Inanna

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Marriage of Inanna and Dumuzi (by TangLung, Public Domain)
Casamento de Inanna e Dumuzi TangLung (Public Domain)

Inanna é a antiga deusa suméria do amor, da sensualidade, da fertilidade, da procriação e também da guerra. Mais tarde, foi identificada pelos acádios e assírios como a deusa Ishtar e, posteriormente, pela hitita Sauska, pela fenícia Astarte e pela grega Afrodite, entre muitas outras.

Era também vista como a estrela brilhante da manhã e da noite, Vênus, e identificada com a deusa romana. Inanna é uma das candidatas citadas como tema do Relevo Burney (mais conhecido como 'A Rainha da Noite'), um relevo em terracota datado do reinado de Hamurabi da Babilónia (1792-1750 a.C.), embora a sua irmã Ereshkigal seja a deusa mais provavelmente retratada.

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Em alguns mitos, é filha de Enki, o deus da sabedoria, da água doce, da magia e de vários outros elementos e aspectos da vida, enquanto noutros aparece como filha de Nanna, deus da lua e da sabedoria, mas é mais frequentemente retratada como a neta de Enlil e sobrinha de Enki. Como filha de Nanna, era irmã gémea do deus do sol Utu/Shamash e, em alguns poemas (incluindo Gilgamesh, Enkidu e o Submundo), é irmã do herói Gilgamesh. O seu poder e a provocação são quase sempre uma característica marcante em qualquer uma das histórias contadas sobre ela.

Inanna no Mito

Através da obra da poetisa e alta sacerdotisa acádia Enheduanna (2285-2250 a.C.), filha de Sargão da Acádia (2334-2279 a.C.), Inanna foi notavelmente identificada com Ishtar e ganhou destaque, passando de uma divindade vegetal local do povo sumério para a Rainha do Céu e a deusa mais popular em toda a Mesopotâmia. A estudiosa Gwendolyn Leick escreve:

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Inanna era a principal deusa suméria, divindade padroeira de Uruk. O seu nome era escrito com um sinal que representa um talo de junco amarrado num laço na parte superior. Isto aparece nos textos escritos mais antigos, de meados do quarto milénio a.C. Também é mencionada em todas as listas de deuses antigas entre as quatro divindades principais, junto com Anu, Enki e Enlil. Nas inscrições reais do início do Período Dinástico, Inanna é frequentemente invocada como a protetora especial dos reis. Sargão da Acádia reivindicou o seu apoio em batalhas e na política. Parece que foi durante o terceiro milénio que a deusa adquiriu aspectos marciais que podem derivar de um sincretismo com a divindade semítica Ishtar. O principal santuário de Inanna era o Eanna ("Casa do Céu") em Uruk, embora tivesse templos ou capleas na maioria das cidades. (pág. 89)

A deusa aparece nos antigos mitos mesopotâmicos, nos quais dota conhecimento e cultura para a cidade de Uruk.

A deusa aparece em muitos mitos antigos da Mesopotâmia, mais notavelmente Inanna e a Árvore Huluppu (um mito de criação antigo), Inanna e o Deus da Sabedoria (no qual dota a cidade de Uruk de conhecimento e cultura para a depois receber o meh - presentes da civilização - do deus da sabedoria, Enki, enquanto está bêbado), O namoro de Inanna e Dumuzi (a história do casamento de Inanna com o deus da vegetação) e o poema mais conhecido, A Descida de Inanna (cerca de 1900-1600 a.C.), no qual a Rainha do Céu viaja para o submundo.

Além destas obras e hinos curtos a Inanna, é, igualmente, conhecida através dos hinos mais longos e complexos escritos por Enheduanna em homenagem à sua deusa pessoal e padroeira de Uruk: Inninsagurra, Ninmesarra e Inninmehusa, que se traduzem como "A Senhora de Grande Coração", "A Exaltação de Inanna" e "Deusa dos Poderes Temíveis", todos os três hinos poderosos que influenciaram gerações de mesopotâmios na sua compreensão da deusa e elevaram o seu estatuto de divindade local para divindade suprema. A ambição pessoal de Inanna é atestada em várias obras que a retratam. O estudioso Jeremy Black escreve:

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Violenta e ávida por poder, ela fica ao lado dos seus reis favoritos enquanto lutam. Num poema sumério, Inanna faz campanha contra o Monte Egih. A sua jornada a Eridu para obter o meh e sua descida ao submundo são descritas como tendo o objetivo de ampliar o seu poder. (pág. 108)

Esta ambição também pode ser vista na história da Árvore Huluppu através da sua manipulação de Gilgamesh: quando não consegue lidar com o problema das pragas que infestam a árvore e não consegue encontrar ajuda do irmão Utu/Shamash, ela atrai a atenção de Gilgamesh, que resolve o problema. Ainda assim, as suas intenções declaradas nesta história são honestas, só quer cultivar a árvore para colher a madeira e não consegue lidar com as pragas graves e ameaçadoras que fazem dela o seu lar. A sua oferta de objetos mágicos (possivelmente um tambor sagrado e baquetas) a Gilgamesh pela ajuda, acaba por resultar na viagem do seu amigo Enkidu ao submundo para os recuperar (em Gilgamesh, Enkidu e o Submundo) e na descrição da vida após a morte que ele traz de volta a Gilgamesh.

Facade of Inanna's Temple at Uruk
Fachada do Templo de Inanna em Uruque Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

No famoso poema sumério/babilónico A Epopeia de Gilgamesh (cerca de 2700 - 1400 a.C.), Inanna aparece como Ishtar e, na mitologia fenícia, como Astarte. No mito grego O Julgamento de Paris, mas também noutros contos dos antigos gregos, a deusa Afrodite é tradicionalmente associada a Inanna pela sua grande beleza e sensualidade. Inanna é sempre retratada como uma jovem mulher, nunca como mãe ou esposa fiel, que está plenamente consciente do seu poder feminino e encara a vida com ousadia, sem medo de como será vista pelos outros, especialmente pelos homens.

Na Epopeia de Gilgamesh, como Ishtar, é vista como promíscua, ciumenta e rancorosa. Quando ela tenta seduzir Gilgamesh, ele refere o rol dos muitos outros amantes que tiveram um fim trágico nas suas mãos. Enfurecida com a rejeição, envia o marido da sua irmã Ereshkigal, Gugulana (o Touro do Céu), para destruir o reino de Gilgamesh. Gugulana é morto por Enkidu, o melhor amigo e companheiro de armas de Gilgamesh, pelo que é condenado pelos deuses à morte. A morte de Enkidu é o catalisador da famosa busca que Gilgamesh empreende para descobrir o significado da vida. Inanna, então, é a peça central para a história de um dos maiores épicos antigos.

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Aspectos da Deusa

Inanna é frequentemente retratada na companhia de um leão, denotando coragem, e por vezes até montando o leão como um sinal de supremacia sobre o "rei dos animais". Quanto ao seu aspecto como deusa da guerra, é retratada com uma armadura masculina, em trajes de batalha (as estátuas mostram-na frequentemente armada com uma aljava e um arco) e, portanto, também é identificada com a deusa grega Atena Nice. Está, também, associada à deusa Deméter como uma divindade da fertilidade e a Perséfone como uma figura divina que morre e renasce, sem dúvida uma herança da sua encarnação original como deusa rural da agricultura.

Embora alguns escritores tenham afirmado o contrário, Inanna nunca foi vista como uma Deusa Mãe da mesma forma que as outras divindades, como Ninhursag. Black observa:

Um aspecto da [personalidade de Inanna] é o de deusa do amor e do comportamento sexual, mas especialmente ligada ao sexo extraconjugal e — de uma forma que ainda não foi totalmente pesquisado — à prostituição. Inanna não é uma deusa do casamento, nem uma deusa mãe. O chamado Casamento Sagrado, do qual ela participa, não tem conotações morais para os casamentos humanos. (pág. 108)

Em vez disso, Inanna é uma mulher independente que faz o que quer, muitas vezes sem se importar com as consequências, e manipula, ameaça ou tenta seduzir os outros para resolver as dificuldades que o seu comportamento cria. Não há poemas, contos ou lendas que a retratem de forma diferente e nenhum que a descreva no papel de Deusa Mãe.

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The Hand of Ishtar (Inanna)
A Mão de Ishtar (Inanna) Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

No panteão mesopotâmico, a genealogia de Inanna varia de acordo com a época do mito e do conto contado. Ela é filha do deus supremo Anu, mas também é retratada como filha do deus da lua Nanna e sua consorte Ningal. Alternativamente, é filha do deus da sabedoria Enki e irmã de Ereshkigal (deusa do submundo), irmã gémea do deus do sol Utu/Shamash e irmã de Ishkur (também conhecido como Adad), deus das tempestades. Ela também é, às vezes, referida como filha do Deus Supremo do Ar, Enlil.

O seu marido Dumuzi — que sofre pelas suas escolhas precipitadas no poema A Descida de Inanna — transforma-se com o tempo no deus moribundo e ressuscitado Tammuz e, anualmente, no equinócio de outono, o povo celebrava os ritos sagrados do casamento de Inanna e Dumuzi (Ishtar e Tammuz) quando regressava do submundo para se unir novamente a ela, trazendo assim vida à terra. O Casamento Sagrado de Inanna e Dumuzi era fundamental para a fertilidade da terra e era reencenado em festivais importantes (como o Festival Akitu na Babilónia) pelo rei e uma sacerdotisa tendo relações sexuais ou, talvez, apenas acasalando simbolicamente numa espécie de pantomima.

Adoração de Inanna

Em toda a Mesopotâmia eram numerosos os seus templos e santuários, mas o centro de culto principal era o templo em Uruk, e prostitutas sagradas, de ambos os sexos, podem ter sido empregadas para garantir a fertilidade da terra e a prosperidade contínua das comunidades. O seu clero era composto por homens, mulheres e um terceiro grupo que hoje em dia seria definido como "transgénero". Os transgéneros masculinos, conhecidos como kurgarra, castravam-se, enquanto as mulheres que se identificavam como homens eram conhecidas como galatur; acreditava-se que ambos haviam sido transformados pela própria Inanna/Ishtar ou criados pelo Deus Pai Enki para resgatar Inanna do submundo. A Descida de Inanna observa que Enki os tornou "nem homens nem mulheres" e o clero do templo de Inanna honrou a tradição, incorporando-a. O estudioso Colin Spencer comenta:

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A prostituição sagrada era a parte central do ritual no Templo. A sacerdotisa realizava um casamento sagrado para garantir a fertilidade do país e a grande fortuna do novo rei, pois o rei copulava com a sacerdotisa sagrada no início do seu reinado. Havia sacerdotisas menores que também eram músicos, cantoras e dançarinas, certamente algumas delas eram homens que também copulavam com homens e mulheres. A deusa Ishtar transformou estes homens em mulheres como uma demonstração dos seus poderes impressionantes. No entanto, embora Ishtar fosse uma presença todo-poderosa e fosse reverenciada por meio da prostituição, além de ser um fator económico importante na administração do Templo, o papel das mulheres na sociedade começou a ser secundário em relação ao dos homens. (pág. 29)

Inanna continuou como uma deusa poderosa e popular até o declínio do prestígio das divindades femininas durante o reinado de Hamurabi, que, de acordo com o estudioso Samuel Noah Kramer, coincide com a perda do estatuto e dos direitos das mulheres na sociedade. Ainda assim, como Ishtar dos assírios, ela continuou a ser amplamente venerada e inspirou as visões de divindades semelhantes noutras culturas do Oriente Próximo e além.

A Deusa Eterna

Inanna está entre as divindades mais antigas cujos nomes estão registrados na antiga Suméria. Ela consta na lista de entre os sete primeiros poderes divinos: Anu, Enlil, Enki, Ninhursag, Nanna, Utu e Inanna; que formariam a base para muitas das características dos deuses que se seguiram. No caso de Inanna, como observado acima, ela inspiraria divindades semelhantes em muitas outras culturas.

Com uma personalidade muito diferente da tradicional Deusa Mãe (como exemplificado em Ninhursag), Inanna é uma jovem ousada e independente; impulsiva, mas calculista, gentil e, ao mesmo tempo, descuidada com os sentimentos, a propriedade ou até mesmo a vida dos outros. Black escreve:

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O fato de Inanna não ter um marido permanente em nenhuma tradição está intimamente ligado ao seu papel como deusa do amor sexual. Mesmo Dumuzi, que é frequentemente descrito como seu "amante", tem uma relação muito ambígua com ela e ela é, em última análise, responsável pela morte dele. (pág. 108)

O fato de os sumérios terem concebido tal deusa diz muito sobre seus valores culturais e sua compreensão da feminilidade. Na cultura suméria, as mulheres eram muito respeitadas e mesmo uma análise superficial do seu panteão mostra várias divindades femininas importantes, como Gula, Ninhursag, Nisaba, Nanshe e Ninkasi, entre muitas outras. Com o tempo, porém, estas deusas perderam o estatuto para as divindades masculinas.

Sob o reinado do rei amorita Hamurabi da Babilónia, as deusas foram, cada vez mais, substituídas por deuses. Inanna manteve a sua posição e prestígio ao ser adotada pelo Império Assírio e Neoassírio como Ishtar, deusa da guerra e do sexo, mas muitas outras não tiveram a mesma sorte. Nisaba, anteriormente a escriba dos deuses e patrona da palavra escrita, foi assimilada pelo deus Nabu durante o reinado de Hamurabi, e este foi o destino de muitas outras.

No entanto, Inanna resistiu porque era muito acessível e reconhecível. Tanto mulheres quanto homens podiam identificar-se com esta deusa, e não era coincidência que ambos os sexos a servissem como sacerdotes, servos do templo e prostitutas sagradas. Inanna fazia as pessoas quererem servi-la por causa de quem ela era, não pelo que ela tinha a oferecer, e os seus devotos permaneceram-lhe fiéis muito tempo depois de ter cessado o culto nos seus templos. Inanna era intimamente associada à estrela da manhã e da tarde e, até os dias de hoje, continua a sê-lo por meio de sua ligação com Vênus — mesmo que poucos se lembrem dela pelo seu nome sumério.

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Perguntas & Respostas

Quem era Inanna?

Inanna era a deusa suméria do amor, da sensualidade, da fertilidade, da procriação e da guerra. Ela é mais conhecida pelo nome de Ishtar.

Qual é a diferença entre Inanna e Ishtar?

Ishtar é simplesmente o nome acádio da deusa suméria Inanna. Sob o Império Acádio destacaram-se os aspetos marciais de Inanna e era frequentemente invocada para a vitória em batalha. Se há alguma diferença entre Inanna e Ishtar, é o foco nela como deusa da guerra.

Inanna era uma deusa popular?

Inanna estava entre as deusas sumérias mais populares e, como Ishtar, era venerada pelos acádios, babilónios, assírios e outros povos da Mesopotâmia. Foi venerada pelo menos entre 2900 e 550 a.C.

Que deusas de outras culturas foram influenciadas por Inanna?

Inanna é associada à deusa hitita Sauska, à fenícia Astarte, à grega Afrodite e à romana Vênus, entre outras.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, novembro 19). Inanna. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10035/inanna/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Inanna." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 19, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10035/inanna/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Inanna." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 19 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-10035/inanna/.

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