Ninhursag

A Mãe Terra Original

Celebre o Nosso Aniversário com Trivia!

Junte-se a nós a 23 de agosto para uma festa de trivia virtual gratuita, com perguntas sobre civilizações antigas, história dos EUA, factos históricos insólitos, cultura pop e muito mais.

$194 / $5000
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations 4
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
Libation Offered to a Vegetation Goddess (by Claude Valette, CC BY-ND)
Libação Oferecida a uma Deusa da Vegetação, Claude Valette (CC BY-ND)

Ninhursag (também grafada como Ninhursaga) é a deusa-mãe suméria e uma das mais antigas e importantes do panteão mesopotâmico. É conhecida como a "Mãe dos Deuses" e "Mãe dos Homens" pelo seu papel na criação de entidades tanto divinas como mortais. Substituiu a anterior deusa-mãe, Nammu (também conhecida como Namma), cujo culto é atestado já na Dinastia III (2600–2350 a.C.) do Período Dinástico Antigo na Mesopotâmia (cerca de 2900–2350/2334 a.C.). Ninhursag possuía uma miríade de nomes, atribuídos em vários mitos de acordo com o seu papel específico ou com o tema da narrativa.

Os Nomes da Deusa

Originalmente, era conhecida na Suméria como Damkina e Damgalnuna, uma deusa-mãe nutridora associada à fertilidade na cidade de Malgum. O seu marido/consorte era Sul-pa-e, uma divindade menor associada ao submundo, com quem teve três filhos (Asgi, Lisin e Lil). Contudo, é muito mais frequentemente representada como esposa/consorte de Enki, o deus da sabedoria, entre muitos outros atributos.

Remover Publicidades
Publicidade

"Ninhursag" significa "Senhora da Montanha" e provém do poema Lugale, no qual Ninurta, deus da guerra e da caça, derrota o demónio Asag e o seu exército de pedra, construindo uma montanha com os seus cadáveres. Ninurta dedica a glória da sua vitória à sua mãe, Ninmah ("Rainha Magnífica"), e renomeia-a como Ninhursag.

Ninhursag é uma das candidatas mais prováveis para a figura original da "Mãe Terra".

É também conhecida como Nintud/Nintur ("Rainha da Cabana de Parto") e, pelos Acádios, como Belet-ili ("Rainha dos Deuses"). Os seus outros nomes incluem Makh, Ninmakh, Mamma, Mama e Aruru. Na iconografia, é representada por um sinal semelhante ao símbolo grego ómega, frequentemente acompanhado por uma faca; acredita-se que isto represente o útero e a lâmina utilizada para cortar o cordão umbilical, simbolizando assim o papel de Ninhursag como deusa-mãe.

Remover Publicidades
Publicidade

Aparece pela primeira vez em obras escritas durante o período Dinástico Antigo I (cerca de 2900–2750/2700 a.C.), mas as evidências físicas sugerem que o culto à figura da deusa-mãe remonta, pelo menos, a 4500 a.C., durante o período de Ubaid (cerca de 6500–4000 a.C.), antes de os Sumérios terem chegado à região do sul da Mesopotâmia. Ninhursag é uma das candidatas mais prováveis para a figura original da "Mãe Terra", evoluindo a partir de Nammu, uma vez que está associada à fertilidade, ao crescimento, à transformação, à criação, à gravidez, ao parto e ao cuidar.

Outro dos seus nomes primitivos, Ki ou Kishar, identifica-a como "Mãe Terra". Era frequentemente invocada pelas mães, pois acreditava-se que formava e cuidava da criança no ventre e fornecia alimento após o seu nascimento. Ninhursag é uma das quatro divindades criadoras na crença religiosa suméria (juntamente com Anu, Enlil e Enki) e é mencionada frequentemente em muitos dos mais importantes mitos mesopotâmicos.

Remover Publicidades
Publicidade

Enki e Ninhursag

O mito sumério Enki e Ninhursag conta a história do início do mundo no jardim paradisíaco conhecido como Dilmun. Ninhursag, retratada como uma deusa jovem e vibrante, retirou-se para o inverno para descansar após o seu papel na criação. Enki, deus da sabedoria, da magia e da água doce, encontra-a lá e apaixona-se profundamente por ela. Passam muitas noites juntos, e Ninhursag engravida de uma filha a quem chamam Ninsar ("Senhora da Vegetação"). Ninhursag abençoa a criança com um crescimento abundante, e ela torna-se uma mulher em nove dias. Quando a primavera chega, Ninhursag tem de regressar aos seus deveres de nutrir os seres vivos na Terra e deixa Dilmun, mas Enki e Ninsar permanecem.

Enki sente imensas saudades de Ninhursag e, um dia, vê Ninsar a caminhar pelos pântanos e acredita que ela é a encarnação de Ninhursag. Ele seduz a jovem, que engravida de uma filha, Ninkurra (deusa das pastagens de montanha). Ninkurra também se desenvolve até à idade adulta em nove dias, e Enki volta a acreditar que vê a sua amada Ninhursag na rapariga. Deixa Ninsar por Ninkurra, a quem seduz, e ela dá à luz uma filha chamada Uttu ("A Tecelã de Padrões e Desejos de Vida"). Uttu e Enki são felizes juntos durante algum tempo, mas, tal como aconteceu com Ninsar e Ninkurra, Enki deixa de a amar assim que percebe que ela não é Ninhursag e abandona-a, regressando ao seu trabalho na Terra. Uttu fica perturbada e pede ajuda a Ninhursag, explicando o que aconteceu. Ninhursag diz a Uttu para limpar a semente de Enki do seu corpo e enterrá-la na terra de Dilmun. Uttu faz o que lhe foi ordenado e, nove dias depois, oito novas plantas crescem da terra. Neste momento, Enki regressa juntamente com o seu vizir, Isimud.

Babylonian Statue of Enki
Estátua Babilónica de Enki Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Ao passar pelas plantas, Enki para para perguntar o que são e Isimud colhe a primeira e entrega-a a Enki, que a come. Enki descobre que se trata de uma planta arbórea e acha-a tão deliciosa que Isimud colhe as outras sete, que Enki também come rapidamente. Ninhursag regressa e enfurece-se por Enki ter comido todas as plantas. Ela dirige-lhe o olho da morte, amaldiçoa-o e parte do paraíso e do mundo.

Remover Publicidades
Publicidade

Enki adoece e fica às portas da morte; todos os outros deuses choram, mas ninguém o consegue curar, exceto Ninhursag, que não pode ser encontrada. Aparece uma raposa, um dos animais de Ninhursag, que sabe onde ela está e vai buscá-la. Ninhursag corre para o lado de Enki, puxa-o para si e encosta a cabeça dele à sua vulva. Ela beija-o e pergunta-lhe onde sente a dor e, cada vez que ele lhe responde, ela absorve a dor para o seu próprio corpo e dá à luz outra divindade. Desta forma, nascem oito das divindades mais favoráveis à humanidade:

  • Abu – deus das plantas e do crescimento;
  • Nintulla – Senhor de Magan, que governa o cobre e os metais preciosos;
  • Ninsitu – deusa da cura e consorte de Ninazu;
  • Ninkasi – deusa da cerveja;
  • Nanshe – deusa da justiça social e da adivinhação;
  • Azimua – deusa da cura e esposa de Ningishida do submundo;
  • Emshag – Senhor de Dilmun e da fertilidade;
  • Ninti – "a Senhora da costela" – que dá a vida.

Enki é curado e arrepende-se da sua negligência ao comer as plantas e da sua falta de consideração ao seduzir as raparigas. Ninhursag perdoa-o e ambos regressam ao trabalho da criação.

O mito representa Ninhursag como omnipotente, na medida em que ela é capaz de infligir a morte a um dos deuses mais poderosos e é também a única que o pode curar. Contudo, Enki e Ninhursag também tem sido citado como a base para a história bíblica da criação encontrada no Génesis. O académico Samuel Noah Kramer escreve:

Remover Publicidades
Publicidade

Talvez o resultado mais interessante da nossa análise comparativa do poema sumério seja a explicação que fornece para um dos motivos mais intrigantes na história bíblica do paraíso, a famosa passagem que descreve a formação de Eva, "a mãe de todos os viventes", a partir da costela de Adão – mas porquê uma costela?

Por que terá o narrador hebraico considerado mais adequado escolher uma costela em vez de qualquer outro órgão do corpo para a formação da mulher cujo nome, Eva, segundo a noção bíblica, significa aproximadamente "aquela que faz viver"?

A razão torna-se bastante clara se assumirmos que um contexto literário sumério, como o representado pelo nosso poema de Dilmun, está na base da história bíblica do paraíso; pois, no nosso poema sumério, um dos órgãos doentes de Enki é a costela.

Ora, a palavra suméria para "costela" é ti (pronuncia-se ti); a deusa criada para a cura da costela de Enki foi, portanto, chamada em sumério Nin-ti, "a Senhora da costela". Mas a palavra suméria ti significa também "fazer viver", além de "a Senhora da costela".

Remover Publicidades
Publicidade

Na literatura suméria, portanto, "a Senhora da costela" passou a ser identificada com "a Senhora que faz viver" através do que se pode chamar um jogo de palavras. Foi este, um dos mais antigos trocadilhos literários, que foi transmitido e perpetuado na história bíblica do paraíso, embora lá, naturalmente, o trocadilho perca a sua validade, uma vez que as palavras hebraicas para "costela" e "aquela que faz viver" nada têm em comum.

(pág. 149)

Para além da influência na posterior narrativa bíblica, o mito deixa claro o poder da figura da deusa-mãe na crença suméria. Nenhum dos deuses masculinos que participaram na criação — nem mesmo os mais poderosos, como Anu ou Enlil — consegue fazer algo para curar Enki; apenas a deusa-mãe pode extrair a doença e transformar a morte em vida. Em todos os mitos que a envolvem, Ninhursag está associada à vida e ao poder, mas Enki acaba por rivalizar com ela e, finalmente, dominá-la.

Enki e Ninmah

No mito de Enki e Ninmah, Ninhursag começa em pé de igualdade com o deus, mas, no final, perde o seu estatuto. É sabido que as divindades femininas na Mesopotâmia foram ofuscadas pelas masculinas durante o reinado de Hamurabi da Babilónia (1792–1750 a.C.). Se se pudesse determinar com autoridade que Enki e Ninmah data desta época, então o mito corresponderia ao declínio geral de estatuto e igualdade que as deusas (e as mulheres) estavam a experienciar. Contudo, não foi estabelecida uma data firme para a obra. Como nota o académico Jeremy Black:

Remover Publicidades
Publicidade

A falta de algo que não seja um quadro histórico bastante geral para as composições sumérias significa que qualquer abordagem cronológica a questões literárias, tal como o desenvolvimento de géneros ou a correlação com processos ou eventos históricos, tem de ser amplamente abandonada.

(Reading Sumerian Poetry - Lendo a Poesia Suméria, pág. 23)

É possível, no entanto, que a história provenha do período mais tardio da história mesopotâmica e, dada a perda de estatuto da deusa no mito, uma data mais tardia é o mais provável. Embora se possa sentir a tentação de localizar este conto antes de Enki e Ninhursag, uma vez que ela é conhecida pelo seu nome mais antigo nesta história, quaisquer afirmações desse tipo são insustentáveis. Os nomes da deusa mudavam de história para história e não auxiliam na datação de um texto específico, exceto, talvez, naqueles que identificam Ninhursag como a anterior Damgalnuna.

A história abre com os deuses mais jovens exaustos de todo o seu trabalho incessante. Eles são forçados a escavar canais, colher campos e envolver-se em todo o tipo de trabalho braçal, o que os impede de realizar obras maiores ou de usufruir de qualquer tipo de lazer. Eles clamam a Enki para que faça algo para os ajudar, mas Enki, representado como um deus supremo, está a descansar após o esforço da criação e não quer acordar.

A mãe de Enki, Nammu, ouve os seus lamentos e leva as suas lágrimas até Enki, despertando-o. Enki mostra-se incomodado com o pedido, mas consente com os desejos da sua mãe para que ele crie seres que aliviem o fardo dos deuses. Ele pede-lhe que trabalhe com Ninmah e outras deusas da fertilidade para criar seres humanos e dar-lhes a vida.

Imdugud Copper Frieze from the Ninhursag Temple
Friso de Cobre Imdugud do Templo Ninhursag Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Uma vez criados os humanos, Enki organiza um grande banquete em celebração. Todos os deuses mais velhos louvam a sua sabedoria, e os deuses mais jovens veem-se aliviados das suas tarefas. Enki e Ninmah sentam-se a beber cerveja e, a dada altura, ficam bastante ébrios. Ninmah desafia Enki para um género de competição, afirmando que os corpos dos humanos — desenhados por Enki — podem ser bons ou maus, mas que os seus destinos serão bons ou maus dependendo inteiramente da vontade dela. Enki aceita o desafio, dizendo: "Qualquer que seja o destino que decidas, bom ou mau, eu irei melhorá-lo."

Remover Publicidades
Publicidade

Ninmah cria um homem cujas mãos são fracas, e Enki melhora a sua vida tornando-o criado de um rei, pois ele não seria capaz de roubar. Em seguida, ela cria um homem e cega-o, mas Enki melhora a sua vida conferindo-lhe o dom da música e fazendo dele um menestrel do rei. Este mesmo padrão repete-se, com Ninmah a apresentar a Enki desafios cada vez maiores, os quais ele supera. Finalmente, ela cria um ser sem pénis nem vagina, mas Enki encontra um lugar para esta criatura como eunuco do rei, que vigiará o monarca.

Em cada mito, poema ou história em que Ninhursag aparece, ela está ligada à vida, ao cuidado, à criação e ao papel da deusa-mãe.

Ninmah frustrada, atira o seu próximo pedaço de barro ao chão, mas Enki apanha-o e retoma o jogo, dizendo-lhe que ele irá agora moldar uma criatura, e que ela deverá melhorar o seu destino, tal como ele fez. Ele cria um homem afligido em todas as partes do corpo e entrega-o a Ninmah. Ela tenta alimentá-lo, mas ele não consegue comer, nem consegue estar de pé, andar, falar ou funcionar de qualquer forma. Ela diz a Enki: "O homem que tu moldaste não está vivo nem morto. Ele não consegue sustentar-se a si mesmo."

Enki opõe-se, salientando que ela lhe apresentou várias criaturas desafiantes e que ele foi capaz de as melhorar a todas. A resposta de Ninmah perdeu-se porque a tabuleta está partida neste ponto, mas, quando a história retoma, Enki é claramente o vencedor do desafio, e a obra termina com as linhas: "Ninmah não pôde rivalizar com o grande senhor Enki. Pai Enki, o teu louvor é doce!"

Embora neste mito a deusa perca estatuto, ela continuava a ser considerada uma divindade poderosa a quem se podia recorrer em tempos de dificuldade e de quem se podia esperar proteção e orientação. Em cada mito, poema ou história em que Ninhursag aparece, ela está ligada à vida, ao cuidado, à criação e ao papel da deusa-mãe.

Ninhursag, a Grande Mãe

Ninhursag aparece também no Atrahasis, onde molda os humanos a partir de barro misturado com a carne, o sangue e a inteligência de um dos deuses que se sacrifica pelo bem dos muitos. O Atrahasis também apresenta Enki como o criador dos humanos, que os concebe como um meio para aliviar os deuses do fardo do trabalho. Neste mito, quando o Grande Dilúvio é lançado sobre o mundo por Enlil e a humanidade é destruída, todos os deuses choram, mas Ninhursag é especificamente mencionada a chorar pela morte dos seus filhos.

Em alguns mitos, presumivelmente obras mais antigas, ela é a consorte de Anu e co-criadora do mundo. Noutros ainda, é identificada com Kishar (também conhecida como Ki), a mãe terra. Kramer observa como Ninhursag é listada em último lugar entre as quatro divindades criadoras, mas:

Remover Publicidades
Publicidade

Num tempo anterior, esta deusa tinha provavelmente um estatuto ainda mais elevado e o seu nome precedia frequentemente o de Enki quando os quatro deuses eram listados em conjunto.

(pág. 122)

Continuou a ser incluída na lista dos Sete Poderes Divinos, os mais antigos deuses sumérios: Anu, Enki, Enlil, Inanna, Nanna, Ninhursag e Utu-Shamash. Cada uma destas divindades possuía os seus dons específicos para as pessoas, mas Ninhursag, como a Grande Mãe, presidia sobre toda a humanidade, tanto plebeus como reis. Era vista primordialmente como a protetora das mulheres e das crianças, presidindo à conceção, à gestação e ao parto, mas detinha também uma posição de grande honra entre os deuses.

The Atrahasis III Tablet
A Tábua III de Atrahasis The Trustees of the British Museum (Copyright)

O académico E. A. Wallis Budge nota como ela "criou os deuses e amamentou reis, e as figuras de terracota que a representam mostram-na a amamentar uma criança no seio esquerdo" (pág. 84). Na antiga Mesopotâmia, como noutros locais, o lado esquerdo era considerado feminino e "escuro", enquanto o lado direito era masculino e "claro" (um conceito familiar a qualquer pessoa hoje em dia que esteja familiarizada com o reiki). A estatuária que representa a deusa enfatiza sempre o lado esquerdo de uma forma ou de outra. No exemplo que Wallis Budge dá, é uma criança no seio esquerdo, mas o simbolismo poderia também ser um seio esquerdo descoberto, o braço esquerdo levantado ou algum outro detalhe.

Ninhursag era adorada na cidade de Adab e estava também associada a Kesh (como um dos seus nomes, Belet-ili de Kesh, confirma) e não a Kish, como é frequentemente citado de forma incorreta. Foi ainda honrada com templos em Assur, Ur, Uruque, Eridu, Mari, Lagash e muitas outras cidades por toda a Mesopotâmia durante milhares de anos. Kramer nota:

Os primeiros governantes sumérios gostavam de se descrever como sendo 'constantemente nutridos por Ninhursag com leite'. Era considerada a mãe de todos os seres vivos, a deusa-mãe por excelência.

(pág. 122)

O povo adorava a deusa tal como fazia com qualquer outra divindade mesopotâmica, através de rituais privados e sacrifícios ou doações feitas ao templo. Não existiam serviços no templo em que os fiéis se reunissem para uma adoração semanal, mas os muitos festivais realizados ao longo do ano proporcionavam oportunidades para expressar a devoção de cada um publicamente.

Mosaic Column from the Temple of Ninhursag
Coluna em Mosaico do Templo de Ninhursag Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Conclusão

No II milénio a.C., como referido, as divindades femininas sofreram uma perda de estatuto à medida que os deuses masculinos dos Amoritas da Babilónia, sob o reinado de Hamurabi, ganharam precedência. Após o reinado de Hamurabi, a partir de cerca de 1750 a.C., as divindades masculinas passaram a dominar os panteões da Mesopotâmia e, mesmo após a derrota dos Amoritas, este mesmo paradigma manteve-se. A imensamente popular deusa Inanna/Ishtar tornou-se secundária face a deuses masculinos como o assírio Assur, e a poderosa deusa Ereshkigal, que governava o submundo, passou a ter um consorte masculino (Nergal) para reinar ao seu lado.

Com o tempo, o lado esquerdo, associado ao conceito da deusa, passou a ser ligado às trevas e ao mal, como se pode observar na palavra sinister que, originalmente em latim, significava "esquerda", mas que passou a significar "ameaçador", "maligno" e conceitos semelhantes muito antes de a palavra surgir com tais conotações no inglês médio tardio (cerca de 1375–1425). A prática de usar a aliança de casamento na mão esquerda teve origem em Roma para afastar os poderes malignos associados ao lado esquerdo.

Não é um acaso que, na lenda hebraica de Lilith, a rebelde primeira esposa de Adão surja do seu lado esquerdo para, mais tarde, fugir do paraíso com os seus demónios; a figura da deusa e os seus símbolos tiveram de ser invertidos e carregados de associações negativas para que os deuses masculinos pudessem alcançar o domínio.

Ninhursag sofreu o mesmo declínio que as outras deusas e, por altura da queda do Império Assírio em 612 a.C., já não era adorada. Contudo, a sua influência é considerada significativa no desenvolvimento de deusas posteriores, uma vez que tem sido associada a Hathor e Ísis do Egito, Gaia da Grécia e Cibele da Anatólia, a posterior Magna Mater de Roma, que viria a contribuir para o desenvolvimento da figura da Virgem Maria.

Remover Publicidades
Publicidade

Remover Publicidades
Publicidade

Perguntas & Respostas

Quem é Ninhursag?

Ninhursag é a deusa-mãe suméria, conhecida como Mãe dos Deuses e Mãe dos Homens. Está associada à fertilidade, à maternidade, ao parto, à criação e à proteção das mulheres e das crianças. Considera-se que tenha sido a inspiração para a figura da Mãe Terra.

Quando é que Ninhursag aparece pela primeira vez em obras escritas?

Ninhursag surge pela primeira vez nas obras escritas da Mesopotâmia no período Dinástico Arcaico I (cerca de 2900-2750/2700 a.C.).

Que idade tem a Ninhursag?

As evidências sugerem que Ninhursag, sob outros nomes, já era venerada no período Ubaid (cerca de 6500-4000 a.C.), o que faz dela uma das divindades mais antigas.

Com que outras deusas-mãe é que Ninhursag está associada?

Ninhursag é associada a Cibele da Anatólia, Ísis do Egito, Gaia da Grécia, a Grande Mãe de Roma e a Virgem Maria do cristianismo, entre outras.

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, agosto 11). Ninhursag: A Mãe Terra Original. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15604/ninhursag/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Ninhursag: A Mãe Terra Original." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 11, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15604/ninhursag/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Ninhursag: A Mãe Terra Original." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 11 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15604/ninhursag/.

Remover Publicidades