A prosperidade de cidades fenícias como Tiro, Sídon e Biblos baseava-se no comércio, e foi a procura por novas mercadorias e novos mercados que levou os fenícios a expandirem-se para além da estreita faixa costeira do Levante e a colonizar territórios por todo o Mediterrâneo antigo a partir do século X a.C..
Algumas das colónias fenícias, como Leptis Magna, Cádis e Palermo, tornaram-se cidades importantes por direito próprio, nenhuma tanto quanto Cartago, na costa norte de África, que acabaria por eclipsar a sua metrópole, Tiro, e criar um império próprio.
De Postos Comerciais a Colónias
Os fenícios foram grandes comerciantes e excelentes navegadores, e esta combinação de competências resultou quase inevitavelmente na fundação de colónias onde quer que fossem. As principais rotas comerciais fenícias faziam-se por via marítima em direção às ilhas gregas, cruzando o sul da Europa, descendo a costa atlântica de África e subindo até à antiga Bretanha. Além disso, a Arábia e a Índia eram alcançadas através do Mar Vermelho, e vastas áreas da Ásia Ocidental ficavam ligadas à terra natal por rotas terrestres onde as mercadorias eram transportadas por caravanas.
O comércio e a procura de mercadorias valiosas (para troca, para pagamento de tributo à Assíria e também para uso na próspera indústria manufatureira fenícia) tornaram necessário o estabelecimento de postos comerciais permanentes. Além disso, como os navios fenícios geralmente (mas de todo nem sempre) navegavam à vista da costa e apenas durante o dia, eram igualmente obrigatórias paragens regulares ao longo do percurso. Estes postos avançados, escolhidos originalmente pelos seus portos seguros e de águas pouco profundas e pela proximidade de água potável, tornaram-se mais firmemente estabelecidos de modo a controlar o comércio de mercadorias específicas disponíveis em cada local. Assentamentos mais permanentes podiam também constituir um novo e valioso mercado onde vender os bens manufaturados fenícios, protegendo melhor os interesses comerciais de longo prazo dos fenícios. Com o tempo, estes locais desenvolveram-se ainda mais, a sua população tornou-se maior e mais permanente, a arquitetura mais sólida, e assim por diante, até se transformarem em colónias de pleno direito e em grandes cidades por si mesmas.
A colonização fenícia do Mediterrâneo foi motivada, talvez, mais pelo comércio do que pela expansão territorial em si, mas o facto de uma ter levado à outra parece inevitável. É igualmente verdade que as terras natais fenícias se tinham reduzido na sequência da expansão de potências vizinhas e podem também ter sido afetadas pelas alterações climáticas e pela diminuição da precipitação, com consequências negativas para as terras aráveis e para as colheitas — um problema agravado por uma população em constante crescimento. Quaisquiera que fossem as motivações, o resultado deste longo processo de colonização foi uma influência fenícia permanente que se estendeu por toda a linha costeira do Mediterrâneo.
A Datação do Processo
Segundo os escritores antigos, a colonização fenícia começou a partir do século XII a.C., mas alguns historiadores modernos consideram esta data demasiado precoce e sugerem que o processo foi contemporâneo da colonização grega no século VIII a.C.. Outros estudiosos defendem ainda que o contacto fenício com muitos locais deve ter sido anterior a isso, apontando factos como a transmissão do alfabeto fenício aos gregos, referências na Bíblia a embarcações de Tiro no século X a.C., uma referência numa fonte do século X de Tiro a uma colónia que não pagava o seu tributo (Utica ou, com maior probabilidade, Chipre) e a unanimidade dos autores antigos quanto ao facto de a colonização fenícia do Mediterrâneo ter ocorrido antes da grega. É também verdade que é pouco provável que os primeiros postos comerciais primitivos tenham deixado muitos vestígios no registo arqueológico, pelo que os investigadores que procuram provas físicas de colonização anteriores ao século VIII a.C. enfrentam grandes dificuldades para as encontrar.
Alcançou-se, portanto, um compromisso entre os estudiosos que postula um período de centros comerciais «pré-coloniais» estabelecidos entre os séculos XII e VIII a.C., seguido pela fundação de colónias propriamente ditas entre os séculos VIII e VI a.C.. Neste período, com uma duração superior a 500 anos, os fenícios controlaram uma rede de pontos de paragem que os consagrou como uma das maiores potências comerciais do mundo antigo. Entre estas colónias, a própria Fenícia e as grandes civilizações da época, eram transportadas e trocadas mercadorias como têxteis, vidro, papiro, metais preciosos, madeira, lã, cerâmica, géneros alimentícios, especiarias e escravos.
O Chipre e as Ilhas
A proximidade geográfica de Chipre significou provavelmente que foi um dos primeiros locais a ser colonizados pelos fenícios, talvez logo no século XI a.C.. Os recursos na ilha que motivaram a expansão fenícia incluíam madeira e cobre. A cidade mais importante era Kition, mas outras incluíam Golgoi, Idalion, Tamassos, Marion e Lapethos. Outras ilhas do Egeu que foram colonizadas incluem Rodes (Camiros e Ialysos), Creta (Itanos), Citera, Melos, Tasos e Thera.
O Norte de África
A Fenícia sempre manteve fortes laços comerciais com o Egito, e é provável que aí tenham sido estabelecidos postos comerciais tão cedo quanto em qualquer outro lugar. Mais adiante, ao longo da costa norte de África — com o seu solo fértil e acesso a bens comerciais do interior, como o marfim —, as fontes antigas afirmam que Útica foi fundada cerca de 1101 a.C. por Sídon. Cartago, segundo os mesmos autores, foi fundada em 814 a.C. por Tiro. Outras colónias foram Auza (mencionada em textos como tendo sido fundada por Tiro, mas de localização desconhecida), Leptis Magna, Hipona, Adrameto e Lixus. Quando Cartago prosperou e se transformou numa grande cidade por direito próprio, começou também a fundar colónias, e esta segunda vaga tem gerado alguma confusão entre historiadores (antigos e modernos) no que diz respeito às datas e a quem exatamente fundou o quê.
A Itália
A Sicília foi colonizada pelos fenícios, embora estes tenham recuado para a parte ocidental da ilha quando desafiados pelos gregos. Cidades como Motia, Panormo (atual Palermo) e Solunto foram fundadas a partir do século VIII a.C. Ao mesmo tempo, foram estabelecidas colónias nas ilhas estrategicamente importantes de Lampedusa, Malta e Pantelária. Mais uma vez, o papel exato desempenhado por Cartago neste processo é alvo de debate entre os historiadores. Mais a oeste, a Sardenha (rica em cereais) foi colonizada mais cedo, provavelmente no século IX a.C., sendo as suas cidades importantes Nora, Caralis (Cagliari), Bíthia, Sulcis, Carloforte e Tharros.
A Espanha
Na Antiguidade, a Espanha era uma rica fonte de prata, que os fenícios conseguiam trocar com os povos indígenas por bens de relativamente baixo valor, como vidro, azeite e cerâmica. As fontes antigas afirmam que Gades (Cádis) foi estabelecida cerca de 1110 a.C., mas as provas para uma data tão precoce são escassas e o assunto é controverso. No entanto, Társis (Tartessos), famosa na Bíblia — cuja identidade é desconhecida (e que na verdade poderá nem sequer ser o nome de uma cidade) —, ficava talvez algures a norte de Gades e terá sido provavelmente fundada, juntamente com aquela cidade, no século X a.C.. Outras colónias fenícias importantes foram Malaka (atual Málaga), Sexi (Almuñécar), Abdera (Adra) e Ebusus (Ibiza). Esta última, durante muito tempo considerada uma colónia cartaginesa, apresenta vestígios de um povoamento fenício anterior.
A Relação com a Terra Natal
As colónias estabelecidas pelos fenícios variavam na sua proximidade com a cultura e as práticas do território de origem, dependendo da sua localização geográfica e da força da cultura indígena já presente. O Norte de África tornou-se, talvez, mais «fenício» do que qualquer outro território. Elementos da religião fenícia foram adotados, deuses como Melqart e Astarte eram venerados, e, com o tempo, construíram-se templos, santuários e cemitérios, realizando-se práticas rituais e festividades exatamente como nas cidades de origem de Tiro ou Sídon. Uma das características fenícias mais consistentes encontradas nas colónias era o Tofete, o recinto sagrado construído fora de uma cidade onde se realizavam sacrifícios, incluindo de crianças pelo fogo (talvez apenas em circunstâncias excecionais).
A arte fenícia foi outra exportação, abrangendo tanto peças materiais como ideias e métodos. Foram estabelecidas oficinas nas colónias capazes de produzir artigos de alta qualidade, tais como ourivesaria e tecidos tingidos de púrpura, pelos quais as cidades de origem eram tão famosas. A arquitetura também foi copiada da metrópole, a exemplo do templo de Melqart em Gades, cuja disposição e colunas espelhavam as do templo de Tiro.
Se a religião e a arte fluíam numa direção, as matérias-primas e os tributos seguiam no sentido oposto. Todos os anos, Cartago tinha de enviar um tributo, correspondente a um décimo dos seus lucros anuais, para o Templo de Melqart em Tiro. À medida que as colónias prosperavam, expandiam o seu território — uma dinâmica decerto relacionada com o seu crescimento populacional. Tornaram-se mais militarizadas, construíram fortificações e entraram em conflito com os povos indígenas ou com potências regionais concorrentes. Eram agora cidades de pleno direito, a lutar pelo seu lugar no mundo antigo.
O Legado
As colónias fenícias acabaram por ser absorvidas por culturas locais ou por civilizações contemporâneas empenhadas na sua própria expansão. Por exemplo, Chipre foi conquistado pelo rei assírio Sargão II no final do século VIII a.C., Nabucodonosor cerceou e sitiou Tiro no início do século VI a.C., e os gregos tornaram-se mais ambiciosos na sua própria expansão colonial, forçando os fenícios a abdicar da sua influência em partes da Magna Grécia. E, como já vimos, algumas colónias tornaram-se tão bem-sucedidas que fundaram as suas próprias colónias — no caso de Cartago, a partir de meados do século VI a.C., embarcando inclusive em campanhas militares para forjar para si um império e assumir o controlo de antigas colónias fenícias. O poder e a influência da própria Fenícia decaíram ainda mais na sequência do ataque de Alexandre o Grande em 332 a.C., mas nessa altura já tinha, através do seu estabelecimento ambicioso e audacioso de colónias, contribuído de forma significativa para um mundo mediterrânico muito mais interconectado.
