Moisés

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Moses on Mount Sinai (by Jean-Léon Gérôme, Public Domain)
Moisés no Monte Sinai Jean-Léon Gérôme (Public Domain)

Moisés (cerca de 1400 a.C.) é considerado um dos líderes religiosos mais importantes da história mundial. É reivindicado pelas religiões do judaísmo, cristianismo, islão e baha'í como um importante profeta de Deus e o fundador da crença monoteísta.

A história de Moisés é contada nos livros bíblicos do Êxodo, Levítico, Deuteronómio e Números, mas ele continua a ser referenciado em toda a Bíblia e é o profeta mais vezes citado no Novo Testamento.

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No Alcorão (Corão), ele também desempenha um papel importante e, uma vez mais, é a figura religiosa mais citada, sendo mencionado 115 vezes, ao contrário de Maomé, que é referido pelo nome apenas quatro vezes no texto. Tal como na Bíblia, no Alcorão, Moisés é uma figura que representa alternadamente a compreensão divina ou humana.

Moisés é mais conhecido pela narrativa no livro bíblico do Êxodo e no Alcorão como o legislador que se encontrou com Deus face a face no Monte Sinai para receber os Dez Mandamentos, após conduzir o seu povo, os hebreus, para fora da escravidão no Egipto e em direção à "terra prometida" de Canaã. A história do Êxodo hebraico do Egipto encontra-se apenas no Pentateuco — os primeiros cinco livros da Bíblia — e no Alcorão, que foi escrito posteriormente. Nenhumas outras fontes antigas corroboram a história e não existem evidências arqueológicas que a sustentem. Isto levou muitos estudiosos a concluir que Moisés foi uma figura lendária e que a história do Êxodo é um mito cultural.

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O historiador egípcio Manetão (século III a.C.), contudo, conta a história de um sacerdote egípcio chamado Osarsiph, que liderou um grupo de leprosos numa rebelião contra os desejos do rei, que pretendia bani-los. Osarsiph, afirma Manetão, rejeitou o politeísmo da religião egípcia em favor de uma compreensão monoteísta e mudou o seu nome para Moisés, que significa "filho de..." e que era habitualmente utilizado em conjunto com o nome de um deus (Ramessés seria Ra-Moisés, filho de Ra, por exemplo). Ao que parece, Osarsiph não teria acrescentado o nome de nenhum deus ao seu próprio, uma vez que se acreditava filho de um deus vivo que não possuía um nome que os seres humanos pudessem — ou devessem — pronunciar.

Moisés tanto pode ter sido uma personagem mitológica, que ganhou vida própria à medida que a sua história era sucessivamente contada; uma figura real, a quem foram atribuídos eventos mágicos ou sobrenaturais; ou, finalmente, o protagonista tal como é retratado nos primeiros livros da Bíblia e no Alcorão.

A história de Manetão sobre Osarsiph/Moisés é relatada pelo historiador Flávio Josefo (c. 37-100 d.C.), que citou a história de Manetão extensamente na sua própria obra. O historiador romano Tácito (c. 56-117 d.C.) conta uma história semelhante sobre um homem chamado Moisés, que se torna o líder de uma colónia de leprosos egípcios.

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Isto levou vários autores e estudiosos (entre os quais Sigmund Freud e Joseph Campbell) a afirmar que o Moisés da Bíblia não era um hebreu criado num palácio egípcio, mas sim um sacerdote egípcio que liderou uma revolução religiosa para estabelecer o monoteísmo. Esta teoria liga estreitamente Moisés ao faraó Akhenaten (1353-1336 a.C.), que estabeleceu a sua própria crença monoteísta no deus Aten — diferente de qualquer outro deus e mais poderoso do que todos — no quinto ano do seu reinado.

O monoteísmo de Akhenaten poderá ter nascido de um impulso religioso genuíno ou poderá ter sido uma reação contra os sacerdotes do deus Amon, que se tinham tornado quase tão ricos e poderosos como o trono. Ao estabelecer o monoteísmo e ao banir todos os antigos deuses do Egipto, Akhenaten eliminou eficazmente qualquer ameaça à coroa por parte do clero.

A teoria defendida por Campbell e outros (seguindo nisto a obra Moisés e o Monoteísmo de Sigmund Freud) é a de que Moisés era um sacerdote de Akhenaten que, após a morte deste, liderou seguidores com ideais semelhantes para fora do Egipto, quando o seu filho, Tutankhamon (c. 1336-1327 a.C.), restaurou os antigos deuses e práticas. Outros estudiosos ainda equiparam Moisés ao próprio Akhenaten e veem a história do Êxodo como uma interpretação mitológica da tentativa honesta de reforma religiosa de Akhenaten.

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Moisés é mencionado por vários autores clássicos, todos baseando-se nas histórias conhecidas da Bíblia ou em escritores anteriores. Ele tanto poderia ter sido uma personagem mitológica que ganhou vida própria à medida que a sua história era sucessivamente contada, como poderia ter sido uma pessoa real a quem foram atribuídos eventos mágicos ou sobrenaturais, ou ainda, poderia ter sido precisamente como é retratado nos primeiros livros da Bíblia e no Alcorão.

Datação da vida de Moisés e a data precisa do Êxodo é difícil e baseia-se sempre em interpretações do Livro do Êxodo em conjunção com outros livros da Bíblia, sendo, por isso, sempre especulativa. É inteiramente possível que a história do Êxodo tenha sido escrita por um escriba hebreu residente em Canaã, que desejava estabelecer uma distinção clara entre o seu povo e os povoamentos mais antigos dos amorreus na região. A história do Povo Eleito de Deus, conduzido pelo seu servo Moisés para uma terra que o seu Deus lhes tinha prometido, teria servido perfeitamente esse propósito.

Moses Found by Pharaoh's Daughter
Moisés Encontrado pela Filha do Faraó Providence Lithograph Company (Public Domain)

Moisés na Bíblia

O Livro do Êxodo (escrito c. 600 a.C.) retoma a narrativa do Livro do Génesis (capítulos 37-50) sobre José, filho de Jacob, que foi vendido como escravo pelos seus meios-irmãos invejosos e alcançou proeminência no Egipto. José era perito na interpretação de sonhos e interpretou o sonho do rei com precisão, prevendo uma fome iminente. Foi encarregado de preparar o Egipto para a fome, teve um sucesso brilhante e trouxe a sua família para o Egipto. O Livro do Êxodo abre com os descendentes hebreus de José a tornarem-se mais numerosos na terra do Egipto, de tal modo que o faraó, temendo que eles pudessem tomar o poder, os escraviza.

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Moisés entra na história no segundo capítulo do livro, após o faraó — cujo nome não é mencionado — ainda preocupado com a crescente população dos israelitas, decretar que todas as crianças do sexo masculino devem ser mortas. A mãe de Moisés esconde-o durante três meses mas, depois, receando que ele seja descoberto e morto, coloca-o num cesto de papiro, calafetado com betume e pez, e, com a irmã a vigiá-lo, coloca-o entre os juncos à beira do Nilo.

O cesto flutua rio abaixo até ao local onde a filha do faraó e as suas servas se estão a banhar e é descoberto. A criança é retirada do rio pela princesa, que lhe chama "Moisés", alegando que escolheu o nome porque o "tirou das águas" (Êxodo 2:10), o que constitui a afirmação de que "Moisés" significa "tirar de" ou "extraído". Esta etimologia do nome tem sido contestada visto que, como referido, "Moisés" em egípcio significava "filho de". A irmã de Moisés, que ainda o vigiava, aparece e sugere trazer uma mulher hebreia para amamentar o bebé, trazendo assim a sua mãe que, pelo menos inicialmente, se reencontra com o seu filho.

Moisés cresce no palácio egípcio até que, um dia, vê um egípcio a espancar um escravo hebreu e mata-o, enterrando o seu corpo na areia. No dia seguinte, quando está novamente entre o povo, vê dois hebreus a lutar e tenta separá-los, perguntando qual é o problema. Um deles responde perguntando se ele planeia matá-los como fez ao egípcio. Moisés percebe então que o seu crime se tornou conhecido e foge do Egipto para Madian.

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Na terra de Madian, ele resgata as filhas de um sumo sacerdote (chamado Reuel em Êxodo 2 e Jetro posteriormente), que lhe dá a sua filha Séfora como esposa. Moisés vive em Madian como pastor até que, um dia, encontra uma sarça que arde em fogo mas não se consome. O fogo é o anjo de Deus que traz a Moisés uma mensagem: ele deve regressar ao Egipto para libertar o seu povo. Moisés não está interessado e diz rudemente a Deus: "Peço-te que envies outro" (Êxodo 4:13).

Deus não está de humor para que a sua escolha seja questionada e deixa claro que Moisés irá regressar ao Egipto. Ele assegura-lhe de que tudo correrá bem e de que terá o seu irmão, Aarão, para o ajudar a falar, bem como poderes sobrenaturais que lhe permitirão convencer o faraó de que fala em nome de Deus. Diz também a Moisés, numa passagem que há muito perturba os intérpretes do livro, que irá "endurecer o coração do faraó" contra a receção da mensagem e a libertação do povo, ao mesmo tempo que deseja que o faraó aceite a mensagem e liberte o seu povo.

Moses & The Seventh Plague of Egypt
Moisés e a Sétima Praga do Egipto John Martin (Public Domain)

Moisés regressa ao Egipto e, como Deus tinha prometido, o coração do faraó endurece-se contra ele. Moisés e Aarão competem com os sacerdotes egípcios num esforço para mostrar qual o deus que é maior, mas o faraó não se deixa impressionar. Após uma série de dez pragas destruir a terra, matando finalmente os primogénitos dos egípcios, os hebreus recebem permissão para partir e, conforme Deus instruíra, levam consigo uma vasta quantidade de tesouros do Egipto.

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O faraó muda de ideias após a partida deles, no entanto, e envia o seu exército de carros de combate em sua perseguição. Numa das passagens mais conhecidas da Bíblia, Moisés divide o Mar Vermelho para que o seu povo possa atravessar e, depois, fecha as águas sobre o exército egípcio que os perseguia, afogando-os. Ele conduz o seu povo, seguindo dois sinais que Deus providencia: uma coluna de nuvem de dia e uma coluna de fogo de noite. No Monte Sinai, Moisés deixa o seu povo em baixo para subir e encontrar-se com Deus face a face; aqui, ele recebe os Dez Mandamentos, as leis de Deus para o seu povo.

No monte, Moisés recebe a lei e também instruções para a arca da aliança e para o tabernáculo, que servirá de morada à presença de Deus entre o povo. Cá em baixo, os seus seguidores começaram a temer que ele estivesse morto e, sentindo-se desesperançados, pedem a Aarão que lhes faça um ídolo que possam adorar e a quem possam pedir ajuda. Aarão derrete num fogo os tesouros que levaram do Egipto para criar um bezerro de ouro. No monte, Deus vê o que os hebreus estão a fazer e ordena a Moisés que regresse e se encarregue do seu povo.

Quando ele desce o monte e vê o seu povo a adorar o ídolo, enfurece-se e destrói as tábuas dos Dez Mandamentos. Convoca para o seu lado todos os que permaneceram fiéis a Deus, incluindo Aarão, e ordena que matem os seus vizinhos, amigos e irmãos que forçaram Aarão a fazer o ídolo para eles. Êxodo 32:27-28 descreve a cena e afirma que "cerca de três mil pessoas" foram mortas pelos levitas de Moisés. Depois, Deus diz a Moisés que já não acompanhará o povo, porque são um "povo de cerviz dura" e, caso continuasse a viajar com eles, acabaria por matá-los por frustração.

Assim, Moisés e os anciãos celebram uma aliança com Deus, pela qual Ele será o seu único Deus e eles serão o Seu povo eleito. Ele viajará com eles pessoalmente, como uma presença divina, para os orientar e confortar. Deus escreve os Dez Mandamentos em novas tábuas que Moisés talha para Ele; estas são colocadas na arca da aliança e a arca é instalada no tabernáculo, uma tenda elaborada.

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Deus ordena ainda que um candelabro de ouro puro e uma mesa de madeira de acácia sejam feitos e colocados perante a Sua presença no tabernáculo para receber as ofertas; especifica que seja criado um pátio para o tabernáculo e descreve as ofertas aceitáveis e os vários pecados que se devem evitar e pelos quais se deve fazer expiação. O povo já não terá de questionar a Sua existência ou de se perguntar o que Ele deseja pois, entre os Dez Mandamentos e as restantes instruções, tudo é bastante claro e, além disso, saberão que Ele está entre eles no tabernáculo.

Mesmo com Deus no meio deles, no entanto, o povo continua a duvidar, a temer e a questionar, pelo que é decretado que esta geração vagueará no deserto até morrer; a geração seguinte será aquela que verá a terra prometida. Moisés conduz então o seu povo pelo deserto durante quarenta anos até que isto se cumpra e a geração mais jovem chegue à terra prometida de Canaã. O próprio Moisés não tem permissão para entrar, apenas para a contemplar do outro lado do rio Jordão. Ele morre e é sepultado numa sepultura sem identificação no Monte Nebo, e a liderança é assumida pelo seu segundo em comando, Josué, filho de Nun.

As provações e os desafios de Moisés na mediação entre o seu povo e Deus, bem como as suas leis, são apresentados nos livros de Números, Levítico e Deuteronómio que, juntamente com o Génesis e o Êxodo, constituem os primeiros cinco livros da Bíblia, os quais, tradicionalmente, são atribuídos ao próprio Moisés como autor.

A história do Êxodo ressoa da forma que ressoa porque aborda temas e símbolos universais relativos à identidade pessoal, ao propósito de vida e ao envolvimento do divino nos assuntos humanos.

A História do Herói

A investigação bíblica, no entanto, descarta a autoria de Moisés e defende que os primeiros cinco livros foram escritos por diferentes escribas em diferentes períodos de tempo. A história de Moisés, tal como relatada no Êxodo, é a história do herói, conforme elaborada por Joseph Campbell em obras como O Herói de Mil Faces (tít. original: The Hero with a Thousand Faces) ou Transformations of Myth Through Time (As Transformações dos Mito ao Longo dos Tempos).

Embora Moisés nasça hebreu, é separado do seu povo pouco depois do nascimento sendo-lhe negada a sua herança cultural. Ao descobrir quem é, tem de abandonar a vida de conforto a que se habituara e embarca numa jornada que o leva ao reconhecimento do seu propósito de vida. Ele tem medo de aceitar o que sabe que deve fazer, mas fá-lo de qualquer modo e triunfa. A história do Êxodo ressoa da forma que ressoa porque aborda temas e símbolos universais relativos à identidade pessoal, ao propósito de vida e ao envolvimento do divino nos assuntos humanos.

A entrada de Moisés na história utiliza propositadamente o motivo do recém-nascido, filho de pais humildes, que se torna (ou é, sem o saber) um príncipe. À data da escrita do Êxodo, esta história já era conhecida no Médio e Próximo Oriente há quase 2000 anos, através da Lenda de Sargão de Acádia. Sargão (2334-2279 a.C.) foi o fundador do império acádio, o primeiro império multinacional do mundo.

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A sua famosa lenda, da qual ele fez grande uso durante a sua vida para atingir os seus objetivos, relata como a sua mãe era uma sacerdotisa que "Ela colocou-me numa cesta de junco e selou com / betume / a tampa. / Ela atirou-me ao rio, que não me cobriu, / O rio carregou-me e levou-me até Akki, o / carregador de água. / Akki, o carregador de água, tirou-me de lá enquanto / (...) / Akki, o carregador de água, [me tomou] como seu filho /(e) criou-me. /Akki, o carregador de água, nomeou-me seu jardineiro" (Pritchard, págs. 85-86). Sargão cresce até derrubar o rei e unir a região da Mesopotâmia sob o seu domínio.

Akkadian Ruler
Governante de Acádia Sumerophile (Public Domain)

O académico Paul Kriwaczek, ao escrever sobre a história de Sargão, menciona o Festival Internacional de Babilónia (Babilônia) de 1990, no qual Saddam Hussein celebrou o seu aniversário. Kriwaczek escreve:

As festividades atingiram o clímax quando uma cabana de madeira foi trazida e grandes multidões vestidas com trajes antigos sumérios, acádios, babilónicos e assírios se prostraram diante dela. As portas abriram-se para revelar uma palmeira de onde cinquenta e três pombas brancas voaram para o céu. Abaixo delas, um bebé Saddam, repousando num cesto, desceu flutuando por um riacho ladeado de pântanos. O repórter da revista Time ficou particularmente impressionado com o tema do "bebé no cesto", descrevendo-o como "Moisés redux". Mas porque raio haveria Saddam Hussein de querer comparar-se a um líder dos judeus? O jornalista não estava a perceber o ponto principal. O motivo foi uma invenção mesopotâmica muito antes dos hebreus o terem adotado e aplicado a Moisés. O ditador iraquiano estava a aludir a um precedente muito mais antigo e, para ele, muito mais glorioso. Ele estava a associar-se a Sargão.

(pág. 112)

O autor do Êxodo também queria que o seu herói fosse associado a Sargão: um verdadeiro herói que surgiria de origens pouco promissoras para alcançar a grandeza. Aqueles que acreditam que a história do Êxodo é um mito cultural apontam para as origens de Moisés, juntamente com muitas outras facetas da história, para provar a sua tese. Outros académicos, como Rosalie David ou Susan Wise Bauer, aceitam a história do Êxodo como história autêntica e atribuem às personagens da narrativa um conhecimento da lenda de Sargão, que o autor do Êxodo registou fielmente. Bauer escreve:

A história do nascimento de Sargão serviu como um selo de eleição, uma prova da sua divindade. Certamente que a mãe do bebé hebreu a conhecia, e fez uso dela numa tentativa desesperada (e bem-sucedida) de colocar o seu próprio bebé na linhagem dos eleitos divinos.

(págs. 235-236)

Pharaoh, Victim of the 10th Plague of Egypt
Faraó, Vítima da Décima Praga do Egipto James Jacques Joseph Tissot (Public Domain)

Para estes académicos, o facto de não existirem registos do Êxodo nem evidências arqueológicas que o sustentem pode ser explicado pelo embaraço que a partida dos israelitas teria causado ao faraó do Egipto. Bauer escreve:

O êxodo dos hebreus foi um gesto de desafio dirigido não apenas ao poder do faraó e da sua corte, mas ao próprio poder dos deuses egípcios. As pragas foram concebidas para demonstrar de forma inequívoca a impotência do panteão egípcio. O Nilo, a corrente sanguínea de Osíris e o sangue vital do Egipto, foi transformado em sangue e tornou-se fétido e venenoso; as rãs, sagradas para Osíris, apareceram em números tão elevados que se transformaram numa pestilência; o disco solar foi obscurecido pelas trevas. Ra e Aten foram ambos reduzidos à impotência. Estes não são o tipo de eventos que aparecem nas inscrições celebrativas de qualquer faraó.

(pág. 236)

A Teoria do Êxodo como História

Uma explicação mais simples, no entanto, é que os eventos descritos no Livro do Êxodo não ocorreram — ou, pelo menos, não da forma descrita — e, por isso, não foram feitas inscrições relacionadas com os mesmos. Os egípcios são famosos pelo seu registo de informações e, contudo, não foram encontrados registos que façam a mínima referência à partida de um segmento da população do país que, de acordo com o Livro do Êxodo, totalizava «seiscentos mil homens a pé, sem contar mulheres e crianças» (12:37) ou, conforme indicado em Êxodo 38:26, «todos os que passaram pelo recenseamento, de vinte anos para cima, num total de 603 550 homens», novamente sem contar mulheres ou crianças.

Mesmo que os egípcios tivessem decidido que o embaraço dos seus deuses e do seu rei era uma vergonha demasiado grande para ser registada, existiria algum registo de um movimento tão grande de uma população tão vasta, nem que esse registo fosse apenas uma mudança dramática nas evidências físicas da região. Existem acampamentos sazonais do Paleolítico na Escócia e noutras áreas que datam de cerca de 12 000 a.C. (como Howburn Farm) e esses locais não estiveram em uso durante nada que se aproxime do tempo dos quarenta anos de acampamentos que os hebreus teriam utilizado na sua viagem para a terra prometida.

Argumentos de egiptólogos como David Rohl, de que existem evidências do Êxodo, não são amplamente aceites pelos académicos, historiadores ou outros egiptólogos. A alegação de Rohl é que não se encontram evidências físicas ou literárias do Êxodo apenas porque se está a procurar na era errada. O Êxodo tem sido tradicionalmente situado no reinado de Ramsés II (1279-1213 a.C.), mas Rohl afirma que os eventos ocorreram, na verdade, muito antes, no reinado do rei Dudimose I (cerca de 1650 a.C.). Se se examinarem as evidências dessa época, afirma Rohl, a narrativa bíblica coincide com a história egípcia.

Moses & the Parting of the Red Sea
Moisés e a Separação do Mar Vermelho Providence Lithograph Company (Public Domain)

Os problemas com a teoria de Rohl residem no facto de as evidências do período do Império Médio (2040-1782 a.C.) e do Segundo Período Intermédio (cerca de 1782 - cerca de 1570 a.C.) não fundamentarem, na verdade, a história do Êxodo. O Papiro de Ipuwer, que Rohl alega ser um relato egípcio das Dez Pragas, data do Império Médio, muito antes do reinado de Dudimose I e, além disso, é claramente literatura egípcia de um género conhecido, e não história.

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Os semitas que Rohl afirma terem vivido em grande número em Ávaris não podem ser identificados como os israelitas. Em todos os casos em que Rohl apresenta as suas alegações relacionando o Livro do Êxodo com a história egípcia, ou ignora detalhes que provam que está errado ou distorce as evidências para se ajustarem à sua teoria. Apesar das alegações de Rohl, e das de outros que se apoderaram delas, não existem evidências arqueológicas ou literárias de Moisés a liderar e salvar os israelitas da escravidão no Egipto. A única fonte para a história é a narrativa bíblica.

A Teoria do Sacerdote Egípcio

Ainda assim, existe um registo egípcio de um evento que, segundo alguns afirmam, inspirou a história do Êxodo no relato de Manetão sobre o sacerdote egípcio Osarsif e a sua liderança da comunidade de leprosos. O relato de Manetão perdeu-se, mas é citado extensamente por Josefo e, mais tarde, pelo historiador romano Tácito. De acordo com Josefo, o rei Amenófis do Egipto (que é equiparado a Amenhotep III, cerca de 1386-1353 a.C.) desejava "ver os deuses", mas foi informado por um oráculo de que não o poderia fazer — a menos que purificasse o Egipto dos leprosos.

Desta forma, baniu os leprosos para a cidade de Ávaris, onde se uniram sob a liderança de um sacerdote monoteísta chamado Osarsif. Osarsif rebelou-se contra o domínio de Amenófis, instituiu o monoteísmo e convidou os Hicsos a regressar ao Egipto. Na versão de Tácito, o rei egípcio chama-se Boccoris (o nome grego para o rei Bakenranef, cerca de 725-720 a.C.) e este exila no deserto um segmento da sua população atingido pela lepra.

Os exilados permanecem no deserto "num estupor de dor" até que um deles, Moisés, se restabelece e os conduz para outra terra. Tácito prossegue afirmando que Moisés ensinou então ao povo uma nova crença num único deus supremo e "deu-lhes uma forma de culto inédita, oposta a tudo o que é praticado pelos outros homens" (pág. 1).

Tal como acontece com a história do Êxodo, não existem registos que corroborem esta versão dos acontecimentos, e o reinado de Amenhotep III não foi marcado por quaisquer rebeliões de leprosos ou de quem quer que fosse. O relato de Tácito sobre a ascensão de Moisés ao poder durante o reinado de Bakenranef é igualmente carente de fundamentação. Além disso, o relato de Manetão afirma explicitamente que Osarsif "convidou os Hicsos a regressar ao Egipto", onde governaram durante treze anos; contudo, os Hicsos foram expulsos do Egipto por volta de 1570 a.C. por Ahmose I de Tebas e não registo de que alguma vez tenham regressado.

Pharaoh Akhenaten, Cairo Museum
Faraó Aquenáton, Museu do Cairo John Bodsworth (CC BY)

O historiador Marc van de Mieroop comenta este facto, escrevendo: "Os académicos têm diferentes opiniões sobre quais os eventos históricos exatos que o relato de Josefo recorda, mas muitos veem no conto uma memória persistente de Akhenaton e do seu reinado impopular" (pág. 210). Akhenaton introduziu, como é sabido, o monoteísmo no Egipto através do culto de um único deus, Aten, e proibiu o culto de todos os outros deuses. De acordo com a teoria exposta de forma mais célebre por Freud, a história de Osarsif é, na verdade, um relato do reinado de Akhenaton e de um dos seus sacerdotes, Moisés, que deu continuidade à sua reforma.

Freud mostra-se abertamente perplexo pelo facto de ninguém parecer ter notado que este alegado líder hebreu do Êxodo do Egipto tinha um nome egípcio, escrevendo: "Seria de esperar que um dos muitos autores que reconheceram que Moisés é um nome egípcio tivesse tirado a conclusão, ou pelo menos considerado a possibilidade, de que o portador de um nome egípcio fosse ele próprio um egípcio" (págs. 5-6). Freud afirma ainda:

Atrevo-me agora a tirar a seguinte conclusão: se Moisés era egípcio e se transmitiu aos judeus a sua própria religião, então essa era a de Ikhnaton [Akhenaton], a religião de Aten.

(pág. 27)

De acordo com Freud, Moisés foi assassinado pelo seu povo e a memória deste ato criou uma culpa comunitária que infundiu a religião do judaísmo e o caracteriza esse sistema de crenças, bem como as fés monoteístas que lhe sucederam. Por mais interessante que a teoria possa ser, tal como muitas das teorias de Freud, ela baseia-se numa premissa que Freud nunca prova, mas sobre a qual continua, ainda assim, a construir uma argumentação. Susan Wise Bauer escreve:

Durante pelo menos um século, advoga-se a teoria de que Akhenaton treinou Moisés no monoteísmo e depois o deixou 'à solta' no deserto; ainda surge ocasionalmente em especiais do Canal História e em angariações de fundos da PBS. Isto não tem absolutamente nenhuma base histórica e, de facto, é incrivelmente difícil de conciliar com qualquer uma das datas mais respeitáveis do Êxodo. Parece ter tido origem em Freud, que certamente não era um académico imparcial no seu desejo de explicar as origens do monoteísmo, negando ao judaísmo o máximo de singularidade possível.

(pág. 237)

Embora o seu nome sugira certamente uma origem egípcia, o primeiro texto que introduz a personagem de Moisés indica claramente que ele era filho de pais hebreus. Quer se aceite o Livro do Êxodo como um relato fiável ou como um mito cultural, não se pode alterar o texto para o ajustar a teorias pessoais — que é, basicamente, o que Freud faz.

Ao mesmo tempo, não se pode reivindicar uma "data respeitável" para o Êxodo quando não existe nenhum registo histórico do evento fora do manuscrito do Livro do Êxodo. Os eventos do Êxodo são tradicionalmente atribuídos ao reinado de Ramsés II com base na passagem de Êxodo 1:11, onde se afirma que os escravos hebreus trabalharam nas cidades de Pitóm e Ramsés, duas cidades que se sabe terem sido encomendadas por Ramsés II.

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Bauer, no entanto, escreve que uma "data respeitável" para o Êxodo é 1446 a.C., baseando-se numa "leitura direta de I Reis 6:1, que afirma que passaram 480 anos entre o Êxodo e a construção do templo de Salomão" (pág. 236). A complicar ainda mais a datação do evento está o facto de Êxodo 7:7 afirmar que Moisés tinha 80 anos quando se reuniu pela primeira vez com o faraó; contudo, a data de nascimento de Moisés é indicada pelo judaísmo rabínico como sendo em 1391 a.C., o que torna a data de 1446 a.C. impossível, existindo também inúmeras outras sugestões para possíveis anos de nascimento que tornam, igualmente, a data de 1446 a.C. para o Êxodo insustentável.

O Êxodo como Literatura Naru

O problema de todas estas especulações advém da tentativa de ler a Bíblia como história pura, em vez daquilo que ela é: literatura e, especificamente, escritura. Os escritores antigos não estavam tão preocupados com factos como o público moderno está, mas estavam certamente interessados na verdade. Isto é exemplificado pelo antigo género conhecido como Literatura Naru Mesopotâmica, no qual uma figura, geralmente alguém famoso, desempenha um papel importante numa história na qual não participou realmente.

Os melhores exemplos de Literatura Naru dizem respeito a Sargão de Acádia e ao seu neto Naram-Sin (2262-2224 a.C.). Na famosa história A Maldição de Ágade, Naram-Sin é retratado a destruir o templo do deus Enlil quando não recebe resposta às suas preces. Não existe registo de Naram-Sin ter feito tal coisa, enquanto existe uma grande quantidade de evidências de que ele foi um rei piedoso que honrou Enlil e os outros deuses. Neste caso, Naram-Sin teria sido escolhido como personagem principal devido ao seu nome famoso e utilizado para transmitir uma verdade sobre a relação da humanidade com os deuses e, especialmente, sobre a atitude correta de um rei perante o divino.

Naram-Sin Rock Relief, Sulaimaniya, Iraq
Relevo Rochoso de Naram-Sin, Sulaimaniya, Iraque Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Da mesma forma, o Livro do Êxodo e as outras narrativas relativas a Moisés contam uma história de libertação física e espiritual utilizando a personagem central de Moisés — uma figura anteriormente desconhecida na literatura — que representa a relação do homem com Deus. Os escritores das narrativas bíblicas esforçam-se por fundamentar as suas histórias na história, para mostrar Deus a atuar através de eventos reais, da mesma forma que os autores da Literatura Naru Mesopotâmica escolheram figuras históricas para transmitir a sua mensagem.

A literatura, a escritura, não precisa de ser historicamente precisa para expressar uma verdade. A insistência em histórias como o Livro do Êxodo enquanto factos históricos nega ao leitor uma experiência mais ampla do texto. Afirmar que o livro deve ser historicamente verdadeiro para ter significado nega o poder da história para transmitir a sua mensagem.

Moisés é uma figura simbólica na história, ao mesmo tempo que permanece um indivíduo completamente autónomo com uma personalidade distinta. Ao longo da narrativa, Moisés faz a mediação entre Deus e o povo, mas não é totalmente sagrado nem secular. Ele aceita o seu mandato de Deus com relutância, pergunta constantemente a Deus por que razão foi escolhido e o que é suposto estar a fazer, e, no entanto, tenta consistentemente cumprir a vontade de Deus até ao momento em que golpeia a rocha para produzir água, em vez de falar com ela, conforme Deus o havia instruído (Números 20:1-12).

Deus tinha dito anteriormente a Moisés para golpear uma rocha para obter água (Êxodo 17:6), mas desta vez disse-lhe para falar com a rocha. As ações de Moisés aqui, ao ignorar a instrução de Deus, impedem-no de entrar na terra prometida de Canaã. Ele tem permissão para ver a terra a partir do Monte Nebo, mas não pode liderar o seu povo após ter comprometido a sua relação com Deus.

Moses Receives the 10 Commandments
Moisés Recebe os Dez Mandamentos Gebhard Fugel (Public Domain)

Tal como acontece com o resto da narrativa relativa a Moisés, este episódio com a rocha teria transmitido (e ainda transmite) uma mensagem importante sobre a relação de um crente com Deus: a de que se deve confiar no divino, apesar do conhecimento que se julga ter ou da confiança em precedentes e na experiência. No final, não importa se um indivíduo histórico chamado Moisés golpeou ou falou com uma rocha que depois deu água; o que importa é a verdade da relação do indivíduo com Deus que a história transmite e como cada um pode compreender melhor o seu próprio lugar num plano divino.

Moisés no Alcorão

Isto é também visível no Alcorão, onde Moisés é conhecido como Musa. Musa é mencionado inúmeras vezes ao longo do Alcorão como um homem justo, um profeta e um sábio. Na história do Êxodo no Alcorão, Musa é sempre visto como um servo devoto de Alá, que confia na sabedoria divina. Na Sura 18:60-82, no entanto, é relatada uma história que mostra como mesmo um homem grande e justo ainda tem muito a aprender com Deus.

Um dia, após Musa ter proferido um sermão particularmente brilhante, um membro da audiência pergunta-lhe se existe alguém na terra tão instruído nos caminhos de Deus como ele, e Musa responde que não. Deus (Alá) informa-o de que haverá sempre quem saiba mais do que nós em qualquer assunto, especialmente no que diz respeito ao divino. Musa pergunta a Alá onde poderá encontrar tal homem, e Alá dá-lhe instruções sobre como proceder.

Seguindo a orientação de Alá, Musa encontra Al-Khidr (um representante do divino) e pergunta se o poderá seguir e aprender todo o conhecimento que ele possui de Deus. Al-Khidr responde que Musa não compreenderia nada do que ele dissesse ou fizesse e que não teria paciência; em seguida, dispensa-o. Musa suplica-lhe e Al-Khidr diz: «Se me queres seguir, não me perguntes sobre nada até que eu próprio o mencione», e Musa concorda.

Tal como acontece com o Moisés bíblico, o Musa do Alcorão é uma personagem completamente desenvolvida, com todas as forças e fraquezas de qualquer pessoa.

À medida que viajam juntos, Al-Khidr depara-se com um barco junto à margem e abre um buraco no fundo do mesmo. Musa opõe-se, clamando que os proprietários do barco não conseguirão agora ganhar o seu sustento. Al-Khidr recorda-lhe como lhe tinha dito que ele não conseguiria ser paciente e dispensa-o, mas Musa pede perdão e promete que não julgará nem falará sobre mais nada.

Pouco depois do incidente do barco, porém, encontram um jovem na estrada e Al-Khidr mata-o. Musa opõe-se veementemente, perguntando por que razão um jovem tão belo deveria ser morto, e Al-Khidr recorda-lhe novamente o que dissera antes e ordena-lhe que se vá embora imediatamente. Musa pede novamente desculpa e é perdoado, e os dois seguem viagem juntos.

Eles chegam a uma cidade onde pedem esmolas, mas estas são-lhes recusadas. Ao saírem da cidade, passam por um muro de pedra que está a cair e Al-Khidr para e repara-o. Musa fica novamente confuso e queixa-se ao seu companheiro que, pelo menos, ele poderia ter pedido um salário pela reparação do muro, para que pudessem ter algo para comer.

Perante isto, Al-Khidr diz a Musa que este violou o contrato deles pela última vez e que agora devem seguir caminhos separados. Primeiro, porém, ele explica: ele afundou o barco porque havia um rei no mar a apoderar-se pela força de todos os barcos que saíam e a escravizar a tripulação. Se as boas pessoas que eram proprietárias do barco tivessem saído, teriam tido um mau fim. Ele matou o jovem porque este era mau e iria trazer grande dor aos seus pais e à comunidade. Alá já tinha providenciado para que outro filho nascesse aos pais, o qual traria alegria a eles e a outros, em vez de dor. Ele reconstruiu o muro porque havia um tesouro escondido debaixo dele que dois órfãos deveriam herdar e, se o muro tivesse desmoronado mais, o tesouro teria sido revelado àqueles que o levariam. Al-Khidr termina dizendo: «Essa é a interpretação daquelas coisas sobre as quais não mostraste paciência», e Musa compreende a lição.

Tal como acontece com o Moisés bíblico, o Musa do Alcorão é uma personagem completamente desenvolvida, com todas as forças e fraquezas de qualquer pessoa. Na Bíblia, a humildade de Moisés é enfatizada, mas ele ainda possui orgulho suficiente para confiar no seu próprio julgamento ao golpear a rocha, em vez de escutar Deus. No Alcorão, a sua fé em si próprio e nas suas próprias perceções e julgamentos é posta em causa através da sua incapacidade de confiar no mensageiro de Deus. A história da Sura 18 ensina que Deus tem um propósito que os seres humanos, mesmo alguém tão devoto e instruído como Musa, não conseguem compreender.

Conclusão

Ao longo do Novo Testamento cristão, Moisés é citado mais do que qualquer outro profeta ou figura do Antigo Testamento. Moisés é visto, nos escritos cristãos, como o Legislador que exemplifica um homem de Deus. Para citar apenas um exemplo, Moisés aparece com destaque na famosa história que Jesus conta sobre Lázaro e o Rico em Lucas 16:19-31.

Nesta história, um homem pobre, mas piedoso, chamado Lázaro, e um homem rico (cujo nome não é mencionado) vivem na mesma cidade. Lázaro sofre diariamente, enquanto o homem rico tem tudo o que poderia desejar. Ambos morrem no mesmo dia e o homem rico acorda no submundo e vê Lázaro com o Pai Abraão no paraíso. Ele implora ao Pai Abraão que o ajude, mas é recordado de que, na terra, viveu uma vida de facilidades enquanto Lázaro sofreu, e agora é apenas justo que os papéis se invertam.

O homem rico pede então ao Pai Abraão que envie alguém para avisar a sua família, visto que ainda tem cinco irmãos vivos, e lhes diga como deveriam viver melhor para evitarem o seu destino. Abraão responde: "Eles têm Moisés e os profetas; que os oiçam." O homem rico protesta, dizendo que, se alguém ressuscitasse dos mortos para avisar a sua família, eles certamente ouviriam, mas Abraão diz: "Se não ouvem Moisés e os profetas, tampouco ouvirão, ainda que alguém ressuscite dos mortos."

Nesta história, Moisés é apresentado como o paradigma da verdade de Deus. Se as pessoas dessem ouvidos ao exemplo e às palavras de Moisés, poderiam evitar a separação de Deus na vida após a morte. A história enfatiza como os ensinamentos de Moisés fornecem tudo o que alguém precisa de saber sobre como viver uma vida boa e decente e desfrutar de uma vida eterna com Deus e como, se alguém vai ignorar Moisés e os profetas e justificar as suas escolhas de vida, com a mesma facilidade descartaria alguém que regressasse dos mortos; ambos são igualmente evidentes quanto aos desejos de Deus para a piedade e o comportamento humano.

Moisés aparece também na transfiguração de Jesus em Mateus 17:1-3, Marcos 9:2-4 e Lucas 9:28-30, juntamente com Elias, quando Deus anuncia que Jesus é o Seu filho, em quem Se compraz. Nestas passagens e noutras do Novo Testamento, Moisés é apresentado como um modelo e representante da vontade de Deus.

Desconhece-se se existiu na história um líder religioso chamado Moisés que tenha conduzido o seu povo e iniciado uma compreensão monoteísta do divino. As crenças individuais ditarão — mais do que qualquer evidência histórica ou a falta dela — se se aceita a historicidade de Moisés ou se o considera uma figura mítica. De qualquer modo, a figura de Moisés lançou uma longa sombra sobre a história do mundo.

O monoteísmo que lhe é creditado ter introduzido foi mais tarde desenvolvido pelos mestres da fé judaica, o que influenciou o ambiente no qual o cristianismo foi capaz de prosperar, o que, por sua vez, levou à ascensão do Islão. Todas as três principais religiões monoteístas no mundo atual reivindicam Moisés como seu, e ele continua a servir de modelo para a relação da humanidade com o divino para pessoas de muitas fés em todo o mundo.

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