Berenice IV

Arienne King
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Dinastia Ptolemaica do Egito (305-30 a.C.) (by Simeon Netchev, CC BY-NC-ND)
Árvore Geneológica da Dinastia Ptolomaica do Egipto (305-30 a.C.) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Berenice IV (reinou 58-55 a.C.) foi rainha do Egito ptolemaico e irmã mais velha de Cleópatra VII (reinou 51-30 a.C.). Governou brevemente após o seu pai, Ptolomeu XII, ter sido deposto por uma revolta popular. O reinado de Berenice IV terminou em 55 a.C., quando o seu pai reconquistou o Egito com um exército mercenário romano e ordenou a sua execução.

A Juventude e os Antecedentes

Berenice IV nasceu no Egito em meados do século I a.C. Era uma princesa da dinastia grega ptolemaica que governou o Egito de 323 até 30 a.C. Como filha mais velha de Ptolomeu XII (reinou 80-51 a.C.) e da sua rainha Cleópatra V Trifena, Berenice IV era a presumível herdeira do trono. Quando era criança, a sua mãe foi removida do trono e Ptolomeu XII tornou-se governante único. Segundo o historiador romano Estrabão (cerca de 64 a.C. a cerca de 24 d.C.), Berenice IV era a única filha legítima de Ptolomeu XII. Os historiadores modernos têm debatido se esta afirmação é verdadeira, especialmente a questão de saber se a sua famosa irmã, Cleópatra VII (cerca de 70/69-30 a.C.), era ou não ilegítima. Os outros irmãos de Berenice IV nasceram de uma mulher desconhecida que poderia ter sido uma das esposas ou concubinas do seu pai. Todos os irmãos de Berenice IV governaram brevemente, incluindo Arsínoe IV († 41 a.C.), Ptolomeu XIII (cerca de 62/61-47 a.C.) e Ptolomeu XIV (cerca de 60/59-44 a.C.).

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Não se sabe se Berenice IV esteve envolvida na usurpação do seu pai, ou se apenas tirou partido da sua remoção.

A maior parte da juventude de Berenice IV terá sido passada em Alexandria, a glamorosa capital do Egito. Durante a infância de Berenice IV, o Egito foi desestabilizado pela dívida nacional e pela agitação civil. Embora o seu pai tenha investido nos templos e bibliotecas do Egito, era visto como um mau rei pelos seus súbditos. Aumentou os impostos para ajudar a pagar as suas dívidas pessoais enquanto gastava dinheiro em competições musicais e desfiles. Também construiu uma relação estreita com a República Romana numa altura em que o sentimento anti-romano era popular em Alexandria. A sua reputação de embriaguez e preguiça atraía o ridículo dos alexandrinos, que o apelidavam depreciativamente de "o Flautista" e "o Bastardo".

Os cortesãos de Ptolomeu XII forçaram-no a abdicar em favor da sua filha mais velha, Berenice IV. A deposição do rei foi apoiada pela multidão de Alexandria, bem habituada a exercer o seu poder político, e parece ter sido inspirada por um crescente sentimento anti-romano – apenas exacerbado por incidentes como o assassinato do gato dois anos antes.

(Wilkinson, pág. 239)

A hostilidade em relação ao reinado de Ptolomeu XII atingiu o seu clímax em 58 a.C., quando Roma anexou a ilha ptolemaica de Chipre. Os egípcios indignados direcionaram a sua raiva por esta perda contra o seu rei, que não conseguiu impedi-la. Em 58 a.C., os cidadãos de Alexandria revoltaram-se e derrubaram Ptolomeu XII. Ele fugiu para a Grécia temendo pela sua vida, deixando para trás os seus filhos.

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O Reinado

Como a herdeira viva mais velha e única filha adulta de Ptolomeu XII, Berenice IV foi declarada rainha do Egito. Não se sabe se Berenice IV esteve envolvida na usurpação do seu pai, ou se apenas tirou partido da sua remoção. Poderá não ter tido outra escolha senão aceitar a coroa quando os rebeldes lha ofereceram. Berenice IV co-governou inicialmente com uma mulher chamada Cleópatra Trifena. O historiador romano do século III d.C., Porfírio, descreve esta mulher como uma das irmãs de Berenice IV, mas os historiadores modernos identificam-na habitualmente como a mãe de Berenice IV, Cleópatra V Trifena. Cleópatra Trifena morreu em 57 a.C., deixando Berenice IV como governante única.

Ptolomeu XII não estava disposto a aceitar a sua queda do poder e foi a Roma na esperança de comprar um exército para retomar o Egito. Berenice IV temia uma invasão romana, pois percebia que o exército ptolemaico seria rapidamente derrotado pelo superior exército romano. Enviou uma delegação de 100 diplomatas alexandrinos a Roma para convencer o Senado Romano a não ajudar Ptolomeu XII. A sua tarefa era descrever a tirania do antigo rei e explicar por que razão tinha sido derrubado. Contudo, Ptolomeu XII mandou assassinar a maior parte dos diplomatas, e aqueles que permaneceram vivos ficaram demasiado receosos para testemunhar contra ele perante o Senado.

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Aulus Gabinius Tetradrachm
Tetradracma de Aulo Gabínio Bibliothèque nationale de France (Public Domain)

Apesar dos esforços de Ptolomeu XII para conquistar o favor do Senado através de subornos, este mostrava-se relutante em ajudá-lo. Senadores proeminentes temiam que a conquista do Egito desse a um general riqueza e popularidade suficientes para se tornar um tirano. Acreditava-se também que os livros sibilinos de profecias continham um aviso contra a ajuda a um rei egípcio. O Senado acabou por proibir o cônsul romano Pompeu, o Grande (106-48 a.C.), de intervir. Ptolomeu XII teve mais sucesso ao subornar o tenente de Pompeu, Aulo Gabínio, o governador da Síria. Contra as ordens do Senado, Gabínio começou a fazer preparativos para invadir o Egito depois de Ptolomeu XII prometer pagar-lhe 10 000 talentos de prata.

Os Casamentos e os Noivados

Embora Berenice IV fosse consideravelmente mais popular do que o seu pai, o seu direito de governar era incerto. As mulheres não governavam frequentemente sozinhas no Egito ptolemaico; esperava-se geralmente que partilhassem o poder com um corregente masculino, como um marido ou um filho. Havia pressão popular para instalar um rei no trono egípcio. Como ambos os seus irmãos eram bebés, ela precisava de um marido para governar a seu lado. Era inaceitável na sociedade helenística que uma rainha se casasse com um homem de nascimento humilde. Além disso, as mulheres da realeza ptolemaica casavam tradicionalmente com parentes masculinos para garantir que o rei fosse de ascendência ptolemaica. As únicas exceções eram os casamentos diplomáticos com rivais e parentes distantes, como a dinastia selêucida. Graças aos casamentos consanguíneos do seu passado, qualquer príncipe de ascendência selêucida tinha uma reivindicação válida ao trono ptolemaico.

Os selêucidas restantes viviam no exílio depois de Roma ter conquistado o Império Selêucida em 63 a.C., pelo que se iniciou uma busca por um príncipe elegível. Berenice IV enviou convites a vários príncipes selêucidas, oferecendo-lhes a sua mão em casamento. Embora vários destes príncipes esperassem casar com Berenice IV, uma série de infortúnios abateu-se sobre cada um deles, por sua vez. O primeiro príncipe, Antíoco, contraiu uma doença enquanto decorriam as negociações de casamento. O seu segundo escolhido, Filipe, foi travado por Gabínio, que intimidava os seus pretendentes para a impedir de realizar um casamento político.

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Ao casar com Arquelau, um estrangeiro, Berenice IV rompeu com a tradição ptolemaica de séculos de se casarem com os seus próprios parentes.

Um homem chamado Seleuco, afirmando ser filho de Cleópatra Selene I, conseguiu chegar a Alexandria e oferecer-se a Berenice IV. Ele parecia surpreendentemente grosseiro para os cidadãos de Alexandria, que o apelidaram de Kybiosaktes ("peixeiro") para zombar da sua vulgaridade. No entanto, Berenice IV prosseguiu com o casamento e Seleuco tornou-se rei. Começaram a circular dúvidas sobre a sua ascendência e espalharam-se rumores de que ele era um impostor. Os historiadores modernos não têm certeza se ele fabricou a sua origem ou se era um príncipe legítimo. Berenice IV arrependeu-se quase imediatamente do casamento, e Seleuco foi estrangulado poucos dias após as núpcias. O historiador Cássio Dio (cerca de 164 a cerca de 229/235 d.C.) afirmou que Berenice IV matou Seleuco porque o povo não o respeitava como rei, enquanto Estrabão afirmou que foi porque ela não conseguia suportar o seu comportamento grosseiro e abusivo.

Em 56 a.C., Gabínio começou a fazer preparativos para invadir o Egito. Reuniu as legiões habitualmente encarregadas de defender a Síria e começou a marchar através da Palestina. Recebeu armas e dinheiro para financiar a expedição de Antípatro I, o procurador da Judeia. Enquanto isto ocorria, o amigo e tenente de Gabínio, Arquelau, recebeu um convite de casamento de Berenice IV. Arquelau afirmava ser filho de Mitrídates VI do Ponto, mas era, na verdade, seu neto. O seu pai, também chamado Arquelau, foi um dos generais de maior confiança de Mitrídates. O jovem Arquelau era considerado um soldado inteligente e enérgico e comandava uma poderosa marinha que poderia ser utilizada para defender o país contra a invasão romana. Gabínio começou a suspeitar que Arquelau pretendia casar com Berenice IV e prendeu-o prontamente. Arquelau escapou ou foi libertado por Gabínio para que pudesse juntar-se a Berenice IV no Egito. Ao casar com Arquelau, um estrangeiro, Berenice IV rompeu com a tradição ptolemaica de séculos de se casarem com os seus próprios parentes.

A Queda e a Morte

Em 55 a.C., Gabínio lançou a sua invasão ao Egito. Os egípcios, despreparados na cidade fortificada de Pelúsio, foram rapidamente dominados. Muitas das batalhas que se seguiram foram lideradas pelo tenente de Gabínio, Marco António (83-30 a.C.), que era um velho amigo de Arquelau. Apesar da sua relação anterior, Arquelau e António cumpriram o seu dever de lutar um contra o outro. Arquelau morreu em combate, possivelmente às mãos de Gabínio. António garantiu que Arquelau recebesse um funeral real com todas as honras. Com o exército egípcio dizimado, Alexandria ficou completamente indefesa.

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Gabínio conquistou-os e, após matar Arquelau e muitos outros, ganhou imediatamente o controlo de todo o Egito e entregou-o a Ptolomeu. Então, Ptolomeu matou a sua filha e os mais importantes e ricos cidadãos, pois tinha grande necessidade de dinheiro.

(Cássio Dio, 39.58, tradução para o inglês de Herbert Baldwin Foster)

Gabínio capturou rapidamente Alexandria, acompanhado por Ptolomeu XII. Tornando-se paranoico e vingativo após a sua usurpação anterior, o rei começou a matar aqueles que se lhe tinham oposto. Pensou em massacrar cidadãos como castigo pela sua rebelião, até que Marco António o convenceu a mostrar misericórdia. Em vez disso, Ptolomeu XII executou Berenice IV e um pequeno número de alexandrinos poderosos. Independentemente de quaisquer sentimentos pessoais que pudesse ter tido em relação à sua filha, Ptolomeu XII acreditava que a sua morte era necessária para evitar futuras ameaças ao seu reinado.

Após a guerra, Gabínio foi acusado de vários crimes relacionados com a sua invasão ao Egito. Foi exilado pelo Senado e nunca mais recuperou o seu poder político. Ptolomeu XII viveu apenas mais alguns anos, morrendo de causas naturais em 51 a.C. A irmã mais nova de Berenice IV, Cleópatra VII, tornou-se rainha depois disso, governando durante mais de 20 anos. Ela parece ter sido profundamente afetada pelas experiências de Berenice IV e procurou evitar os erros da sua irmã mais velha, enquanto copiava os seus sucessos. Procurou o reconhecimento formal da República Romana e tentou frequentemente tirar partido do apoio militar romano. Na sua vida pessoal, Cleópatra procurou parceiros que fossem generais capazes, em vez de casar com parentes. Acabou por casar com Marco António, o antigo amigo do seu cunhado Arquelau.

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King, A. (2026, julho 25). Berenice IV. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-24064/berenice-iv/

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