Peste Negra

Definição

Mark Cartwright
por , traduzido por Joana Mota
publicado em 28 Março 2020
X

Texto original em inglês: Black Death

The Plague by Arnold Bocklin (by Arnold Böcklin, Public Domain)
A Peste por Arnold Bocklin
Arnold Böcklin (Public Domain)

A Peste Negra foi uma pandemia de peste que devastou a Europa de 1347 a 1352 e que matou cerca de 25-30 milhões de pessoas. A doença, causada por uma bactéria bacilar e transmitida por pulgas de roedores, teve origem na Ásia Central e foi levada daí para a Crimeia por guerreiros e comerciantes mongóis. A praga entrou na Europa via Itália, transportada por ratos em navios mercantes genoveses que navegavam do Mar Negro. Era conhecida como a Peste Negra porque podia tornar a pele e as feridas negras, enquanto outros sintomas incluíam febre e dores nas articulações. Com até dois terços dos portadores a morrer da doença, estima-se que entre 30% e 50% da população dos locais afetados morreram com a Peste Negra. A taxa de mortalidade foi tão alta que teve consequências significativas na sociedade medieval europeia como um todo, com uma escassez de agricultores que resultou em demandas pelo fim da servidão, um questionamento geral da autoridade e rebeliões e o abandono total de muitas cidades e aldeias. Levaria 200 anos para a população da Europa recuperar até ao nível visto antes da Peste Negra.

Causa & Sintomas

A peste é uma doença causada por uma bactéria bacilar que é transportada e disseminada por pulgas parasíticas de roedores, principalmente o rato castanho. Existem três tipos de peste e, provavelmente, todos os três estiveram presentes na pandemia de Peste Negra. A peste bubónica, a mais comum durante o surto do século XIV, causa inchaço severo nas virilhas e nas axilas (os gânglios linfáticos) que assumem uma cor negra doentia, daí o nome de Peste Negra. As feridas pretas que podem cobrir o corpo em geral, causadas por hemorragias internas, eram conhecidas como bubões, daí o nome de peste bubónica. Outros sintomas são febre violenta e dores nas articulações. Se não tratada, a peste bubónica é fatal em 30 a 75% das infeções, geralmente dentro de 72 horas. Os outros dois tipos de peste - pneumónica (ou pulmonar) e septicémica - são geralmente fatais em todos os casos.

Remover publicidades

Advertisement

Os terríveis sintomas da doença foram descritos por escritores da época, notadamente pelo escritor italiano Boccaccio no prefácio de seu Decamerão de 1358. Um escritor, o poeta galês Ieuan Gethin, talvez tenha feito a melhor tentativa de descrever as feridas pretas que viu em primeira mão em 1349:

Vemos a morte a chegar ao nosso meio como fumo negro, uma praga que corta os jovens, um fantasma sem raízes que não tem misericórdia de um semblante razoável. Ai de mim do xelim da axila... Tem a forma de uma maçã, como a cabeça de uma cebola, um pequeno furúnculo que não poupa ninguém. Grande é a sua fervura, como uma brasa ardente, uma coisa penosa de cor acinzentada... Eles são semelhantes às sementes das ervilhas pretas, fragmentos partidos de carvão marinho quebradiço... cinzas das cascas de joio, uma multidão misturada, uma peste negra como meio pence, como bagas... (Davies, 411).

Disseminação

O século XIV na Europa já havia provado ser um desastre mesmo antes da chegada da Peste Negra. Uma praga anterior havia atingido o gado e houve quebra nas colheitas devido à sobre-exploração da terra, o que levou a duas das grandes fomes em toda a Europa em 1316 e 1317. Houve, também, a turbulência das guerras, especialmente a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre a Inglaterra e a França. Até mesmo o tempo estava a piorar à medida que o ciclo excecionalmente temperado de 1000-1300 dava agora lugar ao início de uma “pequena era do gelo”, onde os invernos eram cada vez mais frios e longos, reduzindo a estação de cultivo e, consequentemente, a colheita.

Remover publicidades

Advertisement

Spread of the Black Death
Disseminação da Peste Negra
Flappiefh (CC BY-SA)

Uma praga devastadora que afetou os humanos não foi um fenómeno novo, com um sério surto tendo ocorrido em meados do século V, que devastou a área do Mediterrâneo e Constantinopla, em particular. A Peste Negra de 1347 entrou na Europa, provavelmente via Sicília, quando foi transportada para lá por quatro navios genoveses infestados de ratos, que navegavam de Caffa, no Mar Negro. A cidade portuária esteve cercada por tártaro-mongóis que catapultaram cadáveres infetados para dentro da cidade e foi lá que os italianos apanharam a praga. Outra origem foram os comerciantes mongóis que usaram a Rota da Seda e que trouxeram a doença da sua origem na Ásia central, com a China a ser especificamente identificada após estudos genéticos em 2011 (embora o Sudeste Asiático tenha sido proposto como uma fonte alternativa, a evidência histórica real de uma epidemia causada pela peste na China durante o século XIV é fraca). Da Sicília, foi apenas um pequeno passo para o continente italiano, embora um dos navios de Caffa tivesse chegado a Génova, teve a sua entrada recusada e atracou em Marselha e, em seguida, em Valência. Assim, no final de 1349, a doença foi transportada ao longo de rotas comerciais para a França, Espanha, Grã-Bretanha e Irlanda, que testemunharam os seus terríveis efeitos. Espalhando-se como um incêndio florestal, atingiu a Alemanha, a Escandinávia, os estados Bálticos e a Rússia entre 1350-1352.

Remover publicidades

Advertisement

APESAR DE SE ESPALHAR SEM VERIFICAÇÃO, A PESTE NEGRA ATACOU ALGUMAS ÁREAS MUITO MAIS GRAVEMENTE DO QUE OUTRAS.

Os médicos medievais não faziam ideia de organismos microscópicos como as bactérias e, por isso, eram impotentes em termos de tratamento e, onde poderiam ter mais chances de ajudar as pessoas, na prevenção, eram prejudicados pelo nível de saneamento, que era terrível em comparação para os padrões modernos. Outra estratégia útil teria sido colocar áreas de quarentena. Mas, como as pessoas fugiam em pânico sempre que surgia um caso de peste, elas, sem saber, transportavam a doença com elas e espalhavam-na ainda mais; os ratos fizeram o resto.

Houve tantas mortes e tantos corpos que as autoridades não sabiam o que fazer com eles e carroças cheias de cadáveres tornaram-se uma visão comum em toda a Europa. Parecia que o único curso de ação era ficar parado, evitar as pessoas e rezar. A doença finalmente seguiu o seu curso por volta de 1352, mas voltaria a reaparecer, em surtos menos graves, durante o resto do período medieval.

Taxa de Mortalidade

Apesar de se espalhar sem verificação, a Peste Negra atingiu algumas áreas muito mais gravemente que outras. Este facto e o número de mortos muitas vezes exagerado de escritores medievais (e alguns modernos) significa que é extremamente difícil avaliar com precisão o número total de mortos. Às vezes cidades inteiras, por exemplo, Milão, conseguiam evitar efeitos significativos, enquanto outras, como Florença, eram devastadas - a cidade italiana perdeu 50.000 da sua população de 85.000 (Boccaccio alegou o valor impossível de 100.000). Paris foi dito como tendo enterrado 800 mortos por dia no seu pico, mas outros lugares, de alguma forma, não viram a carnificina. Em média, 30% da população das áreas afetadas foi morta, embora alguns historiadores prefiram um número próximo a 50%, e este foi provavelmente o caso nas cidades mais afetadas. Os valores do número de mortos variam, portanto, de 25 a 30 milhões na Europa entre 1347 e 1352. A população da Europa não voltaria aos níveis anteriores a 1347 até cerca de 1550.

Remover publicidades

Advertisement

Citizens of Tournai Bury Their Dead
Cidadãos de Tournai Enterram os Seus Mortos
Pierart dou Tielt (Public Domain)

Consequências Sociais

As consequências de um número tão grande de mortes foram graves e, em muitos lugares, a estrutura social da sociedade entrou em colapso. Muitas áreas urbanas menores atingidas pela peste foram abandonadas pelos seus moradores, que procuravam segurança no campo. A autoridade tradicional - tanto governamental quanto da igreja - foi questionada sobre como tais desastres poderiam acontecer a um povo? Os governadores e Deus não eram de alguma forma responsáveis? De onde veio esse desastre e porque foi tão indiscriminado? Ao mesmo tempo, a piedade pessoal aumentou e as organizações de caridade floresceram.

NA AGRICULTURA, AQUELES QUE PODIAM TRABALHAR ESTAVAM EM POSIÇÃO DE PEDIR SALÁRIOS & A INSTITUIÇÃO DA SERVIDÃO ESTAVA PERDIDA.

A Peste Negra, como o nome sugere, recebeu uma personificação para ajudar as pessoas a entender o que estava a acontecer com elas, geralmente sendo retratada na arte como o Ceifador de Almas, um esqueleto a cavalo cuja foice corta indiscriminadamente as pessoas no seu auge. Muitas pessoas ficaram simplesmente perplexas com o desastre. Alguns pensaram que era um fenómeno sobrenatural, talvez ligado ao avistamento do cometa em 1345. Outros culparam os pecadores, especialmente os Flagelantes da Renânia, que desfilaram pelas ruas chicoteando-se e chamando os pecadores a arrependerem-se para que Deus pudesse suspender este terrível castigo. Muitos pensaram que era um truque inexplicável do Diabo. Outros ainda culpavam os inimigos tradicionais, e preconceitos ancestrais foram alimentados, levando a ataques e até massacres de grupos específicos, notadamente os judeus, milhares dos quais fugiram para a Polónia.

Remover publicidades

Advertisement

History's Deadliest Pandemics
As Pandemias mais Mortais da História
South Front (See Original Source)

Mesmo depois da crise ter passado, havia agora problemas práticos a serem enfrentados. Sem trabalhadores suficientes para atender às necessidades, os salários e os preços dispararam. A necessidade de cultivar para alimentar as pessoas provou ser um sério desafio, assim como a enorme queda na procura por produtos manufaturados, pois havia muito menos pessoas para comprá-los. Especificamente na agricultura, aqueles que podiam trabalhar estavam em posição de pedir salários e a instituição da servidão, em que um trabalhador pagava aluguer e homenagem a um senhorio e nunca se mudava estava condenada. Nasceu uma força de trabalho mais flexível, mais móvel e mais independente. Seguiu-se a agitação social e, muitas vezes, rebeliões abertas eclodiram quando a aristocracia tentou lutar contra essas novas exigências. Motins notáveis ocorreram em Paris em 1358 EC, em Florença em 1378 e em Londres em 1381. Os camponeses não conseguiram tudo o que queriam de forma alguma e um pedido de redução de impostos foi um fracasso significativo, mas o antigo sistema de feudalismo havia desaparecido.

Após as grandes fomes em 1358 e 1359 e o ressurgimento ocasional, embora menos severo, da peste em 1362-3, e novamente em 1369, 1374 e 1390, a vida diária da maioria das pessoas melhorou gradualmente até o final do 1300s. O bem-estar geral e a prosperidade do campesinato também progrediram à medida que uma população reduzida reduzia a competição por terra e recursos. Os aristocratas proprietários de terras também não demoraram a reivindicar as terras não reclamadas daqueles que haviam morrido e mesmo os camponeses em ascensão podiam considerar o aumento das suas propriedades. As mulheres, em particular, ganharam alguns direitos de propriedade que não tinham antes da peste. As leis variavam dependendo da região, mas, em algumas partes da Inglaterra, por exemplo, aquelas mulheres que perderam os maridos foram autorizadas a manter as suas terras por um certo período até se casarem novamente ou, noutras jurisdições mais generosas, se elas se casaram novamente, então não perderam os bens do falecido marido, como acontecia anteriormente. Embora nenhuma destas mudanças sociais possa estar diretamente ligada à própria Peste Negra e, de facto, algumas já estavam em andamento mesmo antes da chegada da praga, a onda de choque que a Peste Negra causou à sociedade europeia foi certamente um fator contribuinte e acelerador das mudanças que ocorreram na sociedade enquanto a Idade Média chegava ao fim.

Remover publicidades

Publicidade

Sobre o tradutor

Joana Mota
Sou portuguesa e, atualmente, vivo em Portugal. Sou estudante de mestrado e futura farmacêutica. Adoro ler sobre história. Acho que o passado é incrivelmente fascinante.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é um historiador que vive na Itália. Seus interesses incluem cerâmica, arquitetura, mitologia e a descoberta das ideias que todas as civilizações partilham entre si. Tem Mestrado em Filosofia Política e é o Diretor de Publicação na Enciclopédia da História Mundial.

Cite este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2020, Março 28). Peste Negra [Black Death]. (J. Mota, Tradutor). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17097/peste-negra/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Peste Negra." Traduzido por Joana Mota. World History Encyclopedia. Última modificação Março 28, 2020. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-17097/peste-negra/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Peste Negra." Traduzido por Joana Mota. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 28 Mar 2020. Web. 04 Ago 2021.