A Profecia de Marduk (íncipit: anāku marduk šarru rabû) é um documento assírio, datado entre 713 e 612 a.C., encontrado num edifício conhecido como 'A Casa do Exorcista', adjacente a um templo na cidade de Assur. O texto relata as viagens da estátua do deus babilónico Marduk, desde a sua cidade natal até às terras dos hititas, assírios e elamitas, e profetiza o seu regresso pelas mãos de um forte rei babilónico.
A obra original terá sido escrita durante o reinado de Nabucodonosor I (cerca de 1121-1100 a.C.), servindo como peça de propaganda para celebrar a vitória sobre os elamitas, aquando do regresso da estátua à Babilónia.
O autor terá construído a narrativa de forma a colocar os acontecimentos no passado, permitindo assim uma "visão profética" na qual o atual rei viria restaurar a paz e a ordem na cidade, ao trazer a estátua do deus de volta a casa. Esta forma de narrativa era comum no género hoje conhecido como literatura naru mesopotâmica, onde os acontecimentos históricos ou os indivíduos eram tratados com licença poética para defender um ponto de vista.
Numa obra como A Maldição de Ágade, por exemplo, o rei histórico Naram-Sin (reinou de 2254-2218 a.C.), conhecido pela sua piedade, é apresentado como ímpio num esforço para ilustrar a relação adequada entre um monarca e os deuses. O argumento apresentado seria o de que, se um rei tão grande como Naram-Sin de Acádia pôde falhar na piedade e ser punido, qual não seria o destino de uma pessoa de menor estatura.
N'A Profecia de Marduk, os acontecimentos são colocados num passado distante para que o escritor possa "prever" o momento em que um rei babilónico devolveria Marduk ao seu devido lar. Esta obra, portanto, também aborda a responsabilidade que um monarca tem para com o seu deus.
Ao se ler o texto, reconhecem-se facilmente as qualidades míticas e os temas políticos — como o facto da estátua de Marduk expressar satisfação com as terras de Hati e dos assírios (ambos considerados aliados ou até algo mais próximo), mas aversão pela terra de Elão (um inimigo tradicional da Babilónia) —, mas também se tem a perceção de que a obra se baseia em acontecimentos históricos reais.
A remoção da estátua de um deus de uma cidade conquistada era uma prática comum e era considerada uma perda devastadora para os vencidos. Isto aplicava-se a qualquer divindade, mas, dada a sua elevada reputação, o impacto foi ainda maior no caso de Marduk e da Babilónia.
Marduk, o Rei dos Deuses
Na mitologia mesopotâmica, Marduk era filho de Enki (também conhecido como Ea), o deus da sabedoria, tendo sido elevado à posição de rei dos deuses durante uma grande batalha entre as forças dos deuses mais antigos e as dos seus filhos. De acordo com o Enuma Elish (íncipit: enūma eliš lā nabû šamāmū), o universo era originalmente um caos aquático até se dividir em água doce (conhecida como Apsu, o princípio masculino) e água salgada (conhecida como Tiamat, o princípio feminino). Apsu e Tiamat geraram, então, os outros deuses que, com pouco para fazer, se ocupavam da melhor forma que podiam.
Com o tempo, as tropelias dos seus filhos começaram a irritar Apsu, que decidiu, sob o conselho do seu vizir, matá-los. Tiamat, ao saber disto, revelou a conspiração a Enki, que se antecipou, mergulhou o pai num sono profundo e matou-o. Tiamat ficou horrorizada com o sucedido e reuniu um exército para destruir os seus filhos. Lideradas pelo seu consorte Quingu, as forças de Tiamat saíram vitoriosas de todos os confrontos.
Os deuses mais jovens foram repelidos até que Marduk se adiantou numa reunião do conselho e anunciou que os lideraria até à vitória se o nomeassem seu rei. Assim que aceitaram, ele derrotou Quingu ( que seria executado mais tarde) e matou Tiamat com uma grande flecha que a dividiu em duas. Tendo derrotado as forças do caos, Marduk dedicou-se à criação do mundo, à ordenação dos céus e à formação de uma nova criatura chamada de ser humano, que seriam colaboradores dos deuses para conter as forças do caos e manter a ordem no mundo. Desta forma, todos os seres humanos eram filhos de Marduk, que trabalhavam para cumprir a sua vontade.
A história de Marduk tornou-se tão popular que ele passou a ser reconhecido como o deus supremo. O académico Jeremy Black observa:
O culto de Marduk, na sua forma mais extrema, tem sido comparado ao monoteísmo, embora nunca tenha levado à negação da existência de outros deuses.
(pág. 129)
Marduk era, portanto, extremamente importante para os povos da Mesopotâmia, mas especialmente para os da cidade da Babilónia.
A Importância de Marduk para a Babilónia
Marduk ascendeu a uma posição de destaque como a divindade padroeira da Babilónia durante o reinado de Hamurabi (1792-1750 a.C.) e continuou a ser venerado na cidade até ao período do domínio persa, altura em que a Babilónia foi destruída por volta de 485 a.C. por Xerxes, o Grande. O festival de Ano Novo (conhecido como o Festival Akitu) não podia ser celebrado quando a estátua do deus estava ausente da cidade, uma vez que se pensava que isso simbolizava a partida da própria presença do deus.
Pensava-se que Marduk vivia no seu templo, no centro da cidade, tal como os deuses doutras cidades viviam nos seus. Quando a estátua de um deus era removida, a proteção que essa divindade proporcionava era igualmente perdida. A Profecia de Marduk relata o tipo de condições que se seguiam quando um deus abandonava ou era retirado de uma cidade:
Os cadáveres das pessoas bloqueiam as portas. O irmão come o irmão. O amigo atinge o amigo com uma maça. Os cidadãos livres estendem as mãos aos pobres para mendigar. O cetro encurta. O mal estende-se por toda a terra. Os usurpadores enfraquecem o país. Os leões bloqueiam o caminho. Os cães enlouquecem e mordem as pessoas. Quem quer que eles mordam não sobrevive, morre.
(Van de Mieroop, pág. 48)
O académico Marc Van De Mieroop comenta esta situação, escrevendo:
A ausência da divindade padroeira da sua cidade causava uma grande rutura no culto [dessa divindade e da cidade em geral]. A ausência da divindade nem sempre era metafórica, mas sim, frequentemente, o resultado do roubo da estátua de culto por inimigos invasores. As estátuas divinas eram habitualmente levadas nas guerras pelos vencedores, de forma a enfraquecer o poder das cidades derrotadas. As consequências eram tão terríveis que a perda da estátua merecia ser registada nos textos historiográficos. Quando a estátua de Marduk não estava presente na Babilónia, o festival de Ano Novo, crucial para todo o ano cultual, não podia ser celebrado.
(Idem)
A Babilónia foi saqueada pelo governante assírio Senaqueribe (reinou 705-681 a.C.) em 689 a.C., após este ter desdenhado anteriormente Marduk como deus da cidade, bem como o ritual de "tomar a mão" do deus quando se proclamou rei da Babilónia. Quando foi assassinado pelos seus filhos em 681 a.C., o ato foi considerado a retribuição de Marduk pelo insulto a si próprio e à sua cidade.
O filho e sucessor de Senaqueribe, Assaradão (reinou 681-669 a.C.), envidou grandes esforços para se distanciar do pai, ao reconstruir a cidade e ao honrar Marduk com um templo ainda mais grandioso: o grande zigurate da Babilónia (modelo para a Torre de Babel bíblica) onde, de acordo com o historiador grego Heródoto, o povo acreditava que o próprio deus descia dos céus para se acasalar com virgens especialmente escolhidas que viviam no nível superior.
Pondo de lado as alegações de Heródoto, contudo, entendia-se que Marduk residia no seu templo, e não nos céus, entre o povo da sua cidade. No festival de Ano Novo, a sua estátua era levada em procissão pelas ruas até a uma pequena casa fora das muralhas, onde podia desfrutar de uma vista diferente e de algum ar fresco. Marduk não era uma divindade distante num plano superior, mas sim alguém instantaneamente acessível e sempre disponível para o povo. Por conseguinte, foi especialmente difícil para os babilónios verem o seu protetor e amigo ser-lhes retirado.
As Viagens de Marduk
A Profecia de Marduk não apresenta um cronograma claro dos acontecimentos, mas sabe-se agora, através de outras fontes, quando ocorreram certas invasões e quando foi levada a estátua do deus. Além disso, a obra não acompanha o destino da estátua após o seu regresso de Elão para a Babilónia.
Um cronograma das viagens de Marduk estender-se-ia desde a primeira vez que a estátua foi levada pelos hititas até à sua destruição final pelos persas sob o comando de Xerxes, sendo esta história posterior fornecida por escritores gregos. A jornada da estátua de Marduk seguiria estas datas aproximadas:
cerca de 1595 a.C. — Mursili I dos hititas leva a estátua para a Terra de Hati após saquear a Babilónia.
cerca de 1344 a.C. — O rei hitita Supiluliuma I terá devolvido (especula-se) a estátua à Babilónia como um gesto de boa vontade comercial.
1225 a.C. — Tuculti-Ninurta I da Assíria saqueia a Babilónia e leva a estátua de volta para Assur.
Embora tenha havido algumas sugestões de que a cidade de Assur foi saqueada após a morte de Tuculti-Ninurta I em 1208 a.C., isto não parece provável. A próxima vez que a estátua é mencionada, encontra-se na posse de Sutruc-Nacunte de Elão, que muito provavelmente a retirou da cidade de Sipar, para onde tinha sido transferida em determinada altura.
cerca de 1150 a.C. — Sutruc-Nacunte, rei de Elão, apodera-se da estátua no seu saque a Sipar. A inscrição de Sutruc-Nacunte gaba-se de ter destruído Sipar, uma cidade próxima da Babilónia, e de ter levado muitos bens de valor religioso e cultural — incluindo a estela do grande Naram-Sin —, pelo que é provável que a estátua tivesse sido levada para Sipar.
cerca de 1121-1100 a.C. — Reinado de Nabucodonosor I, que derrota os elamitas e traz a estátua de volta para a Babilónia.
705-689 a.C. — A estátua permanece na Babilónia durante o reinado de Senaqueribe da Assíria, até este saquear a cidade em 689 a.C. e retirar a estátua, muito provavelmente para Nínive.
681-669 a.C. — Assaradão, filho de Senaqueribe, reconstrói a Babilónia, devolve a estátua e honra Marduk com um novo templo.
668-627 a.C. — Reinado de Assurbanípal, filho de Assaradão, durante o qual a estátua permanece na Babilónia.
cerca de 605 a cerca de 562 a.C. — Reinado de Nabucodonosor II, período no qual as ruas foram alargadas para que a estátua de Marduk pudesse ser mais facilmente levada em procissão nos dias de festival e, especialmente, no Ano Novo, altura em que seria transportada através da Porta de Ishtar até à casa especial.
cerca de 539 a.C. — A Babilónia é conquistada por Ciro, o Grande, da Pérsia. Ciro tinha um enorme respeito pela cidade e pelo seu deus. Uma inscrição num cilindro de argila no túmulo de Ciro justifica o seu ataque à Babilónia e relata como Marduk estava do seu lado, merecendo louvor pela sua vitória. A conquista da Babilónia é justificada com a alegação de Ciro de que o rei se tinha esquecido dos devidos louvores a Marduk e não estava apto para governar.
cerca de 485 a.C. — A Babilónia revolta-se contra o domínio persa e Xerxes I, o Grande, destrói a cidade em retaliação, fundindo a estátua de ouro de Marduk.
A Fiabilidade das Fontes
Como foi observado, A Profecia de Marduk é uma ficção histórica criada para celebrar a vitória de Nabucodonosor I sobre os elamitas. As fontes que traçam o destino da estátua após o seu regresso à Babilónia são de natureza histórica, mas os dois autores centrais — Heródoto e Diodoro Sículo — foram ambos criticados por imprecisões e autênticas fábulas nas suas respetivas obras.
Os relatos de Heródoto sobre a Babilónia parecem suspeitos aos leitores desde a sua própria época, e Diodoro é o responsável pela descrição detalhada dos Jardins Suspensos da Babilónia, os quais os académicos atualmente acreditam que, a terem existido, situavam-se em Nínive. Ambos os escritores eram veementemente antipersas, e a história de um rei persa a destruir a estátua de um deus para dar uma lição ao povo de uma cidade que tinha acabado de arrasar serviria perfeitamente as suas respetivas agendas de retratar os persas como insensíveis, brutais e ímpios.
O destino final da estátua de Marduk, de acordo com os escritores gregos, poderia perfeitamente ser considerado suspeito, não fosse o facto de não haver mais nenhuma menção à estátua em nenhuma fonte após o ataque de Xerxes à Babilónia, e de nenhuns escritores antigos contradizerem o relato de Heródoto.
Conclusão
A Babilónia foi tomada por Alexandre, o Grande, quando este conquistou o Império Persa em 331 a.C., e não é feita qualquer menção à estátua, tal como ela nunca mais é mencionada em relatos posteriores. Parece, portanto, que Heródoto e Diodoro estão corretos nas suas conclusões, a menos que surja alguma fonte ainda por descobrir que apresente uma história diferente.
A Profecia de Marduk não é tanto relevante como história, mas sim para compreender o enorme valor que o povo de uma cidade atribuía à sua divindade padroeira. Marduk não era apenas um ser invisível e etéreo a quem se rezava em momentos de necessidade ou a quem se louvava em tempos de fartura, mas sim um amigo próximo e um vizinho que vivia logo ali ao fundo da rua. Da mesma forma que hoje em dia alguém ficaria destroçado ao descobrir que perdeu um amigo próximo, assim era para os antigos babilónios quando a estátua do seu deus lhes era retirada.
