Influências da Mesopotâmia em Israel durante a Idade do Ferro

Benjamin T. Laie
por , traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho
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A Idade do Ferro, na cronologia tradicional do Antigo Oriente Próximo, estende-se de aproximadamente 1200 a.C. a 333 a.C. Começa na era em que se acredita que o ferro passou a ser utilizado e vai até a ascensão de Alexandre, o Grande, como a principal potência do Antigo Oriente Próximo. A Idade do Ferro é categorizada como a segunda era, após a Idade do Bronze, na Antiguidade. A categorização da Idade do Ferro nesta cronologia baseia-se no "Sistema das Três Idades", criado pelo arqueólogo dinamarquês Christian J. Thomsen no século XIX. Embora o ferro já fosse utilizado no terceiro milênio a.C., muitos ainda defendem a sua validade. Para muitos, a Idade do Ferro deveria terminar com a ascensão de Ciro da Pérsia como a principal potência do Antigo Oriente Próximo. Com base nos diferentes eventos que ocorreram em Israel durante esse período, a Idade do Ferro deveria ser dividida em seis subcategorias: Idade do Ferro Ia, Idade do Ferro Ib, Idade do Ferro IIa, Idade do Ferro IIb, Idade do Ferro IIIa e Idade do Ferro IIIb. Para melhor compreender Israel durante esse período, os pesquisadores devem valorizar tanto os resultados bíblicos quanto os arqueológicos para estabelecer interpretação mais confiável.

A IDADE DO FERRO EM ISRAEL PODE SER DIVIDIDA EM SEIS SUBCATEGORIAS COM BASE EM EVIDÊNCIAS BÍBLICAS E ARQUEOLÓGICAS.

As evidências descobertas no Antigo Oriente Próximo, a partir dos anos 1700 até os dias atuais, podem ser categorizadas em três grandes áreas: 'Arqueologia', 'Epigrafia' e 'Literatura'. Desvendar o mundo e a vida da Antiguidade abrange mais do que meros materiais brutos, incluindo também inscrições e arquivos. Mesmo ao lidar com o contexto histórico e social por trás dos textos bíblicos, tanto a arqueologia quanto a epigrafia fornecem alguma confirmação para a maioria dos textos bíblicos em questão. Portanto, arqueologia, epigrafia e literatura funcionam em conjunto para estabelecer um relato mais coerente.

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Os Povos do Mar

Em Israel, a Idade do Ferro Ia é identificada com o período posterior ao declínio dos impérios Hitita e Egípcio, no final da Idade do Bronze. Foram descobertos em escavações em Ashdod e Tel Miqne-Ekron artefatos que comprovam sua presença em Canaã. Foi também um período em que dados adicionais apontam para o assentamento de grupos egeus (Povos do Mar), que podem ter sido os precursores dos filisteus. Se os israelitas faziam parte desse grupo ou não, permanece questão muito debatida.

No consenso acadêmico, a teoria dos Povos do Mar é talvez a mais aceita sobre como Canaã e a Transjordânia foram ocupadas. Arqueólogos modernos conseguiram comprovar assentamentos em Siquém, Ai, Betel, Kh. Raddana perto de Ramalá e Gideão por meio de artefatos culturais, casas, restos de grãos, silos, cisternas, panelas e ferramentas de metal que datam da fase Ia da Idade do Ferro. Além disso, os arqueólogos não conseguiram coletar dados arqueológicos dos principais sítios mencionados no livro de Josué, como Gilgal, Jericó e Ai, para verificar uma entrada sul durante essa fase. Ademais, Juízes 1 e 1 Reis 9 também corroboram as pesquisas arqueológicas. Por essa razão, as atividades de Israel durante a Idade do Ferro Ia permanecem tema de debate entre estudiosos bíblicos e arqueólogos. É importante ressaltar que fontes bíblicas e uma epigrafia egípcia conhecida como Estela de Merneptá (a referência não bíblica mais antiga a um povo chamado "Israel") apontam para a Idade do Ferro Ia como o período em que os israelitas apareceram pela primeira vez em Canaã.

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O Período dos Juízes

A fase da Idade do Ferro Ib em Israel é atribuída ao período dos juízes, que é marcado pelos assentamentos na região. O livro de Juízes expõe a situação da vida na terra de Israel durante a Idade do Ferro Ib. Resumidamente, o período pode ser descrito como uma experiência difícil para os israelitas nos âmbitos político, religioso e social, visto que o estabelecimento precoce de um povo é sempre um desafio, especialmente em uma terra já ocupada por mais de um grupo étnico. Como os juízes controlaram Israel por cerca de duzentos anos, os israelitas tiveram que lidar com duas questões principais em Canaã: seu relacionamento com Javé e com os seus vizinhos.

Monarquia

A Idade do Ferro IIa abrange o período da monarquia até o século IX a.C. A Idade do Ferro IIa distingue-se claramente do período dos juízes pelo estabelecimento de uma monarquia no final do primeiro milênio a.C. As extensas obras de construção reais descobertas, cidades, palácios, fortificações e o uso de alvenaria de pedra aparelhada distinguem esta era da Idade do Ferro Ib. A Idade do Ferro IIa foi o momento perfeito para o povo nomear um rei para garantir proteção contra ameaças externas, visto que o estabelecimento de uma monarquia jamais teria sido possível se o Egito ainda controlasse a região. Teria sido considerado ato de resistência ao domínio egípcio.

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A estrutura da monarquia esteve em funcionamento durante os reinados de Saul, David, Salomão e Roboão. Durante o reinado de David e Salomão, as relações internacionais entre Israel e os seus vizinhos foram estabelecidas e a força militar e a estabilidade econômica de Israel atingiram seu auge. Considerando que as relações internacionais com nações estrangeiras durante o reinado de David (Davi) e Salomão são atestadas por meio de materiais culturais datados da Idade do Ferro IIa, com a cultura neo-hitita, cananeia-fenícia e egípcia, os autores bíblicos apresentam visão bastante oposta.

DURANTE OS REINADOS DO REI DAVI E DO REI SALOMÃO, AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ENTRE ISRAEL E SEUS VIZINHOS FORAM ESTABELECIDAS, E O PODERIO MILITAR E A ESTABILIDADE ECONÔMICA DE ISRAEL ATINGIRAM SEU AUGE.

Por exemplo, o reinado do Rei Salomão é geralmente percebido como período de estabilidade econômica, baseado no controle direto das rotas comerciais ao norte e ao sul de Israel. Além disso, sua participação nos assuntos internacionais do Antigo Oriente Próximo era outra fonte de renda, devido à riqueza agrícola do país. Essa era a principal atividade de exportação de Israel em todo o Antigo Oriente Próximo, alimentando sua economia. Foram os casamentos de Salomão com mulheres estrangeiras, incluindo o casamento com a filha de um faraó, que tornaram todas essas vantagens econômicas possíveis para Israel.

Por outro lado, esses assuntos internacionais e os casamentos do rei com mulheres estrangeiras não passavam de mera luxúria para os autores bíblicos. As narrativas bíblicas, após leitura atenta e considerando as realidades sociais da Idade do Ferro IIa, revelam duas possíveis interpretações para os casamentos de Salomão com mulheres estrangeiras e seu envolvimento internacional: teológica ou política. Inevitavelmente, os casamentos de Salomão com mulheres estrangeiras foram manobra política para garantir a proteção da monarquia, enquanto nas narrativas bíblicas eram considerados pecado. Ao compreender as realidades sociais e políticas da Idade do Ferro IIa, percebe-se que Israel não tinha alternativa mais segura senão construir relações exteriores e envolver-se em assuntos internacionais.

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Divisão de Israel

Durante o reinado de Salomão, o reino de Israel foi dividido em dois estados separados: Israel, ao norte, e Judá, ao sul. Embora a divisão tenha trazido paz entre os povos, os problemas externos começaram a surgir gradualmente em Israel e Judá nos séculos IX e VIII a.C., vindos de Aram e da Assíria, ao norte.

Map of the Levant circa 830 BCE
Mapa do Levante por volta de 830 a.C. Richardprins (GNU FDL)

O primeiro conflito ocorreu durante o reinado de Jeú, rei de Israel, e Salmanasar III, da Assíria. Evidências epigráficas, como o Obelisco Negro, descoberto no século XIX, apontam para esse evento. O Obelisco Negro retrata Jeú, rei de Israel, e outros vassalos assírios oferecendo seus tributos ao monarca assírio, Salmanasar III. Após sua descoberta e decifração, a maioria dos estudiosos bíblicos concluiu que esta foi a primeira vez na história israelita que uma relação entre Israel e a Assíria foi estabelecida.

The Black Obelisk of King Shalmaneser III
O Obelisco Negro do Rei Salmanasar III Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Outro evento importante da Idade do Ferro IIa, ocorrido por volta do final do século IX ou início do século VIII a.C., durante o reinado de Jeoacaz, filho de Jeú, está parcialmente refletido em II Reis 13 e em pesquisas arqueológicas. O rei Jeoacaz teve que enfrentar as consequências da retaliação de seu pai contra a casa de Onri, que custou a Israel a perda de seus aliados, deixando o reino vulnerável a ameaças estrangeiras. Após a morte de Salmanasar III, o império assírio não conseguiu mais manter os seus vassalos subjugados sob controlo, o que encorajou Aram a finalmente assumir o controle de Israel. Em resposta ao pedido de ajuda assírio feito pelo rei Jeoacaz, Adad-Nirari III, o monarca assírio, veio em socorro e libertou os israelitas dos arameus, de acordo com uma estela descoberta em Tell el-Rima, no Iraque.

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Ameaças Assírias

A fase IIb da Idade do Ferro inclui eventos do século VIII a.C., geralmente conhecido como um período de ameaças assírias. Evidências do terror assírio são fornecidas por inscrições assírias de Tiglate-Pileser III e Sargão II. O relato bíblico também menciona estes eventos em II Reis 15, após a fracassada Guerra Siro-Efraimita contra os assírios, liderada pelo rei Peca, de Israel, e pelo rei Rezim, da Síria, e a submissão volúvel do rei Oseias a Sargão II após Peca.

Em resposta à coalizão siro-efraimita, após o pedido de refúgio do rei Acaz de Judá contra as constantes ameaças de Peca e Rezim, e submissão ao domínio assírio, Tiglate-Pileser III e seu exército marcharam para o sul em socorro. Esta é a primeira vez na história israelita que Judá se tornou vassalo da Assíria. A partir desses eventos, arqueólogos desenterraram com sucesso camadas com fragmentos de cerâmica datados da destruição de Israel por Tiglate-Pileser III. Como resultado, tanto os remanescentes de Israel quanto o reino de Judá foram subjugados ao domínio assírio e obrigados a pagar tributo, enquanto a Síria se tornou centro administrativo assírio.

Israel sob Domínio Assírio

A forte influência mesopotâmica em Israel durante a Idade do Ferro IIb é atestada pela construção do Código da Aliança encontrado no livro do Êxodo. As Leis de Hamurabi, a fonte para a formação do Código da Aliança, já existiam em Israel entre 740 a.C. e 640 a.C. Ao comparar a sua estrutura e o conteúdo, fica evidente que o(s) autor(es) do Código da Aliança utilizaram cópia das Leis de Hamurabi.

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Outra interação memorável da Idade do Ferro IIb ocorreu depois que Oseias, rei de Israel, foi considerado culpado de traição por enviar tributos ao faraó egípcio em vez do monarca assírio, como de costume (II Reis 17). A deslealdade era geralmente entendida como ato de resistência na Antiguidade, o que enfureceu Sargão II, o monarca assírio da época, e forçou a sua presença em Israel, levando ao primeiro exílio de Israel na Assíria, por volta de 722 a.C., conforme retratado em algumas inscrições.

O conflito que ocorreu durante o reinado de Ezequias de Judá e o monarca assírio Senaqueribe (704-681 a.C.) também merece menção. Ele é registrado em quatro relatos diferentes: Isaías 36-37; I Reis 18; o Prisma de Senaqueribe; e por Heródoto, o historiador grego do século V a.C. Durante essa fase da Idade do Ferro em Israel, a Assíria ainda era a principal potência em todo o Antigo Oriente Próximo e Jerusalém ainda pagava tributo ao império assírio.

The Taylor Prism of King Sennacherib, Nineveh
O Prisma de Taylor do Rei Senaqueribe Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A pesada tributação prolongada à Assíria causou profunda frustração entre o povo de Judá, que buscou aliança com o Egito para pôr fim a essa situação. Ao receberem notícias dessa nova aliança egípcia, a destruição do reino do sul tornou-se iminente. Senaqueribe, o monarca assírio da época, liderou uma campanha punitiva, por volta de 701 a.C., descrita no Livro dos Reis e no próprio relato de Senaqueribe, conhecido como Prisma de Senaqueribe. O prisma, originalmente escrito em acádio, indica que o monarca assírio sitiou Jerusalém e deportou inúmeras pessoas, incluindo seus animais, cerca de 200.000 no total.

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O Declínio do Império Assírio

A fase IIIa da Idade do Ferro começou com o reinado do Rei Manassés no século VII a.C. Conforme descrito no livro de Reis, o rei Josias realizou a restauração nacional e a expansão do reino após a morte do monarca assírio, Assurbanípal. Conflitos internos no império resultaram na tomada da Assíria pelos caldeus sob o comando de Nabopolassar, e Judá voltou a viver em paz, por breve período. Isso é corroborado por evidências arqueológicas: aumento no número de sítios arqueológicos e a expansão dos assentamentos judaicos nas margens dos desertos da Judeia e do Neguev.

Exílio Babilônico

A fase final da Idade do Ferro em Israel é categorizada como Idade do Ferro IIIb, que trata do exílio babilônico e suas consequências. Evidências textuais e arqueológicas, como escavações em Gibeão, Misapá e Betel, e a nomeação de um governador judeu como guardião babilônico de Jerusalém, explicam esse período. Apesar da queda do Templo por Nabucodonosor II e do exílio do povo para a Babilônia (Babilónia), a vida continuou em Judá. Os efeitos sobre Jerusalém após o ataque babilônico foram mínimos. A vida familiar, as tradições culturais, a produção econômica, os valores e as perspectivas ideológicas permaneceram vivos apesar da remoção dos grupos de elite de Jerusalém.

Conclusão

Arqueólogos e estudiosos bíblicos tentam desvendar a relação entre a Mesopotâmia e Israel durante a Idade do Ferro, com base na rica fonte de informações derivadas de materiais bíblicos e não bíblicos e descobertas arqueológicas. Os diversos dados avaliados acima sugerem que, embora a relação não tenha sido pacífica, influenciou fortemente Israel de muitas maneiras. Não apenas a sua estrutura política, mas também os seus sistemas jurídico e religioso mostram inúmeras influências. Por exemplo, os costumes do rei em Israel, conforme narrados no livro de Samuel, são paralelos a um documento acádio que descreve os direitos de um rei; as suas leis civis são semelhantes ao Código de Hamurabi. Vários mitos na Bíblia Hebraica/Antigo Testamento também revelam alguma influência da mitologia mesopotâmica.

Os monarcas assírios e as suas forças militares presentes em Israel durante toda a Idade do Ferro, a literatura mesopotâmica florescente e o envolvimento de Israel nos assuntos internacionais do Antigo Oriente Próximo tiveram impacto no sistema político e religioso. Ao longo da Idade do Ferro, Israel nunca escapou do controlo mesopotâmico por mais de três séculos. Embora os israelitas tenham passado da teocracia para a monarquia, nunca houve momento na história de Israel em que se tornaram uma grande potência no Antigo Oriente Próximo. Permaneceram submissos às grandes potências vizinhas. Obviamente, a localização geográfica de Israel, entre o Egito a sudoeste, a Mesopotâmia a nordeste e a Síria ao norte, era uma desvantagem. Todas estas nações poderosas exerceram influência sobre Israel durante a Idade do Ferro, mas a que teve maior impacto foi a Mesopotâmia.

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Sobre o Tradutor

Raimundo Raffaelli-Filho
Médico, professor de Clínica Médica (MD, PHD) e apaixonado por História, particularmente pela Antiga e Medieval, especialmente pelo Império Romano.

Sobre o Autor

Benjamin T. Laie
Doutorado em Bíblia Hebraica pela Claremont School of Theology. Professor de Estudos Bíblicos na Rochester University e na Sierra States University; Professor de Bíblia Hebraica na Universidade Ezra. Também é professor visitante no Seminário Teológico Kanana Fou.

Cite Este Artigo

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Laie, B. T. (2026, março 17). Influências da Mesopotâmia em Israel durante a Idade do Ferro. (R. Raffaelli-Filho, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-850/influencias-da-mesopotamia-em-israel-durante-a-ida/

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Laie, Benjamin T.. "Influências da Mesopotâmia em Israel durante a Idade do Ferro." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, março 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-850/influencias-da-mesopotamia-em-israel-durante-a-ida/.

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Laie, Benjamin T.. "Influências da Mesopotâmia em Israel durante a Idade do Ferro." Traduzido por Raimundo Raffaelli-Filho. World History Encyclopedia, 17 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-850/influencias-da-mesopotamia-em-israel-durante-a-ida/.

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