Britânico (Britannicus; 41-55 d.C.) foi o segundo filho e o único filho homem do imperador romano Cláudio (reinou 41–54 d.C.) e de Valéria Messalina (cerca de 20–48 d.C.). Visto como ameaça pela quarta esposa de Cláudio, Agripina, a Jovem (15–59 d.C.), e pelo filho dela, o futuro Nero (reinou 54–68 d.C.), Britânico foi envenenado na véspera de seu 14º aniversário.
Primeira Infância
Nascido em 12 de fevereiro de 41 d.C., recebeu originalmente o nome de Tibério Cláudio César Germânico; o nome Britânico foi acrescentado após a invasão da Britânia por seu pai (após a conquista da Britânia, o Senado Romano concedeu ao imperador Cláudio e aos seus herdeiros o título honorífico de Britânico). Em sua obra A Vida dos Doze Césares, o historiador antigo Suetônio (69 a 130/140 d.C.) escreveu: "Cláudio frequentemente pegava o pequeno Britânico no colo e o mostrava às tropas ou ao público nos jogos, fosse sentado em seu colo ou erguido com os braços estendidos" (197). Cláudio teve um filho com sua primeira esposa, Urgulanila, mas o menino morreu acidentalmente antes de atingir a maioridade, e Britânico tornou-se a escolha óbvia para assumir o poder imperial após a morte do imperador. No entanto, essa situação logo mudaria quando Cláudio se casou com sua sobrinha Agripina, a Jovem (15-59 d.C.). A nova esposa do imperador trazia consigo intenções ocultas; ela nutria grandes ambições para seu filho, o futuro imperador Nero (reinou 54 a 68 d.C.).
Agripina, a Jovem, era filha de Germânico (15 a.C. – 19 d.C.) — sobrinho do imperador Tibério (r. 14–37 d.C.) — e de Agripina, a Velha (14 a.C. – 33 d.C.), o que a tornava bisneta de Augusto (r. 27 a.C. – 14 d.C.). De seu casamento com Cneu Domício Enobarbo nasceu um filho, Lúcio Domício Enobarbo, o futuro Nero (* 37 d.C.). Cneu, que morreu quando Nero tinha três anos, era extremamente violento e foi descrito por seus contemporâneos como um "indivíduo desprezível". Dois anos após o nascimento de Domício, Agripina foi exilada por seu irmão Calígula (reinou 37–41 d.C.). Após o assassinato de Calígula em 41 d.C., um dos primeiros atos de Cláudio foi trazê-la de volta. Seus fortes laços com a dinastia júlio-claudiana representariam um sério desafio à posição do jovem Britânico como herdeiro do imperador e, infelizmente para Britânico, a agressiva Agripina não mediria esforços até que o pequeno Domício tomasse o lugar dele. Segundo Matthew Dennison, em sua obra Os Doze Césares (não confundir com a obra de Seutônio), Agripina "não se deixava distrair por apetites carnais; a arrogância e um foco inabalável norteavam suas ações". (156)
Em 40 d.C., o pai de Domício morreu de hidropisia. Ao retornar do exílio para Roma, a viúva Agripina casou-se com Caio Passieno Crispo, que havia se divorciado recentemente de Domícia, irmã de Cneu Domício Enobarbo. O casamento terminou antes de 47 d.C., possivelmente devido a um envenenamento. Agripina herdou a vasta fortuna dele, tornando-se extremamente rica. Viúva pela segunda vez, ela voltou suas atenções para o terceiro marido: seu tio Cláudio. Cláudio demonstrava pouco interesse em arranjar outra esposa; havia, contudo, forte concorrência pelo velho imperador: Élia Petina (sua segunda esposa) e Lólia Paulina (terceira esposa de Calígula). Lólia acabaria sendo exilada por ordem de Agripina, vindo a cometer suicídio pouco depois. No entanto, Marcus Pallas, o secretário de finanças de Cláudio, apoiava Agripina e, em 1.º de janeiro de 49 d.C., ela se tornou a quarta esposa de Cláudio.
Após casar-se com o imperador, seu objetivo seguinte foi garantir a adoção de seu filho e, em 28 de fevereiro de 50 d.C., Lúcio Domício tornou-se Nero Cláudio Druso Germânico César. Suetônio escreveu: "Em seus últimos anos, Cláudio deixou bem claro que se arrependia de ter se casado com Agripina e de ter adotado Nero" (204). Percebendo o possível perigo representado por Nero e sua mãe, Cláudio dizia repetidamente ao filho para "crescer logo". Com a adoção de Nero assegurada, Agripina voltou sua atenção para o único obstáculo sério que impedia seu filho de se tornar imperador: Britânico.
Rivalidade com Nero
Inicialmente, Messalina nunca havia considerado a possibilidade de Lúcio Domício representar ameaça ao futuro de seu filho, mas logo percebeu que estava enganada. Aos nove anos, Domício era três anos mais velho que Britânico, e como ambos os meninos tinham "sangue principesco", Messalina queria garantir que seu filho herdasse o trono. De acordo com o historiador Anthony Everitt em seu livro Nero, assassinos foram enviados ao quarto do menino enquanto ele cochilava com ordens para estrangulá-lo, mas falharam, seja por traição ou por interceptação. Numa segunda tentativa, uma cobra foi colocada no quarto de Domício, mas escapou. Agora, Messalina já estava morta há muito tempo; Agripina era casada com Cláudio e era Britânico quem representava uma ameaça.
Agripina – Dennison a chamou de "madrasta ardilosa" – percebeu que precisava construir uma imagem de destaque para seu filho. Entre 50 e 53 d.C., Nero casou-se com Otávia (irmã de Britânico), assumiu a toga virilis da idade adulta um ano antes do previsto e foi nomeado princeps iuventutis (Príncipe da Juventude). As coisas só poderiam piorar para Britânico.
Pouco depois de Nero ser adotado, Britânico passou a chamá-lo de Domício. Nero sentiu-se desonrado e sua mãe ficou furiosa. Ela culpou seus tutores e professores, bem como seus leais oficiais da guarda. Os tutores, seus escravos e até mesmo os guardas foram afastados. Agripina o cercou com aqueles que lhe eram leais, não a ele. Ela o manteve até mesmo longe dos olhos do público. O futuro parecia muito sombrio para o menino. Tácito escreveu que "os planos traiçoeiros de uma madrasta estavam convulsionando todo o palácio imperial". (282).
Morte de Cláudio
Com Nero tornando-se o herdeiro óbvio do trono, o próximo objetivo de Agripina era livrar-se do marido. O tempo era precioso. Faltava apenas um ano para Britânico completar 14 anos e receber a toga virilis. Avaliando as alternativas, ela percebeu que não podia esperar que Cláudio morresse de causas naturais. Precisava de algo que o matasse rapidamente. A solução óbvia era o veneno — corriam boatos de que ela já o havia utilizado contra seu segundo marido. O veneno mais comum na época era um derivado vegetal, possivelmente um alcaloide de beladona — como os encontrados no meimendro, na mandrágora e na erva-moura — ou substâncias como cicuta, acônito e teixo. E uma das maiores especialistas na arte de envenenar era Locusta. Embora geralmente protegida por seus clientes influentes, ela havia sido presa e condenada por assassinato. Agripina agiu rapidamente e a libertou da prisão. A oportunidade ideal para envenenar Cláudio surgiu durante um banquete, em 13 de outubro de 54 d.C.
O plano era relativamente simples. O veneno seria adicionado ao prato favorito do imperador — cogumelos — por Halotus, o provador de alimentos habitual de Cláudio. Algumas fontes sustentam que Agripina substituiu o provador oficial do imperador por alguém de sua confiança. Os relatos divergem sobre o que aconteceu depois que o imperador comeu os cogumelos. Segundo uma versão, Cláudio reagiu rapidamente, apresentando sudorese, cólicas e falta de ar. Sofrendo de diarreia intensa, o imperador foi levado para outro local, onde agonizou durante toda a noite, vindo a falecer antes do amanhecer. Poucos suspeitaram de algo incomum em sua reação, pois ele frequentemente exagerava na comida e na bebida. Para demonstrar que não havia nada de errado com os cogumelos, Agripina comeu um exemplar inofensivo. A versão mais aceita indica que o médico do imperador, Xenofonte, o atendeo e introduziu uma pena envenenada em sua garganta, causando morte imediata. É questionável se Nero teve ou não participação no envenenamento; no entanto, ouviu-se dizer que ele afirmou que os cogumelos eram "o alimento dos deuses". No dia seguinte, Nero foi proclamado imperador pela Guarda Pretoriana. Em vez de ser recompensada, Locusta foi presa com ordens de ser morta a pauladas; no entanto, Nero, percebendo que ela poderia ser útil no caso de Britânico, suspendeu a execução.
Morte de Britânico
Não demorou muito para que o novo imperador traçasse planos para se livrar dos dois últimos entraves que o incomodavam: Britânico e sua mãe. Agripina o havia instruído bem: o veneno era a melhor opção para eliminar Britânico. Uma tentativa inicial — motivada por ciúme e medo — havia fracassado. Suetônio registrou que Nero tentou envenenar Britânico "tanto por inveja de sua voz (de cantor)... quanto pelo receio de que o povo se afeiçoasse menos ao filho adotivo de Cláudio do que ao seu filho legítimo" (226). Na primeira tentativa, o veneno, fornecido por Locusta, causou apenas diarreia em Britânico. Nero ficou furioso; ameaçou-a de execução e depois a espancou. Uma dose mais forte foi preparada e, desta vez, testada em um porco. O pobre animal morreu imediatamente. Em 12 de fevereiro de 55 d.C., Britânico completaria 14 anos e receberia a toga virilis. Naquele dia, ele passaria a representar séria ameaça a Nero. Nessa altura, Agripina já via com desconfiança a súbita demonstração de independência de Nero e, inesperadamente, passou a enxergar o filho de Cláudio sob uma nova ótica: a de um herdeiro legítimo.
Em 11 de fevereiro, Nero ofereceu um banquete. Além dos convidados habituais, estava presente Tito (r. 79-81 d.C.), amigo íntimo de Britânico e filho de Vespasiano (r. 69-79 d.C.). Serviram a Britânico uma bebida que já havia sido provada, mas ela queimou sua língua. O provador pediu desculpas e retirou a bebida. Ela foi resfriada e devolvida ao jovem, mas não foi testada novamente. Ao tomar um gole, Britânico sofreu convulsões e perdeu a fala e a capacidade de respirar. Ele foi retirado do local, e o banquete prosseguiu. Nero alegou que se tratava apenas de mais uma crise de epilepsia. Tácito descreveu a morte do jovem herdeiro:
Uma taça, até então inofensiva, mas extremamente quente e já provada, foi entregue a Britânico; então, como ele a recusasse devido à temperatura elevada, misturou-se veneno à água, substância que se espalhou por todo o seu corpo de tal forma que ele perdeu tanto a voz quanto a respiração. (293)
Segundo o relato de Suetônio, ele morreu logo após provar a bebida. Os presentes ficaram chocados; alguns entraram em pânico e fugiram. Nero não perdeu tempo; Britânico foi sepultado naquela mesma noite no Mausoléu de Augusto. Curiosamente, a pira funerária já havia sido preparada com antecedência. As alegações de epilepsia foram rapidamente refutadas. Seu corpo apresentava uma coloração escura e manchas. Para ocultá-las, as manchas foram cobertas com gesso, mas a chuva forte o removeu, revelando a verdade. Everitt escreveu que a pele escura de Britânico poderia sugerir envenenamento por arsênico.
Consequência
Pela sua participação no envenenamento, Locusta recebeu propriedades rurais e imunidade. Diz-se que Agripina teve dificuldade em esconder o pavor e a confusão que sentiu com a morte de Britânico; era evidente que ela não havia sido avisada. Ela percebeu que havia perdido seu último refúgio e que poderia ser a próxima. Embora estivesse decidida a manter o controle sobre o filho, via sua influência sobre ele enfraquecer gradualmente. Nero a respeitava pouco e fazia de tudo para irritar a mãe; agora imperador, ele não precisava mais de sua mãe dominadora. Houve várias tentativas contra a vida dela, mas todas fracassaram. Agripina chegou a ouvir rumores sobre diversas conspirações, mas ignorou todos eles. Por fim, guardas foram enviados — a intenção era fazer com que a morte parecesse suicídio —, mas um centurião desembainhou a espada e, com um único golpe no ventre, matou-a. Nero estava agora livre para fazer o que bem entendesse, mas seria assombrado pela morte da mãe pelo resto da vida.

