Fantasmas no Mundo Antigo

Definição

Joshua J. Mark
por , traduzido por Ricardo Albuquerque
publicado em 30 Outubro 2014
Disponível noutras línguas: Inglês, bengali, francês, alemão, italiano, espanhol
X
Roman Skull with Obol in Mouth (by Falconaumanni, CC BY-SA)
Crânio Romano com Óbolo na Boca
Falconaumanni (CC BY-SA)

A crença na vida após a morte era central para cada uma das principais civilizações do mundo antigo e isso encorajou o reconhecimento da realidade dos fantasmas como espíritos dos falecidos que, por uma razão ou outra, ou retornavam do além-túmulo ou se recusavam a deixar a terra dos vivos.

Para as pessoas da época, não havia dúvida de que a alma de um ser humano sobrevivia após a morte corporal. Seja quais fossem as opiniões pessoais em relação ao assunto, culturalmente eram criados com a compreensão de que os mortos viviam em outra forma, que ainda requeria algum tipo de sustento. Vários fatores ditavam qual vida após a morte se teria: seu comportamento na terra, como seus restos fossem dispostos após o falecimento e/ou como eram lembrados pelos vivos.

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Os detalhes da vida pós-morte variam de acordo com as diferentes culturas. Constante apenas é crença de que tal reino existia, que era governado por leis imutáveis e que as almas dos mortos permaneceriam lá a não ser que tivessem licença dos deuses para retornar à terra dos vivos por alguma razão específica. Entre estas razões estariam rituais funerários inadequados; falta de sepultamento; morte por afogamento na qual o corpo não fosse recuperado; assassinato no qual a vítima não fosse descoberta jamais (e portanto ficasse sem sepultamento adequado); ou para lidar com questões mal resolvidas ou fornecer um relato real dos eventos relativos à sua morte, como, por exemplo, alguém assassinado e que precisa de vingar sua morte, levando o assassino à justiça para poder descansar em paz.

A aparência dos fantasmas dos falecidos, mesmo aqueles amados, raramente representava uma experiência bem-vinda. Supunha-se que os mortos permaneceriam em seu próprio reino e não se esperava que atravessassem de volta ao mundo dos vivos. Quando tal evento ocorria, tratava-se de um sinal conclusivo de que alguma coisa estava terrivelmente errada. Quem experimentavam um encontro espiritual deveria cuidar do problema para que o fantasma retornasse à sua devida morada.

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Este entendimento era tão prevalente que histórias de fantasmas podem ser encontradas, com enredos muito similares, nas antigas culturas da Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, China e Índia, bem como em regiões da Mesoamérica e nas regiões célticas da Irlanda e Escócia. Os fantasmas também são retratados na Bíblia de maneira muito semelhante às obras romanas iniciais. O que apresentamos a seguir não representa um tratamento abrangente do assunto. Existem vários livros sobre a crença em fantasmas em cada uma das culturas mencionadas e em muitas que não são. O propósito deste artigo é somente proporcionar aos leitores os conceitos básicos da vida após a morte e da crença em fantasmas no mundo antigo.

Fantasmas na Mesopotâmia

Os fantasmas podiam aparecer a pessoas na terra para corrigir algum tipo de erro.

Na cultura mesopotâmica, a morte era o ato final da vida, da qual não havia retorno. A terra dos mortos era conhecida por muitas denominações; entre eles, Irkalla, o reino sob a terra conhecido como a "terra sem volta", onde as almas dos mortos residiam numa triste escuridão, comiam terra e bebiam de poças de lama (embora houvesse outras imagens da vida após a morte, como a que aparece na obra Gilgamesh, Enkidu e o Mundo dos Mortos).

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Esta existência seria o ato final para todos os vivos, independente de quão ricos ou pobres tivessem sido, e estava sob o controle da sombria rainha Ereshkigal. Nenhuma alma tinha permissão de deixar Irkalla sob qualquer razão, nem mesmo uma deusa, como exemplificado pelo poema A Descida de Inanna, no qual mesmo a Rainha dos Céus (e irmã de Ereshkigal), Inanna, deveria encontrar um substituto para ficar em seu lugar uma vez que ela retornava ao mundo dos vivos. Porém, as almas que precisavam completar algum tipo de missão recebiam uma dispensa especial. Os fantasmas poderiam aparecer para pessoas na terra quando se acreditava que havia a necessidade de corrigir algum tipo de erro.

Queen of the Night or Burney's Relief, Mesopotamia
Rainha da Noite ou Relevo de Burney, Mesopotâmia
Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Estas aparições geralmente se manifestavam como uma doença entre os vivos. O acadêmico Robert D. Biggs assinala:

Os mortos – especialmente os parentes – podiam também atormentar os vivos, particularmente se as obrigações familiares do fornecimento de oferendas a eles fossem neglicenciadas. Especialmente passíveis de retorno para afligir os vivos estavam os fantasmas de pessoas que tivessem morrido de mortes antinaturais ou que não fossem sepultados apropriadamente - por exemplo, a morte por afogamento ou no campo de batalha. (4)

Os médicos da Mesopotâmia, conhecidos como Asu e Asipu, empregavam feitiços que aplacariam os fantasmas mas, antes que tal tratamento começasse, eles pediriam ao paciente para confessar honestamente quaisquer pecados que pudessem ter atraído o fantasma de volta do submundo. Na Mesopotâmia, as doenças eram consideradas uma manifestação externa da punição dos deuses ou dos espíritos dos falecidos por algum pecado. Presumia-se que quem os doentes seriam responsáveis pela falta até que se provasse o contrário.

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Após a morte de alguém, surgia uma entidade espiritual conhecida como Gidim, que mantinha uma identidade pessoal com o falecido e viajava para a terra dos mortos. Seria esse Gidim que retornaria para assombrar os vivos caso os ritos funerários e sepultamento não tivessem sido realizados apropriadamente ou se houvesse algum ato ilegal relacionado à morte da pessoa. As inscrições deixam claro, porém, que algumas vezes o Gidim, perversamente, escapava de Irkalla para visitar a terra e molestava os vivos sem nenhuma razão especial.

Estes espíritos corriam o risco de serem punidos pelo deus solar Shamash, que transferiria as oferendas funerárias feitas a eles e as concedia a um Gidim que não tinha quem os lembrasse na terra e que, portanto, não dispunha de oferendas para a continuidade de sua existência. Ainda que haja registros de pessoas amadas retornando da vida após a morte com avisos ou conselhos, a maioria dos fantasmas da Mesopotâmia eram convidados incômodos que precisavam ser enviados de volta ao seu reino com o uso de encantamentos, amuletos, orações e exorcismo.

Fantasmas Egípcios

Os vivos atormentados pelo fantasma teriam de apelar diretamente ao espírito retornado na esperança de uma resposta razoável.

No antigo Egito, o retorno de um fantasma também era considerado uma questão muito séria. Os egípcios viam a não-existência como intolerável. Acreditava-se que, com a morte, a alma viajava para o Salão da Verdade, onde era julgada por Osíris e os Quarenta e Dois Juízes. Seu coração era pesado numa balança que tinha num dos pratos a pena branca da verdade; se fosse mais leve do que a pena, a alma prosseguia para a vida após a morte; se fosse mais pesado, era atirado ao chão e devorado pelo monstro Amut, fazendo com que a alma cessasse de existir.

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O coração de alguém seria mais leve se tivesse vivido uma vida correta e mais pesado caso isso não tivesse ocorrido. A vida após a morte era conhecida como o Campo dos Juncos, uma imagem em espelho da vida terrena no Egito. Quem chegasse lá poderia desfrutar da casa que conhecia, do riacho que passava por ela, sua árvore e cão favoritos e, portanto, não havia razão para uma alma querer retornar à terra, a não ser por um motivo muito poderoso.

Egyptian God Osiris
O Deus Egípcio Osíris
A.K. (Copyright)

Nas épocas mais antigas do Egito, a alma era vista como uma entidade singular, chamada de Khu, o aspecto imortal de cada indivíduo mas, posteriormente, esta concepção se alterou e a alma passou a ser composta por nove diferentes componentes. Dois destes componentes, o Ba e Ka (espírito e personalidade), reuniam-se após a morte na forma do Akh, a entidade que retornaria como um fantasma. Se os ritos adequados não tivessem sido observados, ou algum pecado cometido pelos vivos seja antes ou depois da morte da pessoa, o Akh recebia a autorização dos deuses para retornar à terra a fim de corrigir o erro.

Os vivos atormentados pelo fantasma teriam de apelar diretamente ao espírito retornado na esperança de uma resposta razoável e, se isso não funcionasse, precisariam da intervenção de um sacerdote, que atuaria como um juiz entre os vivos e o morto. Um exemplo disso poderia ser como, quando alguma desgraça acontecia a um viúvo, sua causa era primeiro atribuída a algum "pecado" que ele tivesse ocultado de sua esposa. Ao chegar ao Campo dos Juncos e ter um conhecimento total sobre os fatos, ela então puniria o infrator. Numa carta de um viúvo para sua esposa falecida, encontrada numa tumba da época do Novo Reinado, o homem apela para o espírito de sua esposa para deixá-lo em paz, já que era inocente de qualquer malfeito:

Qual coisa maligna teria eu feito a ti para suportar tanta maldade? O que fiz a ti? Mas o que fizeste a mim é colocar as mãos em mim, embora não tenha feito nada maligno a ti. Desde quando vivi contigo como teu marido até hoje, o que fiz a ti que precisaria esconder? Quando tu caíste doente, chamei um grande médico... Passei oito meses sem comer e beber como um homem. Chorei muito, junto com todos da minha casa, em plena rua. Dei roupas de linho para envolver-te e não deixei nenhum benefício para ti sem ser realizado. E agora, veja só, passei três anos sozinho sem entrar numa casa, embora não seja certo que alguém como eu devesse fazê-lo. Isso é o que fiz em tua memória. Mas, veja só, tu não sabes distinguir o bom do ruim. (Nardo, 32)

Se sepultado apropriadamente com os ritos adequados e relembrado continuamente, os espíritos dos mortos podiam trazer grandes benefícios para os vivos e protegê-los por toda a sua existência. Havia uma diferença significativa, porém, na compreensão egípcia de um "espírito" que residia pacificamente no Campo dos Juncos e um "fantasma" que retornava à terra.

Fantasmas na Grécia e Roma

Entendia-se que os fantasmas na antiga Roma apareceriam de certos modos previsíveis e, geralmente, em certas horas da noite.

Na antiga Grécia, a vida após a morte consistia em três reinos distintos. Quando alguém morria, uma moeda seria colocada em sua boca para pagar o barqueiro Caronte, que transportaria a alma através do rio Styx. Esta moeda não representava exatamente um “pagamento”, e sim um sinal de respeito entre a alma e os deuses – quando maior fosse seu valor, melhor seria o banco que ela conseguiria na barca de Caronte.

Uma vez que estivesse do outro lado, seria necessário passar pelo cão de três cabeças, Cérbero, e então ficar diante de três juízes para fazer um relato da sua vida. Após a história ter sido contada e os juízes conferenciarem, a alma receberia um copo com água do Rio Lete, as águas do esquecimento, o que apagaria todas as lembranças da sua antiga vida na Terra.

Os juízes designariam então um lugar para a alma: se você tivesse sido um guerreiro que morreu em batalha, iria para os Campos Elísios, um paraíso; se fosse simplesmente uma boa pessoa em vida, seu destino seria a Campo de Asfódelos, também agradável; se, ao contrário, tivesse sido uma má pessoa, então iria para a escuridão do Tártaro, onde as almas permaneciam até que expiassem os pecados cometidos em vida. Nenhuma alma “estava condenada à danação eterna”. Com o tempo, a alma no Tártaro poderia se elevar ao Campo de Asfódelos. A exemplo das culturas da Mesopotâmia e Egito, não se esperava que os mortos retornassem à terra por qualquer razão, mas algumas vezes isso acabava acontecendo. A cultura romana adotava este paradigma básico e tinha uma crença muito mais profunda em fantasmas do que os gregos.

Attic Lekythos
Lécito Ático
Peter Roan (CC BY-NC)

Na comédia Mostellaria (A Casa Assombrada), o comediógrafo romano Plauto conta a história de um rico comerciante ateniense chamado Teopropride, que viaja a negócios e deixa sua casa aos cuidados do filho, Filolache. Este vê a oportunidade de desfrutar da vida ao máximo na ausência do pai, em vez de se mostrar um gerente responsável, e faz um vultoso empréstimo para comprar a liberdade de sua amada, uma escrava. Além disso, gasta ainda mais dinheiro para promover uma grande festa para seus amigos na casa do pai.

Tudo corre bem para Filolache até que seu escravo, Trânio, avisa que soube do retorno inesperado de Teopropride, que logo estará de volta à cidade. O filho entra em pânico, sem saber o que fazer com seus convidados ou como explicará as despesas desmedidas, mas Trânio lhe garante que tudo ficará bem. Ele tranca Filolache e seus convidados na casa e encontra-se com Teopropide do lado de fora, dizendo-lhe que ele não pode entrar porque se descobriu que a residência está assombrada. Segundo seu relato, um fantasma apareceu a Filolache num sonho, no meio da noite, enquanto as tochas ainda estão acesas, e lhe informou que tinha sido assassinado ali, muito tempo atrás, por um anfitrião maligno, que o matou para roubar seu ouro. Trânio acrescenta que o cadáver do homem assassinado ainda está escondido na casa, motivo pelo qual há um risco para qualquer um que ouse entrar.

Teopropide acredita completamente na história e se desespera por não saber onde vai viver dali por diante. Um agiota aparece então, exigindo o pagamento pelo empréstimo feito por Filolache para comprar a escrava, e Trânio explica que o dinheiro foi usado para comprar a casa vizinha, já que a residência da família está inabitável. Mesmo quando Teopropide vai até a casa vizinha e fala com Simo, o proprietário – que nega tê-la vendido para Filolache –, o comerciante ainda não mostra sinais de dúvida sobre a história do fantasma.

O sepultamento inapropriado dos mortos era considerada a razão principal para o retorno de um espírito do além-túmulo.

Entendia-se que os fantasmas na antiga Roma apareceriam de certos modos previsíveis e, geralmente, em certas horas da noite. O historiador D. Felton observa que o público que se divertiu com Mostellaria acharia a história de fantasma improvisada de Trânio hilariante porque não concordava com o que as pessoas sabiam ser verdade em casos de assombração: o fantasma de um homem assassinado apareceria num aposento iluminado por uma tocha (desde que fantasmas não podiam ser vistos sem algum tipo de luz), mas não apareceriam num sonho, a não ser que fosse um amigo ou pessoa amada.

Fantasmas que apareciam em sonhos eram considerados um tipo completamente diferente de espírito de um "inquieto" que teria sofrido uma morte injusta ou antinatural e sem os ritos apropriados de sepultamento. Na sua pressa em elaborar uma história para o mestre da casa, Trânio confunde dois tipos diferentes de fantasmas e, conforme assinala Felton, o público daquele tempo acharia esta confusão hilariante.

Uma interessante mudança neste paradigma é a história da donzela Philinnion, conforme o relato de Flégon de Trales (século II) e, mais tarde, Proclo (século V). Philinnion é casada com um dos grandes generais de Alexandre, o Grande, Cratero, e morre após seis meses de matrimônio. Ela retorna à vida e visita um jovem chamado Machate todas as noites, em seu aposento na casa dos pais da falecida. Quando é descoberta pelos pais, ela explica que foi libertada do submundo para um propósito específico e então morre pela segunda vez.

A historiadora Kelly E. Shannon, entre outros, destaca que Flégon não mede esforços para autenticar a história, apresentando-a como um relato em primeira pessoa, na forma de uma carta relativa a um evento histórico que aconteceu num lugar específico (Anfípolis) numa certa época (durante o reinado de Filipe II da Macedônia), sem, no entanto, entrar em muitos detalhes para evitar que um leitor familiarizado com o lugar e a época colocasse o relato em dúvida. Shannon acrescenta:

No que seria razoável um leitor acreditar? A literatura romana é repleta de criaturas, objetos e ocorrências estranhas e inexplicáveis, desde centauros até aparições fantasmagóricas, passando por erupções vulcânicas. E eles não estão confinados ao mundo do mito. Relatos sobre a natureza frequentemente focam em fenômenos que podem parecer bizarros ou impossíveis: autores como Plínio, o Velho apresentam como fatos coisas que um público moderno e racional acharia difícil ou mesmo impossível de levar a sério. (1)

Este fenômeno mencionado por Shannon, chamado pelos romanos de mirabilia (maravilhas ou milages), incluem bestas falantes, mulheres-espírito incrivelmente altas, visões dos deuses e fantasmas. Entre os milagres mais famosos está o conto de Plínio, o Jovem (61-115), que traz a história do filósofo Atenodoro, que vem para Atenas e ouve falar a respeito de uma casa assombrada, muito barata porque todos receiam o fantasma que nela vive. Atenodoro aluga a casa e, naquela noite, ouve um balançar de correntes e acorda para encontrar um homem em seu aposento que gesticula para que ele se levante e venha com ele. O filósofo segue o fantasma até o quintal da casa, onde o espírito repentinamente se desvanece no ar.

No dia seguinte, Atenodoro pede ao magistrado da cidade para cavar um buraco naquele ponto exato, onde eles encontram os restos mortais de um homem acorrentado. Após o sepultamento com os rituais apropriados, a casa deixa de ser assombrada. Esta história é típica de um lugar mal-assombrado no qual um espírito aparece para buscar reparação por um erro. O sepultamento inadequado dos mortos - ou a falta de túmulo - era considerada a principal razão para o retorno de um espírito da vida após a morte, acima, inclusive, do desejo de um espírito de ter sua morte vingada.

A possibilidade de um espírito retornar para pedir a uma pessoa amada para vingar sua morte é ilustrada por um conto relatado por Apuleio, no qual um homem chamado Trasilo se apaixona pela esposa de seu amigo, Tlepolemo, e o mata durante uma caçada. O espírito de Tlepolemo aparece para sua esposa num sonho, conta-lhe como morreu e pede a ela para vingá-lo. Trasilo queria cortejá-la, mas ela recusara o pedido porque ainda estava de luto. Agora, porém, ela diz ao pretendente que ele pode visitá-la naquela noite. A viúva oferece ao visitante vinho misturado com uma droga e, quando Trasilo cai num estupor, ela o cega com seu grampo de cabelo, declarando que a morte é uma punição muito branda para tal crime: a partir daquele momento, o assassino deveria vaguear pela vida sem ver o mundo. Em seguida, ela vai até a tumba do marido, revela a história de sua morte e tira a própria vida com a espada do falecido. A seu próprio pedido, Trasilo é encerrado na tumba de Tlepolemo e morre de fome.

Estas são as duas principais maneiras pelas quais o público da época entendia que os fantasmas se manifestariam (embora não fossem as únicas formas), seja em sonhos ou em aparições físicas , geralmente com alguma relação a problemas da sua morte – o mesmo paradigma observado em outras culturas.

Fantasmas na China e Índia

Durante o Festival dos Fantasmas, as pessoas deixavam alimentos e presentes para os falecidos, na esperança de que eles permanecessem em seu próprio reino e não viessem atormentar os vivos.

Na cultura chinesa, o espírito de uma pessoa que tivesse se afogado, morrido sozinha ou em batalha ou sofrido algum tipo de morte que resultasse no corpo insepulto apareceria fisicamente, mas somente poderia ser vista à noite, sob a luz de tochas. O espírito de um ancestral que quisesse relatar alguma informação ou dar um aviso apareceria num sonho.

O filósofo Mo Ti (v. 470-391 a.C.) considerava os fantasmas uma realidade e argumentava de forma favorável à aceitação do relato do fantasma do ministro Tu Po, que teria voltado do além-túmulo para matar Xuan, o rei de Zhou. Ele raciocina que quando uma pessoa ensina a operar uma máquina qualquer, com a qual não se está familiarizado, ou quando se fala sobre uma região da qual nada se conhece, deve-se aceitar o que é dito caso seja um relato crível e feito por testemunhas confiáveis.

Acompanhando esta linha de raciocínio, o que se diz sobre fantasmas deveria ser aceito se aqueles que relatam as histórias são confiáveis no que afirmam sobre outras coisas que podem ser verificadas. Como os relatos históricos antigos, bem como contemporâneos do seu tempo, contêm referências a fantasmas, devem ser aceitos como realidade - da mesma forma como se reconhece a história estabelecida e notícias do dia -, ainda que não se tenha vivido a experiência pessoalmente.

A crença chinesa em fantasmas era fortemente influenciada pela prática do culto aos ancestrais, pois acreditava-se que os falecidos continuariam a exercer um poderoso efeito no cotidiano dos vivos. Como em outras culturas mencionadas, os espíritos dos mortos podiam beneficiar os vivos, exceto se o sepultamento e ritos funerários tivessem sido inapropriados ou inexistentes, o que seria motivo suficiente para uma autorização dos céus com o objetivo de corrigir o erro.

O Festival dos Fantasmas, cujo objetivo é homenagear e apaziguar os mortos, continua a ser realizado no décimo-quinto dia do sétimo mês do ano Conhecido como o "Mês dos Fantasmas". Este período caracteriza-se pela redução ao mínimo do véu entre o reino dos vivos e dos mortos, o que permitiria aos últimos cruzarem a fronteira mais facilmente (semelhante ao conceito do Samhain celta e do festival mesoamericano conhecido como Dia dos Mortos). Durante o Festival dos Fantasmas, as pessoas deixavam alimentos e presentes para os falecidos, na esperança de que eles permanecessem em seu próprio reino e não viessem atormentar os vivos.

Ghost Festival, China
Festival dos Fantasmas, China
Mister Bijou (CC BY-NC-ND)

O além-túmulo chinês começava com uma jornada na qual a alma atravessava uma ponte sobre um abismo, onde era julgada. Se fosse considerada merecedora, prosseguia, parava num pavilhão para contemplar a terra dos vivos uma última vez e então bebia um copo de uma mistura chamada Mengpo Soup, que a fazia esquecer completamente da vida terrena. A cultura sobre fantasmas da China diverge nesse ponto sobre o que acontece com a alma a seguir: conforme algumas obras, a alma vai para o céu; conforme outras, reincarna. Se a alma é considerada indigna quando cruza a ponte, cai para o inferno, onde vai permanecer. Em qualquer dos casos, não se espera que a alma retorne para o mundo dos vivos e, se isso acontece e não é um ancestral aparecendo num sonho com avisos ou conselhos, certamente há forças malignas envolvidas.

Isso é exemplificado na história de Ning Caicheng e Nie Xiaoqian, relatada no livro de histórias de Pu Songling (1680). Acredita-se que ela seja muito mais antiga do que o século XVII e o enredo traz a visita de Ning a um templo, onde ele é visitado pelo fantasma da donzela Nie. Ela tenta seduzi-lo, mas ele resiste devido à crença numa conduta virtuosa. Dois outros viajantes que visitaram o templo são encontrados mortos na manhã seguinte, com buracos abertos nas solas dos pés e seu sangue drenado.

Nie respeita a virtude de Ning ao resistir aos avanços e lhe conta que ela morreu no templo quanto tinha apenas 18 anos e ficou sob controle de um demônio monstruoso que habitava o terreno onde foi sepultada. Este monstro exigia que ela seduzisse viajantes e drenasse o sangue das vítimas para alimentá-lo. Ning desenterra os restos mortais de Nie e os leva para casa, onde realiza um sepultamento adequado próximo à sua casa, fazendo libações no túmulo como sinal de respeito e homenagem. Após realizar os rituais funerários apropriados para a jovem, ele se vira para ir embora, mas ela o chama. Ning descobre então que ela retornou à vida devido à sua conduta virtuosa e seus esforços para sepultá-la de forma correta. Eles se casam e, segundo a lenda, vivem felizes para sempre e têm vários filhos.

As histórias de fantasmas chinesas quase sempre possuem uma moral nos moldes da Lenda de Ning e Nie e enfatizam o comportamento virtuoso e gentileza para com os outros. O próprio Confúcio acreditava na eficácia destas histórias porque sentia que as lições aprendidas de encontros sobrenaturais poderiam instilar virtudes apropriadas nos vivos. Isso seria verdade até no caso dos encontros com os chamados Fantasmas Famintos, espíritos cujos parentes tinham se esquecido de seus deveres de respeito e recordação ou aqueles que tivessem sido assassinados sem que os responsáveis fossem levados à justiça. Acreditava-se que os Fantasmas Famintos recebiam uma autorização especial dos deuses para atormentar os vivos até que recebessem o que lhes era devido. Eles poderiam assombrar os vivos ou habitar a casa e se comportar de acordo com o familiar poltergeist.

Isso também se aplicava à Índia, onde os fantasmas dos falecidos eram vistos como um tipo de Fantasmas Famintos. Chamados de Bhuta na antiga (e moderna) Índia, apareciam como humanos, mas com pés ao contrário, e mudavam de aparência sem aviso. Os pés ao contrário simbolizavam que alguma coisa estava errada, que o espírito estava numa condição antinatural. Os Bhutas se materializavam quando a pessoa morria antes do seu tempo estabelecido de permanência na terra. Desde que estavam incapazes de desfrutar de suas vidas na plenitude, eles voltavam à terra na esperança de possuir o corpo de alguém.

A possessão fantasmagórica, incluindo o espírito reanimando seu próprio cadáver, era uma grande preocupação na antiga Índia. Alguns estudiosos sustentam que isso levou à prática da cremação dos falecidos. Se o cadáver fosse cremado, o espírito não poderia retornar para reanimá-lo. Além disso, queimavam-se certas especiarias, junto com o uso de amuletos e orações, para proteger os vivos da possessão fantasmagórica do espírito incapaz de reanimar seu antigo corpo.

Há histórias relativas a regiões, casas e até cidades assombradas, nas quais os fantasmas teriam estado presentes por muitos séculos.

Desde que estes espíritos morreram antes de seu tempo devido, sentiam-se infelizes e geralmente zangados. Acreditava-se que os fantasmas causavam múltiplos problemas quando se manifestavam fisicamente mas, como em outras culturas, eram considerados benéficos quando apareciam em sonhos e se tratava de alguém conhecido, especialmente um parente.

Um Bhuta particularmente perigoso chamava-se churail, o espírito de uma mulher morta ao dar à luz. Ele seria encontrado em encruzilhadas e esquinas e tentaria fazer amizade com os vivos. Se fosse uma mulher, a churail iria atrás das suas crianças e ou tentaria possuir seu corpo; no caso de um alvo masculino, o espírito procuraria seduzi-lo e matá-lo. Uma vez que o Bhuta (mesmo uma churail) tivesse vivido o seu tempo previsto na terra, deixaria o mundo dos vivos e voltaria à fila da reencarnação.

A crença indiana na existência além-túmulo relativa à transmigração das almas ditava que os falecidos fossem julgados conforme seus atos terrenos, o que determinaria sua destinação acima ou abaixo na hierarquia espiritual na próxima encarnação. Parece, porém, que isso não acontecia com todas as almas, desde que há histórias envolvendo regiões, casas ou mesmo cidades assombradas onde os fantasmas teriam estado presentes por muitos séculos.

O mais famoso destes locais é o Forte Bangarh, em Rajasthan, uma cidade abandonada que seria habitada por fantasmas. Construída no período do Império Mughal, em 1573, era, segundo a lenda, uma localidade próspera até ser amaldiçoada por um ermitão recluso que vivia nas vizinhanças. Numa versão da história, este ermitão era um sábio que teria dado sua benção para a construção da cidade, sob a condição de que nenhuma das construções fosse tão alta a ponto de lançar uma sombra sobre sua casa, situada numa colina, bloqueando a luz solar. Os construtores originais respeitaram esse pedido mas, posteriormente, ele foi esquecido e acréscimos feitos ao palácio fizeram com que a sombra alcançasse a residência do ermitão. Ele amaldiçoou a cidade e seus habitantes por sua falta de consideração e, em apenas uma noite, todos os andares superiores das construções foram destruídos. Quem sobreviveu abandonou o local e construiu uma nova cidade nas proximidades, também chamada Bangarth .

Bhangarh Fort Ruins, Rajasthan
Ruínas do Forte Bhangarh, Rajasthan
Parth Joshi (CC BY-NC-SA)

Outra versão da história envolve a bela princesa Ratnavi e o maligno mago Baba Balnath. Ele estava apaixonado pela princesa, mas sabia que ela jamais corresponderia aos seus sentimentos. O mago então preparou uma poção do amor que faria a princesa ficar atraída poderosamente por ele, e a disfarçou como um perfume, que lhe foi entregue, como um presente, quando se encontraram no mercado. Ratnavi suspeitou que o frasco contivesse alguma coisa além de um perfume e derramou o conteúdo numa rocha próxima que, por causa dos poderes mágicos de atração, rolou diretamente em direção ao mago e o esmagou.

À beira da morte, Baba Balnath amaldiçoou Ratnavi e toda a cidade e jurou que ninguém viveria no interior de seus muros novamente. Como na primeira versão, a cidade foi abandonada numa única noite após alguma catástrofe e, confirmando a maldição, jamais foi habitada novamente – pelos vivos, ao menos. Acredita-se que os mortos, porém, ainda residem em Forte Bangarth e há relatos nos dias atuais de pessoas alegando ter ouvido vozes espectrais, gargalhadas na velha casa de banho, passos e há quem diga ter visto luzes movendo-se pela cidade e até mesmo o espírito da própria princesa Ratnavi.

Fantasmas Mesoamericanos

No sistema de crenças maias, fantasmas que se demoram, tais como aqueles que habitariam Forte Bangarth, eram intoleráveis e precisavam ser mantidos à distância através de encantamentos e amuletos ou conduzidos de volta ao submundo através da intercessão de um Daykeeper (Guardião do Dia), um tipo de xamã. Esta noção da vida além-túmulo parecia-se muito com a das civilizações da Mesopotâmia, segundo a qual o submundo seria um local sombrio e terrível, mas os maias foram além: no submundo maia (chamado de Xibalba ou Metnal) havia numerosos Senhores dos Mortos que poderiam enganar as almas dos falecidos que tentavam encontrar seu caminho rumo ao paraíso.

Uma vez que a alma descia para este mundo subterrâneo, seria uma jornada da qual não havia retorno. Fantasmas, como nas demais culturas mencionadas, não deviam voltar para a esfera terrena. O espírito poderia deixar o corpo e ser conduzido através de uma grande extensão de água pelo espírito de um cão, que ajudaria a alma a navegar entre as jornadas e armadilhas dos Senhores de Xibalba até chegar à Árvore da Vida, que precisaria escalar para alcançar o paraíso.

Como os maias, os astecas consideravam o além-túmulo como um lugar sombrio, do qual não se retornava.

Os espíritos que retornavam, portanto, eram considerados antinaturais a não ser, como em outras culturas, que aparecessem em sonhos e fossem reconhecidos como amigos ou membros da família (embora isso nem sempre fosse o caso). Os maias preferiam acreditar que os mortos que não encontravam o descanso eterno retornariam na forma de plantas, que tanto podiam ser benéficas ou maléficas.

O melhor exemplo desta crença é a Lenda de Xtabay, que conta a história de duas belas mulheres, Xkeban e Utz-Colel. Xkeban era maltratada pelo povo respeitável do povoado porque tinha feito sexo com um homem fora do casamento, mas os mais pobres a adoravam por causa de sua bondade e gentileza. Utz-Colel era altamente respeitada pelos mais ricos porque vinha de uma boa família e observava toda a etiqueta social adequada; em compensação, tinha um coração duro e cruel e não se importava com ninguém além de si mesma.

Certo dia, uma flagrância estranha e intoxicante tomou conta da vila e, quando os pobres buscaram sua origem, chegaram à cabana de Xkeban e a encontraram morta. A adorável flagrância emanava de seu corpo. Eles a sepultaram e, no dia seguinte, belas flores selvagens foram descobertas sobre seu túmulo, com o mesmo perfume sentido no dia anterior.

Logo a seguir, Utz-Colel morreu – e de seu corpo subiu um odor terrível. O povo respeitável do povoado a sepultou com grande cerimônia, como uma boa e nobre mulher, com muitas flores. No dia seguinte, porém, as flores tinham murchado e morrido. De seu túmulo cresceu a flor conhecida como Tzacam, que não tem perfume, enquanto da sepultura de Xkeban cresceu a flor Xtabentun, com um doce perfume. As almas correspondentes das duas mulheres se fundiram às respectivas flores.

Quanto Utz-Colel descobriu que era uma flor espinhosa sem perfume, ficou com ciúmes de Xkeban e convenceu-se de que o pecado amoroso da rival teria lhe trazido tal recompensa. Ela fez um acordo com os espíritos sombrios de Xibalba para trazê-la de volta à vida, de forma que pudesse fazer sexo com qualquer um que lhe agradasse e, assim, receber as mesmas bençãos de Xkeban. Utz-Colel não compreendia, no entanto, que era movida apenas pela ambição, enquanto que Xkeban tinha sido motivada por amor. Então, ela retornou à terra como Xtabay, a flor que cresce do cacto Tzacam mas, algumas vezes, assumia a forma humana e esperava por viajantes em encruzilhadas. Se um homem lhe desse atenção, ela o seduziria e o mataria. Se o viajante fosse uma mulher, seria punida por afligir sua tranquilidade.

Tezcatlipoca Turquoise Skull
Crânio Decorado com Turquesa de Tezcatlipoca
Trustees of the British Museum (Copyright)

Nas crenças astecas há uma entidade similar, que se parece muito com as churails da Índia. O espírito asteca, chamado Cihuateteo, é o fantasma de uma mulher que morreu ao dar à luz. Estes espíritos também assombravam encruzilhadas mas ignoravam os viajantes; esperavam mulheres com crianças e então derrubavam a mulher e roubavam seus filhos. Também se acreditava que elas conseguiriam se esgueirar para dentro das casas à noite para abduzir crianças.

Amuletos e encantamentos seriam penduradas nas entradas e janelas para afastar a cihuateteo. No sistema asteca de crenças, fantasmas seriam também hóspedes indesejados, que só traziam más notícias ou serviam como presságios de desgraças. Como os maias, os astecas consideravam o além-túmulo como um local sombrio e sem retorno. Se um espírito voltasse, seria uma clara indicação de que alguma coisa estava errada ou que havia problemas à vista.

Mictlantecuhtli, God of Death
Mictlantecuhtli, Deus da Morte
Dennis Jarvis (CC BY-SA)

Como os maias e tarascanos, os astecas acreditavam que os cachorros podiam ver e proteger as pessoas contra fantasmas. Assim, eles sepultavam os falecidos com cães que serviriam à alma na vida após a morte, bem como a guiaria através do submundo, protegendo-a contra os espíritos malignos. Os tarascanos temiam profundamente os fantasmas em geral e, dessa forma, desenvolveram o conceito do cão espírito.

Acreditava-se que os fantasmas eram os espíritos daqueles que tinham sido sepultados de forma imprópria, morrido sozinhos numa caçada e nunca encontrados e também dos afogados. Eles voltariam para assombrar os vivos até que seus corpos fossem descobertos e enterrados adequadamente, de acordo com o cerimonial funerário. O problema, claro, era que os cadáveres poderiam não ser encontrados. Nesses casos, os tarascanos consideravam que um cão espírito poderia descobrir o corpo e conduzir a alma para a vida além-túmulo, evitando que atormentasse os vivos.

Os mortos eram celebrados nas culturas mesoamericanas em vez de pranteados, o que deu origem ao evento conhecido hoje como O Dia dos Mortos (El Dia de los Muertos). A comunidade se reúne nesta ocasião para relembrar os que passaram para o outro lado e para homenagear suas vidas. Originalmente, os astecas honravam a deusa do submundo, Mictecacihuatl, durante este festival, e também as almas das crianças e adultos falecidos. O festival costumava acontecer durante o período da colheita do milho (final de Julho e decorrer de Agosto) mas, após a conquista espanhola, mudou para Novembro, para coincidir com o Dia de Todos os Santos da igreja católica.

Fantasmas Celtas

Esta mudança de estação do Dia dos Mortos na Mesoamérica ocorreu devido à política católica de "cristianização" dos festivais pagãos existentes. Uma celebração similar, observada em locais da Europa setentrional como Irlanda, Escócia e Gales, é conhecida como Samhain (pronuncia-se sou-uen). Os pagãos destas regiões viam a vida como cíclica e não linear e portanto os anos giravam, como uma roda. Samhain era o fim de um ciclo e o início do próximo e acreditava-se que, nesta época, o véu entre os vivos e os mortos afinava-se, o que permitiria aos falecidos voltar à vida.

Isso acontecia no final de Outubro e início de Novembro, tradicionalmente começando no pôr do sol em 31 de Outubro e indo até 2 de Novembro (embora em alguns casos a celebração ocorresse por uma semana antes de 31 de Outubro e uma semana após). Ainda que muitas fontes modernas da Internet e algumas séries populares de TV dos Estados Unidos afirmem que Samhain era o deus celta dos mortos, a quem seriam dedicados sacrifícios no dia 31 de Outubro, isso não é verdade. Jamais houve um deus celta dos mortos chamado de Sam Hain. "Samhain" simplesmente significa "o fim do verão" na linguagem celta.

Durante Samhain matava-se o gado e os ossos eram queimados em "bone fires", conhecidos atualmente como "bonfires" [fogueiras].

Conforme a crença dos celtas, os mortos caminhavam livremente pelo mundo dos vivos neste período e as pessoas preparavam refeições que seus amigos e parentes falecidos apreciavam em vida. Samhain era uma celebração importante, a ocasião em que se fazia a colheita, o gado era morto e salgado para o inverno e os ossos eram queimados, uma prática que deu origem aos bone fires, atualmente conhecidos como "bonfires" [fogueiras].

O lado sombrio de Samhain, porém, residia nos mortos inquietos (como os Fantasmas Famintos chineses), também lives para vaguear. Por isso, as pessoas iniciaram a prática de usar máscaras para não serem reconhecidas por um espírito que quisesse prejudicá-las. Este costume evoluiu para a comemoração moderna do Halloween.

O Império Romano tinha conquistado a maior parte das regiões célticas no século I e, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do império, no século IV, a igreja incorporou muitos feriados pagãos em seu calendário. Devido à popularidade de Samhain, foi incluído pela igreja como Allhallows ou Hallowmas, que se tornou o Dia de Todas as Almas e depois o Dia de Todos os Santos, época em que se orava pelas almas dos mortos no purgatório. Como Samhain na Europa, o mesmo ocorreu com o Dia dos Mortos no México; os festivais pagãos viraram efemérides do calendário cristão.

Conclusão

Ainda que a crença de que os mortos podiam retornar à terra no Dia de Todos os Santos persistisse, mudou quando a visão cristã da vida além-túmulo cresceu em popularidade e os fantasmas ficaram relacionados a demônios e o diabo. A Bíblia menciona fantasmas em passagens como Mateus 14:25-27, Marcos 6:48-50 e Lucas 24:37:39. Entre as mais famosas citações referentes a fantasmas está a de I Samuel 28:7-20, na qual o Rei Saul vai até a Bruxa de Endor e pede para que ela conjure o fantasma de Samuel, sem antigo conselheiro e um profeta de Deus. Por causa disso, Saul perde o favoritismo de Deus por preferir consultar um espírito sobre o que fazer, em vez de confiar seu destino a Deus.

Os fantasmas, e especialmente a conjuração de espíritos, assumiu uma conotação negativa à medida que o cristianismo ganhava mais adeptos. A passagem em Marcos 6 também é interpretada como uma representação negativa de fantasmas, pois os discípulos pensam que Jesus é um fantasma quando o veem caminhando sobre as águas. Fantasmas não podiam caminhar sobre as águas, somente deuses e aqueles que eram divinos e, portanto, quando o confundem com um espírito, isso mostraria sua dificuldade em receber a mensagem de salvação de Jesus. O estudioso Jason Robert Combs assinala como o autor de Marcos sabia que sua audiência reconheceria o simbolismo do fantasma. Ele escreve:

Deuses e homens divinos caminham sobre as águas; fantasmas não. Mas quando os discípulos veem Jesus caminhando sobre as águas, eles acreditam no impossível ao invés do óbvio. A inclusão de Marcos deste absurdo, “porque eles o viram caminhando sobre o mar pensaram que era um fantasma” (6:49), enfatiza de forma dramática a interpretação equivocada do messianismo de Jesus. (358)

O autor de Marcos continuamente destaca que os discípulos falhavam em reconhecer quem era Jesus e sua missão. O uso do termo fantasma logo no início do livro faria este ponto claro para o público da época, conhecedor do fato de que um espírito não poderia caminhar sobre as águas e que, além disso, a água costumava ser empregada para afugentá-los. O livro bíblico de I João 4:1 declara que se deveria testar todos os espíritos para verificar se eram de Deus e não acreditar que cada espírito seria o que aparentava. Esta passagem, somada à crença expressada em Marcos, I Samuel e outros, encorajou uma conotação ainda mais negativa dos fantasmas do que as pessoas tinham anteriormente.

Embora os fantasmas não tenham sido sempre considerados como indesejados e antinaturais, estavam agora ligados ao demoníaco e vistos como agentes do diabo. As pessoas eram encorajadas a rejeitá-los já que, quando morriam, suas almas iriam para o céu, inferno ou purgatório, sem retornarem à terra. Se alguém via um fantasma, então, assumiria que se tratava de um truque do diabo para atrair a alma para o inferno, ao trazer dúvidas sobre a ordem divina de Deus.

Esta atitude sobre os fantasmas é explorada com fins dramáticos na obra de Shakespeare Hamlet, quando o príncipe dinamarquês duvida que o fantasma que viu seja realmente do seu pai voltando do além-túmulo e diz: "O espirito que eu vi/Pode ser um demônio, e o demônio tem poder/Para assumir uma forma agradável,sim, e talvez/Pela minha fraqueza e melancolia/Como ele é potente com tais espíritos/Provocar minha danação" (II.ii. 610-615). Esta visão dos fantasmas alterou completamente a velha concepção de que eles eram almas dos falecidos e, uma vez que eram demoníacos, desencorajava-se a crença em tais seres.

Com o tempo, uma crescente confiança no secular e mais “científico” modo de ver o mundo completou o trabalho iniciado pela igreja e relegou os fantasmas ao reino da superstição e ficção. A julgar pelo número de websites e livros devotados ao assunto, há muitos interessados no tema dos fantasmas nos dias atuais mas, em termos gerais, a crença não é encorajada culturalmente; uma situação exatamente oposta à posição dos fantasmas no mundo antigo.

O jornalista John Keel, que investigou muitos dos chamados eventos paranormais e é mais conhecido pela sua obra The Mothman Prophecies (As Profecias do Homem-Mariposa), afirmou certa vez que não existe o “paranormal” ou “sobrenatural”. Após citar vários estranhos eventos que pessoas teriam experimentado durante a história, Keel observa que o que as pessoas atualmente chamam de “paranormal” ou “sobrenatural” são na verdade aspectos normais e naturais da vida na terra.

O mundo dos espíritos, fantasmas e almas aparecendo do além-túmulo, de acordo com ele, podem ser tão reais hoje quando eram para as pessoas do mundo antigo; a razão pela qual não mais se aceitam fantasmas como uma parte da vida é simplesmente porque o mundo que opera desta forma não é mais reconhecido como válido. Um novo paradigma de como o mundo funcionava nasceu com o cristianismo e depois com a aceitação de uma visão secular do universo. Com isso, os fantasmas foram distanciados ainda mais do reino dos vivos até que, finalmente, eles perderam seu vigor e se tornaram a matéria-prima de narrativas e lendas.

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Perguntas e respostas

Quais civilizações antigas acreditavam em fantasmas?

Virtualmente cada civilização antiga acreditava em fantasmas de alguma forma.

O que fazia um espírito se tornar um fantasma?

Fantasmas e assombrações eram geralmente atribuídas ao sepultamento inadequado, algum pecado por parte dos vivos ou negócios inacabados dos mortos, embora pudesse haver outras razões.

Como se fazia no mundo antigo para se livrar de fantasmas?

Para se livrar de um fantasma, as pessoas levariam o problema para um autoridade espiritual (um sacerdote ou médico), que realizaria um exorcismo ou recomendaria feitiços, amuletos, encantamentos ou, no antigo Egito, endereçar uma carta diretamente à pessoa morta.

No que se transformava um fantasma quando era mandado de volta?

Acreditava-se que os espíritos dos mortos deveriam permanecer em seu próprio reino. Se algum aparecesse entre os vivos e fosse mandado de volta, retornaria ao seu estado natural na vida além-túmulo.

Bibliografia

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Sobre o tradutor

Ricardo Albuquerque
Ricardo é um jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Ele viajou bastante e morou na Grécia e na Alemanha.

Citar este trabalho

Estilo APA

Mark, J. J. (2014, Outubro 30). Fantasmas no Mundo Antigo [Ghosts in the Ancient World]. (R. Albuquerque, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13359/fantasmas-no-mundo-antigo/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Fantasmas no Mundo Antigo." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. Última modificação Outubro 30, 2014. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13359/fantasmas-no-mundo-antigo/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Fantasmas no Mundo Antigo." Traduzido por Ricardo Albuquerque. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 30 Out 2014. Web. 27 Mai 2024.