Tudo isso significava que os laços familiares, as tradições e as lealdades que tinham causado atritos políticos anteriores (e levado, de certa forma, às tiranias dos Pisistrátidas) tinham sido rompidos. Foi também durante o tempo de Clístenes que muitos cargos oficiais atenienses começaram a ser selecionados por sorteio. Aristóteles e Heródoto descrevem estes eventos com bastante detalhes.
A Arte e a Arquitectura
A arte e a arquitectura do Período Arcaico também sofreram várias reformulações; o estilo geométrico anterior foi substituído por um estilo orientalizante, que por sua vez foi substituído pela cerâmica de figuras negras. A cerâmica de figuras negras começou a ser usada em Corinto por volta de 700 a.C., mas o primeiro exemplo assinado data de cerca de 570 a.C., quando a cerâmica de figuras negras do Ático estava no seu apogeu (cerca de 630-480 a.C.) e é da autoria de Sófilos. À medida que esta técnica foi sendo desenvolvida e explorada, deu lugar à cerâmica de figuras vermelhas, que começou a desenvolver-se por volta de 530 a.C.
Foi também durante esse período que fora feitas muitas mudanças e desenvolvimentos na construção de templos. A primeira fase do Heraion de Samos foi edificada em meados do século VIII a.C., embora a sua reencarnação final, que permaneceria inacabada, só tenha sido iniciada por volta de 530 a.C. Muitas mudanças ocorreram até então. O Heraion em Olímpia, construído por volta de 600 a.C., foi o primeiro templo a ter um estilóbato e um soco de parede em pedra, mas ainda era construído com colunas de madeira, uma das quais ainda existia na época de Pausânias. Hoje, os vestígios desse desenvolvimento podem ser vistos nos diferentes tamanhos e estilos das colunas dóricas de pedra do templo, uma vez que foram criadas por diferentes mãos em diferentes épocas, a fim de substituir as colunas de madeira conforme necessário.
O Artemisão de Corcira (cerca de 580/570 a.C.) foi o primeiro templo grego a possuir um entablamento em pedra; por sua vez, o Templo de Apolo (cerca de 580-550 a.C.) em Siracusa é hoje conhecido como a Catedral de Siracusa, sendo o edifício individual com a mais longa utilização ininterrupta enquanto solo sagrado, neste caso, desde as suas origens arcaicas. A era dos tiranos também pode ser testemunhada num templo específico, neste caso, não relacionado aos tiranos de Atenas, mas aos de Samos, nomeadamente Polícrates (cerca de 540-520 a.C.), que encomendou a quarta fase do Heraion de Samos. O desenvolvimento das relações internacionais da Grécia também pode ser testemunhado desta forma, com o Rei Creso a dedicar uma coluna do Templo de Ártemis, em Éfeso, a qual ainda hoje conserva a sua marca.
Os Jogos Pan-helénicos
Foi durante o Período Arcaico que se fundaram os quatro grandes jogos pan-helénicos da Grécia. Em 776 a.C., os Jogos Olímpicos foram tradicionalmente iniciados por Héracles e Pélops (cuja influência é visível na decoração escultórica do Templo de Zeus de época clássica). Já em Delfos (sede dos Jogos Píticos) as competições atléticas tinham lugar desde cerca de 586 a.C. Por sua vez, os Jogos Ístmicos, de caráter pan-helénico, foram fundados em Corinto por volta de 581 a.C. O último dos "quatro grandes" a ser instituído foi o dos Jogos Nemeus, cerca de 573 a.C.
Contudo, na tradição arcaica comum, cada um destes jogos era envolvido pelo seu próprio mito de fundação, e não apenas os Olímpicos. Os Jogos Píticos, que originalmente consistiam apenas em competições de música e dança, teriam sido fundados pelo próprio Apolo (segundo Píndaro); os Jogos Ístmicos (segundo Pausânias), pelo lendário rei de Corinto, Sísifo; e os Jogos Nemeus, após Héracles ter morto o leão de Nemeia. Mas quando pensamos na vitória nos jogos, há um nome que se destaca, e não é o de um vencedor, mas de um poeta, Píndaro, que compôs entre cerca de 500 e 446 a.C., as Odes Píticas e outras em honra dos diversos vencedores dos jogos.
O Alfabeto e a Literatura
De Homero e Hesíodo a Píndaro e Ésquilo, o Período Arcaico passou por um vasto desenvolvimento no campo da literatura grega e também da língua, com o desenvolvimento do primeiro alfabeto grego; que se desenvolveu a partir do alfabeto fenício e é, em si mesmo, uma homenagem ao aumento do comércio e da exploração no período que tornou possível esse intercâmbio cultural: a escrita grega mais antiga data de cerca de 750 a.C. No entanto, apesar do desenvolvimento do alfabeto grego, a tradição oral de composição e transmissão poética ainda era o método usado por Hesíodo e Homero; foi somente por volta de 670 a.C., durante o governo de Pisístrato, que se tentou criar uma versão definitiva da Ilíada e da Odisseia.
O final do período arcaico legou-nos também uma literatura igualmente influente, talvez menos conhecida, mas que preparou o terreno para os dramaturgos e comediógrafos do período clássico. O ano de 535 a.C. marcou o primeiro festival dramático em Atenas e, em 485 a.C., foi introduzida a comédia; um ano depois, Ésquilo vencia o seu primeiro concurso dramático em Atenas, embora a sua obra Os Persas só tenha sido composta em 472 a.C.
Guerras Médicas
As Guerras Médicas, porventura o conjunto de acontecimentos mais influentes do período arcaico, aos quais seria impossível fazer justiça nestas linhas, tiveram o seu início com a revolta jónica das colónias e colonatos gregos na Ásia Menor contra o Império Persa. Este levantamento motivou a retaliação de Dário I, que invadiu a Grécia, tendo fracassado na Batalha de Maratona em 490 a.C. Tal ofensiva seria mais tarde vingada por Xerxes numa segunda invasão, o qual foi finalmente expulso graças às vitórias combinadas em Plateias e Mícale, embora apenas após as igualmente célebres batalhas das Termópilas e de Salamina. A vitória em Salamina foi alcançada pela frota que Temístocles persuadira os atenienses a construir com a prata das minas de Láurio; prata essa que continuaria a ser vitalmente importante durante o Período Clássico.
Contudo, estas guerras acarretaram perdas: o saque da acrópole e da ágora atenienses, a morte de Leónidas e, por fim, a liberdade dos tributários jónicos perante Atenas, à medida que a Liga de Delos se transmutava na Liga Ateniense. A diferença reside no facto de que, no Período Arcaico, houve guerra com a Pérsia; no Período Clássico, diplomacia.
O Período Arcaico é, portanto, um período de tempo altamente importante por si só, mas também é altamente importante para contextualizar os eventos do Período Clássico. No entanto, esta definição abrange apenas alguns dos muitos eventos e desenvolvimentos e cobre alguns deles apenas brevemente: o Período Arcaico é talvez o mais rico e complicado da história grega.

