Dez Mulheres do Início do Cristianismo que Deveriam Ser Famosas

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Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Houve muitas mulheres célebres no início do cristianismo que deram contributos significativos para o desenvolvimento da fé, mas que, desde então, acabaram por cair largamente no esquecimento. Algumas foram canonizadas pela Igreja ou reconhecidas de outras formas, mas os seus esforços foram habitualmente eclipsados pelos dos seus homólogos masculinos. Ainda assim, estas mulheres ajudaram a lançar os fundamentos da Igreja.

As mulheres ocupam um lugar de destaque nos evangelhos e no Livro dos Atos do Novo Testamento cristão enquanto apoiantes do ministério de Jesus. A mais famosa delas é Maria Madalena — muito provavelmente uma mulher abastada de classe alta, em vez do rótulo de prostituta que erradamente ainda lhe é atribuído —, mas há também Maria e Marta, as irmãs de Lázaro, Maria, a mãe de Jesus, a Mulher junto ao Poço em Samaria, a Mulher Adúltera e muitas outras que são referidas com apreço por vezes nas epístolas, mesmo quando às mulheres, em geral, era atribuído um estatuto de segunda classe.

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Proba
Proba Sailko (Public Domain)

As primeiras pessoas registadas como tendo visto o Cristo ressuscitado foram mulheres, e as mulheres são fundamentais para a primeira comunidade cristã tal como é retratada no Livro dos Atos. O próprio Jesus nada diz sobre a igualdade dos sexos; ao longo dos evangelhos, parece dar como adquirido que não há nada de inerentemente superior num ou noutro. Contudo, São Paulo (cerca de 5 a.C.-67 d.C.) e outros escritores das epístolas que compõem o Novo Testamento introduziram a misoginia cristã que associou as mulheres a Eva e à Queda do Homem.

Eva, como escreve o apóstolo Paulo, foi enganada e depois tentou Adão a pecar; entregue a si próprio, dá a entender Paulo, Adão teria permanecido feliz no Jardim do Éden e, com ele, todos os seus descendentes e os de Eva. As mulheres não eram, portanto, dignas de confiança, não podiam deter autoridade sobre os homens e deviam aprender com os homens em silêncio, para não tentarem ainda mais os descendentes de Adão (1 Timóteo 2:11-14). Mesmo assim, o próprio Paulo parece ecoar a visão implícita do próprio Jesus sobre a igualdade dos sexos quando escreve:

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Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus.

(Carta aos Gálatas 3:28 – Villapadierna, Carlos de (†) et al.. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 1985)

Os muitos outros passos do Novo Testamento que apoiam a superioridade masculina foram — e continuam a ser — citados com muito mais frequência do que a linha de Gálatas, e às mulheres ainda é negada a posição de liderança em várias denominações e seitas cristãs. No entanto, nem sempre foi assim, e houve muitas mulheres na Igreja primitiva que ocuparam cargos de autoridade, fundaram ordens religiosas e escreveram obras teológicas influentes antes de serem suprimidas. As mulheres só voltaram a encontrar a sua voz na história cristã durante a Idade Média (476-1500) e, de forma mais vincada, durante a Reforma Protestante.

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As Mulheres no Início do Cristianismo

Qualquer pessoa com um conhecimento, nem que seja superficial, do cristianismo já ouviu o termo "Padres da Igreja" [ou Pais da Igreja], mas muito menos a expressão "Mães da Igreja" — e, no entanto, nos primórdios do cristianismo, as mulheres estiveram na linha da frente da religião. As mulheres romanas foram das primeiras a levar o cristianismo a sério, existindo muitas histórias — preservadas nos escritos dos próprios Pais da Igreja e em relatos de mártires — de mulheres fortes que converteram as suas famílias à nova fé.

Algumas destas primeiras Mães da Igreja abraçaram o cristianismo de forma tão completa que cederam tudo o que possuíam — muitas vezes somas avultadas de dinheiro e grandes propriedades — para ajudar os pobres, os doentes e os necessitados, em cumprimento da directiva de Jesus: "Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mateus 25:40). O serviço aos outros, especialmente aos necessitados, era o serviço ao próprio Cristo.

A ideia para a tradução da Bíblia para latim partiu de uma mulher chamada Paula, que não só inspirou a obra como também a reviu e a editou para publicação.

Um conjunto destas mulheres ficou conhecido como as Mães do Deserto, fundadoras de ordens monásticas nos desertos do Egito, Síria, Pérsia e Ásia Menor. Conhecidas como Ammas (mães), eram o equivalente feminino dos mais conhecidos Abbas (pais), como Santo António do Deserto (também conhecido como Santo António do Egito, 251-356), a quem é creditado o estabelecimento do monaquismo cristão. Outras mulheres foram escritoras famosas que misturaram a literatura e a filosofia pré-cristãs com preceitos bíblicos, enquanto outras ainda contribuíram para projetos de construção, programas sociais e esforços de evangelização, apoiando também homens cujos contributos são hoje bem conhecidos.

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Qualquer estudante da Bíblia sabe que São Jerónimo (347-420) traduziu a obra do hebraico e do grego para latim, criando a tradução da Vulgata, que seria utilizada pela Igreja durante bem mais dos 1000 anos seguintes; no entanto, poucas pessoas sabem que a ideia para essa tradução partiu de uma mulher chamada Paula, que não só inspirou a obra como também a reviu e a editou para publicação.

O Desvio de Poder

O papel das mulheres na Igreja permaneceu mais ou menos o mesmo mesmo depois de o cristianismo ter sido elevado por Constantino o Grande (272-337) em 313, através do seu 'Édito de Milão', que proclamou a tolerância para com a nova fé. No entanto, após o Concílio de Niceia, em 325, a situação mudou. Constantino convocou o concílio na sua villa em Niceia para uniformizar a crença e a prática cristãs. A questão mais importante era decidir o estatuto de Cristo como Deus, homem-Deus ou profeta, mas havia muitos outrosaspetos do cristianismo que estavam longe de ser uniformes. Havia, de facto, muitas versões diferentes do conceito religioso central de um "Único Deus Verdadeiro" que redime o mundo.

First Council of Nicaea
Primeiro Concílio de Nicéia Jjensen (Public Domain)

Enquanto padronizava a visão cristã, Constantino também pretendia que a prática religiosa reflectisse essa uniformidade. O Papa Clemente I (c. 35-99) decretou que apenas os homens podiam servir como sacerdotes ou deter autoridade na Igreja, porque Cristo escolhera apenas do sexo masculino para seus apóstolos. O escritor eclesiástico Eusébio (263-339) regista que o concílio, seguindo o exemplo de Clemente (e muito provavelmente influenciado pelas admoestações de Paulo sobre a inferioridade feminina), decretou que as mulheres fossem leigas capazes de servir em posições subordinadas, mas sem poder ter autoridade sobre os homens. Contudo, à época do Concílio de Niceia, muitas mulheres já se tinham revelado líderes religiosas capazes e inspiradoras, e muitas mais o viriam a demonstrar no futuro.

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As Dez Mulheres do Início do Cristianismo que Deveriam Ser Famosas

As dez mulheres infra listadas foram escolhidas de ambos os extremos do espectro: aquelas cujos nomes poderão ser familiares a alguns e aquelas de que poucos ou ninguém jamais ouviram falar. Estas dez são apenas uma pequena amostra das muitas mulheres que contribuíram para o desenvolvimento do cristianismo primitivo, e os leitores são encorajados a explorar o tema mais a fundo através dos livros listados na bibliografia infra. As dez mulheres são:

  • Tecla a Apóstola
  • Perpétua a Mártir
  • Amma Sinclética de Alexandria
  • Santa Marcela
  • Macrina a Jovem
  • Proba
  • Santa Paula
  • Melânia a Velha
  • Eudócia
  • Egéria

Tecla (séc. I) é conhecida pela obra apócrifa Os Atos de Paulo e Tecla (tít. original: Πράξεις Παύλου καὶ Θέκλης, transliterado: Práxeis Paúlou kaì Thékles), que narra a sua conversão ao cristianismo por São Paulo e as suas viagens posteriores com ele, o seu salvamento divino de várias perseguições e da morte, e a sua carreira como curandeira, pregadora e líder religiosa inspiradora. A história de Tecla tem sido frequentemente descartada no passado como ficção cristã, mas os estudiosos modernos acreditam que, embora haja sem dúvida algum exagero nos acontecimentos, o relato se baseia numa mulher real. Nas suas epístolas, Paulo menciona regularmente mulheres que o ajudaram, e a história de Tecla não é muito diferente de muitas outras, exceto pelas repetidas salvações milagrosas da morte. Um aspeto da sua história que se sabe ser verdadeiro sobre as mulheres do seu tempo é o seu voto de castidade, que manteve desde a sua conversão até ao fim da vida. As mulheres que escolhiam uma vida casta, mesmo que fossem casadas, constituíam uma afirmação dramática de individualidade ao reivindicarem direitos sobre os seus próprios corpos e, por extensão, sobre o rumo das suas vidas.

Saint Thecla
Santa Tecla Testus (Public Domain)

Perpétua (181-203) é famosa como uma mártir cristã primitiva que, juntamente com a sua escrava Felicidade, recusou renunciar à sua fé e foi executada por isso. O estudioso I. M. Plant observa que "em quase todos os casos, as histórias de mártires cristãos são fictícias... o martírio de Perpétua, no entanto, é geralmente considerado uma exceção a esta regra" (pág. 164). Cidadã de Cartago, Perpétua foi presa durante uma perseguição local aos cristãos por volta de 202-203, sob o reinado do imperador romano Sétimo Severo (193-211). Ela tinha 22 anos na altura e estava a amamentar o seu recém-nascido quando foi levada para a prisão. O seu pai, um pagão bem visto pelas autoridades, implorou-lhe que renunciasse à sua fé, mas ela recusou e foi executada juntamente com Felicidade. Com base em detalhes da narrativa original relativos à maternidade, os estudiosos acreditam que o relato foi escrito por uma mulher — a primeira parte, talvez, pela própria Perpétua —, o que, como salienta I. M. Plant, tornaria a sua história "a literatura cristã mais antiga existente escrita por uma mulher" (pág. 165).

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Amma Sinclética de Alexandria (cerca de 270 a cerca de 350) é uma das Mães do Deserto mais conhecidas e uma das primeiras fundadoras da tradição monástica. Sinclética era filha de pais ricos em Alexandria, no Egito, cuja beleza atraiu muitos pretendentes. No entanto, recusou-os a todos devido à sua devoção a Cristo. Após a morte dos pais, cortou o cabelo, deu a sua herança aos pobres e deixou a cidade com a sua irmã mais nova (que era cega) para viver uma vida de castidade, pobreza e solidão perto da cripta de um familiar. Na solidão, diz-se que lutou contra demónios que tentavam convencê-la a retomar a sua vida anterior de riqueza e prazer, mas manteve-se fiel à fé. Tendo alcançado a iluminação e a proximidade de Deus que procurava, consentiu em ensinar os que a procuravam e forneceu diretrizes para esta primeira ordem monástica de mulheres. Estas regras, registadas pelo seu biógrafo (possivelmente o bispo Atanásio de Alexandria, 296-373), influenciariam mais tarde o monaquismo europeu.

Amma Syncletica of Alexandria
Amma Sinclética de Alexandria Unknown Artist (Public Domain)

Santa Marcela (325-410) foi uma rica mulher cristã romana que, após a morte do marido, se dedicou à sua fé através de uma vida de castidade e de serviço aos outros. Abriu a sua sumptuosa casa no monte Aventino, em Roma, a outras pessoas que procuravam uma vida de abnegação, oração, jejum e mortificação da carne. Era amiga da futura Santa Paula e correspondente de São Jerónimo. Marcela, que em tempos fora uma das mulheres mais ricas da cidade, doou ou vendeu os seus bens materiais — incluindo todas as roupas, joias e cosméticos caros — para beneficiar os pobres e viver livre de posses em comunhão com Cristo. Tal como muitas mulheres cristãs primitivas, Marcela reclamou a sua identidade através da castidade, recusando-se a voltar a casar, embora a lei o determinasse, e dedicou-se à sua ordem monástica improvisada, que inspiraria outras mulheres a seguir o seu exemplo. Morreu durante o saque de Roma pelos visigodos em 410.

Macrina estabeleceu uma comunidade cristã dedicada a aperfeiçoar a sua relação com Deus e era frequentemente consultada por peregrinos que vinham procurar o seu conselho.

Macrina a Jovem (cerca de 330-379) foi uma asceta cristã cuja devoção a Deus inspirou a obra e a vida dos seus irmãos mais novos, muito mais famosos, São Basílio o Grande (cerca de 329-379) e São Gregório de Nissa (ceerca de 335 a c. 395). Macrina, tal como muitas das outras mulheres desta lista, nasceu de pais ricos na Anatólia (a atual Turquia) e foi prometida em casamento com um bom partido. Quando o noivo morreu, recusou-se a casar com mais alguém e escolheu uma vida de castidade e oração, afirmando (como faziam muitos outros místicos) que Cristo era o seu noivo e que não precisava de mais nenhum. Macrina praticava um ascetismo rigoroso e dedicou-se à educação dos outros, especialmente dos seus irmãos mais novos. Após a morte do pai, ela e a mãe mudaram-se para uma propriedade junto ao rio Íris, no Ponto, onde fundou uma comunidade cristã dedicada a aperfeiçoar a sua relação com Deus, sendo frequentemente consultada por peregrinos que vinham procurar o seu conselho.

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Proba (cerca de 322-370) tem o mérito de ser a primeira escritora cristã solidamente atestada por documentação. É conhecida pelo género de obra literária chamado cento ("colcha de retalhos"), em que um autor utilizava versos de obras poéticas consagradas, tecendo-os com os seus próprios, para criar uma obra de arte totalmente nova. Atualmente, isto seria o "sampling" na música popular, em que um artista toma emprestada uma melodia bem conhecida, no todo ou em parte, para fundamentar a sua peça original. Proba descendia de uma rica família romana e foi muito provavelmente criada na tradição pagã romana antes de se converter ao cristianismo, algum tempo antes de iniciar a sua carreira literária. Combinou a poesia de Virgílio com temas bíblicos para enfatizar os aspetos eternos e heroicos do cristianismo. As suas obras foram mais tarde utilizadas nas salas de aula romanas para ensinar as crianças da classe alta, uma vez que combinavam subtilmente a história pagã do passado com os ideais cristãos.

Santa Paula (347-404) foi a colaboradora próxima de São Jerónimo que o incentivou a traduzir a Bíblia do hebraico e do grego para o latim, criando assim a 'Tradução da Vulgata', que continuou a ser utilizada durante os 1500 anos seguintes como as Escrituras autorizadas do cristianismo. Paula era outra rica aristocrata romana que, após a morte do marido, se sentiu atraída pela comunidade monástica de mulheres fundada por Marcela no monte Aventino. Ficou a conhecer São Jerónimo através de Marcela e viajou extensivamente com ele, estabelecendo um centro religioso em Belém e praticando um estrito ascetismo, incluindo a abstinência. Ajudou Jerónimo a traduzir a Bíblia, revisou a sua obra e editou-a para publicação. Quando faleceu, a sua partida foi profundamente lamentada pela comunidade cristã, tendo sido canonizada no espaço de um ano.

Saint Paula
Santa Paula RickMorais (CC BY)

Melania a Velha (cerca de 350-410) foi uma Mãe do Deserto honrada pela sua devoção a Deus e pelo apoio às ordens cristãs. Era membro de uma das famílias mais ricas da Hispânia romana, tendo-se mudado com o marido proconsul e a família de volta para Roma, apenas para ver todos os seus filhos, exceto um, morrerem da peste. Após perder a família, converteu-se ao cristianismo e renunciou ao mundo, viajando para o Egito para viver num mosteiro. Ao contrário de outros conversos cristãos, Melania não cedeu os seus bens materiais e utilizou a sua imensa fortuna para apoiar comunidades e iniciativas cristãs. Quando os monges da sua ordem foram exilados para a Palestina, acompanhou-os e apoiou-os até que puderam regressar. Fundou duas ordens monásticas em Jerusalém, que administrou, sendo considerada uma Mãe do Deserto pelo seu estrito ascetismo e devoção à oração solitária.

Eudócia (cerca de 400-460) foi uma das escritoras mais prolíficas do seu tempo, tendo criado inúmeras obras sobre temas cristãos que, tal como a obra de Proba, se inspiravam na literatura pré-cristã. Nasceu em Atenas e chamava-se Atenaida antes de se converter ao cristianismo por volta dos 20 anos e adotar o nome Élia Eudócia após o seu batismo. As suas obras eram bastante populares e variavam entre um cento baseado em Homero, poesia sobre a vida e as vitórias militares do marido, vidas de santos e história da igreja. É provavelmente mais conhecida pela sua obra Μαρτύριον τοῦ ἁγίου Κυπριανοῦ (transliterado: Martyrion tou agiou Kyprianou; O Martírio de São Cipriano), que conta a história da cristã castasta Justa, as tentativas do sábio pagão Cipriano para a seduzir, a sua conversão ao cristianismo e o martírio pela sua fé.

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Aelia Eudocia
Élia Eudócia Pitichinaccio (Public Domain)

Egéria (também conhecida como Etéria, séc. IV/V) foi uma viajante e escritora cristã conhecida apenas pela sua obra Itinerario de Egéria ou Viagens de Egéria (tít. original: Itinerarium Peregrinationis). Com base no texto, tratava-se de uma mulher da classe alta que realizou uma peregrinação a locais significativos mencionados na Bíblia. Viajou pelas regiões da atual Turquia, Egito, Israel, Líbano, Jordânia, Síria, Iraque, Irão, Kuwait, Arábia Saudita e de regresso à região da Anatólia. A sua obra foi suficientemente popular para ser copiada e é reconhecida nos dias de hoje como completamente única para a sua época, por se tratar de um relato profundamente pessoal das viagens de Egéria, oferecendo simultaneamente uma perspetiva sobre o estado dos locais que visitou, a forma como se viajava e — dado ter sido redigida em latim — a forma como essa língua era escrita na altura.

Conclusão

Os contributos destas mulheres foram reconhecidos pelos seus contemporâneos masculinos, que incluíram relatos das suas vidas nas suas obras sobre santos masculinos. Amma Sinclética era tão altamente considerada que recebeu a sua própria biografia, e São Jerónimo elogiou Paula nas suas obras. As produções de Proba e de Eudócia parecem ter sido amplamente lidas, a julgar pelo número de cópias, e, embora a obra de Egéria só tenha sido descoberta no século XIX, foi reconhecida nessa altura por já aparecer sob a forma de excertos noutras obras datadas de pouco tempo depois da sua época.

O motivo pelo qual estas mulheres foram apagadas da história oficial da igreja é debatido por vários estudiosos, dependendo a resposta sempre dos valores políticos, religiosos ou de género do autor que formula a tese. Quase sempre, os argumentos destes debates dizem muito mais sobre o autor moderno do que sobre o assunto em questão. Contudo, a estudiosa Laura Swan resume a situação de forma concisa, escrevendo:

A história das mulheres tem sido frequentemente relegada para o mundo das sombras: sentida, mas não vista. Muitos dos nossos Pais da Igreja tornaram-se proeminentes por causa das mulheres. Muitos desses pais foram educados e apoiados por mulheres fortes, e alguns recebem inclusivamente o crédito por fundar movimentos que foram, na realidade, iniciados pelas mulheres nas suas vidas. (pág. 3)

À medida que a Igreja se desenvolveu, desde a sua legitimação por Constantino até à Idade Média, as mulheres perderam cada vez mais terreno em termos de direitos iguais e de dignidade básica. A Igreja medieval incentivou a visão das mulheres como tentadoras perigosas a evitar por qualquer homem piedoso, manchadas pelo pecado original da duplicidade de Eva, e nem sequer a sua associação com a Virgem Maria conseguiu redimir totalmente a sua natureza. A causa mais provável para a exclusão de mulheres de grande mérito da história da igreja é, pura e simplesmente, o facto de não se enquadrarem na narrativa eclesiástica de homens devotos e piedosos versus mulheres tortuosas e pecadoras e, quando confrontados com a escolha entre alterar essa narrativa ou alterar a história, o passado foi modificado.

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Perguntas & Respostas

Quem foram algumas das mulheres famosas do cristianismo primitivo?

Algumas das mulheres mais famosas do cristianismo primitivo incluem Perpétua a Mártir, Santa Marcela, Proba, Santa Paula e Egéria, embora houvesse muitas outras.

O que faziam as mulheres no cristianismo primitivo?

As mulheres deram contributos significativos para o cristianismo primitivo, nomeadamente através da fundação de ordens monásticas, do cuidado dos doentes e dos pobres, da redação de obras religiosas, da evangelização, do martírio pela fé e, no caso de Santa Paula, da ajuda na tradução da Bíblia para o latim.

Por que razão foram atribuídas às mulheres posições subordinadas na Igreja dos tempos posteriores?

As mulheres passaram a estar subordinadas aos homens na Igreja após o Concílio de Nicéia, em 325, com base no argumento de que Cristo tinha escolhido apenas homens como seus discípulos.

Qual é a importância das mulheres no cristianismo primitivo?

As mulheres desempenharam um papel importante no desenvolvimento do cristianismo primitivo, através dos seus esforços para viverem como exemplos dos ensinamentos de Cristo, o que contribuiu para a difusão da fé. As suas contribuições individuais, especialmente nas obras escritas, criaram modelos que mais tarde se tornaram famosos graças a escritores masculinos.

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Mark, J. J. (2026, agosto 22). Dez Mulheres do Início do Cristianismo que Deveriam Ser Famosas. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1409/dez-mulheres-do-inicio-do-cristianismo-que-deveria/

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Mark, Joshua J.. "Dez Mulheres do Início do Cristianismo que Deveriam Ser Famosas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 22, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1409/dez-mulheres-do-inicio-do-cristianismo-que-deveria/.

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Mark, Joshua J.. "Dez Mulheres do Início do Cristianismo que Deveriam Ser Famosas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 22 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1409/dez-mulheres-do-inicio-do-cristianismo-que-deveria/.

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