Reações à Peste nos Mundos Antigo e Medieval

Artigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
publicado em 31 Março 2020
X
translations icon
Disponível noutras línguas: Inglês, francês, espanhol

Através da história, epidemias e pandemias de Peste e outras doenças espalharam o pânico e desordem social e, em algumas situações, mesmo quando as pessoas de um lugar tinham conhecimento de uma infecção se espalhando em outras regiões. No caso da Peste de Justiniano (541-542 d.C. e após), por exemplo, os moradores de Constantinopla sabiam da ocorrência da Peste no Oriente Próximo, por pelo menos dois anos antes que ela atingisse a cidade, mas não tomaram nenhuma providência, porque não a consideravam um problema deles.

Depois que a doença atacava, as pessoas ficavam perplexas, pois acreditavam que o que acontecia a outras pessoas em outros lugares, possivelmente não aconteceria com elas. Não havendo ainda o conceito da teoria microbiana, ninguém entendia a causa desses surtos ou como eles se disseminavam, o que levava a se atribuir a doença a causas sobrenaturais e à ira dos deuses ou de Deus.

Remover publicidades
Advertisement

Franciscan Monks Treat Victims of Leprosy
Monges Franciscanos Cuidam de Vítima de Hanseníase
Unknown Author (Public Domain)

As maiores epidemias e pandemias dos mundos antigo e medieval para as quais existem relatos de testemunhas presenciais, foram:

Destas, as três primeiras parecem não ter sido Peste, mas Varíola ou Tifo. Mesmo assim, o testemunho presencial das primeiras epidemias referia-se a elas como Peste – ao médico romano Galeno (*130 +210 d.C.) credita-se criar a palavra Peste ao definir o surto Antonino – e, portanto, são elas consideradas, nas discussões do mesmo sentido como eventos posteriores, como Peste, especialmente em termos das reações das pessoas para crises.

as reações diferiram muito pouco através dos século e, em cada situação, surgiram paradigmas semelhantes.

As respostas pouco diferiram durante séculos, desde a Peste de Atenas (429-426 a.C.) até à Morte Negra (1347-1352) e, em todos os exemplos, surgiram paradigmas semelhantes, incluindo prós e contras à religião, distanciamento ou aproximação íntima com outras pessoas, esperança e desespero. A única grande diferença entre as primeiras Pestes e a Morte Negra, no entanto, foi a consequente mudança nos paradigmas religiosos e sociais, após a Peste do século XIV, que finalmente conduziria ao movimento renascentista.

Remover publicidades
Advertisement

Peste de Atenas

A fonte primária de informação da Peste de Atenas é o historiador Tucídides (*460/455 +399/398 a.C.) que afirma ter a doença chegado a Atenas através do porto de Pireu, espalhando-se rapidamente por toda a cidade. Atenas travava a Segunda Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.) com Sparta e Péricles (*495 +429 a.C.) havia recentemente ordenado uma retirada atrás das muralhas da cidade, inadvertidamente fornecendo um meio ideal para a disseminação de doença.

À medida que mais e mais pessoas se tornavam infectadas, o desespero entre a população subiu com o número de mortos. Na sua História da Guerra do Peloponeso, Tucídides escreve:

Remover publicidades
Advertisement

O mais aterrorizante aspecto de toda aflição era o desespero, surgido quando alguém compreendia que estava com a doença: a pessoa imediatamente perdia a esperança e, por suas atitudes emocionais, era muito mais plausível deixá-los ir e não resistir... Se as pessoas se sentissem aterrorizadas e relutantes em se aproximar dos outros, morriam isoladas, e muitas casas perdiam todos os seus moradores pela falta de alguém que deles cuidasse. Os que se aproximavam de outros doentes morriam, especialmente aqueles com suposta virtude, os quais a partir de um sentimento de honra não se pouparam em visitar seus amigos. (Tucídides II.vii.3-54; Grant,78)

Plague in an Ancient City
A Peste em uma Cidade Antiga
Los Angeles County Museum of Art (Public Domain)

Tucídides, mais à frente, relata que muitas pessoas vinham do campo para a cidade à procura de ajuda, porém sem lugar para viverem acabaram por montar cabanas muito próximas umas das outras, o que somente elevou o perigo do surto se espalhar ainda mais. O pânico e a terrível natureza da epidemia, levaram rapidamente a uma ruptura nos hábitos e tradições sociais e ao desrespeito às leis:

Os santuários nos quais as pessoas estavam acampadas encontravam-se cheios de cadáveres... o desastre era esmagador e, como ninguém sabia o que aconteceria com eles, davam-se a negligenciar tanto o sagrado, como o profano. Todos os ritos funerários que eram seguidos anteriormente acabavam em confusão e o morto era enterrado da maneira possível... dentro de outros aspectos, também, a Peste marcou o início de uma grande desordem na cidade. As pessoas... achavam razoável concentrarem-se no lucro e prazer imediatos, acreditando que seus corpos e seus bens teriam vida curta. (Tucídides II.vii.3-54; Grant,79)

A epidemia se foi por si só – após um tributo de 75.000-100.000 mortos – e a vida prosseguiu em Atenas, mais ou menos como era antes. Este seria o paradigma de regiões atingidas, mais tarde, pela doença, porém a religião assumiria um grande papel na Peste Antonina.

Peste Antonina

A Peste Antonina (165-c.180/190 d.C.) foi relatada primeiro por Galeno, mas mencionada por Dion Cassius (*c.155 +c.235 d.C.) e outros. Ela atacou o Império Romano durante o governo de Marco Aurélio (rein. 161-180 d.C) e Lucius Verus (rein. 161-169 d.C.), e foi assim chamada devido ao nome da família de Aurélio, os Antoninos. Estimativas conservadoras colocam o número de mortos na casa dos 5 milhões, embora possa ter chegado a algo como 7-10 milhões e incluiu tanto Aurélio, como Verus. A doença, provavelmente Varíola, foi levada a Roma pelos soldados em campanha no Leste, especificamente aqueles que participaram do sítio da cidade de Selêucia no inverno de 165-166 d.C.

Remover publicidades
Advertisement

Embora Galeno seja a fonte primária, ele se detém quase que exclusivamente no tratamento da doença, ao invés de seus efeitos. Tucídides escreveu para “fornecer um relato no que [a Peste] era semelhante e o que as pessoas podem estudar, caso ela venha a atacar novamente” (Grant, 77), porém Galeno, como médico, relatou seus tratamentos seguindo o mesmo método que utilizava para todos os outros procedimentos curativos.

Portrait of Seven Notable Greek Physicians & Botanists
Retrato de Sete Distintos Médicos e Botânicos Gregos
Lewenstein (Public Domain)

Havia pouco a fazer para muitos dos pacientes de Galeno, muito embora continuasse a tratar a qualquer um que o procurasse, porque ele não entendia como lidar com a aflição em si e somente podia se dedicar aos sintomas, muitos dos quais ele descreve em detalhe.

Dion Cassius descreve o surto como “a maior das pragas que conheço” e relata 2.000 pessoas morrendo diariamente (Parrkin & Pomeroy, 54). No entanto, ele não fornece detalhes de como as pessoas reagiam à doença. As observações de Galeno são mais informativas, pois descrevem as histórias de seus pacientes, colocando em evidência os elevados níveis de ansiedade e depressão na população. Susan Matern comenta:

Remover publicidades
Advertisement

Galeno reconheceu os estados emocionais como fatores importantes na doença. Alguns problemas eram, para Galeno, na origem puramente emocionais (enquanto outros, foram exacerbados pelo estado emocional da pessoa). A ansiedade, junto com a angústia, são as mais frequentes emoções citadas por Galeno como causa de doença. Ansiedade e angústia podiam ser causa ou intensificar (problemas) e junto com a dieta, temperamento, modo de vida e fatores ambientais podiam contribuir para um grande número de doenças febris. A ansiedade, em particular, podia desencadear uma síndrome, muitas vezes fatal, de insônia, febre e debilidade. (479)

As pessoas, naturalmente, experimentavam elevados níveis de ansiedade a respeito da Peste junto com a frustração de como ela poderia ser interrompida – ou, pelo menos, tratada – e angústia a respeito do que estava acontecendo. Esses sentimentos negativos, combinados com os efeitos econômicos da Peste, pois à medida que tantas pessoas morriam, as rendas oriundas dos impostos diminuíam e o governo esforçava para se manter, enquanto as safras não eram colhidas, com redução no suprimento de alimentos com consequente elevação nos preços dos que estavam disponíveis.

os cristãos cuidavam dos doentes e a coragem que demonstravam em face à disseminação da doença e das mortes levou mais convertidos ao cristianismo

Embora não registrado especificamente, a angústia também se voltava na direção dos deuses. A religião romana era patrocinada pelo estado e funcionava dentro do conceito do quid pro quo (“uma coisa pela outra”): as pessoas veneravam e faziam sacrifícios para os deuses e os deuses cuidavam do povo; no caso da Peste, os deuses haviam claramente falhado no lado da troca que seria deles.

Aurélio culpou os cristãos por irritarem os deuses ao se recusarem a participar nos rituais religiosos e, portanto, iniciou a perseguição contra eles. Os cristãos responderam cuidando dos doentes e moribundos, demonstrando nenhum temor pela morte, porque a fé deles lhes assegurava incondicionalmente uma vida eterna para além da existência presente. A coragem demonstrada por eles frente à disseminação da doença e das mortes, levou a maiores conversões ao cristianismo, enfraquecendo a religião do estado, consequentemente enfraquecendo o próprio estado. Este paradigma se repetiria durante a Peste de Cipriano.

Peste de Cipriano

A Peste de Cipriano (250-266 d.C.), assim chamada pelo clérigo que a documentou. São Cipriano (+258 d.C.), em seu livro Sobre a Mortalidade, descreve os sintomas da Peste, as reações das pessoas a respeito dela e encoraja os cristãos a não a temerem, pois a morte é somente uma transição do mundo presente de pecado e dor para a vida eterna no Paraíso. Cipriano descreve os sintomas em detalhes, ao mesmo tempo encoraja seus companheiros cristãos a terem a doença como uma oportunidade para viver a fé completamente:

Que grandeza de alma é combater com os poderes da mente, inabalável perante tão grandes ataques de devastação e morte, quão sublime é permanecer ereto em meio às ruínas da raça humana e não prostrar como os que não possuem nenhuma esperança em Deus, regozijar-se e acolher a dádiva da ocasião, a qual, enquanto estivermos firmemente demonstrando nossa fé e tendo suportado os sofrimentos, avançamos para Cristo pelo caminho estreito de Cristo. (Capítulo 14)

A epidemia mostrou-se difícil para ser manejada porque ela atingiu o período conhecido agora como a Crise do Terceiro Século (235-284) quando Roma ficou desestabilizada, com a perda de grandes territórios, que se tronaram estados independentes. Ao mesmo tempo, o Império sentiu a falta de grandes lideranças. Durante esse tempo, os denominados “imperadores de caserna” eram empossados pelos militares e depostos rapidamente quando parecia que eles não viviam à altura de sua promessa inicial, contribuindo para a instabilidade do imperial.

Icon of St. Cyprian
Ícone de São Cipriano
Unknown Artist (Public Domain)

Durante toda essa crise, a comunidade cristã novamente assumiu a responsabilidade de cuidar dos doentes e dos moribundos – além de encorajar a conversão e apoio à religião – e, mais ainda, levando em conta que do clero pagão haviam morrido, foi deixado ao clero cristão, como a Cipriano, interpretar e escrever a respeito do surto em termos cristãos. Como na Peste Antonina, parecia que os deuses tradicionais de Roma falharam ao povo, mas, dessa vez, nenhum imperador teve tempo ou recursos para se devotar a uma perseguição e o cristianismo se espalhou muito mais que antes.

O surto é estimado ceifando 5.000 vidas diariamente, enfraquecendo ainda mais o Império Romano e dando força aos cristãos. Mais artesãos, fazendeiros e soldados foram perdidos nesta epidemia do que na Peste Antonina, mas um ataque mais violento estaria por vir com a Peste Justiniana.

Peste de Justiniano

A Peste de Justiniano é o primeiro caso de Peste Bubônica documentado. A causa só foi identificada em 1894 como causada pela bactéria Yersinia pestis transmitida pelas pulgas dos roedores, principalmente ratos, transportados junto com mercadorias através das rotas de comércio e pelos trens de suprimentos de tropas. Recebeu este nome devido ao Imperador Bizantino Justiniano I (rein.527-565) que governava de Constantinopla naquela época e relatada pelo historiador Procópio (*500 +565) que escrevia em seu reino.

Three Doctors Attend a Man with the Plague
Três Médicos Atendem um Homem com a Peste
Historical Medical Library of The College of Physicians of Philadelphia (CC BY-NC-SA)

Imagina-se que a Peste tenha se originado na China (como também as duas anteriores) e viajou através da Rota da Seda para o Ocidente. Ao que parece atingiu primeiro o Oriente Próximo – especialmente a Pérsia (Irã) – antes de chegar a Constantinopla e onde iria arrebatar 50 milhões de vidas. Procópio atribui o surto a causas sobrenaturais, especificamente irritadas com Justiniano I por seu injusto e incompetente reinado e, em sua História das Guerras, afirma que muitas vítimas foram, inicialmente, visitadas por uma visão:

Aparições de seres sobrenaturais com aparência humana foram vistas por muitas pessoas em todas as descrições e aquelas que os encontraram, imaginavam que foram tocadas pelas criaturas, nessa ou naquela parte do corpo e imediatamente após verem tal aparição, eram tomados pela doença...Mas no caso de alguns, a pestilência não chegava desse jeito, mas tinham uma visão em um sonho e parecia que sofriam das mesmas coisas nas mãos da criatura que os vigiava, ou, ao contrário, ouvindo uma voz dizendo que eles haviam sido inscritos nos números dos que iriam morrer. Porém com a maioria acontecia que haviam sido tocados pela doença, sem se conscientizarem pelo que estava por vir, tanto por meio de uma visão quando acordado ou em um sonho. (II.x,xii.11-17; Lewis, 470-471)

Essa Peste também encorajou a devoção cristã, pois a fé já se encontrava bem estabelecida por esta época. Ainda assim, o recém-descoberto cuidado permaneceu, enquanto a pestilência devastava. Procópio relata:

Naquela época, também, as pessoas que antigamente haviam pertencido a facções, deixaram de lado a inimizade mútua... eles, em outras épocas, tinham por hábito perseguirem uns aos outros vergonhosa e vulgarmente, agora abandonaram a maldade de suas vidas diárias e passaram a praticar as obrigações religiosas com dedicação... mas todos, por assim dizer, aterrorizados por tudo que estava acontecendo e supondo que poderiam vir a morrer imediatamente, aprenderam a se respeitarem por uma temporada por absoluta necessidade. E aí, tão logo se viram livres da doença e salvos, e supondo que se encontravam em segurança, pois a maldição havia se mudado para outros lugares, rapidamente retornaram mais uma vez à baixeza de seus corações... ultrapassando-se mútua e completamente em vilania e anarquia de todo tipo. (II.xxiii.15-19; Lewis, 476)

A única medida efetiva que hoje se conhece, como distanciamento social e quarentena dos doentes, no entanto, de acordo com Procópio, isto foi feito voluntariamente pelas pessoas, pois Justiniano I se encontrava muito mais preocupado com seus próprios interesses do que assumir responsabilidade para cuidar de seu povo. A Peste enfraqueceu gravemente o Império Bizantino da mesma maneira que os surtos anteriores haviam danificado suas respectivas regiões, mas, ao contrário das epidemias do passado, não houve nenhum indício de perda disseminada da fé religiosa.

Oriente Próximo e Peste Romana

Tendo exaurido a população do Império Bizantino, a Peste retornou ao Oriente Próximo assolando-o, quase continuamente, de 562 a 749. Infelizmente, sobreviveram poucos relatos de testemunhas presenciais e histórias posteriores da Peste são incompletas. Os especialistas no assunto se baseiam no mais famoso surto, a Peste de Sheroe (627-628), que matou o rei sassânida Kavad II (nome de nascimento, Sheroe, rein. 628) e contribuiu para a queda do Império Sassânida.

o papa gregório, o grande, decretou que a doença era uma punição de deus pelos pecados da humanidade e que o povo devia se arrepender e demonstrar contrição.

Documentações melhores existem para a Peste Romana de 590. Novamente, a religião exerceu papel importante na tentativa de resistir à Peste, mas, como os registros vieram somente dos clérigos cristãos, podem ter sido tomadas outras medidas que não foram registradas ou foram perdidas. Como a Peste de Justiniano, este surto foi uma combinação dos três tipos letais: bubônica, septicêmica e pneumônica.

Existem poucos escritos a respeito dessa epidemia – até o número de mortos é desconhecido – fora dos comentários cristãos, os quais relatam que o Papa Gregório, o Grande (*540 +604) decretou que a doença era uma punição de Deus pelos pecados da humanidade e que o povo precisava se arrepender e mostrar contrição. Com relação a isso, procissões penitenciais caminharam pelas ruas de Roma até o santuário da Virgem Maria pedindo por intercessão e misericórdia. Essas procissões acabaram por espalhar mais ainda a Peste, mas, como ninguém tinha conhecimento da teoria dos germes, elas receberam o mérito por encerrar a doença quando já tinha encerrado seu avanço, do mesmo modo que as pessoas inicialmente depositaram suas esperanças nos rituais religiosos durante a Peste Negra.

Peste Negra

A Peste Negra é o mais famoso surto na história. Embora os relatos atuais da doença rotineiramente têm seu foco na Europa, ela também devastou o Oriente Próximo entre 1346-c.1360. Esse surto foi também uma combinação de todos os três tipos de Peste e foi referida como “a pestilência” pelas pessoas que viveram durante seu surto. O termo Peste Negra não existia anteriormente a 1800 e foi criado em referência aos bubões negros, os quais apareciam na pele da virilha, axilas e em volta dos ouvidos como resultado do edema dos linfonodos. A doença ceifou as vidas de aproximadamente 30 milhões de pessoas na Europa e possivelmente uns 50 milhões ou mais no mundo. A historiadora Bárbara Tuchman, a respeito da reação da população, cita o escritor Agnolo di Tura de Siena, que presenciou toda a pandemia:

Pai abandonava o filho, esposa o marido, um irmão ao outro, pois esta Peste parecia atacar através do respirar e da visão. E então, morriam. E não se encontrava ninguém para os mortos enterrar, nem por amizade, nem por dinheiro. E eu... enterrei meus cinco filhos com minhas próprias mãos e assim muitos outros fizeram o mesmo. (96)

Tuchman continua:

Muitos ecoaram seu relato de desumanidade e poucos para manter a situação em equilíbrio, pois a Peste não foi um tipo de calamidade que inspirou auxílio mútuo. Sua asquerosidade e sua mortalidade não mantinha as pessoas juntas no sofrimento mútuo, mas somente instigava o desejo de fugirem uns dos outros. (96)

Além do mais, países ou nacionalidades ainda não infectados, aproveitaram a infelicidade dos outros e planejaram invasões, no momento em que seus vizinhos se encontravam na maior fraqueza, ao invés de oferecer auxílio. Como Tuchman observa, no entanto, “Antes que se pusessem em movimento, a selvagem mortandade caiu sobre eles também, alastrando alguns para a morte e o resto para o pânico disseminando a infecção” (97). A Peste espalhou tão rapidamente, e matou tantas pessoas, que os ritos de inumação e os rituais mortuários foram abandonados e as pessoas procuravam quaisquer meios que pareciam os melhores para sobreviverem ou aproveitar o pouco tempo que ainda tinham.

Spread of the Black Death
Disseminação da Peste Negra
Flappiefh (CC BY-SA)

O escritor e poeta italiano Giovanni Boccaccio (*1313 +1375), autor do Decameron, que narra os contos de um grupo de dez pessoas tentando escapar da Peste por isolamento, descreve na introdução as diversas maneiras como as pessoas reagiram à pestilência:

Havia algumas pessoas que imaginavam que vivendo moderadamente e evitando qualquer excesso, poderiam conseguir uma excelente situação na resistência à doença, e assim reuniam-se em pequenos grupos e viviam inteiramente afastados de todos. Eles se trancaram nas casas nas quais não havia ninguém doente e onde poderiam viver bem, comendo os mais delicados alimentos e bebendo do mais fino dos vinhos, não permitindo que ninguém falasse ou ouvisse nada a respeito de doente ou de morto de fora... Outros pensavam de maneira oposta: acreditavam que beber excessivamente, aproveitando a vida, passear cantando e celebrando, satisfazendo, de todas as maneiras, os apetites o melhor que se puder, rindo e fazendo pouco caso de tudo que aconteceu, era o melhor remédio para a doença... Muitos outros adotaram uma posição equilibrada entre as duas atitudes descritas: eles não se isolaram, mas passeavam levando flores nas mãos ou ervas aromáticas ou várias espécies de condimentos e frequentemente colocavam essas coisas no nariz, acreditando que esses cheiros eram meios maravilhosos de purificar o cérebro, pois o ar como um todo parecia infectado com fedor dos cadáveres, dos doentes e dos remédios. (7-8)

No entanto, as pessoas escolheram reagir nas suas próprias vidas e a resposta comunal foi uma crise de fé desde que sentiram que Deus – a quem pensavam ter enviado a Peste – se recusava a responder a quaisquer apelos para aliviar ou terminar com ela. O povo culpava o demônio pelo surto e também aos grupos marginalizados, como os judeus – os quais viviam afastados dos cristãos em suas próprias comunidades, portanto não suscetíveis à infecção e, portanto, suspeitos de causá-la – mas, Deus foi tido como o principal responsável.

As pessoas viam os sacerdotes, médicos e cuidadores – que se colocavam também em perigo pelo bem de outros – morrendo diariamente e perderam a fé em Deus que deveria poupar aqueles que havia aparentemente escolhido para socorrer a maioria na crise. Esta virada na fé iria finalmente focar as pessoas na experiência humana, ao invés do plano divino e iria encontrar expressão na Renascença. Diferente da cidade de Atenas após a Peste séculos antes, o mundo não reassumiu seu estado anterior, mas foi transformado pelos sobreviventes em algo inteiramente novo.

Conclusão

Todas as testemunhas desses surtos descrevem a experiência como o pior evento de suas vidas ou o fim do mundo - como isso parece ter parecido – e logo em seguida as pessoas adaptaram-se às perdas e seguiram em frente. O mundo que essas pessoas conheceram foi completamente alterado, porém perseveraram e deram conta em construir um novo para eles mesmos. Como o poeta americano Theodore Roethke (*1908 +1963) disse, “Em um tempo escuro, os olhos começam a enxergar”, e as pessoas que sobreviveram à Peste Negra viram a possibilidade de um novo modo de vida e compreenderam o mundo e as outras pessoas.

Cada nova realidade criada por essas Pestes, apear da dura experiência, ofereceu aos sobreviventes a oportunidade para mudarem sua maneira de pensar e viver e abraçar algum novo paradigma. Nas Pestes de Roma houve uma transição da religião tradicional do estado para a nova fé do cristianismo, enquanto que, com a Peste Negra, foi um afastamento daquela fé, a qual já havia, naquela época se tornado institucionalizada, para uma nova descoberta da visão humanista do mundo. Em todo caso, no entanto, os sobreviventes foram deixados com uma escolha como a espécie de mundo que desejavam para viver no pós crise: continuar com seu entendimento anterior ou abraçar um novo.

Remover publicidades
Publicidade

Bibliografia

A World History Encyclopedia é um associado da Amazon e recebe uma comissão sobre as compras de livros elegíveis.

Sobre o tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o autor

Joshua J. Mark
Escritor freelance e ex-professor de filosofia em tempo parcial no Marist College, em Nova York, Joshua J. Mark viveu na Grécia e na Alemanha e viajou pelo Egito. Ele ensinou história, redação, literatura e filosofia em nível universitário.

Citar este trabalho

Estilo APA

Mark, J. J. (2020, Março 31). Reações à Peste nos Mundos Antigo e Medieval [Reactions to Plague in the Ancient & Medieval World]. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1534/reacoes-a-peste-nos-mundos-antigo-e-medieval/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Reações à Peste nos Mundos Antigo e Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. Última modificação Março 31, 2020. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1534/reacoes-a-peste-nos-mundos-antigo-e-medieval/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Reações à Peste nos Mundos Antigo e Medieval." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 31 Mar 2020. Web. 17 Abr 2024.