A Rainha da Noite (também conhecida como o "Relevo de Burney") é uma placa de terracota em alto-relevo feita de argila cozida, com 49,5 cm (19,4 polegadas) de altura, 37 cm (14,5 polegadas) de largura e uma espessura de 4,8 cm (1,8 polegadas), que retrata uma mulher nua e alada ladeada por corujas e de pé sobre as costas de dois leões. A peça teve origem no sul da Mesopotâmia (o atual Iraque), muito provavelmente na Babilónia, durante o reinado de Hamurabi (1792–1750 a.C.), uma vez que partilha qualidades de execução e técnica com a famosa estela de diorite das leis de Hamurabi e também com a peça conhecida como O Deus de Ur, desse mesmo período.
A mulher representada no relevo é reconhecida como uma deusa, pois traz na cabeça o toucado com cornos próprio de uma divindade e segura nas mãos erguidas o símbolo sagrado da vara e do anel. A mulher não só tem asas, como as suas pernas afunilam em garras de ave (que parecem agarrar as costas dos leões) e surge representada com uma garra posterior (ergô) nas barrigas das pernas.
Ao longo da base da placa corre um motivo que representa montanhas, indicando terreno elevado. No entanto, a identidade da mulher alada não é consensual, embora os peritos acreditem geralmente que se trata de Inanna (Ishtar), Lilith ou Ereshkigal. A peça faz atualmente parte da coleção do Museu Britânico, na Sala 56, em Londres.
A História do Relevo de Burney
Em 1936, o Relevo de Burney foi destaque no jornal Illustrated London News, sobressaindo a coleção de um certo Sydney Burney, que adquiriu a placa depois do Museu Britânico ter recusado a oferta de compra. Dado que a peça não foi alvo de uma escavação arqueológica, tendo sido simplesmente retirada do Iraque algures entre as décadas de 1920 e 1930, a sua origem e contexto permanecem desconhecidos. Também não se sabe como a placa chegou a Londres, mas sabe-se que esteve na posse de um negociante de antiguidades sírio antes de chegar ao conhecimento de Sydney Burney.
Não se sabe muito sobre Sydney Burney além de que foi capitão do Exército Inglês durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18) e presidente da Associação de Antiquários em Londres. Quando foi adquirida, a placa estava partida em três pedaços e alguns fragmentos, mas, após o restauro, verificou-se que se encontrava praticamente intacta.
O Relevo de Burney foi analisado em 1933 e autenticado em 1935, antes de a oferta ter sido feita ao Museu Britânico. A placa mudou de mãos duas vezes antes de o Museu Britânico a adquirir finalmente em 2003, pela quantia de 1 500 000 libras, um preço consideravelmente superior ao que fora pedido em 1935.
Foi nessa altura que a peça conhecida como Relevo de Burney passou a ser chamada de A Rainha da Noite, devido ao pigmento negro do fundo original da placa e à iconografia (as asas apontadas para baixo, os pés em forma de garras, etc.) que associa a figura feminina ao submundo. O nome é, portanto, uma designação moderna, e não antiga, para a placa. Não existe forma de saber como a peça era originalmente designada ou qual a finalidade para a qual foi criada.
A Composição do Relevo
O relevo foi feito de argila com palha adicionada para servir de ligante e evitar fissuras. O facto de a peça ter sido cozida num forno, e não seca ao sol, atesta a sua importância, uma vez que apenas as obras de arte e arquitetura mais significativas eram criadas desta forma. Como a madeira era escassa no sul da Mesopotâmia, não era utilizada de ânimo leve para cozer objetos de barro. Segundo a Dra. Dominique Collon, do Museu Britânico, a placa foi feita da seguinte forma:
...argila prensada num molde e deixada secar ao sol... a figura foi feita a partir de argila bastante rígida que foi dobrada e empurrada para dentro de um molde com uma forma específica, com mais argila adicionada e prensada por trás para formar a placa. Assim, a figura da Rainha é uma parte integrante da placa e não foi acrescentada posteriormente.
Após a secagem, a placa foi retirada do molde, os detalhes foram esculpidos na argila com a consistência de couro e a superfície foi alisada. Esta superfície alisada ainda é visível em certos locais, nomeadamente perto do umbigo da Rainha... As extremidades da placa foram aparadas com uma faca. Depois, a placa foi cozeda.
(pág. 15)
Uma vez concluída a cozedura e depois de a peça ter arrefecido, foi pintada com um fundo preto, a mulher e as corujas a vermelho, e os leões a branco com as crinas pretas. Os símbolos da vara e do anel, o colar da mulher e o seu toucado eram dourados. Os vestígios da cor original ainda podem ser detetados na peça hoje em dia, embora se tenham desgastado consideravelmente ao longo dos séculos.
As Origens e a Localização
Embora possa nunca vir a saber-se exatamente onde a peça foi feita, com que finalidade, ou que deusa representa, as semelhanças de técnica entre ela e o chamado Deus de Ur são tão marcantes que se especula que a cidade suméria de Ur seja o seu local de origem. A Dra. Collon observa:
O deus de Ur está tão próximo da Rainha da Noite em qualidade, execução e detalhes iconográficos que poderia muito bem ter vindo da mesma oficina, talvez em Ur, onde foram escavados vestígios extensos do período da Antiga Babilónia entre 1922 e 1934.
(pág. 20)
O indivíduo que retirou originalmente a placa poderia, portanto, ter sido um membro de uma das equipas de escavação daquela época ou simplesmente alguém que encontrou a peça após a sua descoberta.
Teorias quanto à sua localização e significado originais foram sugeridas por todos os estudiosos que a analisaram. Como se acredita que a prostituição sagrada tenha sido praticada em toda a Mesopotâmia, o historiador Thorkild Jacobsen acreditava que a placa fazia parte de um santuário num bordel. A Dra. Collon observa, no entanto, que "se assim fosse, teria de ter sido um estabelecimento de classe muito elevada, como demonstrado pela qualidade excecional da peça" (pág. 22).
A Dra. Collon teoriza, ainda, que a placa estaria pendurada numa parede de tijolo de adobe, provavelmente num recinto, e que, quando essa parede colapsou, a placa de terracota cozida ter-se-ia mantido relativamente intacta. O facto de a peça ter sobrevivido durante mais de 3000 anos atesta o facto de ter sido enterrada bastante cedo, após o edifício que a albergava ter ruído ou ter sido abandonado, pois dessa forma ficou protegida das intempéries e do vandalismo.
A Identidade da Rainha da Noite
A identidade da Rainha é o aspeto mais intrigante da peça e, como referido acima, foram propostas três candidatas: Inanna, Lilith e Ereshkigal. O motivo da mulher nua era popular em toda a Mesopotâmia, como observa o investigador Jeremy Black:
Estatuetas de argila feitas à mão representando mulheres nuas surgem na Mesopotâmia em tempos pré-históricos; possuem traços aplicados e pintados. Estatuetas de mulheres nuas impressas a partir de um molde de cerâmica ou pedra aparecem pela primeira vez no início do segundo milénio a.C... É muito improvável que representem uma deusa-mãe universal, embora possam ter tido o intuito de promover a fertilidade.
(pág. 144)
Inanna seria a deusa que melhor se adequaria a uma placa de promoção da fertilidade, uma vez que presidia ao amor e ao sexo (e também à guerra), mas existem vários problemas com esta identificação.
Inanna
Se aceitarmos as conclusões do Dr. Black e de outros que concordam com ele, isso levanta um problema quanto a Inanna ser a Rainha da Noite, uma vez que, embora estivesse associada à fertilidade, a iconografia da peça não se ajusta a ela. Embora Inanna esteja associada a leões, não está ligada a corujas. O toucado e os símbolos da vara e do anel encaixariam com Inanna, tal como o colar, mas não as asas, nem as patas com garras e a garra posterior. O historiador Thorkild Jacobsen, defendendo que a Rainha é Inanna, apresenta quatro aspetos da placa que apontam para a identidade da Rainha:
- Os leões são um atributo de Inanna.
- As montanhas sob os leões são um reflexo do facto de a casa original de Inanna se situar nos cumes das montanhas a leste da Mesopotâmia.
- Inanna levou a vara e o anel consigo na sua descida ao submundo, e o seu colar identificava-a como uma meretriz.
- As suas asas, as garras de ave e as corujas mostram que Inanna é retratada na sua vertente de deusa-coruja e deusa das meretrizes.
A Dra. Collon, contudo, refuta estas alegações, salientando que Inanna "está associada a um leão, não a dois", e que o ponto relativo ao símbolo da vara e do anel e ao colar pode ser descartado, uma vez que "poderiam ter sido usados ou segurados por qualquer deusa" (pág. 42). A Dra. Collon sublinha ainda que a "primeira fotografia publicada do relevo da Rainha da Noite, em 1936, dizia: 'Ishtar... a deusa suméria do amor, cujas corujas de suporte representam um problema'" (pág. 43).
A conclusão de que a placa retratava Ishtar foi provavelmente alcançada em 1936 simplesmente porque essa deusa era entendida (corretamente) como uma das mais populares na Mesopotâmia, e o seu nome seria o mais conhecido por um público académico moderno. Ishtar era o nome acádio posterior para a suméria Inanna e, embora as corujas tenham sido mencionadas em contos sobre a deusa, nunca fizeram parte da sua iconografia. Além disso, Inanna nunca é representada de frente em qualquer arte antiga, mas sempre de perfil, e a cordilheira na base da placa poderia, da mesma forma, argumentar a favor de uma identificação com Ereshkigal ou Lilith.
Lilith
Lilith é um demónio, não uma deusa, e embora exista alguma associação do demónio Lilith com corujas, não são o mesmo tipo de corujas que aparecem no relevo. Além disso, Lilith provém da tradição hebraica, não da mesopotâmica, e corresponde apenas aos demónios femininos mesopotâmicos conhecidos como lilitu. As lilitu e os chamados demónios ardat lili eram especialmente perigosos para os homens, a quem seduziam e destruíam. Os demónios masculinos deste tipo, os lilu, atacavam mulheres e constituíam uma ameaça especial para aquelas que estavam grávidas ou tinham acabado de dar à luz, bem como para os bebés. O artigo The Burney Relief: Inanna, Ishtar, or Lilith? (O Relevo de Burney: Inana, Ishtar ou Lilith?) explica por que a identificação com Lilith é uma probabilidade:
Rafael Patai (The Hebrew Goddess, 3.ª ed., 1990) refere que, no poema sumério Gilgamesh e a Árvore Huluppu, uma demónio chamada Lilith construiu a sua casa na árvore Huluppu, nas margens do Eufrates, antes de ser expulsa por Gilgamesh. Patai descreve então a placa de Burney:
"Um relevo de terracota babilónico, aproximadamente contemporâneo do poema acima, mostra a forma como se acreditava que Lilith aparecia aos olhos humanos. Ela é esguia, bem formada, bela e nua, com asas e pés de coruja. Está de pé, ereta, sobre dois leões reclinados, virados de costas um para o outro e ladeados por corujas.
Na cabeça usa um barrete adornado por vários pares de cornos. Nas mãos segura uma combinação de anel e vara. Evidentemente, esta já não é uma humilde demónio, mas uma deusa que domina feras selvagens e, como mostram as corujas nos relevos, governa a noite."
(pág. 1)
Ainda assim, a possibilidade da placa da Rainha da Noite, com o elevado grau de mestria artesanal e atenção ao detalhe, ser uma representação de uma lilitu é altamente improvável. Segundo a tradição hebraica, Lilith foi a primeira mulher feita por Deus que se recusou a submeter-se às exigências sexuais de Adão e fugiu, rebelando-se contra Deus e os seus planos para os seres humanos. Acreditava-se então que ela ocupava os baldios e que, tal como as lilitu, atacava homens desprevenidos desde então.
Em qualquer uma das tradições, a lilitu não era uma figura suficientemente popular para ter sido retratada numa placa como a da Rainha da Noite. O Dr. Black observa:
Deuses e demónios malignos são apenas raramente retratados na arte, talvez porque se pensasse que as suas imagens poderiam colocar as pessoas em perigo.
(pág. 62)
A cordilheira representada na base do relevo é também considerada um indício da identificação com lilitu, ao representar o ermo que o espírito habita, mas o toucado, o colar, os símbolos da vara e do anel e a clara importância da placa argumentam contra a possibilidade de ser Lilith.
Ereshkigal
A terceira candidata é a irmã mais velha de Inanna, Ereshkigal, a Rainha do Grande Abaixo. O seu nome significa "Senhora do Grande Lugar", referindo-se à terra dos mortos, e existem vários aspetos da placa que parecem sugerir Ereshkigal como a melhor candidata a rainha.
O motivo das asas apontadas para baixo era utilizado em toda a Mesopotâmia para indicar uma divindade ou um espírito associado ao submundo, e a rainha possui tais asas. Ereshkigal vivia no palácio subterrâneo de Ganzir, que se acreditava estar localizado nas montanhas orientais, o que justificaria a cordilheira representada ao longo da base da placa. Relativamente a Ganzir e ao submundo, a Dra. Collon escreve:
Era um lugar escuro e os mortos, nus ou vestidos com asas como pássaros, vagueavam sem nada para beber e apenas com pó para comer. Independentemente do que tivessem alcançado na vida, a única sentença era a morte, proferida por Ereshkigal.
(pág. 44)
Ereshkigal é celebremente retratada no poema A Descida de Inanna ao Submundo como nua: "Nenhum linho cobria o seu corpo. Os seus seios estavam descobertos. O seu cabelo rodopiava à volta da sua cabeça como alhos-porros" (Wolkstein e Kramer, pág. 65), e a rainha na placa está nua. Além disso, ao contrário das representações de Inanna de perfil, a rainha é mostrada de frente. A Dra. Collon escreve:
Como deusa, Ereshkigal tinha direito ao toucado com cornos e ao símbolo da vara e do anel. A sua frontalidade é estática e imutável e, como Rainha do Submundo onde os 'destinos eram determinados', ela poderia muito bem ter direito a dois símbolos de vara e anel.
(Idem)
Da mesma forma, os leões sobre os quais a rainha está de pé poderiam representar a supremacia de Ereshkigal sobre até as mais poderosas criaturas vivas, e as corujas, com a sua associação à escuridão, poderiam estar ligadas à terra dos mortos.
Conclusão
Toda a iconografia da placa da Rainha da Noite parece indicar que a divindade representada é Ereshkigal, mas, como observa a Dra. Collon:
Não é possível estabelecer uma ligação definitiva com Ereshkigal, pois ela não possui iconografia conhecida: a sua associação com a morte tornou-a um tema impopular.
(pág. 45)
Sem qualquer iconografia conhecida de Ereshkigal para comparar com a Rainha da Noite, a identidade da antiga mulher, que olha para fora da placa há mais de 3000 anos, permanece um mistério.
