A Maldição de Ágade (também apresentada como A Maldição de Acádia) é um poema datado do período Ur III da Mesopotâmia (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.), embora se pense que a sua origem seja um pouco mais antiga. Conta a história do rei acádio Naram-Sin (reinou 2254-2218 a.C.) e o seu confronto com os deuses, particularmente o deus Enlil.
O poema pertence ao género da literatura naru da Mesopotâmia, no qual uma figura histórica famosa (geralmente um rei) é apresentada num conto imaginativo, de forma a incutir no público algum valor religioso ou cultural importante. Neste caso, esse valor seria a forma como se deve interagir corretamente com os deuses.
Naram-Sin foi o maior governante do Império Acádio depois do seu fundador (o seu avô) Sargão de Acádia (reinou 2334-2279 a.C.). Alargou as fronteiras do império e aumentou o poder, prestígio e força militar. Ele e o avô tornaram-se o tema de muitos contos e lendas ao longo dos séculos, e as suas histórias estiveram entre as mais populares em toda a Mesopotâmia. Quando o rei Assurbanípal da Assíria reuniu a sua famosa biblioteca em Nínive, no século VII a.C., mandou trazer para si todas as obras escritas que puderam ser encontradas por todo o seu império, e estas incluíam as histórias dos reis de Acádia, incluindo A Maldição de Ágade.
Os Temas e as Obras Semelhantes
Como referido, A Maldição de Ágade faz parte de uma tradição literária mesopotâmica conhecida como literatura naru, que apresenta uma figura famosa da história como personagem principal num conto didático que, mais frequentemente, diz respeito à relação da humanidade com os deuses. Hoje, estes contos seriam conhecidos como 'ficção histórica', com a exceção de que era tomada uma liberdade com a história real maior do que aquela que seria considerada aceitável atualmente.
A história conhecida como A Grande Revolta, por exemplo, baseia-se provavelmente numa insurreição que ocorreu no início do reinado de Naram-Sin, mas não relata os eventos de forma factual; o mesmo sucede com o conto que passou a ser conhecido como A Lenda de Cutha, que também aborda a figura de Naram-Sin. Estas obras parecem ter sido populares, a julgar pelo número de cópias encontradas, tal como sucedeu com A Maldição de Ágade.
Narra a história da destruição da cidade de Acádia pela vontade dos deuses, aparentemente sem qualquer motivo plausível, assemelhando-se, por isso, às lamentações mesopotâmicas sobre cidades. Contudo, A Maldição de Ágade difere das lamentações pelo facto de instrumentalizar a queda de Ácadia com propósitos didáticos: como se deve, ou não, agir perante os deuses. Não se trata, portanto, de uma lamentação, mas de uma obra de literatura didática.
Aborda, também, o problema daquilo que o protagonista encara como um sofrimento sem sentido, na sua representação da dor espiritual e da frustração de Naram-Sin perante o silêncio dos deuses em resposta às suas preces. A obra prefigura trabalhos posteriores sobre o mesmo tema: o poema sumério/babilónico Ludlul Bel Nemeqi (cerca de 1700 a.C.) e o livro bíblico de Job (cerca dos séculos VII-IV a.C.). Contudo, ao contrário dos protagonistas dessas obras — célebres pela sua paciência —, Naram-Sin tenta arrancar aos deuses, pela força, uma razão para o seu sofrimento.
O Esboço do Enredo e a Mensagem
De acordo com o texto, o grande deus sumério Enlil retirou o seu favor de Ácadia e, ao fazê-lo, proibiu os restantes deuses de entrarem na cidade e de a continuarem a abençoar com a sua presença. Naram-Sin desconhece o que poderá ter feito para incorrer em tal desagrado e, por isso, reza, pede sinais e presságios, e mergulha numa depressão de sete anos enquanto aguarda uma resposta do deus.
Por fim, exausto de esperar e enfurecido por não ter obtido uma resposta, mobiliza o seu exército e marcha contra o templo de Enlil, no Ekur, na cidade de Nipur, o qual acaba por destruir. Ele "crava as suas enxadas nas raízes [do templo], os seus machados nos alicerces, até que o santuário, qual soldado morto, cai prostrado" (Leick, Invention of the City [Mesopotâmia: A Invenção da Cidade], pág. 106). Este ataque, como seria de esperar, desencadeia a ira não apenas de Enlil, mas de todas as demais divindades, que enviam os Gutis — "um povo que desconhece a inibição, possuindo instintos humanos, mas inteligência canina e feições simiescas" (Idem) — para invadir Acádia e votá-la à ruína.
Após a invasão dos Gutis, a fome alastra-se por todo o lado; os mortos jazem em putrefação nas ruas e nas casas e a cidade está em ruínas. Assim, de acordo com o conto, chega ao fim a cidade de Acádia e o Império Acádio — vítima da arrogância de um rei perante os deuses.
Não existe, contudo, qualquer registo histórico de que Naram-Sin tenha alguma vez reduzido o E-kur em Nipur pela força, nem de que tenha destruído o templo de Enlil; pensa-se que A Maldição de Ágade terá sido uma obra muito posterior, escrita para expressar "uma preocupação ideológica quanto à relação correta entre os deuses e o monarca absoluto" (Ibid., pág. 107), cujo autor escolheu Acádia e Naram-Sin como temas devido ao estatuto, já na altura, lendário de ambos.
De acordo com o registo histórico, Naram-Sin honrou os deuses e foi, na realidade, bastante piedoso. Mais ainda, o Império Acádio floresceu sob o seu reinado, que terminou em 2218 a.C.; o império perduraria até 2154 a.C. No entanto, a literatura naru era um género muito popular na Mesopotâmia e, frequentemente, parece que a versão fictícia dos eventos históricos passou a ser aceite como história real. É um facto histórico que Acádia caiu, mas não é claro por que razão tal aconteceu. Os escribas sumérios atribuíram a queda aos Gutis, e A Maldição de Ágade corrobora as suas alegações, preenchendo as lacunas sobre o motivo pelo qual os deuses teriam permitido que tal sucedesse.
Embora A Maldição de Ágade aborde a relação adequada entre os deuses e o rei, coloca também um problema relativo ao sofrimento e à vontade divina para o qual nunca oferece resposta: porque é que Enlil retirou, logo à partida, o seu favor à cidade e porque é que, quando Naram-Sin suplica aos deuses por uma resposta durante sete anos, não recebe nenhuma? O engenho apurado do anónimo autor antigo é evidente no texto pelo facto de não ser dada qualquer resposta a estas questões, tal como, na vida, nenhuma resposta é alguma vez satisfatória quando se lida com a razão do sofrimento humano.
Enlil retira o seu favor e a sua proteção à cidade porque assim o deseja; nenhuma outra razão é apresentada. Este é um cenário completamente distinto do Livro de Job, no qual Deus permite que Satanás destrua a vida de Job para ganhar uma aposta. Enlil não se encontra sob tal pressão e poderia, com a mesma facilidade, ter deixado Acádia intocada, permitindo que continuasse a florescer. Alguns estudiosos, como Jeremy Black, interpretaram o desagrado de Enlil como uma recusa em reconhecer Naram-Sin como o rei legítimo. Segundo Black, Enlil investira Acádia com a sua graça sob o reinado de Sargão e não reconheceria a legitimidade de nenhum outro. No entanto, de acordo com a narrativa, Naram-Sin não está em posição de saber isto.
A Introdução e o Desagrado de Enlil
O conto inicia-se com a vida idílica na cidade de Acádia, com todas as riquezas da região a fluírem pelas suas portas, até às linhas 56-65, onde surge a primeira transição. O verso "Como se de uma cidadã se tratasse, ela não conseguiu refrear o seu desejo de preparar o terreno para um templo" (linha 56) significa que a deusa Inanna, reconhecendo todas as riquezas à disposição de Acádia, sentiu que ela e os restantes deuses deveriam ser honrados e ter uma participação nestas fortunas — tal como um cidadão piedoso da cidade sentiria.
No verso seguinte, contudo, ficamos a saber que "a declaração vinda do Ekur era inquietante", significando que Enlil não partilhava do mesmo sentimento em relação à situação e não deu a sua aprovação para a construção do templo, sinalizando o seu desagrado para com Acádia. A razão para este descontentamento, como anteriormente referido, nunca é revelada, mas a interpretação do Professor Black é provavelmente a correta: apenas poderia existir um rei legítimo, e Enlil não aceitaria Naram-Sin nesse cargo.
Quando a história começa, Enlil já destruiu a poderosa cidade meridional de Quis (Kish referida como 'Kis' adiante), submeteu o país e escolheu Sargão para governar a totalidade da Mesopotâmia "desde o sul até às terras altas" (linha 5). Inana, que era a protetora e deusa padroeira de Sargão, estabelece a sua morada em Acádia para velar pelo seu rei-guerreiro. Não há qualquer menção a perturbações quando o poder passa de Sargão para Naram-Sin e, por isso, tal como o próprio rei, o leitor fica sem resposta quanto ao motivo pelo qual Enlil retirou as suas bênçãos à cidade.
A Destruição do Templo de Enlil por Naram-Sin
Num sonho, Naram-Sin vê que o futuro de Acádia é sombrio e, por isso, impõe a si mesmo um período de luto e oração. Durante sete anos, permanece neste estado penitencial, aguardando uma resposta; depois, decide tomar as rédeas da situação. Se os deuses não vêm ter com ele para lhe responder, ele irá ter com eles para forçar uma resposta.
Acreditava-se que os deuses da Mesopotâmia viviam, literalmente, nos templos das cidades. Quando Naram-Sin destrói o Ekur, está a destruir a casa real de Enlil, e não apenas um local de culto simbólico. As linhas 127-128 da história relatam: "O povo podia ver o aposento nupcial, a sua câmara que não conhece a luz do dia. Os habitantes de Acádia podiam observar o baú do tesouro sagrado dos deuses." Isto ia além do sacrilégio; tratava-se da destruição intencional e da profanação da casa de um deus, do seu lar, de onde os seus pertences pessoais foram, então, roubados.
Tão grandes eram a fúria e a frustração de Naram-Sin perante o silêncio do deus que este se entregou aos mais imperdoáveis feitos. Contudo, ao destruir o Ekur, apenas incorre em maior ira, uma vez que os restantes deuses se alinham agora com Enlil e, num esforço para salvar o resto do país da fome e dos Gutis, amaldiçoam Acádia e fazem com que esta se torne desolada.
Para além da relação adequada entre os deuses e o rei, a história teria servido também como um aviso contra o erguer de armas contra as divindades — fosse física ou espiritualmente —, uma vez que tal significaria entrar numa batalha que seria impossível vencer. O último verso do poema louva Inana pela destruição de Acádia, reforçando a mensagem central sobre a importância de uma relação respeitosa e humilde com os deuses, bem como a justiça do castigo sofrido pela cidade devido ao orgulho e à arrogância do seu rei.
O Texto
A seguinte tradução de A Maldição de Ágade provém da tradução para inglês do sítio The Electronic Text Corpus of Sumerian Literature. Acádia surge como Ágade (nome pelo qual também era conhecida fora do poema), Naram-Sin é apresentado como Naram-Suen e os pontos de interrogação (?) indicam secções onde falta uma palavra ou onde é possível uma tradução alternativa do verso.
1-9 Depois de o franzir de sobrolho de Enlil ter abatido Kis (Quis) como se do Touro do Céu se tratasse, de ter dizimado a casa da terra de Unug no pó como se fosse um touro pujante, e de Enlil ter então concedido a governação e a realeza — desde o sul até às terras altas — a Sargão, rei de Ágade; nesse tempo, a sagrada Inana estabeleceu o santuário de Ágade como o seu celebrado domínio feminino; ela instalou o seu trono em Ulmac.
10-24 Como um jovem que constrói uma casa pela primeira vez, como uma rapariga que estabelece um domínio feminino, a sagrada Inana não dormia enquanto assegurava que os armazéns fossem abastecidos; que as habitações fossem fundadas na cidade; que o seu povo comesse alimentos esplêndidos; que o seu povo bebesse bebidas esplêndidas; que aqueles que se banhavam para os dias festivos se regozijassem nos pátios; que o povo apinhasse os locais de celebração; que os conhecidos jantassem juntos; que os estrangeiros cruzassem os céus como aves raras; que até Marhaci voltasse a figurar nos registos de tributo; que macacos, elefantes imponentes, búfalos-d'água, animais exóticos, bem como cães de raça, leões, íbexes das montanhas e ovelhas alum de lã comprida se acotovelassem nas praças públicas.
25-39 Ela encheu então os armazéns de farro de Ágade com ouro, e os de farro medio com prata; entregou cobre, estanho e blocos de lápis-lazúli aos seus celeiros e selou os seus silos pelo exterior. Dotou as anciãs com o dom do conselho e os anciãos com o dom da eloquência. Dotou as jovens com o dom do entretenimento, os jovens com o vigor marcial e os pequenos com a alegria. As amas que cuidavam dos filhos do general tangiam instrumentos aljarsur. Dentro da cidade soavam tambores tigi; fora dela, flautas e instrumentos zamzam. O seu porto, onde as naus fundeavam, transbordava de júbilo. Todas as terras estrangeiras repousavam satisfeitas e os seus povos conheciam a felicidade.
40-56 O seu rei, o pastor Naram-Suen, erguia-se como a luz do dia no trono sagrado de Ágade. A muralha da cidade, como uma montanha, atingia os céus. Era como o Tigre a correr para o mar quando a sagrada Inana abria os portais das portas da cidade e fazia com que a Suméria trouxesse os seus bens rio acima, em barcos. Os Martu das terras altas, povo que ignora a agricultura, traziam-lhe gado fogoso e cabritos. Os Meluhenses, o povo da terra negra, traziam-lhe mercadorias exóticas. Elão e Subir carregavam-se de bens para ela como se fossem asnos de carga. Todos os governadores, administradores dos templos e contabilistas do Gu-edina forneciam regularmente as oferendas mensais e de Ano Novo. Que cansaço tudo isto causava às portas de Ágade! A sagrada Inana mal conseguia receber tantas oferendas. Como se de uma cidadã se tratasse, não conseguiu refrear (?) o desejo (?) de preparar o terreno para um templo.
57-65 Mas a declaração vinda do E-kur era inquietante. Por causa de Enlil (?), toda a Ágade foi reduzida (?) ao tremor, e o terror abateu-se sobre Inana em Ulmac. Ela deixou a cidade, regressando à sua morada. A sagrada Inana abandonou o santuário de Ágade como alguém que abandona as jovens do seu domínio feminino. Como um guerreiro que se apressa a pegar em armas, ela retirou da cidade o dom da batalha e da luta e entregou-os ao inimigo.
66-76 Não haviam passado sequer cinco ou dez dias, e Ninurta levou as joias da governação, a coroa real, o emblema e o trono real outorgados a Ágade, de volta para o seu E-cumeca. Utu retirou a eloquência da cidade. Enki retirou-lhe a sabedoria. An elevou até ao meio dos céus o seu esplendor terrível que os céus alcançava. Enki arrancou do Abzu o seu amarradouro sagrado, tão bem ancorado. Inana retirou-lhe as armas.
77-82 A vida do santuário de Ágade chegou ao fim como se tivesse sido apenas a vida de uma pequena carpa nas águas profundas, e todas as cidades a observavam. Como um elefante imponente, ela baixou o pescoço até ao chão, enquanto todas as outras ergueram os seus chifres como touros pujantes. Como um dragão moribundo, arrastou a cabeça pela terra e, em conjunto, privaram-na de honra como numa batalha.
83-93 Naram-Suen viu numa visão noturna que Enlil não permitiria que o reino de Ágade ocupasse uma residência agradável e duradoura; que tornaria o seu futuro totalmente desfavorável; que faria estremecer os seus templos e dispersaria os seus tesouros. Ele compreendeu o significado do sonho, mas não o expressou por palavras nem o discutiu com ninguém. Por causa do E-kur, vestiu trajes de luto, cobriu o seu carro de guerra com uma esteira de juncos, arrancou a cobertura de junco da sua barca cerimonial e despojou-se dos seus paramentos reais. Naram-Suen persistiu durante sete anos! Quem alguma vez viu um rei com a cabeça entre as mãos durante sete anos?
94-99 Então, foi realizar uma extispícia num cabrito a respeito do templo, mas o presságio nada tinha a dizer sobre a construção do templo. Pela segunda vez, foi realizar uma extispícia num cabrito a respeito do templo, mas, novamente, o presságio nada disse sobre a construção do templo. Para mudar o que lhe fora imposto (?), ele tentou alterar o pronunciamento de Enlil.
100-119 Porque os seus súbditos estavam dispersos, ele iniciou agora uma mobilização das suas tropas. Como um lutador que está prestes a entrar no grande pátio, ele... as suas mãos em direção ao (?) E-kur. Como um atleta curvado para iniciar uma competição, ele tratou o giguna como se valesse apenas trinta siclos. Como um salteador que pilha a cidade, encostou escadas altas ao templo. Para demolir o E-kur como se fosse um navio colossal, para escavar o seu solo como o solo de montanhas onde se extraem metais preciosos, para o estilhaçar como a montanha de lápis-lazúli, para o prostrar como uma cidade inundada por Ickur. Embora o templo não fosse uma montanha onde se abatem cedros, ele mandou fundir grandes machados, mandou afiar machados agasilig de dois gumes para serem usados contra ele. Cravou enxadas nas suas raízes e ele afundou-se tanto quanto os alicerces da Terra. Golpeou o seu topo com machados e o templo, como um soldado morto, curvou o pescoço perante ele; e todas as terras estrangeiras curvaram os seus pescoços perante ele.
120-148 Arrancou os seus canos de escoamento e toda a chuva regressou aos céus. Rasgou a sua padieira superior e a Terra foi privada do seu ornamento. Da sua "Porta de onde o grão nunca é desviado", ele desviou o grão, e a Terra foi privada de grão. Golpeou a "Porta do Bem-Estar" com a picareta, e o bem-estar foi subvertido em todas as terras estrangeiras. Como se fossem para vastas extensões de terra com amplas águas repletas de carpas, ele fundiu grandes enxadas para serem usadas contra o E-kur. O povo podia ver o aposento nupcial, a sua câmara que não conhece a luz do dia. Os acádios podiam observar o baú do tesouro sagrado dos deuses. Embora não tivessem cometido sacrilégio, as suas divindades lahama das grandes pilastras que guardavam o templo foram lançadas ao fogo por Naram-Suen. O cedro, o cipreste, o zimbro e o buxo, as madeiras do seu giguna, foram... por ele. Colocou o seu ouro em recipientes e o seu prata em sacos de couro. Encheu as docas com o seu cobre, como se fosse um enorme carregamento de grão. Os ourives de prata moldavam de novo a sua prata, os joalheiros moldavam de novo as suas pedras preciosas, os ferreiros batiam o seu cobre. Grandes navios fundearam no templo, grandes navios fundearam no templo de Enlil e os seus bens foram levados da cidade, embora não fossem os despojos de uma cidade saqueada. Com os bens a serem levados da cidade, o bom senso deixou Ágade. Com o partir das embarcações dos seus ancoradouros, a sagacidade de Ágade foi-lhe subtraída.
149-175 Enlil, a tempestade rugidora (?) que subjuga toda a terra, o dilúvio crescente que não pode ser confrontado, considerava o que deveria ser destruído em troca da ruína do seu amado E-kur. Ergueu o seu olhar para as montanhas de Gubin e fez descer (?) todos os habitantes das vastas cordilheiras. Das montanhas, Enlil trouxe aqueles que não se assemelham a outras gentes, que não são contados como parte da Terra: os Gutis, um povo desenfreado, com inteligência humana mas instintos caninos e feições de macaco. Como pequenas aves, lançaram-se sobre o solo em grandes bandos. Por causa de Enlil, estenderam os seus braços pela planície como uma rede para animais. Nada escapou às suas garras, ninguém se libertou do seu alcance. Os mensageiros deixaram de percorrer as estradas, o barco do correio deixou de passar pelos rios. Os Gutis expulsaram os bodes de confiança (?) de Enlil dos seus currais e forçaram os seus pastores a segui-los; expulsaram as vacas dos seus estábulos e forçaram os seus vaqueiros a segui-los. Os prisioneiros montavam guarda. Os salteadores ocupavam as estradas. As portas das cidades da Terra jaziam desalojadas na lama e todas as terras estrangeiras soltavam gritos amargos das muralhas das suas cidades. Estabeleceram jardins para si dentro das cidades, e não, como era costume, na ampla planície exterior. Como se fosse o tempo anterior à fundação e construção das cidades, as grandes extensões aráveis não produziam grão, as zonas inundadas não davam peixe, os pomares irrigados não davam bebida nem vinho, as nuvens espessas (?) não choviam e a planta macgurum não crescia.
176-192 Naqueles dias, um siclo comprava apenas meio litro de óleo; um siclo comprava apenas meio litro de grão; um siclo comprava apenas uma mina de lã; um siclo de peixe enchia apenas uma medida ban — a estes preços se vendia nos mercados das cidades! Aqueles que se deitavam no telhado, no telhado morriam; aqueles que se deitavam na casa não eram sepultados. As pessoas fustigavam-se a si mesmas de fome. Perto do Ki-ur, o grande lugar de Enlil, os cães apinhavam-se nas ruas silenciosas; se dois homens caminhassem por ali, seriam por eles devorados; se três homens caminhassem por ali, seriam por eles devorados. Narizes eram esmurrados (?), cabeças eram esmagadas (?), narizes (?) eram empilhados, cabeças eram semeadas como sementes. Pessoas honestas eram confundidas com traidores, heróis jaziam mortos sobre heróis, o sangue dos traidores corria sobre o sangue dos homens honestos.
193-209 Nesse tempo, Enlil reconstruiu os seus grandes santuários como pequenos santuários de junco (?) e, de este a oeste, reduziu os seus armazéns. As anciãs que sobreviveram a esses dias, os anciãos que sobreviveram a esses dias e o mestre dos cantos de lamentação que sobreviveu a esses anos montaram sete tambores balaj, como se estivessem no horizonte, e, juntamente com outros tambores, fizeram-nos ressoar para Enlil como Ickur, durante sete dias e sete noites. As anciãs não refrearam o clamor "Ai da minha cidade!". Os anciãos não refrearam o clamor "Ai do seu povo!". O cantor de lamentações não refreou o clamor "Ai do E-kur!". As jovens não se contiveram de arrancar os cabelos. Os jovens não se contiveram de afiar as suas facas. As suas lamentações eram como se os antepassados de Enlil estivessem a entoar um lamento no pavoroso Monte Sagrado, junto aos joelhos sagrados de Enlil. Por causa disto, Enlil entrou no seu aposento nupcial sagrado e deitou-se em jejum.
210-221 Nesse tempo, Suen, Enki, Inana, Ninurta, Ickur, Utu, Nuska e Nisaba, os grandes deuses, refrescaram o coração de Enlil com água fresca e suplicaram-lhe: "Enlil, que a cidade que destruiu a tua cidade seja tratada como a tua cidade foi tratada! Que aquela que profanou o teu giguna seja tratada como Nibru! Nesta cidade, que as cabeças encham os poços! Que ninguém ali encontre os seus conhecidos, que o irmão não reconheça o irmão! Que a jovem seja cruelmente morta no seu domínio feminino, que o ancião chore em agonia pela sua mulher assassinada! Que os pombos mimem nos parapeitos das janelas, que as pequenas aves sejam abatidas nos seus recantos, que ela viva em constante ansiedade como um pombo tímido!
222-244 Novamente, Suen, Enki, Inana, Ninurta, Ickur, Utu, Nuska e Nisaba, todos os deuses, sem exceção, voltaram a sua atenção para a cidade e amaldiçoaram Ágade severamente: "Cidade, tu lançaste-te sobre o E-kur: é como se te tivesses lançado sobre Enlil! Ágade, tu lançaste-te sobre o E-kur: é como se te tivesses lançado sobre Enlil! Que as tuas muralhas sagradas, até ao seu ponto mais alto, ressoem com o luto! Que o teu giguna seja reduzido a um monte de pó! Que as tuas pilastras com as divindades lahama tombem por terra como jovens robustos embriagados com vinho! Que o teu barro regresse ao seu Abzu, que seja barro amaldiçoado por Enki! Que o teu grão regresse ao seu sulco, que seja grão amaldiçoado por Ezinu! Que a tua madeira regresse à sua floresta, que seja madeira amaldiçoada por Ninilduma! Que o matador de gado mate a sua própria mulher, que o teu carniceiro de ovelhas degole o seu próprio filho! Que as águas levem o teu indigente enquanto ele procura por...! Que a tua prostituta se enforque à entrada do seu prostíbulo! Que as tuas hieródulas grávidas (?) e as prostitutas do culto abortem (?) os seus filhos! Que o teu ouro seja comprado ao preço da prata, que a tua prata seja comprada ao preço da pirite (?), e que o teu cobre seja comprado ao preço do chumbo!"
245-255 "Ágade, que o teu homem forte seja privado da sua força, para que seja incapaz de erguer o seu saco de provisões e... não tenha o júbilo de controlar os teus excelentes asnos; que ele jaza ocioso todo o dia! Que isto faça a cidade morrer de fome! Que os teus cidadãos, que costumavam comer alimentos finos, jazam famintos entre a erva e as ervas daninhas; que o teu homem... coma o revestimento do seu telhado, que ele mastigue (?) as dobradiças de couro da porta principal da casa do seu pai! Que a depressão desça sobre o teu palácio, construído para a alegria! Que os males do deserto, o lugar silencioso, uivem continuamente!
256-271 "Que as raposas que frequentam montes de ruínas rocem com as suas caudas os teus currais de engorda (?), estabelecidos para as cerimónias de purificação! Que o ukuku, a ave da depressão, faça o seu ninho nos teus portais, estabelecidos para a Terra! Na tua cidade que não conseguia dormir por causa dos tambores tigi, que não descansava do seu júbilo, que os touros de Nanna que enchem os currais mugissem como aqueles que erram pelo deserto, o lugar silencioso! Que a erva cresça alta nos caminhos de sirga dos teus canais, que a erva do luto cresça nas tuas estradas traçadas para carroças! Além disso, que... carneiros selvagens (?) e serpentes vigilantes das montanhas não permitam que ninguém passe nos teus caminhos de sirga construídos com o sedimento dos canais! Nas tuas planícies onde cresce erva fina, que cresça o junco da lamentação! Ágade, que águas salobras fluam onde para ti fluíam águas doces! Se alguém decidir: 'Habitarei nesta cidade!', que não desfrute dos prazeres de uma habitação! Se alguém decidir: 'Descansarei em Ágade!', que não desfrute dos prazeres de um lugar de descanso!"
272-280 E perante Utu, nesse mesmo dia, assim aconteceu! Nos caminhos de sirga dos seus canais, a erva cresceu alta. Nas suas estradas traçadas para carroças, cresceu a erva do luto. Além disso, nos seus caminhos de sirga construídos com o sedimento dos canais... carneiros selvagens (?) e serpentes vigilantes das montanhas não permitiam a passagem de ninguém. Nas suas planícies, onde crescia erva fina, agora cresciam os juncos da lamentação. A água doce e corrente de Ágade fluía como água salobra. Quando alguém decidia: "Habitarei naquela cidade!", não conseguia desfrutar dos prazeres de uma habitação. Quando alguém decidia: "Descansarei em Ágade!", não conseguia desfrutar dos prazeres de um lugar de descanso!
281 Louvada seja Inana pela destruição de Ágade!
