Cesareia Marítima foi uma cidade construída há mais de 2.000 anos (cerca de 22-10 a.C.) na costa do Mediterrâneo Oriental, por Herodes, o Grande (r. 37-4 a.C.), com a engenharia e a generosidade romanas: uma metrópole inteira com um colossal porto que faria de Cesareia o oásis de comércio marítimo da época.
Os Primórdios
Dedicando a cidade a Augusto (reinou 27 a.C. a 14 d.C.), a área escolhida para construir foi o local habitacional da cidade-estado fenícia de Sídon; especializada em produtos de vidro, vestuário bordado e famosa pelo tecido tingido de púrpura, Sídon teria percebido o potencial do local em relação ao comércio com o Oriente e as grandes nações do Mediterrâneo. Presumivelmente nomeado em homenagem ao Rei Estratão I (reinou 365-352 a.C.) de Sídon, o local era conhecido como Torre de Estratão. A norte do Egito e equidistante entre Gaza e Sídon (120 km para cada lado), ficava no meio das rotas marítimas e comerciais.
Da descrição dada por Flávio Josefo (36-100 d.C.) e outros escritores antigos, não se sabe se a "Torre" de Estratão era um farol, um armazém ou talvez um silo de grãos, já que Sídon transportava mercadorias brutas e a Torre de Estratão ficava na rota comercial "fenícia-egípcia há muito estabelecida" (Bull, pág. 26). Curiosamente, silos recentemente encontrados no Egito, datados de cerca de 1600 a.C., têm até 6,5 metros (21 pés) de diâmetro, sugerindo uma altura considerável. De qualquer forma, como a Torre de Estratão era conhecida por ser uma vila comercial, Estratão (cerca de 63 a.C. a 24 d.C.) também relata que tinha a sua própria "estação para embarcações" (Geografia,16.2.27).
Anteriormente, fornecendo embarcações e mercadorias para o Império Persa, com a derrota da Pérsia por Alexandre, o Grande, em 332 a.C, Sídon começou a decair. Pouco depois da morte de Alexandre, um dos seus generais, Seleuco I Nicátor (reinou 305-281 a.C.), iniciou a conquista grega dos territórios do antigo Império Aqueménida, incluindo a Fenícia. Hoje, nas ruínas de Cesareia, os arqueólogos encontraram cerâmica e moedas helenísticas que datam dos últimos dois séculos a.C. Ademais, são datadas do mesmo período evidências de uma fortificação pré-herodiana associada a uma presença helenística. Tais descobertas sugerem uma presença relativamente breve do Império Selêucida na Torre de Estratão. A área foi então capturada pelo rei Hasmoneu Alexandre Janeu em 103 a.C. Durante a República Romana tardia, Pompeu, o Grande (106-48 a.C.), anexou-a à província da Síria, e a seguir Otaviano deu-a a Herodes em 30 a.C..
A Cidade de Herodes
Construída sobre as ruínas da região, após a inauguração e dedicada a Augusto por Herodes em 13/12 a.C., Cesareia tornou-se uma cidade cosmopolita de judeus, cristãos, samaritanos, gregos e sírios vivendo cada um nos seus bairros. Dentro das muralhas originais, a cidade tinha 164 acres, mas durante a Pax Romana a cidade expandiu-se para muito além da muralha herodiana original, quando as legiões romanas nas fronteiras do Império Romano tornaram a muralha protetora desnecessária. Com uma expansão urbana de 8 km de comprimento e mais de 3 km para o interior, Cesareia, no seu auge, tornou-se a casa de dezenas de milhares de habitantes.
Embora normalmente se pense no crescimento de uma cidade em termos de expansão e desenvolvimento incrementais, é notável que a infraestrutura de Cesareia Marítima tenha sido construída pronta para habitação. Contudo, como era habitual no programa de construção de Herodes, o Grande, Cesareia foi uma construção dispendiosa. Flávio Josefo, um historiador confiável e testemunha ocular da época, descreve o esplendor da cidade, cujos edifícios foram construídos com "pedra branca" e a cidade foi "adornada com vários esplêndidos palácios" (A Guerra dos Judeus, 1.21.5-6; Antiguidades Judaicas, 15.9.6). A residência de Herodes foi talvez a mais esplêndida de todas; nomeada de Palácio do Promontório pelos arquólogos modernos, por se situar num promontório com vista para o mar, o nível inferior ostentava um grande pátio interior com uma piscina igualmente grande.
Edifícios que pontuavam a vista do horizonte também teriam incluído um hipódromo para corridas de bigas, um anfiteatro para eventos desportivos como boxe e luta livre, e um teatro mais pequeno para as artes, que ainda hoje é usado. No entanto, uma das estruturas mais visíveis teria sido o templo, justaposto entre a cidade e o porto de Herodes, com colunas coríntias ornamentadas, o templo erguia-se a quase 30 metros (100 pés) de altura. Como o templo estava ligava à retícula da cidade, o Cardo Maximus era a principal via. Em comparação com uma autoestrada moderna de 12 metros (38 pés) de largura, o Cardo Maximus tinha 16 metros (54 pés) de largura. Com quase 1,5 quilómetros (1 milha) de comprimento, era ladeado por mosaicos e impressionantemente alinhado com 700 colunas, certamente do tipo coríntio. No sopé do templo, servindo a cidade, ficava o porto colossal.
O Porto
Uma vez que o comércio entre as nações costeiras do Mediterrâneo era feito, em grande parte, por via marítima, o porto de Cesareia era um braço essencial que servia a cidade. Além disso, embora a cidade tenha sido construída principalmente por causa do comércio no mundo romano, serviu, igualmente, os interesses militares de Roma. Consequentemente, o porto artificial, sem uma baía natural ou promontório para construir, foi edificado como uma fortaleza no mar. Apoiando uma superestrutura de torres e ameias, com blocos que pesavam até 50 toneladas, os molhes, dispostos circularmente, abrigavam quase 40 acres de água. Em comparação, o porto de tamanho médio de Leptis Magna, melhorado pelo imperador romano Septímio Severo (reinou 193-211 d.C.) no final do século II, tinha 25 acres. Desta forma, o Porto de Herodes, parece ter sido construído para receber grandes quantidades de mercadorias. Embarcações de todos os tipos e tamanhos navegavam no porto: desde embarcações de guerra usados na guerra naval romana a enormes embarcações de transporte de cereais e grandes transportadores de pedra e vinho, até às galés mercantes mais pequenas.
O farol teria sido o ponto focal para os navegadores, de dia ou de noite. Ao entrar no porto, os embarcações recolhiam as velas e e dependiam dos remos para navegar na entrada. Dependendo das condições do vento e das ondas, um sistema de cordas e rebocadores pode, às vezes, ter ajudado as embarcações a passar pela entrada. O capitão do porto garantiria que as embarcações fossem enviadas para os locais de atracagem corretos, rebocadas se necessário, e adequadamente amarradas ao cais. O carregamento e descarregamento dos cais envolveriam estivadores, carroças e guindastes, com um mestre do porto a supervisionar todas as atividades, incluindo a entrada das embarcações, e depois das embarcações estarem carregadas e prontas para zarpar, aprovaria a saída, também teria sido responsável pela importantíssima cobrança de taxas portuárias e impostos. Igualmente, crítica teria sido a supervisão contabilística, que envolvia a comparação dos registos entre as transações comerciais na cidade e o fluxo de mercadorias no porto.
O Comércio
As lucrativas rotas da seda do norte, que passavam pela Mesopotâmia, eram controladas pelo maior rival de Roma: a Pártia. Assim, o propósito de Cesareia era controlar a rede de comércio oriental da Roma antiga, que incluía as rotas terrestres de leste-oeste através da Arábia e as rotas marítimas via Mar Vermelho, monopolizando, assim, o comércio do Mediterrâneo oriental em geral.
Localizada a norte de Alexandria e a sul de Tiro, a localização do complexo cidade/porto em relação ao tráfego comercial revela um projeto proposital visando a obtenção de receita. O fluxo substancial de mercadorias orientais a viajar para oeste, em direção à costa do Mediterrâneo oriental, e o movimento geral no sentido anti-horário do tráfego de embarcações no Mediterrâneo fizeram do porto uma porta de entrada para o oeste. Os produtos da Índia e da Indonésia viajavam para oeste, depois para noroeste via Mar Arábico e Mar Vermelho. As mercadorias do Egito e da África teriam viajado para o norte pela costa oriental para distribuição, e depois para o oeste por todo o Mediterrâneo. Da mesma forma, como o porto de Cesareia era conveniente para embarcações vazias ou carregadas em trânsito pelo Mediterrâneo e para embarcações carregadas movendo-se para o norte de Alexandria, Cesareia também negociava com Gaza, que recebia mercadorias da África, da Arábia, da Índia e da Indonésia, sendo as mais lucrativas a pimenta e o incenso.
Relativamente a Gaza, é importante notar que, embora Trajano (reinou 98-107) tenha conquistado Petra em 106 d.C., Augusto tinha concedido Gaza a Herodes há 136 anos. Assim, Cesareia não só possuía os mercados de Gaza e cooperava com Alexandria, como também teria controlado os fluxos comerciais de Petra devido à sua localização na rota para Gaza. De facto, o incenso era transportado de Petra por estrada até Gaza. Ao deter Gaza, com os seus mercados diversificados, Cesareia foi colocada numa posição para dominar não apenas o comércio marítimo, mas também o comércio terrestre para cidades de consumo no interior, como Bostra, Samaria e Jerusalém.
À medida que o império se expandia, uma série de cenários comerciais incluiriam a movimentação de materiais de construção, armas e militares para as cidades e outras vilas no extremo leste do Mediterrâneo. As várias formas como Cesareia, também, poderia ter gerado receita incluiriam: taxas portuárias e aduaneiras; receita do controlo e comércio provenientes de operações mineiras; taxas de serviço de transporte de mercadorias; a própria compra e venda de mercadorias a granel e refinadas; o reprocessamento de mercadorias provenientes do leste e do norte, e dinheiro economizado por possuir a sua própria frota de cargueiros. Além disso, no que diz respeito à mineração e à produção ou importação da liga crítica, o bronze, Robert Bull resume:
No ano 6, os romanos fazem de Cesareia a sede da administração provincial, os procuradores romanos, que residiam em Cesareia, estavam encarregados de receber os impostos, supervisionar os assuntos civis e recrutar pessoal da população local para servir como legionários auxiliares. As tropas eram pagas em moedas de bronze cunhadas numa casa da moeda em Cesareia, licenciada por Roma. As moedas também eram usadas como meio de troca na economia em rápido desenvolvimento da área. (pág. 27)
Capital Provincial
No ano 6, após a morte de Herodes, o palácio de Herodes "tornou-se a residência oficial do governador romano, o reino tornou-se uma província romana com Cesareia como principal porto e capital administrativa" (Burrell, pág. 56). Depois, quando a Grande Revolta Judaica de 66 foi esmagada pelos soldados romanos guarnecidos em Cesareia, Vespasiano elevou a cidade ao estatuto de colónia romana. Mais tarde, quando a segunda Revolta Judaica, também conhecida como a Revolta de Bar-Kochba (132-136), terminou com a destruição de Jerusalém, o governador provincial da Judeia foi elevado ao posto de senador, e Cesareia tornou-se a capital da província romana da Síria-Palestina. É evidente com a recente descoberta a contínua presença romana no palácio de Herodes de "dois pedestais em forma de coluna com inscrições em homenagem a quatro procuradores romanos que datam do século II ao início do século IV." (Burrell, pág. 57).
De acordo com o Novo Testamento, como parte da primeira seita cristã em Cesareia, Filipe, o evangelista, esteve lá; Pedro pregou; e Paulo, o Apóstolo, esteve preso antes do julgamento em Roma. Depois disto, pouco se sabe sobre o cristianismo primitivo em Cesareia até que no início do século III, emergiu uma presença significativa refletida no estabelecimento de uma grande biblioteca de 30.000 volumes pelo teólogo Orígenes (cerca de 185-253), usada por Eusébio (morreu 339), o historiador da igreja, que escreveu e supervisionou o pedido de Constantino I (reinou 306-337) de 50 cópias da Bíblia no scriptorium (sala de copistas) de Cesareia.
Da mesma forma, por volta da mesma época, embora os judeus tivessem sido dizimados em Cesareia, a sua ressurreição cultural ocorreu com o estabelecimento de uma escola para o estudo do judaísmo pelo Rabino Hoshaiah, que morreu em 250, tendo produzido vários professores notáveis, incluindo o Rabino Abbahu. A presença e a ressurreição judaica em Cesareia também são indicadas pela construção de uma sinagoga datada do século IV, construída sobre o local de uma casa-sinagoga que remonta ao período herodiano, o local foi usado até meados do século IV, e em meados do século V, construíu-se uma nova sobre as ruínas.
Evidências adicionais da diversidade religiosa em Cesareia surgiram com a descoberta surpreendente do único Mitreu encontrado em Israel. A descoberta começou com a escavação de um edifício romano do século III d.C. chamado Pórtico Honorífico. O local revelou colunas curtas com inscrições em homenagem a notáveis militares, sobre as quais presumivelmente se encontravam estátuas com as suas semelhanças.
Contudo, uma escavação posterior revelou que o edifício dava acesso e tinha sido erguido sobre um Mitreu localizado por baixo. Com um foco único no Deus Mitra, um único salvador/deus da luz e da verdade retratado nas literaturas indiana e persa antiga, o Mitraísmo, que também se tornou popular no exército romano, envolvia uma sociedade secreta apenas para homens que exigia rigorosos ritos de iniciação. Os romanos tinham convertido uma das abóbadas de um armazém subterrâneo de Herodes num espaço para a prática dos ritos do culto, com um altar, bancos e frescos da vida de Mitra.
História Posterior
Embora os registos literários sobre Cesareia Marítima após o século IV sejam escassos, a evidência material da presença bizantina surge sob a forma de uma muralha fortificada bizantina, mais longa do que a original muralha herodiana. O facto desta muralha ter protegido, pelo menos em parte, a área suburbana expandida de Cesareia indica uma continuação da atividade urbana. A Expedição Conjunta a Cesareia encontrou uma estrutura bizantina que se pensa fazer parte de um complexo municipal maior, situado ao longo do Cardo Maximus original, havia um edifício denominado Edifício do Arquivo. Uma vez que o mosaico era um meio de arte bizantina particularmente popular, foram encontrados, juntamente com pisos de mosaico que datam do período bizantino, inscrições em mosaico que citam versículos do Novo Testamento.
Embora os Persas do Império Sassânida tenham conquistado a cidade em 614 e o imperador bizantino Heráclio a tenha retomado em 627-628, refletindo a queda de Cesareia como um município próspero e empreendimento comercial, Bull acredita que o Edifício do Arquivo foi destruído em 639/640 como parte da conquista islâmica de todo o Médio Oriente e do Norte de África. Desta forma, cortado o vínculo com o ocidente, com a rede comercial diminuída e o porto disfuncional, as ruínas finais desta outrora magnífica metrópole tornaram-se uma pedreira, à medida que os agricultores queimavam estátuas e mármore para obter cal, e blocos de pedra e mármore eram levados para a construção de cidades noutros lugares.
No entanto, após a devastação do século VII, embora nunca mais tenha desempenhado um papel importante na rede mais vasta do comércio do Mediterrâneo, Cesareia experienciou uma oscilação entre a restauração e a ruína.
Durante os séculos anteriores às Cruzadas, sob o domínio árabe, o local iniciou uma lenta recuperação, passando dum distrito agrícola sob o Califado Rashidun para uma fortaleza muçulmana que protegia uma área vibrante. Nasir Khusraw, o poeta e viajante persa, descreve em 1047, no seu Livro de Viagens, [Safarnāma (em persa: سفرنامه)] um lugar de jardins exuberantes e fontes. William of Tyre (1130-1186) também menciona a tomada da mesma fortaleza com máquinas de cerco por Balduíno I (História, 10:15). Embora diminutos em comparação com as fortificações herodianas e bizantinas originais, os Cruzados ergueram uma muralha fortificada adjacente ao porto diminuído, e ocuparam-na em batalha com as forças muçulmanas de 1101 a 1187 e novamente de 1191 a 1265. Como menciona Bull:
Apesar das ruínas das Cruzadas terem estruturas que datam do início das Cruzadas, os proeminentes vestígios visíveis hoje em dia - o fosso, a escarpa, a cidadela e as muralhas que contêm cerca de dezasseis torres - datam de 1251, quando o Rei Luís IX de França passou um ano inteiro a restaurar as fortificações. (pág. 33)
Por fim, a partir da altura em que os Mamelucos retomaram a fortificação dos Cruzados em 1265, destruindo os vestígios da sua presença, acredita-se que a área voltou a ficar desabitada até ser escassamente repovoada pelo Império Otomano em meados do século XVII e início do século XIX.
Em tempos modernos, em 1884, os refugiados muçulmanos da ocupação austro-húngara da Bósnia estabeleceram uma pequena colónia sobre os restos da cidade dos Cruzados, e a mesquita ainda pode ser vista dentro das muralhas dos Cruzados. Embora tenha permanecido uma vila com uma mistura de habitantes maioritariamente muçulmanos e alguns cristãos no século XX, após o conflito árabe-israelita de 1948, o município de Cesareia foi transferido aproximadamente 2 quilómetros para o norte das ruínas antigas.
Hoje, no local original junto ao mar, enquanto continuam os estudos arqueológicos, o Parque Nacional de Cesareia é um importante destino turístico em Israel. Estabelecido em 2011, está incluído na lista do Patrimónios Mundiais Tentativos. Em comemoração da história lendária de Cesareia, com obras de restauração em curso e uma oferta de exposições arqueológicas e históricas, em 2022 o parque foi visitado por 670.000 pessoas.

