A Peste de Justiniano (541–542)

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John Horgan
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Durante o reinado do imperador Justiniano I (527–565), ocorreu um dos piores surtos de peste da história, ceifando a vida a milhões de pessoas. A peste chegou a Constantinopla no ano de 542, quase um ano após a doença ter feito a sua primeira aparição nas províncias periféricas do império. O surto continuou a varrer o mundo mediterrânico durante mais 225 anos, acabando por desaparecer em 750.

Justinian I
Justiniano I Sponsored by a Greek banker, Julius Argentarius (CC BY-NC-SA)

A Origem e a Transmissão da Peste

Tendo tido origem na China e no nordeste da Índia, a peste (Yersinia pestis) foi transportada para a região dos Grandes Lagos de África através das rotas comerciais terrestres e marítimas. O ponto de origem da peste de Justiniano foi o Egito. O historiador bizantino Procópio de Cesareia (500–565) identificou o início da peste em Pelúsio, nas margens norte e leste do rio Nilo. De acordo com Wendy Orent, autora de Plague (A Peste), a doença propagou-se em duas direções: para norte, rumo a Alexandria, e para leste, rumo à Palestina.

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O meio de transmissão da peste foi o rato-preto (Rattus rattus), que viajava nos navios e carros de cereais enviados para Constantinopla como tributo. No século VIII, o Norte de África era a principal fonte de cereais para o império, a par de uma variedade de outras mercadorias, incluindo papel, azeite, marfim e escravos. Armazenados em vastos armazéns, os cereais proporcionavam um habitat de reprodução perfeito para as pulgas e os ratos, cruciais para a transmissão da peste. William Rosen, em Justinian's Flea (A Pulga de Justiniano), sustenta que, embora se saiba que os ratos comem quase tudo (incluindo matéria vegetal e pequenos animais), o cereal é a sua refeição favorita. Rosen observa ainda que, ao longo das suas vidas, os ratos geralmente não se deslocam mais do que 200 metros dos seus locais de nascimento. No entanto, uma vez a bordo dos barcos e carroças de cereais, os ratos eram transportados por todo o império.

Batizada em homenagem ao imperador bizantino Justiniano I, a peste de Justiniano afetou quase metade da população da Europa.

Segundo o historiador Colin Barras, Procópio registou as alterações climáticas que se faziam sentir no sul da Itália durante esse período: episódios insólitos de neve e geada em pleno verão; temperaturas abaixo da média; e uma diminuição da luz solar. Começava assim uma vaga de frio prolongada por várias décadas, acompanhada de perturbações sociais, guerras e o primeiro surto registado da peste. O clima mais frio do que o habitual afetou as colheitas, provocando escassez de alimentos que resultou em deslocações de populações por toda a região. A acompanhar estes migrantes relutantes estavam ratos infetados pela peste e infestados de pulgas. Pessoas em movimento, frias, cansadas e famintas, combinadas com a doença e a enfermidade em plena época de guerra, bem como o aumento de uma população de ratos portadora de uma doença altamente infeciosa, criaram as condições perfeitas para uma epidemia. E que epidemia viria a ser: batizada em homenagem ao imperador bizantino Justiniano I (482–565; reinou 527–565), a peste de Justiniano afetou quase metade da população da Europa.

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Os Tipos de Peste e os Sintomas

Com base na análise de ADN (igualmente usado DNA) de ossos encontrados em sepulturas, o tipo de peste que atingiu o Império Bizantino durante o reinado de Justiniano foi a peste bubónica (Yersinia pestis), embora seja muito provável que os outros dois tipos de peste — a pneumónica e a septicémica — também estivessem presentes. Foi igualmente a peste bubónica que devastou a Europa do século XIV (mais conhecida como a Peste Negra), matando mais de 50 milhões de pessoas, ou seja, quase metade de toda a população do continente. A peste não era novidade na história, nem mesmo na época de Justiniano. Wendy Orent sugere que o primeiro relato registado de peste bubónica é contado no Antigo Testamento, na história dos filisteus que roubaram a Arca da Aliança aos israelitas e sucumbiram a "tumores" (ou inchaços).

Procópio, na obra História Secreta (tít. orignal: Περὶ τῶν ἐν τῷ πολέμῳ λόγων; transliterado: Peri tōn en tō polemō logōn), descreve as vítimas a sofrer de delírios, pesadelos, febres e inchaços na virilha, nas axilas e atrás das orelhas. Procópio relata que, enquanto alguns doentes caíam em comas, outros ficavam altamente delirantes. Muitas vítimas sofriam durante dias antes de morrer, enquanto outras morriam quase imediatamente após o aparecimento dos sintomas. A descrição da doença feita por Procópio confirma quase com certeza a presença da peste bubónica como a principal culpada pelo surto. Ele culpou o imperador pelo flagelo, declarando que Justiniano era um diabo ou que estava a ser castigado por Deus devido aos seus maus caminhos.

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A Propagação da Peste pelo Império Bizantino

A guerra e o comércio facilitaram a propagação da doença por todo o Império Bizantino. Justiniano passou os primeiros anos do seu reinado a derrotar uma variedade de inimigos: a combater os ostrogodos pelo controlo da Itália; a lutar contra os vândalos e berberes pelo domínio no Norte de África; e a afastar francos, eslavos, ávaros e outras tribos bárbaras que realizavam incursões contra o império. Os historiadores sugerem que os soldados, juntamente com as caravanas de abastecimento que apoiavam os seus esforços militares, funcionaram como o meio de transmissão dos ratos e das pulgas portadores da peste. Por volta do ano de 542, Justiniano tinha reconquistado a maior parte do seu império, mas, como salienta Wendy Orent, a paz, a prosperidade e o comércio também proporcionaram as condições adequadas para potenciar um surto de peste. Constantinopla, a capital política do Império Romano do Oriente, funcionava simultaneamente como o centro do comércio do império. A localização da capital ao longo dos mares Negro e Egeu fazia dela a encruzilhada perfeita para as rotas comerciais vindas da China, do Médio Oriente e do Norte de África. Onde iam o comércio e as mercadorias, iam também os ratos, as pulgas e a peste.

Wendy Orent relata a progressão da doença: seguindo as rotas comerciais estabelecidas do império, a peste deslocou-se da Etiópia para o Egito e, em seguida, por toda a região do Mediterrâneo. A doença não penetrou nem no norte da Europa nem nas zonas rurais, o que sugere que o rato-preto era o principal portador da pulga infetada, uma vez que os ratos se mantinham próximos dos portos e dos navios. O surto durou cerca de quatro meses em Constantinopla, mas continuaria a persistir durante aproximadamente os três séculos seguintes, com o último surto registado em 750. Não voltaria a haver surtos de peste em grande escala até ao episódio da Peste Negra no século XIV.

A peste era tão generalizada que ninguém estava a salvo; até o imperador contraiu a doença, embora não tenha morrido. Corpos sem vida jaziam pelas ruas da capital. Justiniano ordenou que tropas fossem mobilizadas para ajudar na eliminação dos mortos. Uma vez esgotados os cemitérios e túmulos, foram abertas valas comuns e trincheiras para dar resposta ao excesso de cadáveres. Os corpos eram eliminados em edifícios, atirados ao mar e colocados em barcos para sepultamento em alto-mar. E não foram apenas os seres humanos que foram afetados: animais de todo o tipo, incluindo cães e gatos, pereceram e exigiram uma remoção adequada.

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O Tratamento da Peste

Uma vez infetadas, as pessoas tinham duas opções de tratamento: recorrer ao médico ou a remédios caseiros. William Rosen identifica o pessoal médico como sendo constituído principalmente por médicos formados, em que muitos deles frequentavam um curso de quatro anos lecionado por práticos especializados (iatrosophists) em Alexandria, que era então o principal centro de formação médica. A educação recebida pelos estudantes centrava-se primordialmente nos ensinamentos do médico grego Galeno (129–217), cuja compreensão das doenças era influenciada pelo conceito de humorismo, um sistema médico que fundamentava o tratamento das enfermidades no equilíbrio dos fluidos corporais, conhecidos como "humores".

Na ausência de acesso a um dos tipos de médicos — da corte, públicos ou privados —, as pessoas recorriam frequentemente a remédios caseiros. William Rosen identifica várias abordagens adotadas no tratamento da peste, incluindo banhos de água fria, pós "abençoados" por santos, amuletos e anéis mágicos, e vários medicamentos, especialmente alcaloides. Quando todas as abordagens terapêuticas anteriores falhavam, as pessoas recorriam a hospitais ou ficavam sujeitas à quarentena. Aqueles que sobreviviam deviam-no, segundo Rosen, à "boa sorte, a uma sólida saúde de base e a um sistema imunitário inalterado".

Os Efeitos no Império Bizantino

O episódio da peste contribuiu para o enfraquecimento político e económico do Império Bizantino. À medida que a doença se propagava pelo mundo mediterrânico, a capacidade do império para resistir aos seus inimigos enfraquecia. Por volta de 568, os lombardos invadiram com sucesso o norte da Itália e derrotaram a pequena guarnição bizantina, conduzindo à fragmentação da península itálica, que permaneceu dividida até à sua reunificação no século XIX. Nas províncias romanas do Norte de África e do Próximo Oriente, o império revelou-se incapaz de travar a invasão dos árabes. A redução territorial e a incapacidade do exército bizantino para resistir a forças externas deveram-se, em grande medida, à impossibilidade de recrutar e treinar novos voluntários devido à propagação da doença e da morte. A quebra demográfica não afetou apenas os militares e as defesas do império, mas fez também com que as estruturas económicas e administrativas começassem a colapsar ou a desaparecer.

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O comércio em todo o império ficou gravemente perturbado. Em particular, o setor agrícola foi devastado. Menos pessoas significavam menos agricultores que produziam menos cereais, fazendo disparar os preços e descer as receitas fiscais. A quase colapso do sistema económico não demoveu Justiniano de exigir o mesmo nível de impostos à sua população dizimada. Na sua determinação em recriar o antigo poder do Império Romano, o imperador continuou a travar guerras contra os godos em Itália e os vândalos em Cartago, temendo que o seu império se desintegrasse. O imperador manteve-se igualmente empenhado numa série de projetos de obras públicas e de construção de igrejas na capital, incluindo a construção da Hagia Sophia.

Procópio relatou na sua História Secreta cerca de 10.000 mortes por dia a fustigar Constantinopla. A sua precisão tem sido questionada por historiadores modernos, que estimam 5.000 mortes por dia na cidade capital. Não obstante, entre 20% e 40% dos habitantes de Constantinopla acabariam por sucumbir à doença. No resto do império, cerca de 25% da população morreu, com estimativas globais a oscilar entre os 25 e os 50 milhões de pessoas no total.

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Bibliografia

  • The Plague of Justinian [TED-Ed lesson], accessed 1 Dec 2016.
  • Baras, C. "The Year of Darkness." New Scientist, vol. 221 / January 18, 2014, pp. 34-38.
  • Hadhazy, A. "Plague Prequels and Sequels." Natural History, vol. 122 / March 2014, p. 6.
  • Harbeck, M. et al. "Yersinia pestis DNA from skeletal remains from the 6th century AD reveals inisghts into Justinianic plague." PLOS Pathogens, vol. 9 / May 2013, pp. 1-8.
  • Orent, W. Plague. Free Press: New York, 2004
  • Rosen, W. Justinian's Fleas. Penguin Books: New York, 2007

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Horgan, J. (2026, agosto 26). A Peste de Justiniano (541–542). (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-782/a-peste-de-justiniano-541-542/

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Horgan, John. "A Peste de Justiniano (541–542)." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-782/a-peste-de-justiniano-541-542/.

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Horgan, John. "A Peste de Justiniano (541–542)." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-782/a-peste-de-justiniano-541-542/.

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