Nilo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Nile Delta (by Jacques Descloitres (NASA), CC BY-NC-SA)
Delta do Nilo Jacques Descloitres (NASA) (CC BY-NC-SA)

O Nilo, o rio mais longo do mundo, localizado no Egito, corre 6.650 quilómetros (4.132 milhas) para norte até ao Mar Mediterrâneo (uma direção muito invulgar para um rio seguir). Era considerado a fonte da vida pelos antigos egípcios e desempenhou um papel vital na história do país. O Nilo flui a partir de duas fontes distintas: o Nilo Branco, proveniente da África equatorial, e o Nilo Azul, das terras altas da Abissínia. A historiadora Waterson refere: "O Nilo desempenhou um papel vital na criação do Egito, um processo que começou há cerca de cinco milhões de anos, quando o rio começou a fluir para norte em direção ao Egito" (págs. 7-8). Assentamentos permanentes surgiram gradualmente ao longo das margens do rio a partir de cerca de 6000 a.C., marcando o início da civilização e cultura egípcias, que se tornaram o primeiro Estado-nação reconhecível do mundo por volta de 3150 a.C. Como o rio Nilo era visto como a fonte de toda a vida, muitos dos mitos mais importantes dos egípcios dizem respeito ao Nilo ou fazem menção significativa a ele; entre estes encontra-se a história de Osíris, Ísis e Set, e a forma como a ordem foi estabelecida na terra.

O Nilo no Mito de Osíris

Entre os contos mais populares do antigo Egito sobre o Nilo encontra-se a história do deus Osíris e da sua traição e assassínio pelo seu irmão, o deus Set. Set sentia inveja do poder e da popularidade de Osíris e, por isso, enganou-o para que se deitasse dentro de um caixão (sarcófago) elaborado, fingindo que o daria como presente àquele que melhor nele coubesse. Assim que Osíris entrou, Set fechou a tampa com força e atirou-o para o rio Nilo. Ísis, a esposa de Osíris, saiu à procura do corpo do marido para lhe dar um enterro digno e, depois de procurar em muitos lugares, encontrou algumas crianças a brincar junto ao Nilo que lhe disseram onde poderia encontrar o caixão. Desta história deriva a crença ancestral dos egípcios de que as crianças possuíam o dom da adivinhação, uma vez que foram capazes de revelar à deusa algo que ela própria não conseguia descobrir.

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O caixão flutuou rio abaixo pelo Nilo até ficar preso numa árvore em Biblos (na Fenícia), a qual cresceu rapidamente à sua volta, envolvendo-o. O rei de Biblos admirou a árvore, forte e robusta, mandou trazê-la para a sua corte e ergueu-a como um pilar. Quando Ísis chegou a Biblos, durante a sua busca, reconheceu que o cadáver do marido estava dentro da árvore e, após ganhar o favor do rei, pediu o pilar como um presente. Ísis trouxe então o seu marido morto de volta ao Egito para o fazer regressar à vida. Esta sequência de eventos inspiraria a coluna Djed, um símbolo que aparece na arquitetura e arte egípcias ao longo da história do país e que simboliza a estabilidade. O Djed, segundo algumas interpretações, representa a coluna vertebral de Osíris quando este estava encerrado na árvore ou, segundo outros, a própria árvore da qual Ísis retirou o corpo de Osíris para o trazer de volta à vida.

Uma vez de volta ao Egito, Ísis deixou Osíris no seu caixão junto ao Nilo para preparar as ervas e poções necessárias para o fazer regressar à vida. Deixou a sua irmã, Néftis, a guardar o corpo de Set. No entanto, Set, ao saber que Ísis tinha ido à procura de Osíris, estava ele próprio à procura do corpo. Encontrou Néftis e obrigou-a a dizer-lhe onde estava escondido o corpo do seu irmão. Ao encontrá-lo, cortou o cadáver em pedaços e espalhou-os por todo o Egito. Quando Ísis regressou para ressuscitar o seu marido, Néftis confessou, em lágrimas, o que tinha acontecido e prometeu ajudar a sua irmã a descobrir o que Set tinha feito com o corpo de Osíris.

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Ísis e Néftis partiram em busca dos restos mortais de Osíris e, onde quer que encontrassem uma parte dele, enterravam-na de acordo com os rituais adequados e erguiam um santuário. Isto explica os muitos túmulos de Osíris por todo o antigo Egito e diz-se também que estabeleceu os nomos, as trinta e seis divisões territoriais do antigo Egito (semelhantes a um condado ou província). Onde quer que uma parte de Osíris fosse enterrada, aí cresceu eventualmente um nomo. Ela conseguiu encontrar e enterrar todas as partes dele, exceto o seu pénis, que Set tinha atirado para o Nilo e que tinha sido comido por um crocodilo. É por esta razão que o crocodilo passou a ser associado ao deus da fertilidade, Sobek, e qualquer pessoa comida por um crocodilo era considerada afortunada por ter uma morte feliz.

Como estava incompleto, Osíris não pôde regressar à vida, tornando-se o Senhor do Além e Juiz dos Mortos. O Nilo, que tinha recebido o pénis de Osíris, tornou-se fértil devido a isso e deu vida ao povo daquela terra. Hórus, filho de Osíris, vingou o seu pai derrotando Set e expulsando-o da terra (em algumas versões do conto, matando-o), restaurando assim o equilíbrio e a ordem na região. Hórus e Ísis governaram então a terra em harmonia.

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A Importância para o Egito

O Nilo era considerado pelo povo antigo como a fonte de toda a vida no Egito e uma parte integrante da vida dos deuses.

Através deste mito e de outros semelhantes, o Nilo era apresentado ao povo antigo como a fonte de toda a vida no Egito e uma parte integrante da vida dos deuses. A Via Láctea era considerada um espelho celestial do Nilo e acreditava-se que o deus solar Rá conduzia o seu navio através dela. Os deuses estavam intimamente envolvidos na vida dos antigos egípcios e acreditava-se que eram eles quem provocava as cheias anuais do rio, que depositavam o solo negro fértil ao longo das margens áridas. De acordo com alguns mitos, foi Ísis quem ensinou ao povo as técnicas da agricultura (noutros, é Osíris) e, com o tempo, as populações desenvolveram canais, sistemas de irrigação e métodos sofisticados para trabalhar a terra. O Nilo era também um importante recurso de lazer para os egípcios.

Ancient Egypt
Egito Antigo Jeff Dahl (CC BY-SA)

Além da natação, o povo divertia-se com justas aquáticas, nas quais equipas de dois homens em canoas, um "lutador" e um "remador", competiam tentando derrubar o lutador da equipa adversária para fora do barco. Outro desporto fluvial popular eram as corridas de barcos e demonstrações de perícia, como as descritas pelo dramaturgo romano Séneca, o Jovem (século I d.C.), que possuía terras no Egito:

O povo embarca [no Nilo] em pequenos barcos, dois por barco, sendo que um rema enquanto o outro esvazia a água. Depois, são violentamente agitados nas corredeiras furiosas. Por fim, chegam aos canais mais estreitos e, arrastados por toda a força do rio, controlam o barco em velocidade com a mão e mergulham de cabeça para baixo, para grande terror dos espectadores. Acreditar-se-ia, com tristeza, que já se teriam afogado e sido submersos por tal massa de água, quando, longe do local onde caíram, disparam como de uma catapulta, ainda a navegar, e a onda que abranda não os submerge, mas transporta-os para águas calmas.

O rio ficou conhecido como o "Pai da Vida" e a "Mãe de Todos os Homens" e era considerado uma manifestação do deus Hapi, que abençoava a terra com vida, bem como da deusa Ma'at, que personificava os conceitos de verdade, harmonia e equilíbrio. O Nilo estava também ligado às antigas deusas Hathor e, mais tarde, como referido, a Ísis e Osíris. O deus Khnum, que se tornou o deus do renascimento e da criação nas dinastias posteriores, era originalmente o deus da nascente do Nilo, que controlava o seu curso e enviava a necessária cheia anual de que o povo dependia para fertilizar a terra.

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A Fonte da Vida

Durante o reinado do rei Djoser (cerca de 2670 a.C.), a terra foi fustigada pela fome. Djoser teve um sonho no qual o deus Khnum lhe surgia para se queixar de que o seu santuário na ilha de Elefantina, no rio, tinha caído em ruínas e que estava desagradado com a negligência. O vizir de Djoser, Imhotep, sugeriu que o rei viajasse até Elefantina para verificar se a mensagem do sonho era verdadeira. Djoser encontrou o santuário do templo em más condições e ordenou a sua reconstrução, bem como a renovação do complexo ao seu redor. Posteriormente, a fome cessou e o Egito tornou-se fértil novamente. Esta história é contada na Estela da Fome da Dinastia Ptolomaica (332-30 a.C.), muito depois do reinado de Djoser, e serve de testemunho da grande honra em que o rei ainda era tido nessa época. Ilustra também a antiga e duradoura importância do Nilo para os egípcios, visto que o deus do rio, e nenhum outro, teve de ser satisfeito para que a fome terminasse.

O rio Nilo continua a ser uma parte integrante da vida, das tradições e do comércio do Egito nos dias de hoje, e os egípcios dizem que, se um visitante contemplar uma vez a beleza do Nilo, o seu regresso ao Egito é garantido (uma afirmação também feita na antiguidade). Séneca descreveu o Nilo como uma maravilha espantosa e um "espetáculo notável", opinião partilhada por muitos escritores antigos que visitaram esta “mãe de todos os homens” do Egito; uma perspetiva partilhada por muitos que o vivenciam ainda hoje.

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Mark, J. J. (2026, julho 17). Nilo. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-78/nilo/

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Mark, Joshua J.. "Nilo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-78/nilo/.

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Mark, Joshua J.. "Nilo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 17 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-78/nilo/.

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