Ptolomeu da Mauritânia (reinou 23-40 d.C.) foi rei da Mauritânia e um dos últimos membros sobreviventes da dinastia ptolemaica, filho de Juba II (cerca de 48 a.C-23 d.C.), monarca númida e de Cleópatra Selene II (40 a.C- cerca de 5 d.C.), filha de Cleópatra (69–30 a.C.) e Marco António (83–30 a.C.).
Ptolomeu foi executado pelo primo, o imperador romano Calígula (reinou 37-41 d.C.), no ano 40 d.C. Os relatos antigos sugerem que Calígula matou Ptolomeu por inveja, mas historiadores modernos propuseram que Calígula temia que Ptolomeu estivesse a conspirar contra ele. Ptolomeu foi o último membro conhecido da dinastia ptolemaica e, após a sua morte, a Mauritânia foi transformada numa província romana.
Os Primeiros Anos e Ancestralidade
Ptolomeu nasceu na Mauritânia, filho de Juba II e Cleópatra Selene II, entre cerca de 13 e 9 a.C. Juba II era filho de Juba I da Numídia, que se suicidou após ser derrotado por Júlio César (100–44 a.C.). Cleópatra Selene II era filha de Marco António e Cleópatra, que cometeram suicídio após serem derrotados pelo herdeiro de Júlio César, Augusto, na Batalha de Ácio. Tanto Juba II como Cleópatra Selene II foram cativos em Roma após a conquista dos seus reinos pelos romanos. Ambos foram criados na casa imperial, e o seu casamento foi eventualmente arranjado pela irmã de Augusto, Otávia.
Após o casamento, Augusto nomeou-os reis vassalos da Mauritânia, a qual governaram em nome do Império Romano. Ptolomeu é o único filho conhecido de Juba e Selene, embora estes estivessem casados há vários anos antes do seu nascimento. Alguns historiadores especulam que ele poderá ter tido um irmão mais velho, que aparece representado na Ara Pacis. Ptolomeu tinha também, pelo menos, uma irmã, homenageada numa inscrição em Atenas.
Juba II transformou a sua residência, Cesareia (Cherchell), numa "pequena Alexandria" com uma biblioteca importante, que se tornou um centro de cultura e saber. Para promover a história da família, foi transportada arte egípcia para a região e, a partir dos bustos de retratos ptolemaicos lá encontrados, podemos inferir que foi criada uma espécie de galeria de antepassados.
(Hölbl, pág. 250-251)
Ptolomeu foi nomeado de acordo com a tradição ptolemaica, em referência aos antepassados da sua mãe. Esta escolha de nome ignorou totalmente a família de Juba e apresentou Ptolomeu como sucessor da dinastia ptolemaica. Através do seu avô Marco António, Ptolomeu estava ligado à família imperial. Os imperadores Calígula, Cláudio (reinou 41-54 d.C.) e Nero (reinou 54-68 d.C.) eram seus primos, tal como as figuras romanas Germânico, Valéria Messalina e Druso César. Tanto Ptolomeu como os seus pais eram cidadãos romanos, um estatuto frequentemente concedido a monarcas aliados.
Ptolomeu foi enviado para Atenas para a sua educação, como era costume entre os jovens aristocráticos do Império Romano. É homenageado numa inscrição do Ptolemeu, um ginásio fundado pelo seu antepassado Ptolomeu II. Embora o seu pai, Juba II, fosse um estudioso notável, Ptolomeu não era conhecido pelos seus feitos intelectuais. O historiador romano Tácito caracterizou Ptolomeu como um rei imaturo e preguiçoso. Grande parte da sua juventude terá sido dividida entre Roma e Cesareia (Norte de África), a capital da Mauritânia, recentemente reconstruída. A cidade cosmopolita combinava a cultura berbere, grega e egípcia, o que moldou a educação de Ptolomeu.
Co-Regente de Juba II
Por volta de 5 a.C., quando Ptolomeu era um jovem, Selene morreu de causas naturais e Juba voltou a casar-se. Juba começou a delegar responsabilidades reais em Ptolomeu cerca de 10 anos mais tarde, em parte devido ao facto do velho rei sentir o peso da idade. Ptolomeu começou a ser cunhado em moedas em 5 d.C., mas os seus anos de reinado só começaram, pelo menos, no ano de 17 d.C. Durante este período, Ptolomeu e Juba foram co-regentes.
A Mauritânia era, na época, escassamente povoada, com a maioria dos seus grandes assentamentos localizados ao longo da costa. Embora o reino fosse geograficamente imenso, a maior parte do país era apenas ligeiramente habitada. As suas fronteiras eram constantemente ameaçadas por incursões dos bárbaros Getúlios e Garamantes. Estas tribos pastoris estavam descontentes devido às crescentes incursões romanas no seu território e ao estabelecimento de comunidades agrícolas nas suas terras. A agitação na África romana, uma província vizinha, transbordava frequentemente para a Mauritânia.
Os governantes da Mauritânia eram apoiados por legiões do exército romano, que os auxiliavam na defesa das suas fronteiras. No entanto, o recrutamento de populações locais para as tropas auxiliares romanas gerou um ressentimento crescente. Em 15 d.C., Tacfarinas, um recruta getúlio, desertou da sua legião romana e liderou uma rebelião. Ele uniu tribos descontentes na África romana, treinando-as nas táticas de guerra romanas. Auxiliares desertores foram também absorvidos pelo seu exército crescente, que se tornava uma força mais disciplinada do que as que tinham sido reunidas anteriormente por estas tribos. Estes eventos ocorreram pouco depois da morte de Augusto, o que poderá ter criado uma sensação de instabilidade ou fraqueza nas fronteiras.
Pois Tacfarinas, embora frequentemente repelido, tinha recrutado os seus recursos no interior da África e tornou-se tão insolente ao ponto de enviar emissários a Tibério, exigindo, na verdade, um acordo para si e para o seu exército, ou então ameaçando-nos com uma guerra interminável.
(Tácito, 3.73)
A revolta de Tacfarinas começou com ataques ligeiros, mas escalou eventualmente para assaltos em grande escala e cercos a posições romanas entre a Líbia e a Mauritânia. Os Romanos lideraram uma retaliação bem-sucedida contra os rebeldes, que recorreram a táticas de guerrilha, uma vez que as forças romanas se revelaram superiores em batalhas campais. As forças de Tacfarinas atacavam rapidamente uma cidade ou um forte romano antes de se retirarem para o deserto para evitar represálias romanas. Como os ataques de Tacfarinas também visavam a Mauritânia, Juba e Ptolomeu foram obrigados a guerrear também contra ele.
Tacfarinas foi derrotado pelo procônsul romano Quinto Júnio Bleso e retirou-se para o deserto para se reagrupar. Bleso estabeleceu fortes romanos ao longo da fronteira africana e aumentou a presença militar na região. Após a vitória de Bleso, o sucessor de Augusto, Tibério (reinou 14-37 d.C.), considerou a guerra concluída e retirou a Legio IX Hispania da Mauritânia. A retirada romana e a morte de Juba II, em 23 d.C., encorajaram mais tribos a juntarem-se à causa de Tacfarinas.
O Reinado Solitário
Ptolomeu era considerado um governante jovem e fraco em comparação com o seu pai e teve de sufocar rebeliões na Mauritânia logo após a morte de Juba. A isto seguiram-se renovados assaltos de Tacfarinas. Uma força conjunta romano-mauritana foi liderada por Ptolomeu e pelo novo procônsul, Públio Cornélio Dolabela. Para perseguir e hostilizar mais facilmente as tropas ágeis de Tacfarinas, Dolabela dividiu as suas forças em quatro colunas e liderou assaltos rápidos aos rebeldes. Eventualmente, as forças romano-mauritanas conseguiram emboscar Tacfarinas, que se tinha acampado num forte romano destruído em Auzea. Lá, Tacfarinas, a sua família e a sua guarda pessoal foram mortos, dispersando efetivamente a rebelião.
Este conflito cimentou a reputação de Ptolomeu como um general capaz e um aliado leal de Roma. Pelas suas vitórias, foi-lhe concedido um triunfo romano por Tibério, em 24 d.C. Consequentemente, foi-lhe permitido usar outras insígnias de categoria, como uma coroa de louros, um bastão de marfim e uma toga bordada a púrpura e ouro. Tal como outros reis da Mauritânia, Ptolomeu usava um manto tingido de púrpura de Tiro, utilizando um corante luxuosamente caro produzido na Mauritânia. Ele era uma figura distinta na alta sociedade romana devido às suas vestes vistosas e à sua aparência.
No final do seu reinado, Ptolomeu tinha acumulado uma fortuna pessoal considerável. Grande parte desta riqueza foi gerada pelas políticas dos seus pais, que incentivaram a expansão agrícola e um comércio mais intensivo. A produção de púrpura de Tiro, de garum (o molho de peixe do mundo antigo) e de outros produtos aumentou os rendimentos da família real da Mauritânia. Eventualmente, Ptolomeu cunhou moedas de ouro, um ato que colocou esta riqueza em exposição pública.
Para além do seu papel como rei da Mauritânia, Ptolomeu foi duovir, ou magistrado, de Gades e de Carthago Nova, na Espanha romana. Passou também bastante tempo na Grécia e foi homenageado pela federação independente da Lícia. Casou-se com Júlia Urânia, que possivelmente era parente da família real de Emesa, um reino na atual Síria. Perto do final do seu reinado, Ptolomeu foi pai de uma filha chamada Drusila. É provável que tenha recebido este nome em homenagem a Lívia Drusila, esposa de Augusto, ou a Drusila, irmã de Calígula.
A Morte
No inverno de 39/40 d.C., Ptolomeu foi convocado à corte de Calígula, em Lugdunum, para ser interrogado. A razão desta convocatória é desconhecida, mas Calígula ficou evidentemente descontente com Ptolomeu e ordenou a sua execução pouco tempo depois. Calígula era infamemente hostil para com outros membros da família imperial. O facto de Ptolomeu ser parente do imperador provavelmente colocou-o em perigo, mas isso não explica totalmente as ações de Calígula.
O comportamento violento e caprichoso do imperador contribuiu para uma representação globalmente negativa nos relatos históricos romanos. As fontes sobreviventes discordam quanto à razão exata do homicídio de Ptolomeu, mas todas atribuem-no a um ciúme mesquinho. Cássio Dio alegou que o facto de ter tomado conhecimento da riqueza de Ptolomeu enfureceu Calígula, enquanto Suetónio escreveu que Calígula tinha ciúmes do manto de púrpura do rei da Mauritânia. A crescente riqueza e as atividades políticas de Ptolomeu fora da Mauritânia podem ter dado a impressão de que ele tinha pretensões imperiais. A sua exibição imprudente e arrogante de luxo e das insígnias triunfais apenas teria confirmado estes receios na mente de Calígula.
Alguns historiadores modernos teorizaram que Calígula suspeitava que Ptolomeu estivesse envolvido numa conspiração contra ele. Ptolomeu estava associado a vários parentes e colegas de Calígula que se encontravam sob suspeita, incluindo as irmãs do imperador, Agripina, a Jovem, e Júlia Lívila. Ainda mais incriminador, Ptolomeu era amigo de Getúlico, um general popular que estava no centro de uma suposta conspiração contra Calígula. O pai de Getúlico, Cosso Cornélio Lêntulo, tinha suprimido as incursões getúlias como procônsul de África, tornando-o um colega de Juba II.
Getúlico tinha sido amigo de Sejano, um poderoso comandante da Guarda Pretoriana executado pelo seu papel numa conspiração contra Tibério. Getúlico tinha evitado quaisquer consequências da queda de Sejano e mantido o seu posto como governador da Germânia Superior. Em 39 d.C., Calígula preparou uma expedição militar à Germânia, onde as incursões bárbaras eram um problema recorrente. O propósito oculto desta expedição era, provavelmente, lidar com Getúlico. Motivado pelo receio de que Calígula pretendesse removê-lo, Getúlico formou uma conspiração para derrubar o imperador e substituí-lo por um sucessor. As irmãs de Calígula e o seu cunhado, Lépido, estavam envolvidos neste complô.
As fontes antigas não revelam quem denunciou o alcance da conspiração, mas pode ter sido Getúlico, que foi o primeiro a ser preso. Getúlico e Lépido foram prontamente executados, enquanto as irmãs de Calígula foram exiladas. A revelação desta conspiração tornou Calígula cada vez mais paranoico quanto a potenciais assassinos. A ligação entre Ptolomeu e os conspiradores, combinada com a falta de tato de Ptolomeu, pode ter selado o seu destino. Não existem provas que sugiram que Ptolomeu tivesse conhecimento da conspiração, mas isso não foi suficiente para o salvar.
No espaço de um ano após a execução de Ptolomeu, Calígula foi assassinado pela sua Guarda Pretoriana. Uma revolta liderada por Aedemon, um dos seguidores de Ptolomeu, eclodiu na Mauritânia pouco depois da execução do rei. O sucessor de Calígula, Cláudio, acabou por anexar o reino e transformá-lo numa província romana em 44 d.C. A morte de Ptolomeu é considerada por alguns como o marco do fim da dinastia ptolemaica.

