Os Trabalhos e os Dias

Donald L. Wasson
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Pandora Receiving Gifts from the Gods (by The British Museum, CC BY-NC-SA)
Pandora a Receber Dádivas dos Deuses The British Museum (CC BY-NC-SA)

Os Trabalhos e os Dias (tít. original: Ἔργα καὶ Ἡμέραι; transliterado: Erga kai Hemerai) é um poema épico escrito em hexâmetro dactílico, atribuído ao poeta grego Hesíodo, do século VIII a.C.. Hesíodo é habitualmente recordado por duas obras épicas, A Teogonia (tít. original: Θεογονία; transliterado: Theogonia) e Os Trabalhos e os Dias, mas, tal como o seu contemporâneo Homero, fazia parte de uma tradição oral e as suas obras só foram transpostas para a forma escrita décadas após a sua morte. Os Trabalhos e os Dias constitui um tributo às vantagens de uma vida dedicada ao trabalho e à prudência. No poema, Hesíodo dirige-se diretamente ao seu irmão Perses — um irmão que se tinha apossado de uma maior fatia da herança de ambos — sobre a forma de conduzir a sua vida.

A Autoria

Pouco se sabe sobre a vida de Hesíodo; o pai emigrou de Cyme, na Ásia Menor, e fixou-se na Beócia, um pequeno Estado no centro da Grécia. A sua obra mais antiga conhecida, A Teogonia, traçou a história da criação, desde o Caos até à ascensão de Zeus como soberano absoluto dos deuses olímpicos. Embora exista alguma contenda quanto à autoria de Os Trabalhos e os Dias, a helenista Dorothea Wender, na sua tradução de Hesíodo, considera-o o autor desta obra posterior e largamente superior. Se por um lado A Teogonia possui interesse histórico, “... se o leitor quiser encontrar a obra de um verdadeiro poeta, deve virar-se para Os Trabalhos e os Dias” (pág. 19). Séculos mais tarde, ambos os poemas exerceriam um impacto considerável sobre o poeta romano Ovídio e as suas Metamorfoses (tít. original: Metamorphoseon libri).

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A Justiça de Zeus

Falando a partir das suas próprias vivências pessoais, Hesíodo louva as vantagens de uma vida agrária ao mesmo tempo que condena a vida ociosa do irmão no mar. Embora Wender considere que os seus conselhos são tanto sinceros como provavelmente corretos, não deixou de apelidar Hesíodo de “resmungão”. Contudo, por muito resmungão que possa parecer, ele acreditava na justiça, na honestidade, na piedade, na autossuficiência e, acima de tudo, no trabalho. Nutria antipatia por gente da cidade, pelo mar, pelas mulheres, pela coscuvilhice e pela preguiça. Nos versos iniciais do poema, dirigiu uma súplica a Zeus, o Tonitruante, para que permitisse ao seu irmão, que nessa altura se encontrava a bordo de um navio mercante, escutar a verdade.

Hesíodo acreditava na justiça, na honestidade, na piedade, na autossuficiência e, acima de tudo, no trabalho.

Principal entre os princípios sagrados de Hesíodo era o conceito de justiça e, para ele, Zeus constituía a representação máxima da justiça. Segundo o historiador Thomas Martin no seu livro Grécia Antiga (tít. original: Ancient Greece), Hesíodo encarava a justiça como uma qualidade divina — corporificada em Zeus — que castigaria os malfeitores. Contudo, na perspetiva de Martin, o Zeus de Homero preocupava-se apenas com o destino dos seus queridos guerreiros em combate, um traço evidente tanto na Ilíada como na Odisseia. O historiador Norman Cantor, no seu livro Antiquity (Antiguidade), afirmou que, embora Homero possa ser creditado por criar a imagem grega dos deuses e por lhes conferir tanto personalidade como função, Hesíodo demonstrou que estes constituíam uma força moral, campeões da justiça. No que respeita ao poder de Zeus, Hesíodo escreveu:

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Com facilidade fortalece qualquer homem; com facilidade

Humilha o homem forte e com facilidade

Nela plana os montes e exalta a planície.

(pág. 59)

Mais à frente no poema, Hesíodo lamentar-se-ia acerca dos tempos tristes em que vivia, apelando a Zeus “para que endireitasse as nossas leis caídas”. Para demonstrar a autoridade de Zeus e dar uma lição ao irmão, Hesíodo virou a sua atenção para Prometeu, considerado o mais astuto de todos. Este tinha roubado o fogo aos deuses e dado-o à humanidade. Tendo granjeado a reputação de ser vingativo, Zeus quis punir a arrogância do homem, dando-lhe então “uma coisa má para seu deleite”, Pandora.

Pandora About to Open Her Box
Pandora Prestes a Abrir a Caixa Lawrence Alma-Tadema (Public Domain)

Pandora apareceu pela primeira vez na Teogonia, embora não pelo nome. Foi criada à imagem de uma deusa imortal. Atena ensinou-a a tecer. Afrodite concedeu-lhe o encanto e o desejo. Hermes dotou-a de maneiras astutas, bem como de palavras persuasivas e de artimanhas. Adornada pelos deuses, foi entregue a Epimeteu (irmão de Prometeu) como esposa. Prometeu tinha-lhe avisado para não aceitar nenhuma dádiva de Zeus, mas ele não deu ouvidos. Antes de Pandora, os humanos tinham vivido livres de desgostos, de trabalho penoso e de doenças. No entanto, esta dádiva dos deuses tornou-se a ruína da humanidade e, segundo o mito, libertou inúmeros males sobre a terra, deixando apenas a esperança. Hesíodo concluiu a sua lição afirmando que não havia forma de escapar à mente de Zeus, pois, segundo Hesíodo, Zeus tudo via.

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As Cinco Raças

Hesíodo falou em seguida das cinco raças da humanidade. Dirigindo-se ainda ao seu irmão, Hesíodo pediu-lhe que tomasse a sua história a peito. A primeira raça pertenceu ao tempo de Cronos, a raça de ouro, e viu os humanos a viver com corações felizes, sem tristezas nem trabalho. Nunca envelheciam, morrendo pacificamente enquanto dormiam; todas as necessidades lhes eram providenciadas. No fim do seu tempo na terra, tornaram-se invisíveis, vivendo como espíritos da terra.

Foram substituídos pela efêmera e largamente inferior raça de prata, um povo que vivia vidas angustiadas, incapaz de se controlar, abandonando os deuses ao deixar os altares despidos. Zeus enfureceu-se e escondeu-os para se tornarem, nas palavras de Hesíodo, os “espíritos do submundo”. A raça seguinte, a apropriadamente designada de bronze, utilizava armas e ferramentas de bronze, chegando a viver em habitações de bronze.

… e adoravam

Os gemidos e a violência da guerra; não comiam pão; os seus corações eram duros como pederneira; eram

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Homens terríveis.

(pág. 63)

Consideravam-se invencíveis, apenas para acabarem por morrer pelas próprias mãos, sem nome, indo juntar-se a Hades, abandonando o brilho do sol. Depois do bronze, Zeus criou uma quarta raça: uma raça de heróis semelhantes a deuses. Esta foi a raça anterior ao tempo do próprio Hesíodo; uma época de guerras terríveis e batalhas assustadoras. Foi o tempo em que Paris raptou Helena, desencadeando a Guerra de Troia. A seguir veio o tempo de Hesíodo — a raça de ferro —, um período de dificuldades e labor.

Oxalá eu não pertencesse a esta raça, e

Tivesse morrido antes, ou ainda não tivesse nascido.

(pág. 64)

Dizia que, durante o dia, as pessoas trabalham e lamentam-se, mas à noite definham e morrem. Considerava-as miseráveis e sem deus, crente de que Zeus acabaria por destruí-las a todas.

Conselhos a um Irmão

Hesíodo passou a maior parte do resto do poema a dar orientação ao seu irmão. Grande parte dos conselhos dados a Perses centrava-se nos benefícios da vida agrária. Inicia o diálogo com um apelo:

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Ó Perses, pensa nestas coisas:

Segue o justo, evitando a violência.

O filho de Cronos fez esta lei para os homens:

Que os animais, os peixes e as aves aladas

Deviam comer-se uns aos outros por não terem lei,

Mas a humanidade tem dele a lei do Direito,

Que é o melhor caminho.

(pág. 67)

Hesíodo afirma que, se alguém for justo, Zeus torná-lo-á próspero e não o castigará com pragas ou fome; contudo, admoestará aqueles que cultivam os campos do orgulho. Hesíodo repreende ainda mais o irmão sobre os malefícios da ociosidade, dizendo que uma pessoa que trabalha será a inveja dos outros, mas uma pessoa gananciosa que obtém a sua riqueza através da mentira será castigada pelos deuses. O melhor homem é aquele que pensa por si próprio, embora deva ainda escutar o bom conselho de outra pessoa. Se não pensar por si próprio nem aprender com os outros, é um fracasso como homem.

Portrait of Hesiod
Retrato de Hesíodo Carole Raddato (CC BY-NC-SA)

Em ambos os seus poemas, Hesíodo não fala muito bem das mulheres. Em Os Trabalhos e os Dias, diz ao irmão para não se deixar enganar por uma mulher, pois ela apenas deseja o seu celeiro. Avisa que as mulheres são uma fraude e aconselha o irmão a casar-se quando estiver pronto, por volta dos trinta anos. “Deves ensinar-lhe maneiras sensatas.” (pág. 81) Repetindo o seu aviso da Teogonia, afirma que uma esposa virtuosa é um prémio, mas uma má faz uma pessoa tremer de frio, e uma gananciosa levá-lo-á “a uma velhice verde”. Embora possa dar conselhos ao irmão contra o casamento, aconselha-o a arranjar uma casa, uma mulher (uma escrava) e um boi para a charrua, mas certificando-se de que a mulher é solteira e pode ajudar no campo e nas tarefas domésticas. Hesíodo descreve até com detalhe a charrua dos campos.

Quando a época da lavoura chegar, apressa-te a arar

Tu e os teus escravos por igual, em dias de chuva

E dias secos, enquanto a estação durar.

(pág. 73)

Hesíodo adverte para que não se esqueçam de oferecer uma prece a Zeus, o deus do agricultor, e a Deméter pelo seu grão sagrado. Fala também dos dias santos do mês que devem ser respeitados, pois provêm de Zeus.

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Estes dias são bênçãos para os homens na terra;

os restantes são inconstantes, brandos e trazem má sorte.

(pág. 86)

Aconselha o irmão a não perder tempo a escutar mexericos na oficina do ferreiro, pois estes afastam o homem do trabalho e, consequentemente, deixam-no indefeso e pobre no inverno.

O homem ocioso que vive de esperança vã

E não tem forma de ganhar a vida, volta

A sua mente para o crime: a esperança não é boa para aquele

Que se senta e coscuvilha quando não tem trabalho.

(pág. 75)

Enquanto enaltece as virtudes da vida no campo, também fala de coisas mais simples: possuir um casaco de lã felpuda, uma túnica e botas de pele de boi (forradas com feltro). O seu conselho é não ser demasiado hospitaleiro, embora ninguém deva ser visto como pouco acolhedor. Não se deve ser mal-educado num banquete comum e nunca se deve esquecer de lavar as mãos antes de oferecer vinho aos deuses. Mais sensatamente, nunca se deve urinar virado para o sol ou, durante uma viagem, ao longo da berma da estrada. E nunca se deve comer de uma panela não abençoada.

Fish Plate
Prato de Peixe Lucas (CC BY-NC-SA)

Lembram a Perses que todo o trabalho tem a sua estação, até mesmo a navegação. Deve admirar os navios pequenos, mas colocar a sua carga num maior. Se tiver de navegar, deve fazê-lo após o solstício para evitar o calor do verão. Hesíodo diz ao irmão que ele próprio havia navegado há muito tempo de Aulis para Eubeia. Fala das suas experiências com as Musas. Foi aí que aprendeu a cantar.

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E ali, digo eu, venci com um canto

E levei para casa um tripé de duas orelhas, o qual Erigi para as Musas

Naquele lugar

Em Hélicon, o lugar onde embarquei

No belo canto, primeiro ao comando delas.

(pág. 60)

O Legado

Se Perses abandonou ou não a sua vida desorientada e seguiu os conselhos do irmão, é desconhecido. Wender acreditava que, embora Hesíodo possa ser visto como conservador e pessimista, os seus conselhos ao irmão são sinceros e sérios. Numa comparação de Hesíodo com o seu contemporâneo Homero, escreveu que os deuses de Homero não eram muito admiráveis a nível ético — mentiam, trapaceavam e roubavam —, mas eram ainda assim bastante civilizados. Hesíodo, por outro lado, deixou que os seus deuses permanecessem primitivos e desordenados. Norman Cantor acreditava que ambos estes poetas da Idade das Trevas, Hesíodo e Homero, tiveram um efeito profundo na religião grega. Cantor escreveu que os gregos nunca tinham adotado um código de comportamento ou quaisquer crenças teológicas, a sua religião era maioritariamente composta por mitos, cultos e rituais. Os gregos aceitaram as perceções apresentadas pelas obras de Homero e de Hesíodo, criando uma religião grega única. Os poemas de Hesíodo, embora esquecidos por muitos leitores modernos, tiveram um impacto imenso tanto no povo grego do seu tempo como num jovem poeta romano séculos mais tarde, Ovídio.

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Wasson, D. L. (2026, julho 24). Os Trabalhos e os Dias. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16687/os-trabalhos-e-os-dias/

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Wasson, Donald L.. "Os Trabalhos e os Dias." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 24, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16687/os-trabalhos-e-os-dias/.

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