Situada na costa norte-africana, a Tunísia alberga algumas das mais notáveis ruínas romanas de todo o Mediterrâneo. Após a queda de Cartago, Roma transformou a região na próspera província de África, enriquecida pelas suas planícies férteis e cidades vibrantes. Esta terra, moldada por acontecimentos dramáticos que influenciaram a história antiga, legou-nos um extraordinário espólio arqueológico, com vestígios dispersos pela paisagem ondulante, em grande parte preservados do turismo de massas.
Breve Introdução à Tunísia Romana
Muito antes da chegada dos romanos, a Tunísia foi profundamente influenciada pelas populações berberes (amazigues), que habitam o Norte de África há milénios. Já no primeiro milénio a.C., reinos e comunidades berberes prosperavam por toda a região, dedicando-se à agricultura, à pastorícia e ao comércio. A chegada de colonos fenícios no século IX a.C. conduziu à fundação de Cartago (na atual Tunes), na costa tunisina. Ao longo dos séculos seguintes, Cartago ascendeu ao estatuto de potência marítima mediterrânica, dominando rotas comerciais, fundando colónias e levantando exércitos que combateram Roma durante as Guerras Púnicas (264–146 a.C.). Estas guerras são célebres pelos feitos notáveis, ainda que, em última análise, infrutíferos, do estadista e general cartaginês Aníbal, que protagonizou a famosa marcha de um exército através dos Alpes para invadir a Itália, em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica.
Após a destruição de Cartago, em 146 a.C., Roma reorganizou o Norte de África em províncias distintas. A própria Cartago foi posteriormente reconstruída, primeiro por Júlio César (100–44 a.C.) e, mais tarde, por Augusto (reinou 27 a.C. – 14 d.C.), acabando por se converter na capital da província conhecida como Africa Proconsularis. As planícies férteis da região, cultivadas durante muito tempo pelas comunidades berberes, passaram a fornecer a Roma vastas quantidades de cereais e azeite. Esta prosperidade agrícola contribuiu para um desenvolvimento urbano significativo, à medida que aldeamentos indígenas e colonatos romanos evoluíram para cidades prósperas. As mais afortunadas, como Dougga, desenvolveram-se como municipia, governadas por magistrados romanos e dotadas de templos, termas e praças de mercado. Entre os séculos II e III, a Africa Proconsularis, frequentemente denominada o "celeiro do império", tinha-se consolidado como uma das províncias mais opulentas de todo o Império Romano.
O Cristianismo também estabeleceu uma presença significativa na região, com a emergência de numerosos bispos e pensadores cristãos. Em 249, Cartago tornou-se a sede de um importante bispado, e a província converteu-se num centro nevrálgico do pensamento cristão, produzindo figuras como Tertuliano (155–220) e Cipriano (210 – 258), dois dos grandes vultos da Igreja primitiva. Nos séculos seguintes, a região experienciou mudanças profundas, começando com a Crise do Terceiro Século, as invasões vândalas e a reconquista bizantina. Por fim, as conquistas árabes no século VII ditaram o termo da ordem política romana e bizantina, muito embora muitas das suas características tenham perdurado por algum tempo.
Poucas regiões do mundo romano oferecem uma tal densidade e variedade de sítios arqueológicos. Seguem-se os dez locais romanos mais significativos, impressionantes ou mais bem preservados da Tunísia, que todos os entusiastas da arqueologia deveriam considerar visitar.
1. Cartago
Cartago ocupa um lugar ímpar na história antiga. Foi a entidade política mais vasta e poderosa do Mediterrâneo, bem como a capital do Império Cartaginês, que rivalizou com a própria Roma. Arrasada até aos alicerces em 146 a.C., no termo da Terceira Guerra Púnica, a cidade permaneceu em ruínas durante um século. Contudo, Júlio César visionou o seu renascimento e, cinco anos após a sua morte, a cidade estava em vias de se tornar, uma vez mais, um centro de relevo e, por fim, a terceira maior cidade do Império Ocidental, logo após Roma e Alexandria.
O fértil interior norte-africano em redor de Cartago desempenhou um papel crucial no sucesso económico da cidade, funcionando como o "celeiro de Roma" ao fornecer uma vasta porção dos cereais do Império. A riqueza afluía à cidade, permitindo a construção de uma arquitetura monumental, que incluía grandes edifícios públicos e bairros residenciais com villas luxuosas. Cartago emergiu também como um centro intelectual e religioso, fomentando figuras cristãs proeminentes como Tertuliano e Cipriano, que contribuíram para o desenvolvimento do pensamento cristão primitivo.
Os vestígios arqueológicos da antiga Cartago oferecem um vislumbre do rico passado histórico da cidade, com remanescentes das civilizações púnica, romana e bizantina. Entre as estruturas mais significativas encontram-se as Termas de Antonino, reconhecidas como um dos maiores complexos termais do Império Romano, que se estendem ao longo da frente marítima e apresentam salas abobadadas e câmaras de água quente e fria. Nas proximidades, as cisternas de La Malga, alimentadas por uma ramificação do aqueduto de Zaghouan, formam as maiores cisternas sobreviventes do mundo antigo e faziam parte de um sofisticado sistema de gestão hídrica que sustentava a cidade.
Sobre a colina de Byrsa, que domina os portos outrora fulcrais para o Império marítimo de Cartago, encontram-se as fundações de um templo romano, bem como remanescentes de estruturas habitacionais e fortificações púnicas. Sob o domínio púnico, esta área constituía o coração da cidade e albergava um templo dedicado à divindade cartaginesa Eshmun. Após a conquista romana e a subsequente destruição de Cartago, o topo da colina foi nivelado para facilitar a construção do Capitólio e do Fórum. Atualmente, a colina de Byrsa é ocupada pela Catedral de Saint Louis e pelo Museu de Cartago.
Outros locais de visita obrigatória incluem as ruínas do anfiteatro romano, os vestígios de villas romanas e o teatro de época romana, que conserva uma pequena secção composta por pedras originais do século II.
2. Dougga (Thugga)
Situada em colinas ondulantes e olivais, Dougga é frequentemente descrita como um dos exemplos mais bem preservados de uma cidade romana no Norte de África. Originalmente um povoamento númida, tornou-se progressivamente romanizada após a conquista, preservando, contudo, vestígios da sua herança pré-romana. As suas inscrições bilingues, tanto em púnico como em latim, refletem a fusão de culturas que caracterizou a África romana.
O sítio é reconhecido pelo seu excelente estado de conservação e pelos seus vestígios substanciais. Entre as suas estruturas mais icónicas destaca-se o Capitólio, um templo dedicado às divindades romanas Júpiter, Juno e Minerva. Outro ponto de grande interesse é o teatro, que podia acolher até 3500 espectadores e continua a ser utilizado para espetáculos até aos dias de hoje.
Existem também vestígios de edifícios públicos e privados, incluindo termas, cisternas e casas. Finalmente, o Mausoléu Líbico-Púnico, uma estrutura imponente que precede o domínio romano, constitui um exemplo ímpar da arquitetura númida, oferecendo dados valiosos sobre as tradições funerárias pré-romanas. A maioria dos mosaicos e outros artefactos provenientes de Dougga encontram-se expostos no Museu do Bardo, em Tunes.
3. Thysdrus (El Djem)
Dominando a cidade moderna, o vasto anfiteatro de El Djem é uma das mais magníficas estruturas romanas na África romana e um local de visita obrigatória. Construído no século III., quando a antiga Thysdrus vivia o auge do seu poder, o monumento podia acolher até 35 000 espectadores, um número impressionante para uma pequena cidade provincial. A sua dimensão colossal torna-o um dos maiores anfiteatros do mundo romano, comparável apenas ao Coliseu de Roma e à arena de Cápua.
A arquitetura do anfiteatro de El Djem constitui uma proeza de engenharia impressionante, composta por três níveis de arcadas e passagens subterrâneas concebidas para albergar animais e gladiadores. Originalmente, o anfiteatro possuía um velarium, um toldo retrátil que proporcionava sombra contra o intenso sol de verão. O anfiteatro acolhia diversos espetáculos públicos, incluindo combates de gladiadores e caçadas a animais. Alguns destes espetáculos encontram-se representados nos mosaicos ali descobertos.
O museu arqueológico está instalado numa das villas romanas mais bem preservadas da Tunísia, nos arredores de El Djem. Exibe alguns magníficos mosaicos encontrados no interior da própria villa.
4. Sufetula (Sbeïtla)
Situada no centro da Tunísia, Sufetula (a atual Sbeïtla) orgulha-se de possuir um dos fóruns romanos mais intactos do mundo. O elemento distintivo do sítio é um trio de templos dedicados a Júpiter, Juno e Minerva. Para lá do Fórum, estende-se uma rede de ruas pavimentadas, arcos triunfais e termas públicas que atestam a prosperidade desta cidade do interior.
Inicialmente estabelecida como um municipium, uma cidade autónoma com cidadania romana parcial, Sufetula foi mais tarde elevada ao estatuto de colónia romana dentro da província de África Proconsular. A cidade floresceu durante os séculos II e III, em grande parte graças à sua próspera economia agrícola, particularmente na produção de azeite, e à sua posição estratégica ao longo das rotas comerciais. Como não foi construído qualquer povoamento moderno diretamente sobre a antiga Sufetula, o plano da cidade romana permanece excecionalmente bem preservado.
O sítio é também notável pelos seus vestígios da Antiguidade Tardia e do período cristão. Diversas basílicas, batistérios e um complexo episcopal ilustram a transformação de Sbeïtla num bastião cristão por volta do século IV. Não deixe de visitar o batistério notavelmente bem preservado no interior da Basílica de São Vital, que possui uma bacia oval adornada com mosaicos.
5. Thuburbo Majus
Thuburbo Majus é uma antiga colónia estabelecida por Augusto para soldados reformados. No ano de 128, na sequência de uma visita do Imperador Adriano (reinou 117–138), a cidade obteve o estatuto independente de municipium, vindo a tornar-se uma colónia algumas décadas mais tarde, sob o reinado do Imperador Cómodo (reinou 180–192). O sítio localiza-se num vale belíssimo, rodeado por terras férteis, a norte de Zaghouan, e constitui um dos mais importantes vestígios romanos na Tunísia. Dispõe de ruínas extensas que são visitadas com menor frequência, permitindo que os visitantes explorem a área sem encontrar grandes multidões. Os vestígios arqueológicos notáveis incluem o Fórum, o Capitólio, o anfiteatro, termas e casas residenciais.
O Fórum é dominado pelo Templo do Capitólio, que faz eco da tríade capitolina de Sbeïtla, a par do Templo da Paz, do Templo de Mercúrio e de outros santuários. Para lá do Fórum, estendem-se as Termas de Verão, que cobrem uma área de 2,8 quilómetros quadrados. Estas termas estiveram outrora adornadas com estátuas de Esculápio, Hércules, Mercúrio e Vénus, bem como com belíssimos mosaicos que podem ser vistos atualmente no Museu do Bardo. Adjacente às termas encontra-se a Palestra dos Petrónios, um pátio de exercícios rodeado por colunas coríntias, cujo nome homenageia a abastada família que financiou a sua construção.
Mais acima na colina, as Termas de Inverno são um complexo bem preservado que apresenta um pavimento em mosaico preto e branco. A secção sul de Thuburbo Majus alberga um templo dedicado a Baal, com um desenho que reflete influências tanto romanas como orientais. Adicionalmente, inclui o santuário de Caelestis, que foi posteriormente convertido numa igreja de três naves. As ruínas do anfiteatro localizam-se nos arredores do sítio.
6. Bulla Regia
Bulla Regia, situada na parte noroeste do país, é uma das cidades antigas mais notáveis do Norte de África. É famosa pelas suas villas subterrâneas, que os romanos construíram nos séculos II e III para escapar ao calor intenso do sol tunisino. O sítio inclui templos, termas, um forte e uma praça de mercado, mas as villas constituem a principal atração.
Bulla Regia teve origem como uma cidade númida influenciada por Cartago. Em 202 a.C., o general romano Cipião Africano (c. 236–183 a.C.) conquistou a cidade, que mais tarde se tornou residência real do rei númida Massinissa. Após a queda de Cartago, Bulla Regia foi anexada à província de Africa Nova em 46 a.C., na sequência da derrota de Juba I. Sob o domínio romano, a cidade floresceu, recebendo privilégios municipais de Júlio César e tornando-se, mais tarde, uma colónia sob Adriano, com o nome oficial de Colonia Aelia Hadriana Augusta Bulla Regia.
A prosperidade de Bulla Regia advinha das férteis Grandes Planícies, que sustentavam elites abastadas que ascendiam às ordens equestre e senatorial. A cidade era ricamente adornada com monumentos, estátuas e mosaicos, enquanto as suas ruas, sistemas de saneamento e espaços públicos refletiam o planeamento urbano romano. Notavelmente, as suas casas privadas apresentavam salas subterrâneas, que eram adaptadas ao clima quente.
Muitas destas casas sobrevivem com os seus mosaicos in situ, protegidos pela terra que as cobre. Cada villa recebeu o nome dos mosaicos encontrados no seu interior. Embora alguns destes belos mosaicos permaneçam nas suas localizações originais, outros foram transferidos para museus, como o Museu do Bardo, em Tunes. Ao percorrer a Casa da Caça ou a Casa de Anfitrite, os visitantes descem escadarias para espaçosas divisões onde as paredes e os pavimentos ainda brilham com desenhos mitológicos e geométricos.
7. Uthina (Oudhna)
O sítio de Oudhna, a antiga Uthina, um antigo povoado berbere, situa-se a sudoeste de Tunes, na fértil planície de Wadi Meliane. Foi fundada durante o reinado de Augusto, que concedeu a cidade e as terras circundantes aos veteranos da Legio XIII Gemina como recompensa pelos seus serviços.
Uthina recebeu o prestigiado título de Colonia Iulia Tertiadecimanorum Uthina e prosperou durante as dinastias Antonina e Severa, período que viu a construção dos seus principais monumentos, incluindo um anfiteatro, um Capitólio e grandes termas públicas.
8. Mactaris (Makthar)
O sítio arqueológico de Makthar situa-se num planalto elevado no centro da Tunísia. Foi outrora uma zona de fronteira onde os númidas construíram um forte para controlar as rotas comerciais locais. Após a queda de Cartago em 146 a.C., muitos refugiados púnicos estabeleceram-se na área, uma vez que esta se situava para lá das fronteiras da África romana. Contudo, em 46 a.C., Mactaris foi incorporada numa nova província romana. As populações púnica e romana conviveram pacificamente.
A romanização foi um processo lento que demorou cerca de 200 anos a completar-se. Sob o reinado de Trajano (reinou 98–117 d.C.), a cidade tornou-se um povoamento romano pleno, com edifícios civis, acabando por atingir o estatuto de colónia durante o reinado do imperador Marco Aurélio (reinou 161–180).
No coração da cidade erguem-se o Fórum e um arco triunfal que ainda ostenta uma inscrição monumental em honra de Trajano. Na área circundante, existem vários outros edifícios, sendo os mais notáveis os vestígios de um mercado, uma igreja cristã com batistério e, mais a sul, as grandes termas com os seus pavimentos inteiramente cobertos por mosaicos. O monumento mais impressionante é a Schola dos Juvenes, uma sala de reuniões destinada à organização de juventude da cidade.
Situado perto da entrada do sítio, encontra-se um pequeno anfiteatro, bem como uma igreja instalada num templo dedicado a Saturno, a principal divindade da antiga África.
9. Ammaedara (Haïdra)
Ammaedara, perto da fronteira com a Argélia, foi uma das primeiras colónias militares romanas em África. Fundada no século I, guardava rotas estratégicas através das terras altas e tornou-se um centro de romanização na região. As suas origens militares ainda são visíveis no traçado das suas ruínas.
O arco triunfal de Septímio Severo (reinou 193–211) domina o sítio. Nas proximidades encontram-se os vestígios de uma grande fortaleza bizantina, com muralhas imponentes que outrora albergavam a guarnição romana. A cidade também desenvolveu infraestruturas civis, termas, um fórum e templos, à medida que o povoamento militar deu lugar ao crescimento urbano.
Na Antiguidade Tardia, Ammaedara tornou-se um bastião cristão. Basílicas impressionantes, com batistérios elaborados e mosaicos, refletem a sua profunda importância religiosa, enquanto inscrições registam os nomes de bispos e as atas de concílios eclesiásticos. A continuidade da ocupação até ao período bizantino torna Ammaedara um testemunho valioso da longa vida das cidades romanas em África.
Remota e pouco visitada, Ammaedara oferece uma sensação única de solidão no meio das suas extensas ruínas.
10. Útica
Útica, uma das cidades mais antigas da Tunísia, teve origem como um povoamento fenício entre os séculos XII e VIII a.C. e evoluiu mais tarde para uma cidade púnica e, posteriormente, romana. Recompensada por se ter aliado contra Cartago na Terceira Guerra Púnica, serviu brevemente como a primeira capital da província da África Proconsular.
A cidade prosperou como guarnição romana e área de residência da elite, rica em monumentos e apoiada por um porto florescente que exportava produtos agrícolas do seu fértil interior. Com o passar do tempo, o assoreamento do rio Medjerda fez com que Útica fosse afastada da costa, ficando no interior. Como muitas cidades romanas, entrou em declínio sob o domínio vândalo e bizantino antes da sua queda definitiva após a conquista árabe no século VII.
Os Museus
Uma viagem arqueológica pela Tunísia não estaria completa sem visitar os seus museus, que exibem os notáveis tesouros e artefactos do país. O Museu do Bardo, em Tunes, alberga uma das maiores coleções de mosaicos romanos do mundo, bem como estátuas, inscrições e objetos que destacam o quotidiano na província da África Proconsular.
Mais a sul, o Museu Arqueológico de Sousse apresenta outra coleção impressionante, ricamente adornada com mosaicos e artefactos dos períodos romano e cristão primitivo da cidade.

