Manuscritos iluminados eram livros feitos à mão, geralmente sobre escrituras ou práticas cristãs, produzidos na Europa Ocidental entre cerca de 500 e 1600. São assim chamados devido ao uso de ouro e prata que iluminam o texto e as ilustrações que o acompanham. A sua produção gradualmente desapareceu após a invenção da imprensa.
Embora artesãos muçulmanos também usassem essa técnica para ornamentar seus livros, o termo "manuscritos iluminados" é mais comumente usado para se referir às obras produzidas na Europa sobre temas cristãos. No entanto, a poesia e os mitos de autores pré-cristãos, como Virgílio, às vezes também eram iluminados.
Manuscritos iluminados feitos à mão eram inicialmente produzidos por monges em abadias, mas, à medida que se tornaram mais populares, a produção foi comercializada e assumida por encadernadores seculares. Os manuscritos iluminados eram bastante caros de produzir e apenas aqueles com recursos financeiros consideráveis podiam adquiri-los.
O tipo mais popular era o “Livro de Horas”, que era uma devoção cristã de orações a serem recitadas em determinados horários ao longo do dia. Mais Livros de Horas sobreviveram do que qualquer outra obra do período simplesmente porque foram produzidos em maior número. A invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, por volta de 1440, marcou o início do fim dos livros feitos à mão em geral e dos manuscritos iluminados em particular.
Uma Breve História dos Livros
A palavra escrita foi inventada na Suméria, sul da Mesopotâmia, por volta de 3.500-3.000 a.C., onde tabuletas de argila eram usadas para transmitir informações. Os egípcios começaram a usar rolos de papiro no Período Dinástico Precoce (cerca de 3150-c. 2613 a.C.), que foram adotados pelos gregos e romanos, embora estes dois últimos também tenham começado a usar tabuletas de madeira cobertas com cera. Várias dessas tabuletas poderiam ser unidas entre tampas de madeira ou metal para formar um único volume; a isto foi chamado de códice e substituiu o rolo de papiro na região do Mediterrâneo, em torno de 400.
O papel foi inventado na China por Ts'ai Lun (também conhecido como Cai Lun, 50-121 d.C.) durante a Dinastia Han, em torno de 105, e foi introduzido no mundo árabe por mercadores chineses no século VII. As cidades de Bagdá e Damasco, especialmente, tornaram-se importantes centros de produção de papel e livros e escritores muçulmanos começaram a produzir obras originais de literatura e poesia, bem como tratados sobre matemática, ciências, astrologia e filosofia.
Eles também fizeram cópias extensas de filósofos ocidentais, como Aristóteles (384-322 a.C.), preservando várias obras muito antes delas serem apreciadas no Ocidente. Os artesãos muçulmanos decoravam seus livros com bordas e ilustrações elaboradas e estes são frequentemente definidos como manuscritos iluminados.
Na Europa, porém, a aceitação do papel ainda estava a séculos de distância. Os chineses já usavam papel há quase um século, quando os povos da Ásia Menor desenvolveram superfícies de escrita feitas de peles de animais (ovelhas ou cabras) que eram embebidas em água, raspadas para remover pelos, esticadas em molduras de madeira para secar e depois branqueadas com cal; o produto acabado ficou conhecido como pergaminho.
O pergaminho feito de pele de bezerro era chamado de velino (velum em latim), era de qualidade muito superior como superfície de escrita e, portanto, tornou-se mais popular. Os monges europeus preferiam o velino e este se tornou o material padrão para as obras que se tornariam conhecidas como manuscritos iluminados. O papel e o papiro eram considerados não-cristãos pela igreja medieval e o seu uso era desencorajado, pois esses materiais haviam sido usados por escritores pagãos no passado e eram usados por “hereges” do Oriente nesta época. O papel não seria aceito pelos europeus até o século XI.
COMO ELES FORAM FEITOS
À medida que os livros se tornaram mais populares, foram produzidos por comerciantes seculares e vendidos em livrarias e lojas. Inicialmente, porém, eles foram feitos por monges em mosteiros, abadias e priorados, provavelmente primeiro na Irlanda e depois na Grã-Bretanha e no continente.
Cada mosteiro era obrigado a ter uma biblioteca de acordo com as regras de São Bento, do século VI. Alguns livros, sem dúvida, chegaram com os monges que vieram morar lá, mas a maioria foi produzida no local por monges conhecidos como scriptores em salas chamadas scriptoriums. Do século V ao XIII, os mosteiros foram os únicos produtores de livros. O scriptorium era uma grande sala com cadeiras de madeira e escrivaninhas inclinadas para cima para acomodar páginas manuscritas. Os monges estavam envolvidos em todos os aspectos da produção de um livro, desde o processamento do velino até o produto final.
Um diretor distribuía páginas para serem feitas aos monges presentes e depois ficava para supervisionar e manter a regra do silêncio. Os escribas trabalhavam apenas durante o dia e não podiam ter velas ou lâmpadas perto dos manuscritos por medo do fogo. O diretor garantiria que os monges permanecessem trabalhando, em silêncio, e continuassem até que suas páginas terminassem. Um monge raramente trabalhava em uma página até o fim, já que eram trocadas com outras pessoas na sala.
Um monge começaria cortando uma folha de pergaminho no tamanho apropriado. Essa prática ditaria o formato dos livros até os dias de hoje, mais longos do que largos. Depois que a folha de pergaminho fosse preparada, linhas seriam traçadas para o texto e espaços em branco seriam deixados abertos para ilustrações.
O texto era escrito primeiro em tinta preta (ou dourada ou outra cor apropriada ao assunto) entre as linhas pautadas da página e depois era entregue a outro monge para correção de erros; este segundo monge – ou talvez um terceiro – acrescentaria então títulos em tinta azul ou vermelha e depois passaria a página ao iluminador que acrescentaria imagens, cores e a iluminação dourada necessária. Os monges escreviam com canetas de pena e ferro fervido, casca de árvore e nozes para fazer tinta preta; outras cores de tinta foram produzidas pela moagem e fervura de diferentes produtos químicos naturais e plantas.
O trabalho era longo e tedioso, realizado no silêncio de salas iluminadas apenas por janelas estreitas, frias no inverno e abafadas nos dias mais quentes. Esperava-se que um monge scriptore aparecesse para trabalhar, independentemente do clima, do estado de saúde ou do interesse em um projeto. Fica claro, pelos breves comentários escritos em algumas páginas, que os monges nem sempre estavam satisfeitos com os seus deveres.
A estudiosa Giulia Bologna observa quantos manuscritos incluem pequenas anotações escritas nas margens, como “Esta página não foi copiada lentamente”, “Não me sinto bem hoje”, “Este velino é certamente peludo” e uma longa observação sobre ter que ficar sentado por horas curvado sobre uma escrivaninha: “Três dedos escrevem, mas o corpo inteiro trabalha. Assim como o marinheiro anseia pelo porto, o escritor anseia pela última linha” (37).
Os Primeiros Manuscritos Iluminados
As obras de pergaminho da Europa tornaram-se a definição padrão de um livro durante séculos. A palavra livro vem do inglês antigo boc, que significa “documento escrito” ou “folha escrita” e os textos produzidos em pergaminho com o tempo passaram a ser decorados com floreios e ilustrações. O manuscrito iluminado mais antigo é o Vergilius Augusteus, do século IV, que existe em sete páginas do que deve ter sido um livro muito maior com as obras de Virgílio.
Não é tecnicamente um manuscrito iluminado porque não utiliza ouro, prata ou quaisquer ilustrações coloridas, mas é a obra europeia mais antiga que utiliza letras maiúsculas decoradas no início de cada página - uma prática que viria a definir os manuscritos iluminados.
No século V, a Ilíada Ambrosiana, um manuscrito iluminado da obra de Homero, foi concluída, provavelmente em Constantinopla. Esta obra é ricamente ilustrada e a técnica utilizada parece ter influenciado artesãos posteriores. Os Evangelhos de Santo Agostinho, do século VI, outra obra iluminada, mostram semelhanças com a Ilíada anterior. Os Evangelhos de Santo Agostinho são cópia dos quatro evangelhos traduzidos por São Jerônimo e já foram completamente ilustrados, mas muitas das peças foram perdidas com o tempo.
Um dos mais impressionantes dos primeiros manuscritos iluminados é o Codex Argenteus ("Livro de Prata") do século VI, que é cópia da tradução da 'Bíblia do Bispo Ulfilas' (cerca do século IV) para a língua gótica. As páginas de pergaminho foram tingidas de roxo, para denotar o assunto elevado, e a obra foi escrita e ilustrada em tinta prateada e dourada. É comumente aceito que o livro foi produzido para o rei gótico Teodorico, o Grande (reinou 493-526) na Itália.
MANUSCRITOS ILUMINADOS FAMOSOS
As maiores obras foram criadas entre os séculos VII e XVI, quando os fundamentos da ilustração e da decoração foram dominados e aperfeiçoados. Dentre essas obras, a mais conhecida é o Livro de Kells, atualmente no Trinity College, Dublin, Irlanda, criado por volta do ano de 800.
O Livro de Kells foi produzido por monges da ordem de São Columba de Iona, na Escócia, mas exatamente onde foi feito é incerto. As teorias sobre a sua composição vão desde a sua criação na ilha de Iona, até Kells na Irlanda, ou até Lindisfarne na Grã-Bretanha. Provavelmente foi criado, pelo menos em parte, em Iona e depois trazido para Kells para mantê-lo protegido dos invasores vikings que atacaram Iona pela primeira vez em 795, logo após seu ataque ao Priorado de Lindisfarne, na Grã-Bretanha.
Um ataque viking em 806 matou 68 monges em Iona e fez com que os sobreviventes abandonassem a abadia em favor de outra de sua ordem em Kells. É provável que o Livro de Kells tenha viajado com eles nesta época e tenha sido concluído na Irlanda. A grandeza desta obra é justamente elogiada, mas deve-se notar que existem muitos outros manuscritos iluminados de alta qualidade atualmente guardados em coleções particulares, museus e bibliotecas em todo o mundo. Entre esses muitos, alguns dos mais impressionantes são:
O Livro de Durrow (650-700) – O livro iluminado mais antigo dos evangelhos, criado em Iona ou na Abadia de Lindisfarne. Ele contém uma série de ilustrações impressionantes, incluindo páginas de tapete com intrincados motivos de nós celtas com vários animais entrelaçados.
Codex Amiatinus (cerca do final do século VII - início do século VIII) – A versão mais antiga da 'Bíblia Vulgata' de São Jerônimo. Foi criado na Nortúmbria, Grã-Bretanha, e embora não seja tecnicamente “iluminado”, contém uma série de ilustrações e miniaturas significativas de página inteira.
Evangelhos de Lindisfarne (cerca de 700-715) – Entre os manuscritos iluminados mais conhecidos e admirados, esta obra foi criada no Priorado de Lindisfarne, na “Ilha Sagrada”, na costa de Dorset, Grã-Bretanha. É uma edição ilustrada dos evangelhos do Novo Testamento feita em homenagem ao membro mais famoso do priorado, São Cuteberto.
A Bíblia do Cruzado Morgan (cerca de 1250) – Criada em Paris, provavelmente por Luís IX (1214-1270), cuja piedade foi uma característica definidora de seu reinado. Originalmente, era obra apenas de ilustrações coloridas iluminadas de eventos do Antigo Testamento e assuntos leigos, mas posteriormente os proprietários encomendaram um texto que acompanhava as imagens. A obra é considerada um dos maiores manuscritos iluminados e uma obra-prima da arte medieval.
O Bestiário da Abadia de Westminster (cerca de 1275-1290) – Provavelmente criado em York, Grã-Bretanha, esta obra é uma coleção de descrições de animais – alguns reais e outros imaginários – extraídas de fontes pré-cristãs, da Bíblia e de lendas. Houve uma série de bestiários produzidos durante a Idade Média, mas o Bestiário da Abadia de Westminster é considerado o melhor pela habilidade de composição das 164 ilustrações que contém.
O Livro das Horas de Jeanne d'Evreux (cerca de 1324-1328) - Criado em Paris, França, pelo principal ilustrador da época, Jean Pucelle, para a rainha Jeanne d'Evreux (1310-1371), esposa de Carlos IV (1322-1328). É um pequeno Livro de Horas delicadamente ilustrado em pergaminho excepcionalmente fino, com mais de 700 ilustrações acompanhando o texto. A obra é menor do que uma brochura moderna e deve ter exigido grande habilidade para ser produzida.
As Horas Negras (cerca de 1475-1480) – Criado em Bruges, Bélgica, por um artista anônimo que trabalha no estilo do principal ilustrador da cidade, Wilhelm Vrelant, que dominou a arte de cerca de 1450 até sua morte em 1481. É feito de pergaminho tingido de preto e iluminado em impressionantes tons de azul e dourado. O texto está escrito em tinta prateada e dourada. É um dos Livros de Horas mais exclusivos existentes.
Les Tres Riches Heures du Duc de Berry (cerca de 1412-1416 e 1485-1489) - O mais famoso Livro de Horas da atualidade e de sua própria época, esta obra foi encomendada por Jean, Duque de Berry, Conde de Poitiers, França (1340-1416). Ficou inacabado quando o duque e os artistas que trabalharam nele morreram de peste, em 1416. A obra foi descoberta e concluída entre os anos 1485-1489, quando foi reconhecida como uma obra-prima. É frequentemente referido como o “rei dos manuscritos iluminados” devido à grandeza e complexidade das pinturas.
Breviário Grimani (cerca de 1510) – Uma enorme obra de 1.670 páginas com ilustrações de página inteira de cenas da Bíblia, lendas seculares, paisagens contemporâneas e cenas domésticas. O texto é composto de orações, salmos e outras seleções da Bíblia. Provavelmente foi feito em Flandres, mas não se sabe quem o criou ou encomendou. O livro foi comprado pelo cardeal veneziano Domenico Grimani (1461-1523) em 1520, que o declarou tão bonito que apenas pessoas selecionadas de alta posição moral deveriam ter permissão para vê-lo e somente em circunstâncias especiais.
Livro de orações de Claude de France (cerca de 1517) – Um dos manuscritos iluminados mais exclusivos e impressionantes, este livro é pequeno o suficiente para caber na palma da mão e ainda assim é ilustrado com 132 obras brilhantemente realizadas emolduradas por bordas elaboradas e impressionantes. O livrinho foi feito para Claude, rainha da França (1514-1524) junto com um Livro de Horas por um artista que ficou conhecido, após a conclusão dessas obras, como Mestre de Claude de France.
A Imprensa e o Fim do Iluminismo
Por volta do século XIII, a alfabetização na Europa havia melhorado e fabricantes profissionais de livros começaram a surgir em resposta à demanda. Na Grã-Bretanha, a literatura produzida em línguas vernáculas foi incentivada desde o reinado de Alfredo, o Grande (871-899) e, na França, desde a época de Carlos Magno (800-814). A maior demanda levou à necessidade de mais escribas e muitos deles eram mulheres.
Que tanto homens como mulheres estavam agora envolvidos na produção de livros fica claro pelos seus locais de origem conhecidos (tais como conventos em vez de mosteiros), bem como pelo mesmo tipo de anotações que os monges deixavam nas páginas. O estudioso Christopher de Hamel observa um desses exemplos:
Diz-se frequentemente que as mulheres tiveram um papel importante na promoção da escrita em língua vernácula [inglês], porque as meninas não eram tradicionalmente ensinadas em latim de forma tão aprofundada quanto os meninos. É bastante verdade que livros de orações em língua vernácula podem muitas vezes ser atribuídos a freiras, em vez de monges, por exemplo… Na verdade, o manuscrito de Lancelot mais antigo datado deve ter sido escrito por uma escriba. Foi produzido em 1274 e termina com o pedido de que o leitor reze pela escriba, “pries pour ce li ki lescrist”; “ce li” é pronome feminino. (148)
Os livros continuaram a ser produzidos manualmente até a invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, por volta de 1440. Em 1456, ele imprimiu a Bíblia em latim – agora comumente chamada de Bíblia de Gutenberg – e o processo de impressão de livros em vez de fazê-los manualmente foi dominado.
Pouco depois disso, a impressora e o equipamento de Gutenberg foram apreendidos por dívidas pendentes e o patrono de Gutenberg, Johann Fust, desenvolveu com sucesso as técnicas de impressão para produzir obras escritas em massa. Um único livro de aproximadamente 400 páginas levaria pelo menos seis meses para ser produzido; agora poderia ser impresso em menos de uma semana.
Mesmo assim, as pessoas naquela época – como agora – gostaram do que sabiam e muitas rejeitaram o novo produto do livro impresso. Giulia Bologna observa como “o grande bibliófilo Federigo da Montefeltro, duque de Urbino, teria sentido vergonha de ter um livro impresso em sua biblioteca” (39). Os livros impressos foram inicialmente considerados imitações baratas de “livros reais” e os impressores, reconhecendo isso, fizeram de tudo para fazê-los parecer obras feitas à mão do passado, encadernando-os em couro, acrescentando ouro dourado às capas e contratando ilustradores para fornecer imagens para o texto. Essas práticas ajudaram a tornar os novos produtos mais palatáveis para os colecionadores de livros. Ainda assim, manuscritos iluminados foram encomendados, embora em número muito menor do que no passado, até os primeiros anos do século XVII.
À medida que o livro impresso se tornou mais amplamente aceito, porém, as habilidades de iluminação foram cada vez menos valorizadas e eventualmente foram esquecidas. O trabalho dos artistas – a maioria deles anônimos – sobreviveria, porém, nos livros que eles criaram. Manuscritos iluminados foram intencionalmente elaborados como itens valiosos desde o início, mas tornaram-se ainda mais valiosos quando deixaram de ser produzidos. Os ricos procuravam esses livros e cultivavam coleções em suas bibliotecas particulares que preservaram as obras até os dias atuais.
