A história tem em Santo Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), um “Doutor” da Igreja Católica, ou simplesmente “O Conhecedor”, como era conhecido por seus pares, um dos poucos teólogos de influência e renome insuperáveis. Um homem brilhante, que nunca procurou ser indicado como Bispo na Igreja Cristã, criou categorias teológicas usadas por séculos, como por exemplo, Pecado Original, Predestinação, Teoria da Guerra Justa ou Lícita, Compreendendo o Mal e muitas outras, elaborou uma compreensão sistemática a respeito de Deus, baseando-se mais na razão do que unicamente na experiência mística. Em suas obras literárias, como Cidade de Deus, Enchiridium e, a mais famosa, Confissões, compartilhou seus excepcionais discernimentos teológicos.
Nas Confissões, Agostinho apresenta um relato autobiográfico de sua vida e na condução à conversão ao cristianismo, discutindo as consequências daquele monumental evento espiritual, oferecendo uma reflexão honesta e vulnerável sobre os desvios de seu passado, suas antigas atitudes mundanas e apresenta, cuidadosa e comoventemente, os caminhos para sua reconciliação com o Divino Criador.
Juventude Mundana
Embora Agostinho tenha se transformado no “mais proeminente e mais amplamente estudado autor” na cristandade ocidental, ele não começou sua vida como um santo – completamente o contrário (Drobner, 17-33.) Ele cresceu em uma típica família romana da época. Seu pai, Patrício, não era cristão, mas sua mãe, Mônica, era cristã e pedia, sem cessar, pela conversão do filho. A maneira como Agostinho se descreve é pouco lisonjeira, para dizer o mínimo. Ele oferece o retrato de um pagão orgulhoso e errante que, embora sabendo moralmente o que deveria fazer, arrogantemente escolheu o ardor de um caminho egoísta e hedonista. Agostinho diz de sua infância, “Eu desobedecia, não porque tivesse escolhido algo melhor, mas por puro amor à brincadeira.” (Livro 1, c.10). Naquele tempo, mentir, furtar e ter ataques de raiva eram comuns em sua vida.
Com seu crescimento, Agostinho tornou-se mais ciente de Deus e de seus próprios caminhos de autodestruição, porém ainda sentia e gostava dos prazeres corporais, de uma maneira que lhe era impossível parar – a clássica batalha entre a razão e a carne. Nas próprias palavra de Agostinho, “O primeiro caminho seduziu e convenceu minha mente; o segundo seduziu meu corpo e o manteve em cativeiro.” (Livro 8, cap. 5). A realidade mostrou um homem em conflito consigo mesmo, desejoso de ser curado, porém deliciando-se tanto com sua atividade carnal, que lhe era difícil parar. É famosa sua sempre lembrada frase, “Dai-me castidade e continência, porém não já.” (Livro 8, cap. 7).
Já adulto, Agostinho tornou-se professor de Retórica e Filosofia e ascendeu aos mais elevados círculos acadêmicos romanos, apesar de se tornar desapontado com o prosaico sistema escolar romano, que julgava previsível e superficial. Ansiando por coisas maiores, aproximou-se da vida política romana e foi indicado professor da Corte Real, talvez um dos mais desejados cargos no Império Romano devido às suas vantagens sociais. Mais ainda, lamenta Agostinho, sentiu-se insatisfeito com a vida. “Eu impedi meu coração de aceitar positivamente qualquer coisa, pois temia outra queda; e, nesse estado de indecisão, eu estava sendo ainda mais destruído” (Livro 6, cap.4).
À Procura de Outro Caminho
Finalmente, ele aceita que a força do amor de Deus havia provado muito para ele para ignorá-la e foi dominado por sua consciente percepção da necessidade de mudança. Ele afirma, “Quando minha rigorosa procura evidenciou toda vilania dos segredos mais profundos de minha alma e os reuniu junto ao meu coração, uma avassaladora tempestade desabou sobre mim, iniciando uma forte chuva de lágrimas” (Livro 8, cap. 12). Apesar de todo prestígio e grandes vitórias alcançados nos meios sociais, ele ainda sentia um vazio interior. Escreveu, “Tenho em minha memória como eu era tão miserável e como um dia (Deus) tomei consciência da minha miserável situação” (Livro 6, cap. 6).
A procura de realização espiritual, Agostinho começou a aventurar-se em grupos religiosos, inicialmente envolvendo-se com o Maniqueísmo, um movimento religioso persa, fundado por Manes (216-276 d.C.), que sincretizava cristianismo, judaísmo, gnosticismo e paganismo. Após nove anos com eles, Agostinho abandonou o maniqueísmo e se juntou aos neoplatonistas, cuja filosofia estava fundada nos ensinamentos dualísticos de Platão (428/427–348/347 a.C.) e modificada por Plotino (204-270 d.C.), mas que incorporava em sua doutrina um monoteísmo místico, a existência do Uno transcendente e de centenas de deuses intermediários, anjos e demônios. Nenhum dos dois grupos trouxe paz à alma de Agostinho. Diz ele, “Para as pessoas que buscam sua alegria fora deles mesmos, facilmente caem no vazio, derramam-se, com mentes famintas, sobre o que é visível e temporal e acabam por lamber sombras” (Livro 9, cap.4).
Conversão
Durante um compromisso como professor em Milão, Agostinho teve a oportunidade ouvir e se encontrar com Santo Ambrósio, Bispo de Milão, cujos ensinamentos iriam mudar a vida de Agostinho pelo resto de sua vida. Ambrósio era um eloquente orador, corajoso desafiador de heresias e hereges da época – arianismo, paganismo e do Imperador Valentiniano. Além disso, Ambrósio também era um cidadão romano, muito conhecido na esfera pública, um escritor prolífico e pregador, com uma clara e poderosa mensagem a propósito do justo amor de Deus pela humanidade, espiritualmente atrativa – a ânsia de Agostinho. Paulgaard conclui. “Bispo Ambrósio de Milão teve uma grande influência na vida de Agostinho no momento em que oscilou da heresia para a ortodoxia e da imoralidade sexual para o celibato.”
Logo em seguida, como detalhado nas Confissões, Agostinho descreve uma ocorrência sobrenatural que experimentou em um jardim quando ouviu uma voz de criança que dizia para ele “Tolle lege, tolle lege“ – “Toma e lê, toma e lê” (Livro 8, cap.12). Pegando uma Bíblia que se encontrava próxima, o que Agostinho descobriu parece ter apontado diretamente para seus vícios e fraquezas pessoais. A passagem da Escritura, a Epístola aos Romanos, é, “Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de orgias, nada de bebedeira; nada de desonestidades nem dissoluções; nada de contendas, nada de ciúmes. Ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites (Romanos 13:13).
Para Agostinho, este evento metafísico indicou uma clara determinação de Deus para cessar a racionalização e desculpas para sua imoralidade e vida espiritual caótica e se submeter à Verdade de Deus. Ele diz, “Tu nos fizeste para Ti, Senhor, e nossos corações permanecem inquietos até que encontrem repouso em Vós” (Livro 1, cap.1). O entendimento que Agostinho fez a respeito de si mesmo, dramaticamente transformaram as riquezas mundanas e ele se entregou a esta nova realidade – renunciando a toda sua vontade, seu ego e sua vida, para Deus.
A partir daquele momento, começa um novo caminho de dedicação espiritual, iniciando-se com seu batismo por S. Ambrósio e, em seguida, abraçando um estilo de vida monástica reclusa; no entanto, a vida em mansidão não foi permitida a Agostinho, cujos dons em retórica e compreensão teológica encontravam-se em grande demanda pela comunidade cristã em dificuldades. Nas palavras de Olson:
Em 391, Agostinho foi, virtualmente, forçado a receber ordenação pela congregação em Hipona... Quando o idoso bispo de Hipona precisou de um bispo auxiliar, Agostinho se viu novamente pressionado a uma nova missão... Durante seu mandato, tornou-se profundamente envolvido nos assuntos políticos e eclesiásticos e conseguiu reputação como um dos mais sensatos e sábios líderes da cristandade. (259-260)
Apesar de um passado de exploração hedonística do mundo, o futuro de Agostinho viria a ser o de um ministro e de um altruísta a serviço do mundo.
Legado
Mais conhecido por sua taxonomia e sistematização da fé e doutrina cristãs, a jornada de Agostinho desde sua descrença até à reconciliação espiritual, não pode e não deveria ser incompreendida ou ignorada. Nas Confissões, Agostinho mostrou que era e é adequado e benéfico discutir os esforços pessoais, ser um honesto investigador, pois de acordo com ele, todos nós nos encontramos em uma viagem espiritual por toda vida.
Santo Agostinho resumiu seu entendimento a respeito da fragilidade da humanidade e a grandeza de Deus, quando conclui:
Nenhuma pessoa sabe do que ela mesma é feita, exceto o espírito dentro dela, no entanto ainda existe alguma parte dela que permanece escondida até mesmo pelo seu próprio espírito; porém Vós, Senhor, sabes tudo a respeito do ser humano porque o criaste e confesso, também, que eu não conheço, porque o que sei a meu respeito, somente conheço porque Vós lançastes luz sobre mim, e que do que não sei permanecerei ignorante até que minha escuridão se torne luz brilhante como o meio-dia perante Vossa face. (Livro 10.cap. 5)

