Comércio na Antiga Mesopotâmia

Como o Comércio Impulsionou a Civilização
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O comércio local na antiga Mesopotâmia começou no período de Ubaide (cerca de 6500-4000 a.C.), evoluiu para o comércio de longa distância no período de Uruque (cerca de 4000-3100 a.C.) e estava florescente na época do Período Dinástico Inicial na Mesopotâmia (cerca de 2900-2350/2334 a.C.). Os desenvolvimentos no comércio continuaram até ao ano de 651, o início do período medieval do Médio Oriente.

A One-mina Weight from Southern Mesopotamia
Um Peso de Uma Mina da Mesopotâmia Meridional Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O comércio na Mesopotâmia surgiu pela mesma razão que em qualquer outro lugar: a necessidade. Os mesopotâmicos possuíam um excedente de cereais, argila e juncos (entre outros bens), que podiam oferecer em troca de recursos de que careciam, tais como metais preciosos, minerais e madeira de outras regiões.

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Os bens exportados no comércio de longa distância incluíam:

  • Cerâmica
  • Vidro
  • Cereais
  • Produtos de couro
  • Peixe, óleo de palma e óleo vegetal
  • Cestos e esteiras de junco
  • Tecidos

Os bens importados pela Mesopotâmia incluíam:

O desenvolvimento do comércio de longa distância durante os períodos de Ubaide e de Uruque levou à invenção da escrita, sob a forma de escrita cuneiforme, por volta de 3500 a.C., para que os mercadores pudessem comunicar com clientes em regiões estrangeiras ou em cidades mesopotâmicas distantes. A escrita cuneiforme foi aperfeiçoada em Uruque cerca de 3200 a.C., permitindo uma comunicação escrita mais clara e precisa, o que acabou por possibilitar o desenvolvimento da literatura. O comércio também impulsionou a aplicação da roda em veículos de transporte, o desenvolvimento de estradas e a progressiva domesticação de animais para puxar as carroças e transportar os mercadores.

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A Revolução Agrícola (cerca de 10 000 a.C.), que domesticou flora e fauna, é compreendida como o alicerce da civilização, mas o comércio local e de longa distância impulsionou o seu desenvolvimento. Os cinco aspectos que definem a civilização — excedente alimentar, divisão do trabalho, urbanização, governo e um sistema de escrita — todos se desenvolveram ou foram significativamente estimulados pelo comércio.

Os Primeiros Comércios

A cidade de Eridu assumiu-se como um entreposto comercial de importância fulcral em data anterior a cerca de 5000 a.C.

O comércio local teve início entre as comunidades mesopotâmicas do período de Ubaide, sendo realizado por mercadores que viajavam a pé ou, possivelmente, recorrendo a animais de carga. Entre os bens de troca positivamente identificados encontram-se peças de cerâmica, incluindo taças, jarros e estatuetas (entre as quais as célebres "figuras ofídias" ou "povo-lagarto"). O selo cilíndrico, que identificava o artesão ou o mercador, o local de fabrico ou o valor, já tinha sido desenvolvido nesta época, começando então a ser utilizado com maior frequência.

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Embora o período de Ubaide seja mais frequentemente associado ao comércio local, alguns estudiosos sugerem a existência, nesta época, de um comércio de longa distância com regiões tão remotas como a China. Parece também claro que as comunidades de Ubaide do norte da Mesopotâmia comerciavam até ao sul, chegando a Dilmun (o actual Barém) e Magan (os actuais Emirados Árabes Unidos e Omã) no Golfo Pérsico, um centro vital de trocas que ligava o Médio Oriente a regiões mais a oriente, incluindo a Civilização do Vale do Indo. A cidade de Eridu foi uma participante central no comércio antes de cerca de 5000 a.C. e teria estado envolvida nestes intercâmbios, que incluiriam também as cidades de Uruque, Ur e Nipur durante o período de Uruque.

Representation of the Port of Eridu
Representação do Porto de Eridu Таис Гило (Public Domain)

O Período Uruque e o Comércio

O período de Uruque testemunhou o estabelecimento de relações comerciais com o Egipto durante o período Gerzeano da região (também conhecido como período Naqada II, cerca de 3500-3200 a.C.). Foram escavadas no Egipto cerâmicas mesopotâmicas da Suméria — provenientes de cidades como Eridu, Nipur, Ur e Uruque — datadas de cerca de 3500 a.C., incluindo peças cerâmicas, selos cilíndricos e pendentes de lápis-lazúli. A evidência da riqueza gerada pelas cidades sumérias através do comércio é sugerida pela sua expansão durante este período, especialmente em Uruque, que estabeleceu diversos entrepostos para além das suas fronteiras iniciais em entroncamentos importantes das rotas comerciais.

O comércio terrestre em toda a Mesopotâmia foi constante durante este período, ao longo das rotas estabelecidas e descendo os rios Tigre e Eufrates até ao Golfo Pérsico. A ilha do Barém, identificada pelos sumérios como Dilmun, a Terra dos Deuses, servia como um entreposto comercial central para os bens provenientes da Civilização do Vale do Indo (7000-600 a.C.). Não existia qualquer sistema monetário sob a forma de moedas na altura; os bens eram trocados por outros considerados de valor equivalente. Os estudiosos M. Wayne Alexander e William Violet comentam:

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A moeda, sob a forma de moedas padronizadas, ainda não tinha sido cunhada pelos governos. No entanto, a prata e os cereais foram continuamente utilizados como meios de troca durante o quarto até ao segundo milénio.

(pág. 14)

A prática de trocar bens de valor equivalente era, contudo, a mais comum, como Alexander e Violet observam a respeito dos têxteis da cidade de Ur durante este período:

Os registos indicam que cerca de seis mil mulheres trabalhavam na vizinha Girsu e treze mil trabalhavam em Ur e arredores na tecelagem de têxteis de lã… Os têxteis produzidos nas oficinas dos templos eram exportados para terras distantes em troca de metais, pedras preciosas… cevada e outros recursos naturais.

(pág. 14)

A região do Levante estava entre as regiões para onde os têxteis de Ur eram enviados, onde os bens sumérios eram trocados com as cidades do Líbano Antigo por volta de 3000 a.C.; nessa mesma data, a cidade de Biblos, no Levante, trocava estes bens com o Egipto, juntamente com a sua muito valorizada madeira e o papiro. Nesta época, a madeira era também importada da região de Elão em troca de cerâmicas. O comércio mesopotâmico com Elão já estava estabelecido no período Proto-Elamita (cerca de 3200 a cerca de 2700 a.C.) e influenciou o desenvolvimento da arte, arquitectura e cultura elamitas ao longo do período Elamita Antigo (cerca de 2700 a cerca de 1600 a.C.).

Mesopotamian Record of Barley
Registro Mesopotâmico da Cevada Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Segundo alguns estudiosos, o comércio mesopotâmico — especificamente o sumério — também influenciou a arte e a arquitectura do Egipto. A académica Margaret Bunson, para citar apenas um exemplo, observa como a célebre Paleta de Narmer (cerca de 3150 a.C.), "com a sua representação de monstros e serpentes de pescoço comprido entrelaçados, possui um estilo distintamente mesopotâmico" (pág. 267). Um bloco de vidro azul encontrado em Eridu em 1919, positivamente identificado como proveniente de uma antiga fábrica de vidro próxima e datado de 2000 a.C., coincide com peças de vidro azul semelhantes encontradas no Egipto, sugerindo que a técnica egípcia de fabrico de vidro foi introduzida através do comércio com a Mesopotâmia. Estatuetas egípcias e desenhos arquitectónicos deste período sugerem igualmente uma influência mesopotâmica, que continuaria ao longo do Período Dinástico Inicial.

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Período Dinástico Inicial e Período Acádio

Durante o período de Uruque, o comércio floresceu e desenvolveu-se o zigurate — a arquitectura monumental distintiva da Mesopotâmia. O zigurate servia como função religiosa e prática ao distinguir uma determinada cidade à distância e servindo como um ponto de referência. Uruque continuou a dominar o comércio na Mesopotâmia durante esta era, mas depois, como observa o académico Paul Kriwaczek, algo aconteceu:

A arqueologia fala-nos de mudanças transcendentais por volta de 3000 a.C. Subitamente, ou pelo menos assim parece, cessou o contacto entre os muitos centros de civilização distribuídos por toda a Grande Mesopotâmia. As rotas comerciais, como as que ligavam às minas de lápis-lazúli no Afeganistão, foram cortadas. Os entrepostos de Uruque desapareceram de toda a região: do Irão, da Síria e da Anatólia.

(pág. 72)

Kriwaczek aponta possíveis razões para este fenómeno, incluindo as alterações climáticas, mas sustenta que a causa principal foi a agressividade e a prepotência de Uruque, que acabou por encontrar resistência por parte das outras cidades-estado. Por volta do Período Dinástico Inicial, grosso modo, esta situação tinha sido resolvida (embora não se saiba como), e as cidades da Mesopotâmia envolvidas no comércio de longa distância incluíam, entre outras:

  • Acxaque (com o Afeganistão e, provavelmente, com o Egipto)
  • Adabe (com o Egipto até 2000 a.C.)
  • Ebla (com o Egipto e outros)
  • Eridu (com o Egitpo e outros)
  • Cadexe (com o Egipto)
  • Larça (com a Civilização do Vale do Indo até cerca de 2358 a.C., data em que foi destruída)
  • Mari (com o Egipto para obtenção de ouro, com o Levante e outros)
  • Nipur (incerto)
  • Quis (com Elão)
  • Sipar (incerto)
  • Tell Brak (com o Egipto e outros)
  • Uma (possivelmente com o Egipto sob o reinado do rei Lugal-zage-si, cerca de 2358-2334 a.C.)
  • Ur (com o Egipto e outros)
  • Uruque (com o Egipto e outros)
  • Xurupaque (com o Egipto — troca de cereais por ouro — e com outros)

Por volta do período Dinástico Inicial III (2600-2350 a.C.), Quis e Uruque eram as potências políticas e comerciais dominantes. Cada cidade-estado constituía uma entidade política autónoma e, naturalmente, rivalizavam entre si no comércio e por recursos como terras e direitos de água. Tudo isto mudou com a ascensão de Sargão de Acade (o Grande, reinado 2334-2279 a.C.), que conquistou a região e estabeleceu o Império Acádio.

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Map of the Akkadian Empire, c. 2334 - 2218 BCE
O Império Acádio, cerca de 2334 - 2218 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Durante o Período Acádio (cerca de 2350/2334-2154 a.C.), as cidades-estado estavam todas sob o controlo da cidade de Acade (também referida como Agade), e o comércio era regulado por funcionários acadianos elevados a cargos de autoridade nas diversas cidades. O comércio local e de longa distância floresceu sob a burocracia acadiana, que eliminou a rivalidade entre as cidades-estado e padronizou preços e práticas, ao mesmo tempo que melhorava as estradas. Kriwaczek descreve os resultados das políticas acadianas:

Navios vindos de locais tão distantes como o Barém (em acadiano, Dilmun), Omã (Magan) e até do Indo (Meluhha) atracavam nos cais da Acádia e descarregavam os seus tesouros; marinheiros estrangeiros, falando com sotaques estranhos, apinhavam-se nas ruas perto dos portos. Barcaças carregadas até à borda com cereais, provenientes de quintas distantes regadas pela chuva, muito para além da planície aluvial, chegavam diariamente ao porto, descarregavam as suas cargas e eram prontamente desmanteladas, sendo a madeira destinada à reciclagem em expansivos projectos de construção locais.

(pág. 125)

No entanto, ao mesmo tempo que a região vivia este crescimento económico através do comércio, era periodicamente abalada por agitação social, à medida que as cidades-estado se rebelavam contra o domínio acadiano. Sargão e os seus sucessores reprimiram revoltas por toda a região continuamente, até que a Acádia finalmente caiu e os Gútios, um povo da Ásia Ocidental oriundo da Cordilheira de Zagros, ascenderam ao poder. Kriwaczek (bem como outros autores) observou que a Acádia provavelmente caiu por diversas razões, incluindo as alterações climáticas, e os Gútios foram depois culpados pelos escribas sumérios, que se ressentiam do seu controlo sobre a região.

O Período Gútio e o Período de Ur III

O Período Gútio (cerca de 2141-2050 a.C.) revela um declínio acentuado no comércio, o qual, segundo os escribas do posterior Período de Ur III (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.), foi inteiramente culpa dos Gútios. De acordo com estes relatos posteriores, tanto o comércio terrestre como o marítimo estagnaram, e os salteadores percorriam as estradas e espiavam as rotas comerciais. A evidência arqueológica sustenta a queda no comércio e o declínio económico durante este período, sendo possível, e até provável, que os gútios tenham gerido mal os assuntos públicos; contudo, a causa provável terá sido a seca, que trouxe a fome e eliminou o excedente de cereais que constituía a base do comércio mesopotâmico.

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Os sumérios foram liderados na revolta contra o domínio gútio por Utu-Hegal, rei de Uruque (reinado de cerca de 2119 a cerca de 2112 a.C.) e, após a sua morte, por Ur-Nammu (reinado de 2112 a cerca de 2094 a.C.), fundador da Terceira Dinastia de Ur, que quebrou ainda mais o domínio gútio sobre a terra e restabeleceu o comércio. A evidência arqueológica sustenta a descrição dos escribas sumérios sobre o reinado de Ur-Nammu como sendo próspero, tal como comprovam o Grande Zigurate de Ur, iniciado sob o seu reinado, o seu código de leis (o Código de Ur-Nammu), bem como as melhorias nas infraestruturas e a reconstrução ou renovação de cidades como Lagash e de vários templos. Quando os gútios se revoltaram novamente em 2030 a.C., Ur-Nammu foi morto em batalha, e o seu filho, Shulgi de Ur (reinado de cerca de 2094 a cerca de 2046 a.C.), assumiu o trono.

Great Ziggurat of Ur
Grande Zigurate de Ur Hardnfast (CC BY-SA)

O comércio floresceu novamente sob o reinado de Shulgi, que, após expulsar os gútios, conquistou a região correspondente ao actual Kuwait até ao Iraque e, em seguida, padronizou os pesos e medidas, a cronometragem e o calendário, para que todo o seu reino operasse em uníssono. Todas as principais cidades-estado mesopotâmicas sob o reinado de Shulgi parecem ter-se envolvido no comércio de longa distância, o que incentivou a prosperidade, a estabilidade económica e o renascimento da cultura da região, conhecido como o Renascimento Sumério

O governo — fosse o das cidades-estado individuais durante os períodos de Uruque até ao Dinástico Inicial, ou uma autoridade central durante os Períodos Acádio e de Ur III — era responsável por regular e supervisionar o comércio local e de longa distância, bem como por construir e manter armazéns, docas e estradas. Shulgi instituiu estalagens à beira da estrada para os viajantes, as quais eram ornamentadas com jardins. O sucesso comercial mesopotâmico foi reflectido pelos seus parceiros comerciais de longa distância e, à medida que as necessidades essenciais eram satisfeitas, os artigos de luxo tornaram-se uma mercadoria de eleição. A académica Gwendolyn Leick comenta:

À medida que os países em redor da Mesopotâmia também desenvolviam os seus próprios estados estratificados e elites abastadas, cresceu a procura por artigos de luxo produzidos na Mesopotâmia. Estes incluíam produtos têxteis (tecidos de lã, vestuário pronto, túnicas bordadas), artigos de couro, mobiliário de madeira e com incrustações, armas de bronze, metais trabalhados com grande perícia, bem como artefactos de pedra e joias. Tais produtos eram exportados para todo o Oriente Próximo, incluindo o Egito, durante o segundo milénio e, mais tarde, novamente durante o período Neo-Babilónico.

(pág. 174)

Após a morte de Shulgi, os seus sucessores tentaram manter a coesão do reino, mas este desmoronou-se gradualmente à medida que os amorreus nómadas estabeleceram povoações permanentes e desafiaram a autoridade de Ur. Ur acabou por cair perante os elamitas em 1750 a.C., mas, por esta altura, os amorreus já se tinham estabelecido firmemente na região e seriam o povo seguinte a supervisionar e a incentivar o comércio mesopotâmico.

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Hamurabi e o Clube das Grandes Potências

O rei amorreu Hamurabi (reinado 1792-1750 a.C.) iniciou o seu reinado na Babilónia (Babilônia) construindo e treinando discretamente um exército, para depois conquistar rapidamente toda a região. Após estabelecer a sua autoridade, dedicou-se a melhorar as infraestructuras, o que lhe valeu o título de bani matim ("Construtor da Terra") devido à sua construção e melhoria de estradas, estalagens, armazéns e outros projetos de edificação. O académico Lionel Casson escreve:

Numa carta a um funcionário em Larça, [Hamurabi] ordena que lhe sejam enviado um determinado pessoal o mais rapidamente possível, especificando que estes devem "viajar dia e noite para que cheguem à Babilónia em dois dias". As duas cidades distam cerca de 193 km (120 milhas) entre si; se considerarmos entre trinta e seis a quarenta e oito horas, isto significa que ele contava com uma velocidade média de 4 a 5,6 km/h (2 & ½ to 3 & ½ mph), o que é quase tão bom como o que os viajantes em carroças puxadas por mulas conseguiam nas tão aclamadas estradas romanas, dois milénios mais tarde.

(pág. 26)

Casson observa ainda que a pavimentação era quase inexistente e, com excepção de trabalhos rodoviários posteriores realizados pelos Hititas, os mercadores, viajantes e exércitos deslocar-se-iam por estradas de terra batida; uma vez que as pontes eram escassas, teriam de usar barcas para atravessar cursos de água (o que envolvia desmantelar veículos, como carroças, para que coubessem), alugar barcos ou encontrar um caminho alternativo. Os bandos de ladrões eram outra dificuldade que os mercadores tinham de considerar, e muitos contratavam guardas armados, por vezes em número substancial, para protegerem os seus interesses.

O reino de Hamurabi, tal como o de Shulgi, desmoronou-se pouco depois da sua morte e foi posteriormente tomado pelos Hititas em 1595 a.C., antes do controlo ser assumido pela Dinastia Cassita (cerca de 1595 a cerca de 1155 a.C.), que manteve novamente o comércio, embora não seja claro em que medida. Por volta de 1500 a.C., os Assírios afirmaram-se como uma grande potência e, por volta de 1400 a.C., tinham conquistado a independência em relação ao Reino de Mitani. A força económica e militar dos maiores estados individuais do Oriente Próximo e dos seus vizinhos incentivou a igualdade e a cooperação.

O Antigo Oriente Próximo, cerca de 1500-1300 a.C.
Antigo Oriente Próximo cerca de 1500-1300 a.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Entre 1500 e 1200 a.C., o chamado Clube das Grandes Potências supervisionou e regulou o comércio internacional. Este incluía:

  • Babilónia Cassita
  • Anatólia Hitita
  • Egipto
  • Mitani, inicialmente, e depois a Assíria
  • Elão
  • Micenas

O académico Marc van de Mieroop escreve:

Durante os séculos de 1500-1200 [a.C.], o Oriente Próximo tornou-se plenamente integrado num sistema internacional que envolvia toda a região, desde o oeste do Irão até ao Mar Egeu, da Anatólia à Núbia. Uma série de grandes estados territoriais interagiam entre si como iguais e rivais. Localizados entre eles, especialmente na zona sírio-palestiniana, encontrava-se um conjunto de estados mais pequenos que deviam lealdade aos seus vizinhos mais poderosos, e que eram frequentemente utilizados como intermediários na sua competição.

(pág. 129)

Na época das Cartas de Amarna (correspondência entre membros do "clube" e o Egipto durante o Período de Amarna, de cerca de 1348-1320 a.C.), o Clube das Grandes Potências incluía:

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  • Assíria
  • Alásia (no Chipre)
  • Arzaua (sudoeste da Anatólia)
  • Babilónia
  • Egipto
  • Hatti (Reino dos Hititas)
  • Mitani

O comércio continuou entre estas potências (e outras, até em locais tão a norte como a Dinamarca), com perturbações periódicas e confrontos militares, até ao Colapso da Idade do Bronze (cerca de 1250 a cerca de 1150 a.C.), quando as alterações climáticas, catástrofes naturais, agitação social, instabilidade política e as invasões dos Povos do Mar derrubaram civilizações e interromperam tanto o comércio como a ordem social em todo o Mediterrâneo e Oriente Próximo.

Conclusão

Por volta de 525 a.C., todos os estados do Clube das Grandes Potências tinham desaparecido. Hatti e Mitani desapareceram por volta de 1200 a.C., o Império Assírio caiu em 612 a.C., e a Babilónia, Arzaua e Alásia tinham sido tomadas pelo Império Persa Aqueménida (Aquemênida) (cerca de 550-330 a.C.). O Egipto caiu perante os persas em 525 a.C., e foi apenas nesta altura que foi introduzida a moeda nas práticas comerciais egípcias.

As moedas foram cunhadas pela primeira vez na Lídia sob o reinado do Rei Aliates (cerca de 635-585 a.C.) de Sardes, mas o comércio no Oriente Próximo continuara a utilizar o sistema de troca direta. Ciro II (o Grande, reinado cerca de 550-530 a.C.) introduziu as moedas no comércio após a sua conquista da Lídia, e pensa-se que Dário I (o Grande, reinado 522-486 a.C.) desenvolveu o dárico, a primeira moeda de ouro com um valor padronizado, que passaria a ser utilizada no comércio em todo o Império Aqueménida.

Persian Gold Daric
Dárico de Ouro Persa Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Esta prática continuou após a queda do império perante Alexandre, o Grande, em 330 a.C. e foi mantida pelas entidades políticas que se seguiram: o Império Selêucida (312-63 a.C.), o Império Parta (247 a.C. a 224 d.C.) e o Império Sassânida (224-651 d.C.), todos os quais regularam o comércio como um aspecto integrante do governo. Após a queda do Império Sassânida perante os árabes muçulmanos no ano de 651, e tendo os novos governantes instituído as suas próprias políticas comerciais, estes estavam, essencialmente, apenas a seguir os padrões estabelecidos há milénios.

Agradecimentos reconhecidos à Sra. Marjorie Hilton pela inspiração na escrita desta peça.

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Perguntas & Respostas

Quando começou o comércio na antiga Mesopotâmia?

O comércio na antiga Mesopotâmia é datado do Período Ubaid c. 5000-4100 aC.

Que bens foram exportados e importados no comércio da Mesopotâmia?

As mercadorias exportadas no comércio da Mesopotâmia incluíam cerâmica, vidro, grãos, produtos de couro, óleo de cozinha, cestas e esteiras de junco e têxteis. As mercadorias importadas incluíam cobre, marfim, pérolas, pedras semipreciosas, ouro, prata, outros metais preciosos, madeira e lapis-lazuli.

Quais cidade-estado mesopotâmicas negociaram com o Egito no Período Dinástico Inicial de 2900-2334 a.C.?

No período dinástico inicial, as cidades-estados que negociavam com o Egito incluíam Adab, Ebla, Eridu, Kadesh, Mari, Shuruppak, Tell Brak, Ur e Uruk.

Até onde chegou o comércio de longa distância da Mesopotâmia?

Estudos modernos sugerem que o comércio de longa distância da antiga Mesopotâmia chegou até o norte da Dinamarca, até a China e a Índia, até a Núbia, e até a Ásia Menor, Grécia e, mais tarde, Roma.

Bibliografia

A Enciclopédia da História Mundial é uma Associada da Amazon e recebe uma contribuição na venda de livros elígiveis

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, março 06). Comércio na Antiga Mesopotâmia: Como o Comércio Impulsionou a Civilização. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2114/comercio-na-antiga-mesopotamia/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Comércio na Antiga Mesopotâmia: Como o Comércio Impulsionou a Civilização." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2114/comercio-na-antiga-mesopotamia/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Comércio na Antiga Mesopotâmia: Como o Comércio Impulsionou a Civilização." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 06 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2114/comercio-na-antiga-mesopotamia/.

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