São Cirilo (também conhecido como Kyrillos e Constantino, o Filósofo; † 867 d.C.) foi um linguista, professor, académico e missionário bizantino que, no século IX, pregou o Cristianismo aos eslavos na Morávia, juntamente com o seu irmão Metódio. Criou o alfabeto glagolítico, o precursor do alfabeto cirílico que ostenta o seu nome, e contribuiu significativamente para a difusão da religião, da arte e da cultura do Império Bizantino na Europa Central.
Oa Primeiros Anos
Cirilo é o nome monástico que o santo escolheu perto do fim da sua vida, mas nasceu com o nome de Constantino, filho de um oficial militar chamado Leão, destacado em Salónica; a sua mãe poderá ter sido eslava. Revelou-se um linguista dotado desde tenra idade e foi enviado para Constantinopla para prosseguir os seus estudos, onde aprendeu línguas como o siríaco e o hebraico. Sob a proteção do eunuco Teoctisto, Constantino foi ordenado sacerdote e serviu como oficial na Igreja de Santa Sofia, onde desenvolveu uma relação próxima com o Patriarca de Constantinopla, o bispo Fócio. O brilhante académico tornou-se rapidamente no bibliotecário do bispo. Constantino viria a ser professor de filosofia na Universidade de Magnaura, em Constantinopla, onde ganhou a alcunha de “Constantino, o Filósofo”.
Constantino foi, posteriormente, enviado em duas missões diplomáticas: a primeira à corte muçulmana em Samarra e a segunda aos cazares, uma tribo turca no Cáucaso, por volta de 860. Segundo a biografia do século IX., atribuída a um dos seus discípulos, o monge académico mostrou-se entusiasta com a oportunidade de espalhar o Evangelho:
Se ordenais, senhor, irei de bom grado a tal missão a pé e descalço, sem levar nada do que o Senhor proibiu aos seus discípulos de transportar." O imperador respondeu: "Bem dito, se fosses [por tua conta]! Mas tem em conta o poder e a honra imperiais, e vai com honra e com o auxílio imperial.
Life of Constantine (Vida de Constantino) (in Shepard, pág. 315)
A viagem, infelizmente, terminou em fracasso, caso o objetivo fosse converter os cazares ao Cristianismo, uma vez que os bizantinos apenas conseguiram batizar cerca de 200 deles. O Estado da Cazária acabou por adotar o Judaísmo. Cirilo trouxe, contudo, recordações, que se diz serem as relíquias de São Clemente, o bispo de Roma exilado no século I. As suas ambições não esmoreceram e, pouco depois, partiu por sua própria iniciativa para a Crimeia, para difundir a sua mensagem junto do povo pagão dos Phoullai. É provável, porém, que Cirilo não tenha gozado de grande popularidade por lá, especialmente quando derrubou o carvalho sagrado daquele povo.
A Missão à Morávia
Cirilo foi então selecionado pelo imperador bizantino Miguel III (reinou 842-867) para uma missão na Morávia (a atual República Checa e Eslováquia), com o objetivo de difundir a fé cristã. Sem dúvida, a sua capacidade de falar eslavo foi um ponto a seu favor e seria, certamente, muito útil. O príncipe Rastislav (reinou 846-870), ansioso por estabelecer a sua própria igreja independente, utilizando a língua eslava, e por afastar a influência crescente do Império Franco, tinha solicitado tal missão. Miguel, satisfeito por atender ao pedido, enviou Cirilo e o seu irmão mais velho, Metódio, no ano de 863, embora nenhum dos dois ocupasse, na altura, qualquer cargo eclesiástico. Miguel foi provavelmente encorajado por Fócio, o bispo de Constantinopla, que desejava acompanhar o ritmo do seu grande rival religioso, o Papa em Roma, que tinha acabado de enviar missionários francos para a região. De facto, embora Cirilo e Metódio tenham ganho a reputação de "Apóstolos dos Eslavos", não foram, de forma alguma, os primeiros missionários cristãos a chegar a este povo.
Para facilitar a pregação aos eslavos, Cirilo inventou, com alguma ajuda de Metódio, a escrita glagolítica, que utilizou algumas letras do hebraico e da escrita cursiva grega para captar com precisão os sons únicos da língua eslava. Os irmãos tinham criado a escrita antes mesmo de saírem de casa (não tendo a língua eslava qualquer forma escrita anteriormente) e utilizaram-na para realizar traduções da liturgia de João Crisóstomo (bispo de Constantinopla entre 398 e 404), dos Salmos do Antigo Testamento e dos Evangelhos do Novo Testamento.
Como é que tu agora ensinas e criaste letras para os eslavos, as quais ninguém tinha encontrado antes?
Metódio a Cirilo, Life of Constantine (in Herrin, pág. 131)
Embora tenha tido sucesso na fundação de muitas novas igrejas, infelizmente para Cirilo, os bispos francos na Morávia, que defendiam os interesses da metade ocidental rival da igreja cristã, opuseram-se ao seu trabalho missionário a cada passo. O clero conservador da igreja também se manifestava contra a realização de serviços (ou até mesmo a disseminação de literatura religiosa) em qualquer língua fora do trio tradicional: o latim, o grego e o hebraico. Os monges francos avançavam a todo o vapor com os seus serviços em latim para congregações eslavas que não entendiam uma palavra do que era dito. Cirilo e Metódio, por sua vez, conduziam os seus serviços em eslavo e, para receberem a bênção do Papa Adriano II, celebravam a missa primeiro em latim e, depois, em eslavo.
Como o próprio Cirilo comenta sobre a importância de utilizar línguas locais para comunicar a mensagem de Deus:
Conhecemos numerosos povos que possuem escrita e rendem glória a Deus, cada um na sua própria língua. Seguramente, estes são evidentes: arménios, persas, abecásios, iberos, sogdianos, godos, ávaros, turcos, cazares, árabes, egípcios e muitos outros... Não cai a chuva de Deus sobre todos igualmente? E não brilha o sol também sobre todos?
Life of Constantine (in Herrin, pág. 133)
A Morte e o Legado
Cirilo morreu em Roma, no ano de 867, durante uma missão para angariar o apoio do Papa ao seu trabalho na Europa Central e para que alguns dos seus discípulos eslavos fossem ordenados. O viajante apresentou, primeiramente, ao novo papa, Adriano II, as relíquias de São Clemente. Os morávios foram então ordenados e as escrituras em eslavónico foram doadas à igreja de Santa Maria ad Praesepe. Cirilo foi sepultado no santuário de São Clemente, na cidade.
O trabalho do falecido missionário foi continuado na Morávia por Metódio, que viria a criar o alfabeto cirílico (embora possa ter sido criado pelo seu discípulo, Clemente de Ocrida). Esta nova escrita, denominada em honra de Cirilo, derivou do alfabeto grego e era mais simples do que o complexo glagolítico. Pouco depois da sua morte, foi escrita uma biografia de Cirilo, provavelmente pelo seu seguidor e companheiro na evangelização dos eslavos, Clemente de Ocrida. O alfabeto cirílico inspiraria, por sua vez, a escrita utilizada em russo, búlgaro, sérvio e macedónio.
Em última análise, os morávios, pressionados pelos francos, rejeitaram a igreja bizantina em favor da igreja ocidental. Ao favorável Rastislav sucedeu um governante menos compreensivo, e Metódio e os seus seguidores foram expulsos da Morávia em 885. Ainda assim, a experiência adquirida pelos missionários e a sua biblioteca de textos traduzidos foram bem aproveitadas no seu destino seguinte: a Bulgária, onde também se falava eslavo. Miguel III forçou a causa da dominância política e religiosa bizantina no território ao reunir um exército ameaçador na fronteira da Bulgária. O governante búlgaro, Bóris, foi assim persuadido a favorecer os bizantinos e viajou até Constantinopla, em 864, para ser batizado na Basílica de Santa Sofia pelo próprio imperador.
