Orión foi o grande caçador da mitologia grega que era famoso pela sua boa aparência e pelos seus muitos romances. Quer o seu ataque a Ártemis, quer a admiração desta por ele resultaram na transformação do gigante numa constelação por parte dos deuses. Mencionado por escritores antigos como Hesíodo e Homero, a constelação de Orión foi utilizada como um importante auxílio de navegação e agricultura ao longo da Antiguidade.
A Genealogia e o Nascimento
Os mitos que envolvem Orión são variados e contraditórios. Nalgumas versões, é filho de Posíodo e de Euríale, uma das três irmãs Górgonas. Outros escritores referem que é filho de Hirieu, filho de Alcíone (uma das Plêiades) e de Posíodo. Nesta versão, Hirieu, um pobre e idoso agricultor e apicultor, dá hospitalidade a Zeus e a Hermes e, em retribuição, é-lhe concedido o favor de ter um filho. Orión nasceu assim quando Hirieu seguiu as instruções dos deuses e enterrou a pele de um touro sacrificado na sepultura da sua mulher. Para que o truque funcionasse, o agricultor teve primeiro de juntar água à pele e, eis que Orión brotou da terra nove meses mais tarde. Este nascimento milagroso envolvendo água explica a associação com a chegada das chuvas com o nascimento e ocaso da constelação de Orión.
Tradicionalmente, portanto, Orión vinha de Híria, na Beócia, e o que não é disputado é que ele tinha um físico excelente, boa aparência e possuía grande destreza como caçador. Orión foi também um dos grandes amantes gregos, dizendo-se que gerou 50 filhos ao deitar-se com 50 ninfas.
Orión e Mérope
Não satisfeito com a sua conquista das ninfas, Orión desembarcou então em Quios, onde perseguiu e atacou Mérope, uma das Plêiades, filha de Enópio e, portanto, neta de Dioniso. Enópio tinha prometido a sua filha ao grande caçador se ele conseguisse livrar a ilha das suas problemáticas feras selvagens. Orión assim o fez, mas Enópio, relutante em perder a filha, não cumpriu a sua promessa e fingiu que ainda havia muitos animais selvagens a vaguear por Quios. Orión tomou então o seu prémio de qualquer das formas e violentou Mérope nos seus aposentos. Quando Enópio descobriu o crime, pediu ajuda a Dioniso; o deus do vinho primeiro embebedou o caçador e depois mandou que os sátiros o cegassem. A infeliz Mérope viria mais tarde a tornar-se mulher de Sísifo, e é a sua vergonha por ter sido a única das suas irmãs a casar-se com um mortal que explica por que razão a sua estrela brilha com menos intensidade na constelação das Plêiades.
Felizmente para Orión, a sua visão seria recuperada se apenas conseguisse chegar ao ponto onde Hélio — o Sol — se ergue pela primeira vez acima do Oceano todos os dias, bem longe a oriente. Assim, pegando num barco a remos, fez-se ao mar, encontrando pelo caminho o assistente de Hefesto, Cedalião, para o guiar quando parou em Lemnos. Ao atingir o seu destino, Hélio restituiu devidamente a visão a Orión, e Eos, a personificação da Aurora e irmã de Hélio, apaixonou-se prontamente pelo belo caçador. Diz-se que o seu caso ilícito explica o belo rubor matinal da aurora.
Orión e Ártemis
A perseguição seguinte de Orión revelou-se consideravelmente mais ambiciosa e fatídica, pois atacou a deusa Ártemis, ela própria uma grande caçadora. Pela sua audácia, Orión foi transformado na constelação que ostenta o seu nome e o seu cão foi, do mesmo modo, transformado na estrela brilhante Sírio. Contudo, uma versão alternativa (e a de Homero) da história conta que Eos se apaixonou pelo poderoso caçador enquanto este visitava Hélio, e Ártemis mata-o com as suas setas por ciúmes, algures perto de Ortígia (Siracusa?).
Noutra versão, Ártemis matou Orión por acidente após ser enganada por Apolo, que a fizera crer que o caçador era, na verdade, um malfeitor que tinha atacado uma das suas sacerdotisas. Orión, enquanto nadava para escapar a um escorpião gigante (novamente enviado por Apolo), é morto pelas setas de Ártemis depois de a deusa apenas conseguir ver a sua cabeça distante a boiar e não conseguir reconhecer o caçador. Esta tragédia ocorreu depois de os dois grandes caçadores terem estado a caçar juntos por desporto em Creta. Ártemis tentou convencer Asclépio, dotado de dons medicinais, a trazer Orión de volta à vida, mas este acabou de ser abatido pelo raio de Zeus por ser um pouco demasiado engenhoso a ressuscitar os mortos e a esbatere a distinção entre mortais e deuses. Nesta versão, foi o remorso de Ártemis pela perda do seu companheiro de caça que lhe permitiu tornar-se numa constelação e alcançar a imortalidade entre as estrelas.
Outra tradição surgiu segundo a qual Orión não estava de todo nas estrelas, mas sim, de forma menos romântica, sepultado em Tanagra, a norte de Atenas. O escritor de viagens grego do século II Pausanias afirmou ter inclusivamente visitado o local, que era também considerado o sítio do poste onde Atlas se sentava a meditar.
Orión, a Constelação
Na Ilíada (tít. original: Ἰλιάς; transliterado: Ilias) de Homero (Livro 18:487), Orión surge no grande escudo de Aquiles (como a constelação) feito por Hefesto. Volta a surgir na Odisseia (tít. original: Ὀδύσσεια; transliterado: Odysseia) de Homero (Livro 5:121 e 274, Livro 11:310 e 572) onde, longe das estrelas, se encontra nas profundezas do Hades, a reunir todos os animais que caçara durante a sua vida. Visto por Odisseu, Orión continua insatisfeito e persegue agora a sua presa tudo de novo, armado com um clava de bronze indestrutível. A constelação do caçador é também mencionada por Calipso como guia para Odisseu na sua viagem de regresso a casa. Hesíodo menciona a posição de Orión no céu noturno em várias passagens de Os Trabalhos e os Dias (tít. orignal: Ἔργα καὶ Ἡμέραι; transliterado; Erga kai Hemerai) para orientar os agricultores sobre quando devem realizar certas tarefas agrícolas. Outras constelações são também guias úteis, nomeadamente as Plêiades, cuja perseguição por Orión no mito reflete o facto de, enquanto constelação, se erguem e surgem momentos antes de Orión o fazer.
