Império Neoassírio

Joshua J. Mark
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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Assyrian Doorway Protective Spirit (by Mark Cartwright, CC BY-NC-SA)
Espírito Protetor da Porta Assíria Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

O Império Neoassírio (912-612 a.C.) foi a fase final do Império Assírio, estendendo-se por toda a Mesopotâmia, Levante, Egito, Anatólia e parte da Pérsia e da Arábia. Começando com o reinado de Adad Nirari II (912-891 a.C.), os reis neoassírios realizaram grandes expansões territoriais para forjar o maior império do mundo até então.

Os assírios contavam com a força de combate mais eficaz do mundo e foram os primeiros a serem armados com armas de ferro, cujas táticas de batalha os tornavam invencíveis. Sua astúcia política e militar também lhes conferiram a reputação antiga de crueldade e impiedade, embora isso tenha sido questionado nos últimos anos, já que agora se argumenta que eles não eram nem mais nem menos cruéis do que outros impérios antigos, como o de Alexandre, o Grande, ou o de Roma.

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Os reis do império, como Tiglate-Pileser III, Salmanasar V, Sargão II, Senaqueribe e Assaradão, são mencionados diversas vezes na Bíblia como inimigos dos israelitas, embora as inscrições assírias e os livros bíblicos apresentem divergências, por vezes drásticas, sobre como os eventos se desenrolaram entre as duas nações. Isso é particularmente notável nas inscrições de Senaqueribe referentes à conquista de Judá e no relato bíblico de Isaías 37, II Crônicas 32:21 e II Reis 18-19.

PARA GARANTIR A PAZ, Assaradão FIRMOU TRATADOS DE VASSALAGEM COM OS PERSAS E OS MEDOS, EXIGINDO QUE SE SUBMETESSEM ANTECIPADAMENTE AO SEU SUCESSOR, ASSURBANÍPAL.

Os próprios assírios não se referiam a esta fase do seu império como Neoassíria, mas consideravam-na simplesmente como mais um desenvolvimento na sua história. A historiadora Gwendolyn Leick escreve: “De acordo com a Lista de Reis Assírios, não houve ruptura entre os governantes de meados do segundo milénio e os do primeiro milénio” (126). Neoassíria é a designação moderna cunhada por historiadores e baseada na interpretação de inscrições antigas que sugerem mudança na forma como o império era governado.

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A data de início deste período também é contestada, uma vez que alguns estudiosos afirmam que começa com “nova assertividade após a turbulência política associada às invasões arameias nos séculos XII e XI a.C.” (atribuindo as datas de 934-610 a.C.), enquanto outros sustentam que começa com o reinado de Adad Nirari II, em 912 a.C. (Leick, 126). Há ainda outros estudiosos que afirmam que a verdadeira fundação do império começa com Tiglate-Pileser III, em 745 a.C. A mesma situação se repete em relação ao fim do período, visto que alguns estudiosos citam o fim do Império Neoassírio em 612 a.C., com a queda de Assur e Nínive, enquanto outros apontam 610 a.C. como a data final, pois todas as cidades já haviam sido destruídas nessa época.

A Reputação de Crueldade

O Império Neoassírio é o mais familiar aos estudiosos da história antiga, pois corresponde ao período de maior expansão do império, e os reis desse período são os mais frequentemente mencionados na Bíblia. É também a era que, de forma mais decisiva, confere ao Império Assírio a reputação de crueldade e impiedade que possui. O estudioso Paul Kriwaczek escreve:

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A Assíria certamente deve ter uma das piores repercussões na imprensa de qualquer Estado na história. A Babilônia pode ser sinônimo de corrupção, decadência e pecado, mas os assírios e seus famosos governantes, com nomes aterrorizantes como Salmanasar, Tiglate-Pileser, Senaqueribe, Assaradão e Assurbanípal, figuram no imaginário popular logo abaixo de Adolf Hitler e Genghis Khan em termos de crueldade, violência e pura selvageria assassina. (208)

Esta reputação é ainda mais destacada pelo estudioso Simon Anglim e outros. Anglim escreve:

Embora os historiadores tendam a evitar analogias, é tentador ver o Império Assírio, que dominou o Oriente Médio de 900 a 612 a.C., como ancestral histórico da Alemanha nazi: um regime agressivo e assassino vingativo, apoiado por magnífica e bem-sucedida máquina de guerra. Assim como o exército alemão da Segunda Guerra Mundial, o exército assírio era o mais avançado tecnologicamente e doutrinariamente de sua época e serviu de modelo para outros por gerações subsequentes. Os assírios foram os primeiros a fazer uso extensivo de armas de ferro [e] as armas de ferro não só eram superiores às de bronze, como também podiam ser produzidas em massa, permitindo equipar exércitos verdadeiramente muito grandes. (12)

A Groom and Horses from Western Assyria
Cavalariço e Cavalos da Assíria Ocidental Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Embora a reputação de táticas militares decisivas e implacáveis ​​seja compreensível, a comparação com o regime nazi é menos pertinente. Ao contrário dos nazistas, os assírios tratavam bem os povos conquistados que realocavam e os consideravam assírios assim que se submetiam à autoridade central. Não havia o conceito de "raça superior" nas políticas assírias; todos eram considerados trunfo para o império, independentemente de terem nascido assírios ou terem sido assimilados à cultura. Kriwaczek observa:

Na verdade, a guerra assíria não era mais selvagem do que a de outros estados contemporâneos. Nem os assírios eram notavelmente mais cruéis do que os romanos, que faziam questão de alinhar suas estradas com milhares de vítimas de crucificação agonizando. (209)

A única comparação justa entre a Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial e os assírios é a eficiência militar e o tamanho do exército, e essa mesma comparação poderia ser feita com a Roma antiga.

Esses exércitos massivos ainda eram realidade futura, no entanto, quando o primeiro rei do Império Neoassírio chegou ao poder. A ascensão do rei Adad Nirari II (reinou 912-891 a.C.) trouxe o tipo de renascimento que a Assíria precisava naquele momento. Os assírios haviam perdido território, prestígio e poder após o Colapso da Idade do Bronze (cerca de 1200 a.C.) e as invasões dos arameus, amoritas e dos Povos do Mar. Adad Nirari II reconquistou as terras que haviam sido perdidas e assegurou as fronteiras. Os arameus derrotados foram executados ou deportados para regiões no coração da Assíria e assimilados à cultura local.

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Ele também conquistou a Babilônia, mas, aprendendo com os erros do passado (como quando o rei Tukulti-Ninurta I saqueou a Babilônia por volta de 1225 e foi assassinado por isso), recusou-se a pilhar a cidade e, em vez disso, firmou um acordo de paz com o rei, no qual casaram suas filhas e juraram lealdade mútua. O tratado garantiria que a Babilônia se tornasse uma aliada poderosa, em vez de um problema constante, pelos próximos 80 anos.

Assyrian Siege
Cerco Assírio Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

Expansão Militar e a Revisão de Deus

Os reis que sucederam Adad Nirari II continuaram as mesmas políticas e a expansão militar. Tukulti Ninurta II (reinou 891-884 a.C.) expandiu o império para o norte e conquistou mais territórios ao sul, na Anatólia, enquanto Assurnasirpal II (reinou 884-859 a.C.) consolidou o domínio no Levante e estendeu o domínio assírio por Canaã. Assurnasirpal II transferiu a capital de Assur para sua recém-construída cidade de Kalhu, que adornou com mais de 41 tipos de árvores trazidas de suas campanhas.

Kalhu foi construída com trabalho escravo, também trazido dessas campanhas, que tinham sido bem-sucedidas em subjugar quantidade significativa de território. Em batalha, ele empregou o método de conquista mais comum dos assírios: a guerra de cerco, que começava com um ataque brutal à cidade. Anglim escreve:

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Mais do que qualquer outra coisa, o exército assírio se destacava na guerra de cerco e foi provavelmente a primeira força a ter um corpo separado de engenheiros... O assalto era sua principal tática contra as cidades fortemente fortificadas do Oriente Próximo. Eles desenvolveram grande variedade de métodos para romper as muralhas inimigas: sapadores eram empregados para minar as muralhas ou para acender fogueiras sob os portões de madeira, e rampas eram erguidas para permitir que os homens ultrapassassem as muralhas ou tentassem brecha na seção superior da muralha, onde ela era menos espessa. Escadas móveis permitiam que os atacantes cruzassem fossos e assaltassem rapidamente qualquer ponto das defesas. Essas operações eram cobertas por massas de arqueiros, que constituíam o núcleo da infantaria. Mas o orgulho do contnigente de cerco assírio eram as suas máquinas de guerra. Estas eram torres de madeira de vários andares com quatro rodas e uma torreta no topo e um, ou às vezes dois, aríetes na base. (186)

Os avanços na tecnologia militar não foram a única, nem mesmo a principal, contribuição dos assírios, pois, durante esse mesmo período, eles fizeram progressos significativos na medicina, construindo sobre os fundamentos dos sumérios e aproveitando o conhecimento e os talentos daqueles que haviam sido conquistados e assimilados. Assurnasirpal II fez as primeiras listas sistemáticas de plantas e animais do império e levou escribas consigo em suas campanhas para registrar as novas descobertas.

Escolas foram estabelecidas por todo o império, mas eram destinadas apenas aos filhos dos ricos e da nobreza. As mulheres não tinham permissão para frequentar a escola ou ocupar cargos de autoridade, embora, anteriormente na Mesopotâmia, elas tivessem desfrutado de direitos quase iguais. O declínio dos direitos das mulheres está correlacionado com a ascensão do monoteísmo assírio. À medida que os exércitos assírios faziam campanhas por toda a terra, seu deus Assur os acompanhava, mas, como Assur estava anteriormente ligado ao templo daquela cidade e só havia sido adorado ali, a nova maneira de imaginar o deus tornou-se necessária para continuar seu culto e obter sua ajuda em outros locais. Kriwaczek observa:

Poder-se-ia orar a Assur não apenas em seu próprio templo em sua própria cidade, mas em qualquer lugar. À medida que o império assírio expandia suas fronteiras, Assur era encontrado até mesmo nos lugares mais distantes. Da fé em um deus onipresente à crença em um único deus não é um grande passo. Como Ele estava em todos os lugares, as pessoas passaram a entender que, de certa forma, as divindades locais eram apenas diferentes manifestações do mesmo Assur. (231)

Essa unidade de visão de uma divindade suprema ajudou a unificar ainda mais as regiões do império. Os diferentes deuses dos povos conquistados e suas várias práticas religiosas foram absorvidos pelo culto a Assur; Ele foi reconhecido como o único deus verdadeiro, que fora chamado por diferentes nomes por diferentes pessoas no passado, mas que agora era claramente conhecido e podia ser devidamente adorado como a divindade universal. A respeito disso, Kriwaczek comenta:

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A crença na transcendência, em vez da imanência, do divino teve consequências importantes. A natureza passou a ser dessacralizada, desconsagrada. Uma vez que os deuses estavam fora e acima da natureza, a humanidade – de acordo com a crença mesopotâmica, criada à semelhança dos deuses e como serva dos deuses – também deveria estar fora e acima da natureza. Em vez de ser parte integrante da Terra natural, a raça humana era agora sua superior e sua governante. A nova atitude foi posteriormente resumida em Gênesis 1:26: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine ele sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que rasteja sobre a terra." Isso é muito bom para os homens, explicitamente destacado nessa passagem. Mas para as mulheres isso representa dificuldade insuperável. Enquanto os homens podem iludir a si mesmos e uns aos outros de que estão fora, acima e superiores à natureza, as mulheres não podem se distanciar dessa forma, pois sua fisiologia as torna clara e obviamente parte do mundo natural... Não é por acaso que, ainda hoje, as religiões que mais enfatizam a transcendência absoluta de Deus e a impossibilidade de sequer imaginar Sua realidade releguem as mulheres a patamar inferior de existência. A participação deles no culto religioso público era permitida apenas com relutância, quando permitida. (229-230)

A cultura assíria tornou-se cada vez mais coesa com a expansão do império, a nova compreensão da divindade e a assimilação dos povos das regiões conquistadas. Salmanasar III (reinou 859-824 a.C.) expandiu o império ao longo da costa do Mediterrâneo e recebeu tributo das ricas cidades fenícias de Tiro e Sídon.

Ele também derrotou o reino armênio de Urartu, pelo menos temporariamente, que há muito tempo representava incômodo significativo para os assírios. Após seu reinado, no entanto, o império entrou em guerra civil, com o rei Shamshi Adad V (reinou 824-811 a.C.) lutando com seu irmão pelo controle. Embora a rebelião tenha sido sufocada, a expansão do império foi interrompida após Salmanasar III.

A regente Sammu-Ramat (também conhecida como Shammuramat, a inspiração para a lendária rainha Semíramis) ocupou o trono para seu jovem filho Adad Nirari III, de cerca de 811 a 806 a.C., e nesse período garantiu as fronteiras do império e organizou campanhas bem-sucedidas para subjugar os medos e outras populações problemáticas no norte.

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Quando seu filho atingiu a maioridade, ela pôde entregar-lhe um império estável e considerável, que Adad Nirari III expandiu ainda mais. Após seu reinado, no entanto, seus sucessores preferiram se acomodar com as conquistas de outros e o império entrou em outro período de estagnação. Isso foi especialmente prejudicial para o exército, que definhou sob reis como Ashur Dan III e Ashur Nirari V.

Neo-Assyrian Empire
Império Neoassírio Ningyou (Public Domain)

A Ascensão do Império Neoassírio

O império foi revitalizado por Tiglate-Pileser III (reinou 745-727 a.C.), que reorganizou o exército e reestruturou a burocracia do governo. Segundo Anglim:

Tiglate-Pileser III realizou extensas reformas no exército, reafirmou o controle central sobre o império, reconquistou o litoral do Mediterrâneo e até subjugou a Babilônia. Ele substituiu o recrutamento [no exército] por um contingente de mão de obra imposto a cada província e também exigiu contingentes dos estados vassalos. (14)

Ele também derrotou o reino de Urartu, que havia ressurgido para perturbar os governantes assírios, e subjugou a região da Síria. De acordo com alguns estudiosos, o Império Neoassírio começa, na verdade, com Tiglate-Pileser III. Leick, por exemplo, observa:

No período entre 745 e 705 a.C., o Império Assírio tomou forma. Isso foi resultado não apenas da renovada expansão militar, mas também de novas estruturas administrativas que garantiram controle político e fiscal muito mais rígido. (127)

Sob o reinado de Tiglate-Pileser III, o exército assírio tornou-se a força militar mais eficaz da história até então e serviria de modelo para futuros exércitos em termos de organização, táticas, treinamento e eficiência.

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Tiglate-Pileser III foi sucedido por Salmanasar V (reinou 727-722 a.C.), que continuou as políticas do rei, mas não foi tão eficaz em campanhas militares. Seu sucessor, Sargão II (reinou 722-705 a.C.), foi um brilhante líder militar e administrador que expandiu o império mais do que qualquer rei antes dele. Embora o governo de Sargão II tenha sido contestado por nobres que alegavam que ele havia usurpado o trono ilegalmente, ele manteve a coesão do império, expandiu as fronteiras, aprimorou a legislação e a administração e manteve o tesouro real abastecido por meio de suas conquistas.

Seguindo o exemplo de Tiglate-Pileser III, Sargão II conseguiu levar o império ao seu auge político e militar. Sargão II fundou a Dinastia Sargônida (722-612 a.C.), que governaria o Império Assírio até à sua queda.

A Dinastia Sargônida

Sargão II foi sucedido por seu filho Senaqueribe (reinou 705-681 a.C.), que realizou campanhas militares amplas e implacáveis, conquistando Israel, Judá e as províncias gregas da Anatólia. Seu cerco a Jerusalém é detalhado no "Prisma de Taylor", um prisma cuneiforme que descreve os feitos militares de Senaqueribe, descoberto em 1830 pelo coronel britânico Taylor, no qual ele afirma ter capturado 46 cidades e encurralado o povo de Jerusalém até subjugá-lo.

Seu relato é contestado, no entanto, pela versão dos eventos descrita no livro bíblico de II Reis, capítulos 18-19, II Crônicas 32:21 e Isaías 37, onde se afirma que Jerusalém foi salva por intervenção divina e o exército de Senaqueribe foi expulso do campo de batalha. O relato bíblico, contudo, menciona a conquista assíria da região.

Sargon II and Sennacherib
Sargão II e Senaqueribe Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

As vitórias militares de Senaqueribe aumentaram a riqueza do império para além do que Sargão II havia conquistado, embora seu reinado tenha sido marcado por persistentes campanhas militares contra a Babilônia e os elamitas. Ele transferiu a capital da cidade de Dur-Sharrukin, fundada por Sargão, para Nínive e construiu o que ficou conhecido como "o Palácio sem Rival". Embelezou e aprimorou a estrutura original da cidade, plantando pomares e jardins. O estudioso Christopher Scarre escreve:

O palácio de Senaqueribe possuía todos os adornos típicos de uma grande residência assíria: figuras colossais de guardiões e impressionantes relevos em pedra esculpidos (mais de 2.000 placas esculpidas em 71 salas). Seus jardins também eram excepcionais. Pesquisas recentes da assirióloga britânica Stephanie Dalley sugerem que esses eram os famosos Jardins Suspensos, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Autores posteriores localizaram os Jardins Suspensos na Babilônia, mas extensas pesquisas não conseguiram encontrar nenhum vestígio deles. O relato orgulhoso de Senaqueribe sobre os jardins do palácio que criou em Nínive coincide com o dos Jardins Suspensos em vários detalhes significativos. (231)

A Babilônia havia sido um problema persistente durante todo o reinado de Senaqueribe, e ele finalmente se cansou de lidar com ela. Ignorando as lições do passado e não contente com sua grande riqueza e o luxo da cidade, Senaqueribe lançou seu exército contra a Babilônia, saqueou-a e pilharam os templos. Como anteriormente na história com Tukulti-Ninurta I (reinou 1244-1208 a.C.), o saque e a destruição dos templos da Babilônia foram vistos como o ápice do sacrilégio pelo povo da região e pelos filhos de Senaqueribe, que o assassinaram em seu palácio em Nínive para aplacar a ira dos deuses.

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Senaqueribe havia escolhido seu filho mais novo, Assaradão, para sucedê-lo, em 683 a.C., e isso não agradou a seus irmãos mais velhos. Embora o motivo para o assassinato do pai pudesse muito bem ter sido o desejo de poder (e de frustrar as esperanças do irmão mais novo de ascender ao trono), eles precisariam de algum tipo de justificativa para o ato, e o saque da Babilônia pelo pai forneceu essa racionalização.

Assaradão (reinou 681-669 a.C.) ascendeu ao trono, derrotou as facções de seu irmão em guerra civil de seis semanas e, em seguida, executou as famílias, os associados e todos aqueles que se uniram contra ele. Com seu governo agora seguro, um de seus primeiros projetos foi reconstruir a Babilônia. Ele emitiu proclamação oficial afirmando que a Babilônia havia sido destruída pela vontade dos deuses devido à maldade da cidade e à falta de respeito pelo divino.

Em nenhum momento de sua proclamação é mencionado Senaqueribe ou seu papel na destruição da cidade, mas deixa claro que os deuses escolheram Assaradão como o meio divino para a restauração:

Certa vez, durante o reinado de um governante anterior, houve maus presságios. A cidade insultou seus deuses e foi destruída por ordem deles. Eles me escolheram, Assaradão, para restaurar tudo ao seu devido lugar, para acalmar sua ira e apaziguar sua fúria.

O império floresceu sob seu reinado. Ele conquistou com sucesso o Egito, algo que Senaqueribe tentara sem sucesso (porque, segundo Heródoto II.141, ratos do campo roeram as cordas dos arcos dos arqueiros de Senaqueribe, suas aljavas e as correias dos escudos dos soldados na noite anterior à batalha). Assaradão estabeleceu as fronteiras do império tão ao norte quanto a Cordilheira de Zagros (atual Irão) e tão ao sul quanto a Núbia (atual Sudão), com uma extensão que incluía o Levante (do atual Líbano a Israel) até a Anatólia (Turquia).

As suas campanhas militares bem-sucedidas e a cuidadosa administração do governo proporcionaram a estabilidade necessária para avanços na medicina, alfabetização, matemática, astronomia, arquitetura e artes. O historiador Will Durant escreve:

No campo da arte, a Assíria igualou sua preceptora Babilônia e, em baixo-relevo, a superou. Estimulados pela entrada de riquezas em Assur, Kalakh e Nínive, artistas e artesãos começaram a produzir – para nobres e suas damas, para reis e palácios, para sacerdotes e templos – joias de todos os tipos, metal fundido tão habilmente desenhado e finamente trabalhado como nos grandes portões de Balawat, e móveis luxuosos de madeiras ricamente esculpidas e caras, reforçadas com metal e incrustadas com ouro, prata, bronze ou pedras preciosas. (278)

Para garantir a paz, Assaradão firmou tratados de vassalagem com os persas e os medos, exigindo que se submetessem antecipadamente ao seu sucessor. Além disso, a mãe de Assaradão, Zakutu (cerca de 728-c. 668 a.C.), a poderosa rainha viúva, também emitiu seu Tratado de Lealdade de Naqi'a-Zakutu, que obrigava a corte assíria e os territórios vassalos a aceitarem Assurbanípal como rei e a apoiarem seu reinado de acordo com os desejos de Assaradão.

Essas medidas garantiram a fácil transição de poder quando Assaradão morreu, em 669 a.C., em campanha no Egito, e o governo passou para o último grande rei assírio, Assurbanípal (reinou 668-627 a.C.). Assurbanípal foi o mais letrado dos governantes assírios e é provavelmente mais conhecido nos dias de hoje pela vasta biblioteca que reuniu em seu palácio em Nínive.

Embora grande patrono das artes e da cultura, Assurbanípal podia ser tão implacável quanto seus antecessores na segurança do império e na intimidação de seus inimigos. Kriwaczek comenta:

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Que outro imperialista, como Assurbanípal, teria encomendado uma escultura para seu palácio com decoração que o mostrava, juntamente com sua esposa, banqueteando em seu jardim, com a cabeça decepada e a mão cortada do Rei de Elão penduradas em árvores de cada lado, como enfeites de Natal macabros ou frutas estranhas? (208)

Assurbanípal derrotou decisivamente os elamitas, completou a conquista do Egito iniciada por seu pai e expandiu o império ainda mais para o leste e para o norte. Reconhecendo a importância de preservar o passado, ele enviou emissários a todos os pontos das terras sob seu controle e os incumbiu de recuperar ou copiar os livros daquela cidade ou vila, trazendo todos de volta a Nínive para a biblioteca real. Embora não tenha sido o primeiro rei a colecionar livros, foi o primeiro a priorizar tal coleção.

Assyrian Lion Hunt Relief
Relevo Assírio de Caça ao Leão Jan van der Crabben (Photographer) (Copyright)

Declínio e Queda

Assurbanípal governou o império por 42 anos e, nesse período, realizou campanhas bem-sucedidas e governou com eficiência. O império, no entanto, havia crescido demais e as regiões estavam sobrecarregadas de impostos. Além disso, a vastidão do domínio assírio dificultava a defesa das fronteiras. Apesar do grande número de soldados, não havia homens suficientes para manter guarnições em todos os fortes ou postos avançados importantes.

Quando Assurbanípal morreu, em 627 a.C., o império começou a se desintegrar. Seus sucessores, Assur-etli-Ilani, Sin-Shar-Ishkun e Assur-uballit II, foram incapazes de manter os territórios unidos e as regiões começaram a se separar. O governo do Império Assírio era visto como excessivamente severo por seus súditos, apesar de quaisquer avanços e luxos que ser um cidadão assírio pudesse proporcionar, e antigos estados vassalos se revoltaram.

Em 612 a.C., Nínive foi saqueada e incendiada por coalizão de babilônios, persas, medos e citas, entre outros (assim como Assur e as outras cidades assírias). A destruição do palácio fez com que as paredes em chamas desabassem sobre a biblioteca de Assurbanípal e, embora não fosse a intenção, preservou a grande biblioteca e a história dos assírios, ao endurecer e enterrar os livros em tabuletas de argila. Kriwaczek escreve:

Assim, os inimigos da Assíria falharam em alcançar seu objetivo quando arrasaram Assur e Nínive, em 612 a.C., apenas quinze anos após a morte de Assurbanípal: o apagamento do lugar da Assíria na história. (255)

Ainda assim, a destruição das grandes cidades assírias foi tão completa que, em duas gerações após a queda do império, ninguém sabia onde as cidades haviam estado. As ruínas de Nínive foram cobertas pelas areias e permaneceram enterradas pelos próximos 2.000 anos.

Os assírios, no entanto, foram lembrados devido aos registros dos escritores gregos e romanos e, também, devido à sua menção na Bíblia. O interesse arqueológico na Mesopotâmia foi impulsionado no século XIX pelo desejo de corroborar as narrativas bíblicas do Antigo Testamento com evidências históricas. Os assírios, que haviam sido senhores da terra em sua época, desempenharam novamente papel importante na história, atraindo a atenção de arqueólogos e estudiosos para a região da Mesopotâmia, onde toda a cultura mesopotâmica foi eventualmente revelada.

Antes do século XIX, os sumérios eram desconhecidos, assim como muitos dos mitos, lendas e eventos históricos que hoje são reconhecidos como tão importantes. Essas histórias estão disponíveis para os leitores modernos graças à preservação dos livros. As tabuletas de argila descobertas sob as muralhas de Nínive e em outros locais revelaram ao mundo moderno os mitos, lendas e histórias do povo da Mesopotâmia e, com sua descoberta, proporcionaram uma nova compreensão da história e cultura mundial.

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Perguntas & Respostas

O que foi o Império Neoassírio?

O Império Neoassírio (912-612 a.C.) foi a última fase do Império Assírio antes da sua queda.

Por que é chamado de Império Neoassírio?

O termo "Império Neoassírio" é a designação moderna para diferenciar a última fase do Império Assírio das fases anteriores. É assim chamado porque os estudiosos acreditam que os reis deste período usaram métodos de governo e guerra mais modernos do que antes.

Por que é que o Império Neoassírio é famoso?

O Império Neoassírio é famoso pelos seus reis, como Sargão II, Senaqueribe, Assar-Hadom e Assurbanípal, que eram conhecidos pelas suas vitórias militares, projetos de construção e avanços culturais, bem como pela sua alegada crueldade e impiedade para com os inimigos.

Por que é que o Império Neoassírio caiu?

O Império Neoassírio entrou em colapso porque cresceu demais para ser mantido e porque os sucessores de Assurbanípal foram governantes ineficazes. Estados rebeldes dentro do império se separaram após 627 a.C., e as cidades assírias foram saqueadas e incendiadas, em 612 a.C.

Sobre o Tradutor

Raimundo Raffaelli-Filho
Médico, professor de Clínica Médica (MD, PHD) e apaixonado por História, particularmente pela Antiga e Medieval, especialmente pelo Império Romano.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, fevereiro 06). Império Neoassírio. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11225/imperio-neoassirio/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Império Neoassírio." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, fevereiro 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11225/imperio-neoassirio/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Império Neoassírio." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 06 fev 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-11225/imperio-neoassirio/.

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