Edward Gibbon

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Edward Gibbon by Reynolds (by Joshua Reynolds, Public Domain)
Edward Gibbon por Reynolds Joshua Reynolds (Public Domain)

Edward Gibbon (1737-1794) foi um historiador inglês, célebre pela sua obra influente A História do Declínio e Queda do Império Romano (tít. original: The History of the Decline and Fall of the Roman Empire), cujo primeiro volume foi publicado em 1776, tendo o sexto e último volume sido editado em 1788. A obra histórica de Gibbon foi um best-seller, na qual atribuiu o declínio de Roma à sua crescente cristianização e ao afastamento dos valores cívicos tradicionais. Atualmente, a maioria dos historiadores questiona as omissões, imprecisões e o enviesamento de Gibbon, mas a obra permanece importante nos estudos romanos. Além disso, Gibbon criou uma tendência duradoura de analisar a história à luz da forma como esta afeta a atualidade.

O Início de Vida

Edward Gibbon nasceu a 27 de abril de 1737, em Putney, no condado inglês de Surrey. O seu pai pertencia à pequena nobreza, mas a sua relação com o filho, o único sobrevivente dos seus sete filhos, foi difícil. A mãe de Edward faleceu quando ele tinha apenas nove anos. Sendo uma criança frágil, estava frequentemente demasiado doente para frequentar a escola, mas tornou-se um leitor ávido, educando-se a si próprio e estabelecendo uma independência académica que o acompanharia durante toda a sua vida. Criado como protestante, Edward converteu-se ao catolicismo enquanto estudava no Magdalen College, em Oxford. O seu pai, consternado com este acontecimento, enviou o filho para a Suíça para ser educado em Lausana, onde residiu com o reverendo calvinista Daniel Pavillard. A estratégia funcionou, uma vez que Edward converteu-se de novo ao protestantismo; aprendeu também muito sobre literatura francesa.

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Foi na Suíça que Edward conheceu e se apaixonou pela filha de um pastor, Suzanne Curchod (1739-1794). O pai de Edward não aprovou a união e, por isso, nada resultou dessa relação, a não ser arrependimentos. Curchod viria a casar com Jacques Necker (1732-1804), o famoso banqueiro suíço e ministro das finanças de Luís XVI de França (reinou 1774-1792).

Gibbon visitou Roma em 1764, como parte da sua Grand Tour de três anos.

Por volta de 1758, Gibbon estava de volta a Inglaterra, onde trabalhou na sua primeira obra publicada, Essai sur l'étude de la littérature (Ensaio sobre o Estudo da Literatura). Publicado apenas em 1761, o ensaio defendia a grande utilidade do estudo da antiguidade e dos autores clássicos. A obra revelava o estilo de escrita que Gibbon tinha adquirido durante o tempo que passou no continente europeu. Certa vez, explicou por que razão escrevia em francês: "porque penso em francês e, por mais estranho que possa parecer, posso dizer, com alguma vergonha mas sem afetação, que me seria difícil compor na minha língua materna" (Hampson, pág. 56).

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Edward Gibbon
Edward Gibbon Henry Walton (Public Domain)

Em 1759, serviu como capitão na milícia de Hampshire na defesa de Inglaterra durante a Guerra dos Sete Anos, um cargo que ocupou até ao final desse conflito que abrangeu toda a Europa, em 1763. Seguidamente, visitou França e conheceu filósofos notáveis como Denis Diderot (1713-1784).

A História Romana

Gibbon visitou Roma em 1764 como parte da sua Grand Tour de três anos, que incluiu visitas a locais em Itália, França e Suíça. De acordo com o seu próprio relato, sentiu-se inspirado a escrever uma história de Roma depois de ter visto um grupo de frades a fazer as suas orações vespertinas dentro das ruínas do Templo de Júpiter. Como se veio a verificar, Gibbon dedicou-se primeiro a uma história da Suíça mais acessível, mas abandonou este projeto antes de o concluir. Depois, moveu-se na direção oposta e optou por algo muito mais específico: as suas Observações críticas sobre o sexto livro da Eneida, publicadas em 1770. Contudo, era o Império Romano que continuava a apelar à sua imaginação de historiador e, por isso, iniciou a sua magnum opus.

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Na sua História do Declínio e Queda do Império Romano, Gibbon propôs-se examinar a história do Império Romano, começando no início do século II e, apesar do título, indo muito para além da queda do Império Romano do Ocidente no final do século V Gibbon oferece ao leitor um vasto panorama do mundo romano, incluindo aquilo que se tornou conhecido como o Império Bizantino (ou Império Romano do Oriente) e grandes extensões da Ásia. A obra de Gibbon termina no ano cataclísmico de 1453: a queda de Constantinopla. Gibbon escreve com um estilo grandioso enquanto percorre o mundo mediterrânico antigo, entra no período medieval e expande-se por impérios, continentes e religiões, sempre em busca da interdependência dos acontecimentos que moldaram a história da Europa.

Mapa A Queda do Império Romano do Ocidente, cerca de 480
A Queda do Império Romano do Ocidente, c. 480 d.C. Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Um tema que percorre a obra é o choque entre a antiga religião pagã dos romanos e o desafio que lhe foi colocado pela ascensão do Cristianismo. É aqui que Declínio e Queda encontra o seu lugar como um importante texto do Iluminismo. Os pensadores iluministas procuravam desafiar a dominação do Cristianismo sobre formas de pensar mais antigas. O historiador H. Chisick resume este ponto da seguinte forma:

De certo modo, Declínio e Queda foi um lamento pela perda do mundo ordenado, racional, tolerante e humanista de responsabilidade cívica e republicanismo clássico, e a sua substituição pela cultura mística, transcendente e insondável do Cristianismo... E, como muitas obras de investigação histórica, Declínio e Queda tem tanto para nos dizer sobre o período em que foi escrita como sobre os tempos que aborda.

(pág. 136).

Gibbon foi grandemente auxiliado no seu trabalho ao herdar fundos suficientes do espólio do seu falecido pai em 1772, o que lhe permitiu trabalhar a tempo inteiro na sua grande aventura literária. Gibbon tinha-se imposto uma tarefa hercúlea, como se reflete na escolha desta citação do autor romano Tito Lívio (59 a.C. a 17 d.C.) — que escreveu ele próprio uma história de Roma —, a qual Gibbon mandou imprimir na página de rosto do seu livro terminado:

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Vejo que sou como as pessoas que são tentadas pelas águas pouco profundas ao longo da praia a caminhar mar adentro; quanto mais avanço, maior é a profundidade, como se fosse um mar sem fundo para onde sou levado. Imaginava que, à medida que completasse uma parte após a outra, a tarefa diante de mim diminuiria; na realidade, ela torna-se quase maior.

(Robertson, pág. 583)

Decline & Fall of the Roman Empire Title Page
História do Declínio e Queda do Império Romano Unknown Photographer (Public Domain)

Sem dúvida, acumulou um número impressionante de fontes; Gibbon tinha mais de 6.000 livros na sua biblioteca de investigação. O estilo de escrita cativante de Gibbon exerce um grande fascínio, mesmo que a precisão histórica seja, por vezes, comprometida. Nesta passagem, por exemplo, ele critica severamente o Imperador Galieno (reinou 253-268):

Em todas as artes que tentou, o seu génio vivo era destituído de discernimento; tentou todas as artes, exceto as importantes de guerra e governo. Era mestre em diversas ciências curiosas, mas inúteis, um orador pronto, um poeta elegante, um jardineiro habilidoso, um excelente cozinheiro e um príncipe desprezível."

(Bagnall, pág. 2833)

A obra completa Declínio e Queda consistiu, por fim, em seis volumes. Gibbon acumulou cerca de 1,5 milhões de palavras sobre o seu tema. O primeiro volume foi publicado em fevereiro de 1776 e cobre a história de Roma desde Antonino Pio (reinou 138-161) até Constantino I (reinou 306-337). Os dois volumes seguintes surgiram em 1781 e continuaram a história até ao reinado de Rómulo Augústulo, que terminou em 476, a data tradicional para o fim do Império Romano do Ocidente. Os três volumes finais foram publicados em 1788 e narram a história do Império Romano do Oriente, que termina com a captura de Constantinopla pelo Império Otomano. Apesar da dimensão exigida nas estantes das pessoas, a obra tornou-se rapidamente um best-seller e foi traduzida para vários idiomas. O historiador R. Robertson descreve-a como "a maior obra de história do Iluminismo" (pág. xx), enquanto H. Chisick descreve o livro de Gibbon como "provavelmente a maior história em língua inglesa" (pág. 135).

As Reações e as Críticas

À data da publicação, muitos teólogos opuseram-se fortemente à abordagem irreverente de Gibbon sobre o Cristianismo primitivo, que é, frequentemente, salpicada por comentários incisivos e irónicos nas abundantes notas de rodapé. Gibbon teve, contudo, os seus apoiantes, nomeadamente o filósofo e historiador escocês David Hume (1711-1776), que também tinha escrito um best-seller, a sua História de Inglaterra, publicada entre 1754 e 1762. Gibbon escreveu uma defesa da sua obra em Vindication, publicada em 1779.

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Mapa do Império Bizantino, c. 520 - 1204
Mapa do Império Bizantino, cerca de 520 - 1204 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Críticos mais modernos salientam que a obra envelheceu mal em diversos aspetos, o que não é surpreendente se tivermos em conta a evolução nos estudos históricos desde o século XVIII e o nosso conhecimento cada vez mais vasto, potenciado por áreas especializadas como a arqueologia, a filologia e a numismática, bem como pelo florescimento dos estudos bizantinos e islâmicos, para mencionar apenas alguns. Alguns não concordam com o tratamento que Gibbon dá ao Império Romano como um império único e coerente. É criticado pela sua visão idealizada da Roma do século II como uma "Idade de Ouro" e pela sua perspetiva excessivamente negativa da Idade Média, quando, nas palavras de Gibbon, "a voz serena da lei e da razão era raramente ouvida ou obedecida" (Robertson, pág. 587).

A própria ideia de uma "queda" tem sido contestada, sobretudo porque a metade oriental do Império Romano continuou a existir durante mais um milénio.

Outros críticos ainda apontam a dependência do autor em relação às fontes latinas e a negligência das fontes bizantinas e árabes. A conclusão de Gibbon de que "o declínio de Roma foi o efeito natural e inevitável de uma grandeza imoderada... A história da sua ruína é simples e óbvia" (Bagnall, pág. 2914) tem sido criticada por ser uma visão demasiado simplista. A ascensão do Cristianismo, o declínio dos valores cívicos romanos, o aumento do luxo, a dependência excessiva de exércitos mercenários e as restrições à liberdade intelectual constituem uma combinação impressionante, mas cobrem apenas algumas partes de um ciclo complexo e gradual de eventos interdependentes que resultaram na "queda" de Roma. Historiadores posteriores procuraram causas externas, como as invasões pelos povos germânicos, para além das fraquezas inerentes à própria Roma.

A própria ideia de uma "queda" tem sido, desde então, contestada, não menos porque a metade oriental do Império Romano sobreviveu à metade ocidental durante um milénio. Alguns argumentam também que, longe de estar em declínio, o Império Romano "foi transformado numa era vibrante de novas ideias desafiantes e de novas estruturas sociais, religiosas e políticas" (Bagnall, pág. 1951).

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Existem também críticas de que Gibbon julga a história em vez de simplesmente relatá-la, e que o primeiro resulta num enviesamento no segundo. Gibbon sugere que a substituição do mundo romano por um mundo cristão é um passo atrás para a humanidade, uma regressão que apenas estaria a ser corrigida no seu próprio tempo com o movimento do Iluminismo, que sublinhava que a sociedade humana deveria aspirar ao progresso e a um mundo mais justo baseado em novos princípios estabelecidos pela ciência e pela filosofia, não pela religião.

Timeline of Roman Emperors 27 BCE to 285 CE
Cronologia dos Imperadores Romanos (27 a.C. a 285 d.C.) Simeon Netchev (CC BY-NC-SA)

Em suma, Declínio e Queda, devido ao seu enviesamento, omissões e imprecisões, é hoje considerado, ele próprio, uma peça histórica bastante peculiar. No entanto, a intenção original de Gibbon para a sua obra permanece admirável: examinar como e por que razão um império tão importante na história mundial existiu durante tanto tempo. Este tipo de análise histórica era muito diferente dos livros de história habituais, que muitas vezes não passavam de uma coleção de histórias divertidas e altamente duvidosas sobre governantes (embora o próprio Gibbon seja por vezes culpado disto quando trata dos imperadores bizantinos) ou demasiado focados em assuntos militares, em detrimento de tudo o resto. Outro aspeto da obra de Gibbon que inspirou muitos historiadores que se seguiram é o exame da história com a intenção deliberada de avaliar como tal história afeta o nosso mundo no presente.

A Morte e o Legado

Gibbon viveu em Londres a partir do início da década de 1770. Em 1778, fixou residência com o Conde de Sheffield. Gibbon serviu como Membro do Parlamento por Liskeard, na Cornualha (embora pareça nunca ter visitado o local) e ocupou cargos secundários como parte do governo de Lord North (Primeiro-Ministro de 1770 a 1782). Ele era, como crente na "igualdade natural do homem" (Hampson, pág. 153), a favor da abolição do comércio de escravos. Gibbon mudou-se de volta para Lausana em 1783.

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Gibbon sofreu de problemas de saúde e obesidade nos seus últimos anos; faleceu em Londres, a 16 de janeiro de 1794, após uma viagem problemática desde França. Os seus restos mortais foram sepultados no mausoléu da família do Conde de Sheffield, que está adstrito à pequena igreja na aldeia de Fletching, em Sussex. As autobiografias de Gibbon, que cobriam vários volumes, foram publicadas postumamente num único volume: Memoirs of My Life and Writings (Memórias da Minha Vida e Escritos).

O Declínio e Queda de Gibbon continuou a exercer grande influência muito tempo após a sua morte. A apresentação de Gibbon de uma grande civilização que declinou e colapsou lembrou aos pensadores do Iluminismo que a sua própria sociedade era tão vulnerável a tal catástrofe; isto inspirou-os a continuar a debater e a encontrar novas abordagens à política, cidadania e moralidade, de modo a garantir que a sociedade não degenerasse, mas que melhorasse com cada geração.

A longo prazo, a ideia de olhar para o fim da Antiguidade com a lente bastante negativa do "declínio" em mente foi uma abordagem copiada por muitos historiadores até à segunda metade do século XX. Gibbon também foi influente na (alguns diriam responsável pela) forte concentração no Império Romano do Ocidente e na relativa negligência do Império Bizantino por parte dos historiadores. Mesmo a apresentação negativa de Gibbon sobre certos imperadores, como Galieno, deixou uma imagem duradoura e, frequentemente, incorreta, que persistiu até há relativamente pouco tempo. Por outro lado, a história de Gibbon foi tal inspiração para historiadores e leitores, que se poderia argumentar que é apenas através da sua obra que tais revisões e melhorias no nosso conhecimento da Roma antiga se tornaram possíveis. É também digno de nota que, no século XXI, vários historiadores começaram, por sua vez, a desafiar a visão mais positiva dos anos finais de Roma e a regressar à abordagem negativa, embora agora muito mais matizada, que Gibbon propôs inicialmente.

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Perguntas & Respostas

Porque é que Edward Gibbon é famoso?

Edward Gibbon foi um historiador inglês famoso pela sua obra «História do Declínio e Queda do Império Romano». Ele atribui a queda ao surgimento do cristianismo e ao abandono dos valores cívicos e das liberdades tradicionais romanas.

Qual é a teoria de Gibbon sobre a queda do Império Romano?

A teoria de Edward Gibbon que explicava a queda do Império Romano assentava na ascensão do Cristianismo e num correspondente declínio dos valores e liberdades tradicionais romanas. Gibbon considerava também que os romanos se tinham tornado demasiado brandos do ponto de vista militar e demasiado dependentes de exércitos mercenários. Os historiadores modernos sugerem que esta é apenas uma parte de um espectro mais vasto de razões pelas quais o Império Romano do Ocidente terminou no século V.

Por que razão a obra «História do Declínio e Queda do Império Romano», de Gibbon, foi importante?

A obra de Gibbon «História do Declínio e Queda do Império Romano» foi importante porque despertou o interesse pela história antiga e foi considerada pelos pensadores iluministas como um exemplo de como a religião institucionalizada pode sufocar uma sociedade, algo que lhes preocupava na sua própria época.

Bibliografia

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Cartwright, M. (2026, julho 04). Edward Gibbon. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21522/edward-gibbon/

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Cartwright, Mark. "Edward Gibbon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21522/edward-gibbon/.

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Cartwright, Mark. "Edward Gibbon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 04 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-21522/edward-gibbon/.

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