A Páscoa é a festa cristã que celebra a ressurreição de Jesus de Nazaré três dias após a sua morte por crucificação, ordenada pelo magistrado romano Pôncio Pilatos (cerca de 30 d.C.). O Domingo de Páscoa é o ponto alto dos eventos que, ao longo de uma semana, antecederam a sua morte, reencenados todos os anos em cerimónias litúrgicas conhecidas como Semana Santa. A palavra «Páscoa» pode ter derivado da obra de São Beda, o Venerável (672-745), que escreveu uma história da conversão ao cristianismo dos anglo-saxões na Grã-Bretanha (História Eclesiástica do Povo Inglês; tít.originial: Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum). Nos seus escritos sobre o calendário, ele afirmou que Eostre, uma deusa anglo-saxónica e germânica da fertilidade, era o termo local para o mês de abril. Eostre celebrava a renovação da fertilidade a cada primavera, com símbolos que incluíam ovos e coelhos (ambos conceitos antigos de fertilidade e renovação dos ciclos da vida).
O Contexto Histórico
A partir do evangelho de Marcos (cerca do ano 70), todos os evangelhos relatam o sofrimento e a morte de Jesus de Nazaré, um profeta judeu que proclamou que o Deus de Israel em breve estabeleceria o seu reinado na Terra. Pesach em hebraico, pascha em grego, era uma das três festas de peregrinação obrigatórias no judaísmo antigo. A Páscoa reconstituía a história da escravidão dos judeus no Egito, quando Deus os libertou da opressão do Faraó (conforme relatado em Êxodo 12). Como décima e última praga sobre o Egito, Deus enviaria o anjo da morte entre os egípcios «para matar os primogénitos do Egito». Para proteger os hebreus, estes deviam sacrificar um cordeiro e colocar o seu sangue nas portas das suas casas. O Êxodo continha a ordem de que os hebreus deveriam reencenar e celebrar este evento todos os anos. O cordeiro deveria ser sacrificado no 14.º dia do mês de Nisan e comido no dia 15. Os judeus seguiam um calendário lunar, pelo que nem sempre calhava no mesmo dia todos os anos.
Foi durante esta festa que Jesus foi executado por Roma. Após a sua morte, o seu corpo foi colocado num túmulo próximo. As suas seguidoras foram ao túmulo na manhã de domingo, apenas para descobrir que o seu corpo tinha desaparecido. Os seus seguidores proclamaram que tinha sido ressuscitado dos mortos por Deus. Este evento central da ressurreição foi celebrado como o acontecimento mais importante da vida de Jesus. O Natal só começou a ser celebrado após a conversão do imperador romano Constantino I, em 312.
Os seguidores de Jesus levaram a sua mensagem às vilas e cidades do Império Romano Oriental, onde os gentios (não judeus) logo superaram em número os seguidores judeus. Para os gentios, a história de um deus que morre e ressuscita teria soado bastante familiar. Havia cultos nativos conhecidos como «cultos de mistério» que exigiam rituais secretos de iniciação. Os principais centravam-se em deuses e deusas, como Deméter e Dionísio, que tinham sofrido a morte mas depois ressuscitaram para a vida novamente.
A Data da Páscoa
Um dos nossos primeiros escritos sobre a Páscoa provém de Melitão († 180), que foi bispo de Sardes, na Turquia Ocidental. Ele escreveu uma homilia, Sobre a Páscoa (Peri Pascha; em grego antigo: Περὶ Πάσχα), que foi proferida algures entre 160 e 170. Melitão combinou as tradições do judaísmo com a sua formação em filosofia grega nas suas discussões tanto sobre a vida de Jesus como sobre a compreensão do papel de Jesus no universo. Sem uma autoridade central, uma das primeiras divergências foi sobre quando celebrar a Páscoa. Foi o que veio a ser chamado de controvérsia quartodecimana (do latim «14º»). Os seguidores de Jesus deveriam celebrar o evento no dia 14 de Nisan, como os judeus, ou deveriam ter a sua própria prática distinta?
Melitão propôs que a celebração seguisse a prática judaica da Páscoa no dia 14 de Nisan, o que aparentemente era a prática na província da Ásia (atual Turquia). Isto ia contra o ensinamento e a prática em Alexandria e, particularmente, em Roma. O bispo Vítor de Roma († 199) recusara-se a seguir as práticas judaicas e tentara excomungar os bispos que discordavam dele. Foram realizadas várias reuniões sobre o assunto, mas a discordância entre as igrejas continuou até ao Concílio de Nicéia, convocado por Constantino, o Grande, no ano de 325. Foi então decidido que a Páscoa deveria ser celebrada independentemente do calendário judaico e que deveria ocorrer na mesma data em todo o Império Romano, caindo sempre num domingo. Constantino recomendou que a igreja seguisse as práticas de Roma e Alexandria.
Durante milénios, os egípcios seguiram um calendário solar que também observava os equinócios da primavera e do outono. Este tipo de cálculo foi adotado por Júlio César (100-44 a.C.) para Roma no século I a.C. Foram necessários tempo e várias conferências para estabelecer a uniformidade no Império Romano. Os missionários cristãos que viajavam para a Grã-Bretanha e a Irlanda depararam-se com cálculos diferentes. Em 1582, a Igreja Católica no Ocidente adotou o calendário gregoriano sob a liderança do Papa Gregório XIII. Este determinou um ano solar de 365,2425 dias, com ajustes efetuados a cada quatro anos. Por fim, o cristianismo ocidental adotou a determinação que é utilizada hoje: a Páscoa é celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia após o equinócio da primavera e, por isso, por vezes a Páscoa coincide com a Páscoa judaica e outras vezes não. Muitas das igrejas ortodoxas orientais mantêm o calendário juliano, que determina uma data diferente.
A Quaresma
A Quaresma é observada 40 dias antes da Páscoa através da oração, penitência, caridade e abnegação. Um dos objetivos é ajudar o participante a identificar-se com os sofrimentos de Jesus. As origens desta prática são desconhecidas, embora as teorias incluam a sua introdução no Concílio de Nicéia, bem como as tradições judaicas de jejum como ritual de expiação (como no Yom Kippur). Em última análise, estava também relacionada com as tentações de Jesus no deserto (40 dias e noites).
A preceder a Quaresma está a Terça-Feira Gorda. «Shrove» deriva da palavra para «absolver» e deve-se confessar os pecados passados antes do início da Quaresma. Na Terça-Feira Gorda, desenvolveu-se a prática de livrar a casa de ovos, gordura e manteiga, considerados luxos a que se deve renunciar durante a Quaresma. Por isso, muitas culturas desenvolveram receitas específicas que utilizavam estes ingredientes, nomeadamente em panquecas, daí o termo francês Mardi Gras («Terça-feira Gorda»). Em muitos países, este dia inclui desfiles com personagens mascaradas, canto e dança. A folia é entendida como um último excesso antes dos próximos 40 dias de abnegação.
A Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas. Um dia de jejum, o elemento das cinzas deriva do antigo conceito judaico das cinzas como sinal de luto. As origens desta prática não são exatas, mas sabemos que, já no século II, o bispo Tertuliano (160-225) afirmava que a confissão dos pecados deveria ser marcada pelo ato de deitar-se em saco e cinzas. Os textos bíblicos lidos neste dia incluem Génesis 3:19 (Villapadierna, Carlos de (†) et al.. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968):
Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e em pó te hás-de tornar.
(pág. 21)
A leitura do Evangelho é retirada de Mateus 6:16-18:
E, quand jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas que desfiguram o rosto para que outros vejam que jejuam. (...)
Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejuam não seja conhecido dos homens, mas de teu Pai, que está presente no oculto, e teu Pai, que vê no oculto, recompensar-te-á.
(Idem, 1651-52)
Esta leitura e este ritual parecem, no entanto, ir além da intenção original da passagem. Os crentes são fisicamente marcados com cinzas na testa.
A Liturgia da Páscoa
Ao longo dos séculos, desenvolveu-se nas igrejas uma liturgia da Páscoa, tanto como memorial dos acontecimentos como de sua reconstituição. A forma da liturgia é inspirada na história do Evangelho conhecida como Narrativa da Paixão (do latim para «sofrimento»), destacando o sofrimento e a tortura de Jesus durante os últimos dias de sua vida na Terra. A Semana Santa começa no domingo antes da Páscoa e é uma reconstituição da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando o povo o acolheu como descendente do rei David, cortando ramos de palmeira das árvores e agitando-os enquanto recitavam passagens dos Salmos judaicos. Os participantes recebem ramos de palmeira e desfilam pela igreja.
A Quinta-feira Santa (do latim «mandamento») celebra uma história que se encontra apenas no quarto evangelho de João, quando Jesus ordenou um novo mandamento para demonstrar amor, o ritual da «lavagem dos pés». Celebra também o cenário original daquilo que é conhecido como a Última Ceia. Foi então que Jesus instituiu as palavras do que viria a tornar-se o ritual da comunhão. A partir das evidências das cartas de Paulo, esta reconstituição (reunião para recordar o Senhor) foi um dos primeiros rituais cristãos. Eventualmente, este ritual tornou-se o centro da missa, a celebração semanal das igrejas.
As igrejas católicas ensinam que a instituição destas palavras por um padre transforma literalmente o pão e o vinho no «corpo e sangue de Jesus». A Reforma Protestante rejeitou esta ideia, mas continua a reencenar o ritual apenas como representações simbólicas. Muitas igrejas modernas incorporam tanto a Última Ceia como os rituais de lavagem dos pés na liturgia da Quinta-feira Santa. São escolhidas pessoas específicas para terem os pés lavados pelo ministro, e estas incluem frequentemente os sem-abrigo e os indigentes.
A Sexta-feira Santa/A Via Dolorosa («Caminho Doloroso»)
Na Idade Média, foi desenvolvido em Jerusalém um ritual formalizado que se tornou a norma nas comunidades católicas. Durante a era bizantina, começaram a ser identificados locais na cidade associados à Semana da Paixão e as procissões eram conduzidas por fiéis que assinalavam cada evento. A procissão terminava no local tradicional da Igreja do Santo Sepulcro, o túmulo de Jesus.
Outros locais incluem a Fortaleza de Antônia, onde Jesus foi condenado por Pilatos, as celas onde foi açoitado e os locais onde supostamente caiu durante o seu calvário. Os peregrinos em Jerusalém continuam a percorrer esta rota, particularmente na Sexta-feira Santa. No século XIV, a reconstituição dos eventos foi transposta para igrejas em todo o mundo num ritual denominado Via Sacra. As igrejas católicas têm imagens alinhadas nas paredes no interior do edifício, indicando cada evento. Durante a Quaresma, os fiéis assistiam às missas nas noites de sexta-feira, parando em cada local enquanto rezavam com um rosário, um colar de contas que se desenvolveu a partir do uso inicial que os monges faziam de cordas com nós para contar as orações.
Nas igrejas católicas, na tarde da Sexta-Feira Santa, toda a narrativa da Paixão é normalmente lida pelos ministros e pelas congregações. No século VII, o Vaticano adotou um ritual praticado em Jerusalém, onde um pedaço da Verdadeira Cruz era venerado neste dia. Uma grande cruz com o corpo de Jesus é descoberta e os participantes ajoelham-se e beijam as feridas e os pés. As denominações protestantes não incluem o corpo de Jesus nas suas cruzes.
O Sábado Santo
O Sábado Santo comemora o tempo em que Jesus esteve no túmulo. A partir da Antiguidade Tardia e ao longo da Idade Média, surgiu uma literatura que ficou conhecida como «A Descida aos Infernos». «Harrowing» era um termo anglo-saxónico para «incursão», como as incursões vikings, e a tradição afirmava que, no sábado, Jesus desceu ao Hades e lutou com o Diabo para resgatar as almas dos justos. Aparentemente, havia preocupações quanto à salvação de algumas pessoas antigas que tinham vivido antes da manifestação de Cristo na Terra. A Descida aos Infernos afirmava que a vitória de Cristo sobre o Diabo significava que, quando ele ressuscitou dos mortos na manhã de domingo, as almas dos justos emergiram com ele. Isto incluía Adão, Noé, Abraão (os patriarcas de Israel) e os Profetas. Ao mesmo tempo, Sócrates, Platão e outros filósofos também foram salvos.
Nas tradições ortodoxas, o Sábado Santo é marcado pela vigília pascal à meia-noite. Na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, o Patriarca grego reúne-se com os fiéis junto ao túmulo de Jesus. O Patriarca entra no túmulo e sai com uma vela milagrosamente acesa, passando a acender as velas de todos os demais na multidão. Com velas simbólicas da ressurreição, todos desfilam então em torno da igreja, entoando hinos.
O Domingo de Páscoa
O Domingo de Páscoa celebra a descoberta do túmulo vazio e as declarações dos anjos de que Ele ressuscitou. Muitas igrejas realizam missas ao ar livre ao nascer do sol, em vez da celebração tradicional dentro das igrejas.
O Pentecostes
Originalmente um festival judaico, a «festa das semanas», o Pentecostes era um festival agrícola secundário na primavera. Pente significa 50, e começava ao pôr do sol do 49.º dia após a Páscoa judaica. A história cristã do Pentecostes encontra-se em Atos 2, quando o Espírito desceu sobre os discípulos em Jerusalém com fogo. Os judeus que se encontravam na cidade ouviram as suas vozes «nas suas próprias línguas». Assemelha-se a uma história semelhante, quando Moisés trouxe os mandamentos aos anciãos no Sinai. A tradição cristã afirmou então que este evento representava Deus a estabelecer uma nova aliança para os seguidores de Jesus. Por isso, é frequentemente referido como o aniversário da Igreja.
As celebrações da Páscoa terminam 40 dias após a Páscoa, no Dia da Ascensão, quando Lucas relatou que Jesus ascendeu ao céu. O local está associado ao topo do Monte das Oliveiras, em Jerusalém.
Os Costumes da Páscoa
Ovos de Páscoa e caça aos ovos
Ao longo dos séculos, vários costumes culturais foram incorporados à celebração da Páscoa. Estes refletem tanto conceitos antigos como crenças locais nos locais onde o cristianismo se tornou dominante. Em toda a antiga Bacia do Mediterrâneo, os ovos eram um símbolo de fertilidade e de nova vida. Nas pinturas das tumbas etruscas, é frequente ver pessoas a segurar um ovo, sendo este, assim, um símbolo da vida após a morte. Em África, na Suméria e no antigo Egito, os ovos de avestruz eram pintados, gravados e colocados nas tumbas. Existem várias teorias sobre como os cristãos começaram a utilizar o ovo como símbolo, mas uma fonte afirma que os cristãos da Mesopotâmia tingiam os ovos de vermelho para simbolizar o sangue de Jesus. O surgimento de um pintinho de um ovo também simbolizava o túmulo vazio de onde Jesus ressuscitou.
As comunidades ortodoxas, particularmente famosas pelas decorações dos ovos de Páscoa, levaram o costume pelos Balcãs até à Rússia. Na Europa Ocidental, sabemos que, no século XVII, Roma tinha instituído uma bênção especial sobre os ovos como parte do ritual da Páscoa. Ao mesmo tempo, a proibição do consumo de ovos durante a Quaresma teria gerado um excedente de ovos que precisavam de ser cozidos para, pelo menos, serem conservados por algum tempo. No entanto, a maioria das teorias sobre a associação dos ovos à Páscoa na Europa relaciona-a com as crenças locais relativas à deusa Eostre, uma vez que o ovo era um dos seus símbolos. As comunidades católicas e protestantes levaram a tradição para as Américas durante o período colonial.
Muitos países desenvolveram a ideia da caça aos ovos de Páscoa, que visa especialmente incluir as crianças na brincadeira. Uma teoria é que isso reflete a caça ao matzá pelos judeus na Páscoa judaica, mas isso permanece especulativo. Nos Estados Unidos, uma grande caça aos ovos de Páscoa é realizada pela família presidencial no relvado da Casa Branca.
Os ovos de Páscoa evoluíram, tornando-se mais popularmente de chocolate. A primeira referência a esta prática surgiu na corte de Luís XIV de França (reinou 1643-1715). As versões modernas em plástico contêm gomas ou outros doces pequenos.
O Coelhinho da Páscoa
A maioria concorda que a figura do Coelho da Páscoa teve origem na Alemanha e foi depois levada para a América por imigrantes protestantes. Foi referida pela primeira vez na obra De ovis paschalibus (Sobre os Ovos de Páscoa), de Georg Franck von Franckenau, em 1682. Nas igrejas medievais europeias, os coelhos (lebres) eram frequentemente retratados na arte cristã. Desde a Antiguidade, os coelhos eram conhecidos pela sua reprodução prolífica, ao ponto de alguns escritores os considerarem hermafroditas, ou dotados da capacidade de se reproduzirem sozinhos. Isto aparentemente levou à ideia do coelho como símbolo do nascimento virginal e, assim, associado à Virgem Maria. Mais uma vez, o coelho era também um símbolo da deusa da fertilidade Eostre.
Na cultura moderna, o Coelhinho da Páscoa desempenha a mesma função que o Pai Natal. O Coelhinho da Páscoa recompensa as crianças bem comportadas, deixando-lhes um cesto cheio na manhã de Páscoa. E, tal como o Natal, a Páscoa é um importante evento familiar, um momento para se reunir com familiares e amigos.

