Ptolomeu XII

Arienne King
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
bookmark_addbookmark_addedGuardar Artigo headphonesVersão Áudio printImprimir picture_as_pdfPDF
Ptolemy XII Bust (by Veselin, Public Domain)
Busto de Ptolomey XII Veselin (Public Domain)

Ptolomeu XII Neos Dioniso (reinou 80-51 a.C.) foi rei do Egito ptolemaico e pai de Cleópatra VII (reinou 51-30 a.C.). O seu nascimento ilegítimo e a sua embriaguez inspiraram o ridículo, e recebeu a alcunha de "Auletes" ("o Flautista") devido à sua habilidade musical. Reinou durante quase 30 anos, subornando líderes da República Romana, como Pompeu e Júlio César, para evitar a anexação romana do Egito.

Em 58 a.C., no meio de uma onda de agitação económica e sentimento anti-romano, o seu trono foi usurpado pela sua filha Berenice IV. Ptolomeu XII subornou o procônsul romano Aulo Gabínio para o restaurar em 56 a.C. Estes subornos cada vez maiores obrigaram-no a pedir dinheiro emprestado a banqueiros romanos, e os seus filhos, Cleópatra VII e Ptolomeu XIII, herdaram dívidas incapacitantes. No entanto, as suas ações também garantiram a continuação da dinastia ptolemaica, salvaguardando o Egito da guerra romana.

Remover Publicidades
Publicidade

A Juventude

Ptolomeu XII era membro da dinastia grega ptolemaica, que governou o Egito ptolemaico após a conquista de Alexandre, o Grande. Ptolomeu XII nasceu numa data desconhecida, provavelmente após 100 a.C., com base na descrição que o contemporâneo romano Cícero fez dele como um adolescente em 80 a.C. Era o filho ilegítimo de Ptolomeu IX e de uma mãe anónima. Os historiadores modernos especulam que a sua mãe poderá ter sido uma cortesã grega ou síria, ou uma aristocrata egípcia. As crianças nascidas fora do casamento eram vistas com desprezo no Egito ptolemaico, e ele era chamado de Nothos ("o Bastardo" em grego).

Ptolomeu XII tinha uma reputação infame de embriaguez e frivolidade.

Em 88 a.C., o rival e meio-irmão de Ptolomeu IX, Ptolomeu X Alexandre, morreu ao tentar conquistar Chipre. Antes de morrer, Ptolomeu X terá supostamente legado o Egito à República Romana no seu testamento. Roma ignorou este legado porque Ptolomeu IX estava no controlo do reino. Além disso, o Senado Romano temia que qualquer general que conquistasse o Egito se tornasse rico e popular o suficiente para se tornar um tirano. A ameaça de anexação romana foi constante durante toda a vida de Ptolomeu XII.

Remover Publicidades
Publicidade

Ptolomeu XII passou a sua adolescência na Síria por razões desconhecidas. Mitrídates VI do Ponto (reinou de 120-63 a.C.) poderá tê-lo feito prisioneiro quando conquistou a ilha de Kos, controlada pelos egípcios, em 88 a.C. Alguns historiadores modernos teorizaram que ele era, na verdade, um dos filhos de Cleópatra III e Ptolomeu VIII, que foram enviados para Kos antes de 113 a.C. No entanto, estes príncipes eram legítimos e muito mais velhos do que Ptolomeu XII.

A Coroação e os Casamentos

Depois de Ptolomeu XI ter sido morto por uma revolta popular em Alexandria, espalharam-se rumores de que o seu testamento legava o Reino Ptolemaico a Roma. Para evitar que Roma anexasse o Egito, os alexandrinos apressaram-se a substituí-lo por um novo rei. Gerações de guerra civil tinham dizimado a maior parte da dinastia ptolemaica, pelo que Ptolomeu XII foi escolhido para governar o Egito, enquanto ao seu irmão Ptolomeu foi dado Chipre. A rainha selêucida Cleópatra Selene I, que tinha ascendência ptolemaica, argumentou que os seus filhos tinham um direito superior ao trono. Selene e os seus filhos visitaram Roma em 75 a.C. e doaram um magnífico candelabro ao Templo de Júpiter Capitolino, mas o Senado Romano não reconheceu as suas pretensões.

Remover Publicidades
Publicidade
Dinastia Ptolemaica do Egito (305-30 a.C.)
Árvore Geneológica da Dinastia Ptolomaica do Egipto (305-30 a.C.) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Em 79 a.C., Ptolomeu XII casou-se com a princesa ptolemaica Cleópatra V Trifena para assegurar a sua reivindicação ao trono. Inscrições egípcias antigas descrevem Ptolomeu XII e Cleópatra V como "Deuses Irmãos", mas este era um título formal utilizado para todos os pares governantes ptolemaicos. Cleópatra V era provavelmente filha de Ptolomeu X e Cleópatra IV, o que a tornava prima de Ptolomeu XII. O casal teve pelo menos uma filha legítima, Berenice IV. A sua filha mais famosa, Cleópatra VII, poderá ter nascido deste casamento, apesar da afirmação do historiador romano Estrabão de que ela era ilegítima.

Em 69 ou 68 a.C., Cleópatra V desapareceu das inscrições oficiais, quer porque ele se divorciou dela, quer porque ela morreu. Posteriormente, teve uma filha chamada Arsínoe IV e dois filhos, Ptolomeu XIII (reinou de 51-47 a.C.) e Ptolomeu XIV (reinou de 47-43 a.C.), com uma mulher desconhecida. Os historiadores especularam que esta mulher teria sido uma aristocrata grega, uma cortesã ou uma sacerdotisa egípcia. Em algum momento da sua vida, parece ter estado noivo de Mitridátis, filha de Mitrídates VI do Ponto. Uma inscrição do Templo de Ísis em Filas também identifica três dançarinos — Trífon, Nicolau e Estrution — como seus amantes.

O Reinado e a Reputação

Ptolomeu XII tinha uma reputação infame de embriaguez e frivolidade. Frequentemente organizava e participava em competições musicais, o que era considerado de classe baixa. O seu instrumento favorito era o aulos (flauta dupla), e recebeu a alcunha zombeteira de "Auletes" ("o Flautista"). Tanto o seu consumo de álcool como os seus interesses musicais estavam associados ao culto de mistério de Dioniso, o deus do vinho, da música e da inspiração divina. Ptolomeu XII atribuiu a si próprio o epíteto de "Neos Dioniso" ("Novo Dioniso") e era representado com os atributos do deus. A dinastia ptolemaica sempre venerou Dioniso, que na mitologia grega conquistou a Ásia e era considerado o equivalente grego do deus egípcio Osíris.

Remover Publicidades
Publicidade

Os escritores antigos descreveram Ptolomeu XII como preguiçoso e indigno de ser rei, mas ele obteve muitas conquistas durante o seu reinado. Estabeleceu uma forte relação com o sacerdócio egípcio, construindo muitos templos novos e renovando outros antigos. Visitava frequentemente a cidade santa de Mênfis para prestar homenagem ao Templo de Ptah ali existente. Além disso, o comércio floresceu, enriquecendo o Egito ptolemaico.

Ptolemy XII Pylon, Edfu Temple
Pílon de Ptolomeu XII, Templo de Edfu Crucifixion (Public Domain)

O seu reinado inaugurou um renascimento da Biblioteca de Alexandria, que tinha entrado em declínio após Ptolomeu VIII (reinou de 170-116 a.C.) ter perseguido os eruditos. Muitos intelectuais importantes prosperaram sob o patrocínio de Ptolomeu XII, incluindo os médicos Zópiro e Apolónio de Cítio, os filósofos Antíoco de Ascalão e Ário Dídimo, e Timógenes de Alexandria, o historiador mais influente da sua geração. Os alunos de Timógenes, Estrabão e Nicolau de Damasco, escreveram relatos históricos de referência nos quais os historiadores modernos se baseiam. Foram também fundadas novas escolas de filosofia, que influenciaram profundamente a filosofia romana.

A Relação com a República Romana

O exército ptolemaico já não era uma potência mundial no século I a.C., e o Egito dependia da proteção romana contra o Império Selêucida. Os políticos romanos Marco Licínio Crasso (115-53 a.C.) e Júlio César (100-44 a.C.) propuseram a anexação do Egito em 65 a.C. Isto foi contestado por senadores como Marco Túlio Cícero, que temia que tal pusesse em risco a república.

Remover Publicidades
Publicidade

Ptolomeu XII utilizou subornos e diplomacia para criar uma rede de aliados no Senado Romano que pudessem bloquear as tentativas de anexação. Queria também a confirmação oficial de que Roma o reconhecia como o legítimo rei do Egito. O seu aliado mais importante foi Pompeu, o Grande (106-48 a.C.), a quem convidou para Alexandria em 67 a.C., e no ano seguinte enviou 8 000 soldados egípcios juntamente com mantimentos para apoiar a guerra de Pompeu contra Mitrídates VI. Em 59 a.C., Pompeu e César aprovaram uma lei declarando o Egito um amigo e aliado da República Romana, depois de Ptolomeu XII lhes ter pago um suborno de 6 000 talentos, equivalente à receita anual do Egito.

Para pagar estes subornos, Ptolomeu XII contraiu grandes empréstimos junto de credores romanos, ganhando a reputação de pedinte e burlão. Aumentou os impostos no Egito para ajudar a pagar as suas dívidas, o que causou greves de trabalhadores e resistência civil. Os sentimentos anti-romanos aumentaram drasticamente em Alexandria durante o seu reinado, resultando no linchamento de um romano em visita em 60 a.C.

Em 58 a.C., Clódio Pulcher propôs a anexação da agricultura rica de Chipre para financiar a distribuição de cereais subsidiados pelo Estado à população romana. Como pretexto para a guerra, acusou Ptolomeu de Chipre de cooperar com piratas no Mediterrâneo antigo. Catão, o Jovem (95-46 a.C.), recebeu o comando da campanha de Chipre devido à sua lealdade à República e porque Clódio queria removê-lo de Roma. Catão ofereceu ao rei a possibilidade de abdicar do trono e procurar refúgio no Templo de Afrodite em Pafos. Ptolomeu de Chipre suicidou-se, e Catão anexou a ilha.

Remover Publicidades
Publicidade

A Usurpação

Ptolomeu XII não fez nada para impedir a morte do seu irmão e a perda de Chipre, o que o fez parecer fraco perante os seus súbditos. Nesse ano, foi forçado ao exílio e a sua filha Berenice IV tornou-se rainha. Ela co-governou brevemente com uma mulher chamada Cleópatra VI Trifena, a quem o historiador Porfírio descreveu como sua irmã. Contudo, é possível que fosse a esposa de Ptolomeu XII com o mesmo nome.

Ptolomeu XII fugiu para Rodes com a sua filha adolescente, Cleópatra VII, onde foram recebidos por Catão. Segundo Plutarco, Catão advertiu Ptolomeu XII a regressar ao Egito em vez de depositar a sua confiança nos políticos corruptos de Roma. Apesar deste aviso, ele seguiu para Roma e viveu como convidado na villa de Pompeu.

Ptolemy XII Tetradrachm
Tetradracma de Ptolomeu XII Bibliothèque nationale de France (Public Domain)

Os alexandrinos enviaram uma embaixada de 100 cidadãos para convencer os romanos a não ajudarem Ptolomeu XII, mas ele deteve os embaixadores através de uma combinação de subornos, intimidação e assassinatos. Muitos romanos poderosos queriam que Ptolomeu XII recuperasse o controlo do Egito para que ele pudesse pagar o dinheiro que lhes tinha pedido emprestado. Os opositores à ideia de uma intervenção romana argumentaram com sucesso que profecias e presságios tinham previsto a desgraça caso Roma reinstalasse um rei egípcio. Negado qualquer tipo de ajuda, Ptolomeu XII procurou refúgio no Templo de Ártemis em Éfeso em 57 a.C.

Remover Publicidades
Publicidade

Gabínio venceu os alexandrinos e restaurou Ptolomeu no poder, mas foi ele próprio banido pelo Senado por invadir o Egito sem a sua autorização, e por empreender uma guerra considerada de mau agouro pelos romanos; pois era proibida pelos livros sibilinos.

(Apiano, Guerras Espanholas, 8.51, tradução de Horace White)

Em 56 a.C., Pompeu instruiu Aulo Gabínio, o procônsul romano da Síria, a ajudar Ptolomeu XII, apesar da oposição do Senado. Ptolomeu XII prometeu pagar a Gabínio e ao seu exército em troca. Gabínio conduziu o seu exército para o Egito, deixando a Síria vulnerável à pirataria e ao banditismo. Esta foi a primeira vez que um exército romano ocupou o Egito. Ele e o seu tenente Marco António (83-30 a.C.) derrotaram rapidamente Berenice IV e restauraram o trono de Ptolomeu. Mais tarde na vida, António tornou-se o aliado e marido de Cleópatra VII. Após a guerra, Gabínio foi levado a julgamento por desafiar o Senado para ajudar Ptolomeu XII. Foi absolvido de traição graças à influência de Pompeu, mas foi condenado por extorsão e exilado em 54 a.C.

O Reinado Posterior

Apesar da sua brutalidade ocasional e das suas políticas económicas severas, acabou por ter sucesso em proteger o Egito e em construir uma riqueza considerável.

De volta ao poder, Ptolomeu XII executou Berenice IV e cidadãos importantes que a tinham apoiado, confiscando o seu dinheiro e propriedades. Suprimiu revoltas utilizando os Gabiniani, uma força mercenária de 2 500 soldados romanos deixada para trás por Gabínio. Este exército foi reforçado com escravos recrutados, criminosos e mercenários de outras partes da República Romana. A sua reputação feroz impressionou até César quando este invadiu o Egito em 48 a.C.

Os subornos pagos para assegurar a sua restauração tinham multiplicado a sua dívida, e ele aumentou os impostos novamente. Um dos seus primeiros atos foi nomear o banqueiro romano Caio Rabírio Póstumo como o novo ministro das finanças do Egito. A principal preocupação de Rabírio era recuperar o dinheiro que ele e outros romanos tinham emprestado a Ptolomeu XII, e extorquiu os contribuintes através de reformas fiscais predatórias. A economia do Egito ptolemaico sofreu à medida que o teor de prata das moedas era reduzido. Eventualmente, os cidadãos alexandrinos atacaram Rabírio em protesto. Ptolomeu XII colocou Rabírio sob custódia protetora e enviou-o para casa antes que ele fosse morto. Rabírio foi levado a julgamento em Roma por extorsão, e César apropriou-se das dívidas restantes, com a intenção de eventualmente cobrá-las aos egípcios.

Em 52 a.C., Ptolomeu XII nomeou Cleópatra VII sua corregente e fez preparativos para que ela governasse após a sua morte. No seu testamento, deixou o seu reino aos seus filhos sobreviventes mais velhos: Cleópatra VII, de 18 anos, e Ptolomeu XIII, de 10 anos. Enviou uma cópia do testamento para Roma para ser guardada no tesouro, na esperança de que o Senado Romano o fizesse cumprir no caso de uma disputa sucessória. Pompeu confiscou o testamento antes que este chegasse ao tesouro, para que pudesse ter poder sobre os herdeiros, agindo como executor do testamento.

Remover Publicidades
Publicidade
Cleopatra VII
Cleópatra VII Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

A Morte e o Legado

Ptolomeu XII morreu de causas naturais na primavera de 51 a.C., quando tinha pouco mais de 40 anos. Embora desejasse que os seus filhos governassem juntos pacificamente, estes lutaram pelo controlo exclusivo do Egito. Em 48 a.C., César derrotou Pompeu numa guerra civil, e Pompeu fugiu para o Egito, onde foi executado por Ptolomeu XIII. César chegou ao Egito pouco depois, com a intenção de cobrar as dívidas de Ptolomeu XII. Interveio na crise de sucessão egípcia ajudando Cleópatra VII a derrotar e a matar Ptolomeu XIII em 47 a.C. Durante este conflito, César e Cleópatra tornaram-se amantes, o que resultou no nascimento de Cesarião, o primeiro neto de Ptolomeu XII.

Ao longo do seu longo reinado, o objetivo principal de Ptolomeu Auletes foi assegurar o seu domínio no trono egípcio para, eventualmente, passá-lo aos seus herdeiros. Para atingir este objetivo, estava preparado para sacrificar muito: a perda de ricas terras ptolemaicas, a maior parte da sua riqueza e até, segundo Cícero, a própria dignidade na qual assentava a mística da realeza, quando se apresentou perante o povo romano como um mero suplicante.

(Siani-Davies, pág. 340)

Cleópatra VII continuou as políticas pró-romanas do seu pai para assegurar a independência contínua do Egito. É lembrada na literatura romana como uma governante mais competente e inteligente do que ele, mas os historiadores modernos reavaliaram o seu reinado. Apesar da sua brutalidade ocasional e das suas políticas económicas severas, ele acabou por ter sucesso em proteger o Egito e em construir uma riqueza considerável. Os seus planos para assegurar uma transição de poder pacífica após a sua morte falharam por motivos fora do seu controlo.

Remover Publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Sobre o Autor

Cite Este Artigo

Estilo APA

King, A. (2026, julho 25). Ptolomeu XII. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10409/ptolomeu-xii/

Estilo Chicago

King, Arienne. "Ptolomeu XII." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 25, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10409/ptolomeu-xii/.

Estilo MLA

King, Arienne. "Ptolomeu XII." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 25 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10409/ptolomeu-xii/.

Remover Publicidades