Gatos no Mundo Antigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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Gatos e seres humanos compartilham as suas vidas há milhares de anos e, embora nem sempre tenham sido tão valorizados como na atualidade, desempenharam um papel importante em diversas culturas. Sempre enigmático, o gato foi por vezes visto com desconfiança por várias civilizações, mas conseguiu sempre provar o seu valor.

Embora fosse comummente aceite que os gatos foram domesticados pela primeira vez no Egito há 4000 anos, a sua história entre os seres humanos recua muito mais no tempo. Sabe-se agora que gatos selvagens viveram entre os povos da Mesopotâmia há mais de 100 000 anos e que foram ali domesticados aproximadamente em 12 000 a.C., por volta da mesma altura que os cães, ovelhas e cabras. Escavações arqueológicas nos últimos dez anos forneceram provas de que o Gato-selvagem-africano (Felis silvestris lybica) é o parente mais próximo do gato doméstico moderno e foi criado por agricultores mesopotâmicos, muito provavelmente como um meio de controlar as pragas, tais como ratos, que eram atraídos pelas reservas de cereais.

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O escritor David Derbyshire cita um projeto de investigação de 2007 no qual "o estudo utilizou amostras de ADN (DNA) de 979 gatos selvagens e domésticos para reconstruir a árvore genealógica felina. Procuraram marcadores no ADN mitocondrial — um tipo de material genético transmitido das progenitoras para as crias que pode revelar quando é que as linhagens de gatos selvagens e domésticos estiveram mais estreitamente relacionadas". Este projeto foi liderado pelo Dr. Andrew Kitchener, um zoólogo dos Museus Nacionais da Escócia, que escreve: "Isto demonstra que a origem dos gatos domésticos não foi no Antigo Egito — que é a visão predominante — mas sim a Mesopotâmia, e que ocorreu muito mais cedo do que se pensava. O último antepassado comum entre gatos selvagens e gatos domesticados viveu há mais de 100 000 anos" (Derbyshire).

As descobertas do Dr. Kitchener basearam-se nas evidências da domesticação dos gatos fornecidas pela descoberta, em 1983, de um esqueleto de gato numa sepultura datada de 9500 a.C. na ilha de Chipre. A importância deste achado, realizado pelo arqueólogo Alain le Brun, é porque a ilha de Chipre não possuía uma população indígena de gatos e é improvável que os colonos tivessem levado um gato selvagem, por barco, para a ilha.

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Bastets & Sekhmets
Bastets e Sekhmets Kotomi Yamamura (CC BY-NC-SA)

Os Gatos no Antigo Egito

Contudo, é compreensível a associação do gato ao Antigo Egito uma vez que a cultura egípcia era famosa pela sua devoção ao felino. A exportação de gatos do Egito era tão estritamente proibida que foi criado um ramo do governo exclusivamente para lidar com esta questão. Agentes governamentais eram enviados a outras terras para encontrar e devolver gatos que tivessem sido retirados do país por contrabando. Está provado que por volta de 450 a.C. a pena de morte era aplicada para quem matasse um gato (embora se pense que esta lei fosse cumprida muito antes). A deusa Bastet, comummente representada como um gato ou como uma mulher com cabeça de gato, estava entre as divindades mais populares do panteão egípcio. Ela era a guardiã do lar e do fogo sagrado, protetora dos segredos das mulheres, guardiã contra espíritos malignos e doenças, e a deusa dos gatos.

O seu centro ritual era a cidade de Bubastis ("Casa de Bastet") na qual, segundo Heródoto (484-425 a.C.), foi construído um enorme complexo de templos em sua honra no centro da cidade. Heródoto relata também que os egípcios se preocupavam tanto com os gatos que colocavam a segurança destes acima da vida humana e da propriedade. Quando uma casa se incendiava, os egípcios preocupavam-se mais em resgatar os gatos do que com qualquer outra coisa, correndo frequentemente de volta para o edifício em chamas ou formando um perímetro em redor do fogo para manter os gatos a uma distância segura.

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Quando um gato morria, escreve Heródoto: "Todos os habitantes de uma casa rapam as sobrancelhas [como sinal de luto profundo]. Os gatos que morreram são levados para Bubastis, onde são embalsamados e enterrados em recetáculos sagrados" (Nardo pág. 117). O período de luto era considerado concluído quando as sobrancelhas das pessoas voltavam a crescer. Foram encontrados gatos mumificados em Bubastis e noutros locais por todo o Egito, por vezes enterrados com, ou perto dos seus donos, como comprovado por selos de identificação nas múmias.

O maior exemplo da devoção egípcia ao gato, contudo, provém da Batalha de Pelúsio (525 a.C.), na qual Cambises II da Pérsia derrotou as forças do faraó egípcio Psamético III para conquistar o Egito. Conhecendo o amor dos egípcios pelos gatos, Cambises ordenou que os seus homens reunissem vários animais, principalmente gatos, e que os conduzissem à frente das forças invasoras em direção à cidade fortificada de Pelúsio, no Nilo.

Os soldados persas pintaram imagens de gatos nos seus escudos e poderão ter segurado gatos nos braços enquanto marchavam atrás da muralha de animais. Os egípcios, relutantes em defender-se por medo de ferir os gatos (e talvez de incorrer na pena de morte caso matassem um), e desmoralizados ao verem a imagem de Bastet nos escudos do inimigo, entregaram a cidade e deixaram o Egito cair perante os persas. O historiador Polieno (século II) escreve que, após a rendição, Cambises desfilou em triunfo pela cidade e lançou gatos ao rosto dos egípcios derrotados, em sinal de desprezo.

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Cat Mummy
Múmia de Gato Mary Harrsch (Photographed at the Rosicrucian Egyptian Museum, Calif.) (CC BY-NC-SA)

Os egípcios são também responsáveis pelo próprio nome "gato", uma vez que este deriva da palavra do Norte de África para o animal, quattah; como o gato estava tão estreitamente associado ao Egito, quase todas as outras nações europeias utilizam variações desta palavra: em francês, chat; sueco, katt; alemão, katze; italiano, gatto; espanhol, gato, e assim sucessivamente. A palavra coloquial para gato — puss ou pussy — está também associada ao Egito, na medida em que deriva da palavra Pasht, outro nome para Bastet.

Os Gatos na Índia

Os gatos são mencionados nos dois grandes épicos literários da Índia antiga, o Mahabharata e o Ramayana (ambos de cerca do século V/IV a.C.). No Mahabharata, uma passagem famosa refere-se ao gato Lomasa e ao rato Palita, que se entreajudam para escapar da morte e discutem longamente a natureza das relações, particularmente aquelas em que uma das partes é mais forte ou mais poderosa do que a outra. No Ramayana, o deus Indra disfarça-se de gato após seduzir a bela donzela Ahalya, como forma de escapar ao marido desta. Tal como acontecia em todos os outros lugares, descobriu-se que os gatos na Índia eram particularmente úteis no controlo das populações de criaturas menos desejáveis, como murganhos, ratos e cobras, sendo por isso honrados em casas, quintas e palácios por toda a região.

O facto de o gato ser visto como algo mais do que apenas um método de controlo de pragas é fundamentado pela reverência concedida aos felinos na literatura da Índia. A famosa história do Gato de Botas (mais conhecida através da versão francesa de Charles Perrault, 1628-1703) foi retirada de um conto popular indiano muito mais antigo, presente no Panchatantra do século V a.C. (embora o caráter do dono do gato tenha uma personalidade muito diferente no conto antigo em comparação com a história de Perrault). A estima dedicada aos gatos é também evidente na deusa-gata indiana, Sastht, que desempenhava praticamente o mesmo papel que Bastet e era igualmente reverenciada.

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O Gato Persa

Um conto persa afirma que o gato foi criado de forma mágica. O grande herói persa Rustum, em campanha, salvou certa noite um mago de um bando de ladrões. Rustum ofereceu ao homem mais velho a hospitalidade da sua tenda e, enquanto se sentavam no exterior sob as estrelas, desfrutando do calor de uma fogueira, o mago perguntou a Rustum o que desejava como presente em retribuição por lhe ter salvado a vida. Rustum disse-lhe que não desejava nada, uma vez que tudo o que poderia querer já o tinha diante de si: o calor e o conforto do fogo, o aroma do fumo e a beleza das estrelas acima de si. O mago pegou então numa mão cheia de fumo, adicionou chama e fez descer duas das estrelas mais brilhantes, amassando-as nas suas mãos e soprando sobre elas. Quando abriu as mãos em direção a Rustum, o guerreiro viu um pequeno gatinho cinzento-fumo, com olhos brilhantes como as estrelas e uma língua minúscula que dardejava como a ponta de uma chama. Desta forma, o primeiro gato persa foi criado como um sinal de gratidão a Rustum.

O profeta Maomé era também muito apreciador de gatos. Segundo a lenda, o desenho em forma de "M" na testa do gato malhado surgiu quando o profeta abençoou o seu gato favorito, colocando a mão sobre a sua cabeça. Este gato, Meuzza, também figura noutra história famosa na qual Maomé, ao ser chamado para a oração, encontrou o gato a dormir sobre o seu braço. Em vez de incomodar o animal, Maomé cortou a manga da sua túnica e deixou Meuzza a dormir. O estatuto do gato foi, por isso, reforçado pela sua associação a uma figura divina.

The Gayer-Anderson Cat
Ogato de Gayer-Anderson Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Os Gatos na China e no Japão

Isto também era verdade na China, onde a deusa Li Shou era representada sob a forma de um gato, sendo-lhe dirigidas petições e sacrifícios para o controlo de pragas e para a fertilidade. Ela era também uma deusa muito popular, que se acreditava personificar a importância dos gatos nos primeiros dias da criação. Um antigo mito chinês relata que, no início do mundo, os deuses nomearam os gatos para supervisionar o funcionamento da sua nova criação e, para que a comunicação fosse clara, concederam-lhes o dom da fala. Contudo, os gatos estavam mais interessados em dormir sob as cerejeiras e em brincar com as flores que caíam do que com a tarefa mundana de ter de prestar atenção ao funcionamento do mundo.

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Os deuses vieram por três vezes verificar quão bem os gatos estavam a desempenhar o seu trabalho e, em todas elas, ficaram desapontados ao encontrar os seus supervisores felinos a dormir ou a brincar. Na terceira visita dos deuses, os gatos explicaram que não tinham interesse em gerir o mundo e nomearam os seres humanos para o cargo. O poder da fala foi então retirado aos gatos e dado aos humanos; contudo, como os humanos pareciam incapazes de compreender as palavras dos deuses, os gatos continuaram encarregues da importante tarefa de contar o tempo e, assim, manter a ordem. Acreditava-se que era possível saber a hora do dia olhando para os olhos de um gato, crença que ainda se mantém na China.

No Japão, a famosa imagem do "Gato que Acena" (a figura maneki neko do gato com uma pata levantada) representa a deusa da misericórdia. Diz a lenda que uma gata, sentada à porta do templo de Gotoku-ji, levantou a pata em reconhecimento ao imperador que passava. Atraído pelo gesto da gata, o imperador entrou no templo e, momentos depois, um raio atingiu precisamente o local onde ele estivera parado. A gata, portanto, salvou-lhe a vida e foram-lhe concedidas grandes honras.

Acredita-se que a imagem do Gato que Acena traz boa sorte quando oferecida como presente, continuando a ser uma lembrança muito popular no Japão. O gato era regularmente considerado um guardião do lar e o protetor especial de livros valiosos. No Japão, os gatos eram frequentemente alojados em pagodes privados e eram considerados tão valiosos que, por volta do século X, apenas a nobreza podia dar-se ao luxo de possuir um.

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Mosaic, Pompeii
Mosaico, Pompeia Mary Harrsch (Photographed at the Museo Archaeologico Nazionale di Napoli) (CC BY-SA)

Os Gatos na Grécia e em Roma

Embora os gatos fossem criados por pessoas na Grécia e em Roma, o apreço pelo animal enquanto caçador não era tão grande nessas culturas devido à prática grega e romana de manter doninhas domesticadas para o controlo de pragas. Os romanos consideravam o gato como um símbolo de independência e não como uma criatura de utilidade. Os gatos eram mantidos como animais de estimação tanto por gregos como por romanos e eram muito valorizados.

Um epitáfio do século I de uma jovem segurando um gato está entre as primeiras evidências de gatos em Roma e, na Grécia, o dramaturgo Aristófanes (cerca de 446-386 a.C.) apresentava frequentemente gatos nas suas obras para efeito cómico (cunhando a frase "Foi o gato que o fez" ao atribuir culpas). No entanto, entre as civilizações antigas o gato era provavelmente menos popular entre os gregos devido à sua associação, em certos mitos, à deusa da morte, das trevas e das bruxas, Hécate, que é mais comummente associada ao cão (tal como a sua homóloga romana, Trivia). Um desenvolvimento muito posterior no apreço grego pelo gato é evidenciado na lenda de que o gato protegeu o menino Jesus de roedores e cobras, sendo-lhe por isso concedido o melhor dos lugares numa casa grega; no entanto, originalmente, não parecem ter sido muito estimados.

Acredita-se que os gatos foram trazidos para a Europa por mercadores fenícios, que os contrabandearam do Egito. Como se reconhece que os fenícios negociavam extensivamente com todas as civilizações conhecidas da época, os gatos poderiam ter sido espalhados pela região de forma bastante regular. Está bem documentado que os gatos eram mantidos em navios para controlar os vermes durante a Era dos Descobrimentos no século XV e, muito provavelmente, serviram o mesmo propósito para os fenícios. Se os fenícios trouxeram de facto o gato para a Europa, como parece muito provável, poderão também ter introduzido a associação grega do gato a Hécate. Como mencionado acima, Hécate era regularmente associada a cães, mas uma história em particular, que foi bastante popular, liga a deusa sombria ao gato.

O mito grego que sugere esta ligação é a bem conhecida história de Héracles (o Hércules romano) e diz respeito a Galinthius, uma criada da mãe de Héracles, a Princesa Alcmena. O deus Zeus seduziu Alcmena e esta engravidou de Héracles. A mulher de Zeus, Hera, foi frustrada na sua tentativa de matar Alcmena e Héracles devido à astúcia de Galinthius. Enfurecida, Hera transformou Galinthius num gato e enviou-a para o submundo para servir Hécate para sempre. Esta história foi popularizada pelo escritor latino Antonino Liberal (século II) nas suas Metamorfoses, uma recontagem de contos mais antigos que foi suficientemente popular para ser copiada e distribuída até ao século IX e para gozar de uma vasta leitura até, pelo menos, ao século XVI. Este mito, portanto, associou os gatos às trevas, à transformação, ao submundo e à bruxaria e, com o tempo, estas associações viriam a revelar-se muito infelizes para o gato.

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Os Gatos como Figuras Demoníacas

Embora pareça que os gatos tenham inicialmente desfrutado do seu antigo prestígio nos países europeus (na mitologia nórdica, por exemplo, a grande deusa Freya (ou Freia) é representada numa carruagem puxada por gatos, e tanto na Irlanda como na Escócia os gatos são retratados como mágicos num sentido positivo), a Igreja Cristã, seguindo o seu curso regular de demonização de símbolos pagãos importantes, baseou-se na ligação pré-existente entre o gato e a bruxaria para associar os gatos ao mal, personificado no Diabo. O escritor medieval Walter Map (cerca de 1140-1210) associou o gato a forças demoníacas na sua obra (embora seja possível que Map estivesse a ser satírico) e existem registos de gatos a serem mortos ritualmente em Cambridge, Inglaterra, no início do século XIII.

A reputação do gato sofreu um declínio mais grave depois de o Papa Gregório IX (1227-1241) ter emitido a sua bula papal conhecida como Vox in Rama, em 1233. Ao denunciar os gatos como malignos e em conluio com Satanás, os gatos — e especialmente os gatos pretos — foram demonizados ao ponto de serem regularmente mortos por toda a Europa. Não se deve assumir que o povo comum teria lido a Vox in Rama e respondido à mesma, nem sequer que a bula estivesse amplamente difundida (foi emitida apenas para Henrique III, Conde de Sayn, na Alemanha), mas a opinião da Igreja em relação aos gatos teria certamente filtrado dos níveis mais altos até aos leigos das congregações.

Argumenta-se há muito que a morte de tantos gatos permitiu que as populações de ratos e murganhos prosperassem e que as pulgas que estes vermes carregavam provocaram a Peste Bubónica de 1348. Embora esta teoria tenha sido contestada, não parece haver dúvidas de que uma diminuição na população de gatos resultaria num aumento do número de ratos e murganhos, e está estabelecido que houve tal decréscimo no número de gatos antes de 1348. Ainda que estudos recentes tenham concluído que a peste foi disseminada através da interação humana (e não pela interação com roedores), continuavam a ser os parasitas dos ratos e murganhos que transportavam a peste. Porém, as pessoas da época não faziam ideia de onde vinha a peste (a bactéria Yersinia pestis, que causa a peste, só foi isolada em 1894) e não viam qualquer correlação entre o número de roedores, de gatos e a doença; por conseguinte, os gatos continuaram a ser suspeitos de todo o tipo de má vontade e atributos perigosos.

Desmond Morris escreve: "Porque o gato era visto como maligno, foi-lhe atribuído todo o tipo de poderes assustadores pelos escritores da época. Dizia-se que os seus dentes eram venenosos, a sua carne peçonhenta, o seu pelo letal (causando sufocação se alguns fossem engolidos acidentalmente) e o seu hálito infecioso, destruindo os pulmões humanos e causando tísica"; e afirma ainda: "Tão tarde como 1658, Edward Topsel, na sua obra séria sobre história natural, [escreveu] 'os familiares das Bruxas aparecem mais ordinariamente sob a forma de Gatos, o que é um argumento de que esta besta é perigosa para a alma e para o corpo'" (pág. 158). Os habitantes das nações europeias, acreditando que o gato era maligno, evitavam não só o animal mas qualquer pessoa que parecesse excessivamente afeiçoada ao mesmo. As mulheres idosas que cuidavam de gatos eram especialmente suscetíveis de serem punidas por bruxaria, simplesmente com base em tal acusação.

A Era Vitoriana e a Reivindicação do Gato

Os gatos sobreviveram a estas superstições frenéticas melhor do que muitos dos seus companheiros humanos e, durante o Iluminismo do século XVIII, foram elevados ao estatuto de animais de estimação mimados. Isto deveu-se ao espírito da época e ao novo paradigma da razão que prevalecia sobre a superstição. O poder da Igreja em ditar a opinião popular fora quebrado pela Reforma Protestante (1517-1648) e, na Era das Luzes, as pessoas podiam escolher acreditar no que quisessem em relação aos gatos ou a qualquer outro assunto.

Durante a Era Vitoriana (1837-1901), os gatos foram novamente elevados ao prestígio que haviam desfrutado no Antigo Egito. A Rainha Vitória da Grã-Bretanha, que sempre tivera cães como animais de estimação, interessou-se por gatos através das muitas histórias de achados arqueológicos no Egito que eram publicadas regularmente em Inglaterra. Muitas destas histórias incluíam descrições da reverência egípcia pelos gatos, imagens de estátuas de Bastet e a associação felina aos deuses e à monarquia. O interesse da rainha pelo gato levou-a a adotar dois Persas Azuis, que tratava como membros da sua corte. Esta história foi divulgada pelos jornais da época e, como a Rainha Vitória era uma monarca muito popular, cada vez mais pessoas se interessaram em ter os seus próprios gatos.

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Esta tendência espalhou-se pelos Estados Unidos e foi incentivada pela revista mais popular da América na altura, a Godey’s Lady’s Book. Publicada por Louis A. Godey, de Filadélfia, entre 1830 e 1878, esta publicação mensal apresentava contos, artigos, poemas e gravuras, sendo talvez mais conhecida por ajudar a institucionalizar a prática da árvore de Natal familiar na América (embora também defendesse os direitos das mulheres, a educação, a celebração do Dia de Ação de Graças e tenha sido das primeiras a publicar a obra de Edgar Allan Poe).

Em 1836, a brilhante editora e escritora Sarah Josepha Hale juntou-se à Godey’s e aumentou significativamente a sua reputação e circulação. Num artigo de 1860, Hale escreveu que os gatos não eram exclusivamente para mulheres idosas ou monarcas e que qualquer pessoa deveria sentir-se à vontade para abraçar o "amor e virtude" do gato. A popularidade do gato nos Estados Unidos cresceu consideravelmente após o artigo da Godey’s. Pensa-se que os gatos chegaram pela primeira vez à América do Norte em 1749, vindos de Inglaterra, para ajudar a controlar a população de ratos e murganhos, mas parecem ter sido considerados maioritariamente utilitários até à Era Vitoriana, quando se tornaram animais de estimação queridos; nos Estados Unidos, isto deveu-se em grande parte à influência da Godey’s Lady’s Book e às contribuições de Sarah Hale para a mesma.

A Popularidade dos Gatos

Muitos escritores da época possuíam e admiravam gatos. Charles Dickens era tão dedicado aos seus gatos que lhes permitia a entrada no seu escritório e deixava regularmente que o seu favorito (conhecido como The Master's Cat) apagasse a vela da sua secretária, mesmo quando o autor estava a trabalhar. Evidentemente, o gato cansava-se de ver a atenção de Dickens dirigida para a página em vez de ser dedicada à companhia e às carícias felinas. Mark Twain, William Wordsworth, John Keats e Thomas Hardy foram todos grandes admiradores do gato e Lewis Carroll, naturalmente, criou uma das imagens mais duradouras do felino através do Gato de Cheshire na sua obra Alice no País das Maravilhas.

A primeira grande Exposição de Gatos foi realizada no 'Crystal Palace', em Londres, em 1871, e o apreço pelo animal foi elevado a tal nível que, pela primeira vez, foram atribuídos aos gatos "padrões e classes específicos", que ainda hoje são utilizados para categorizar os felinos. As exposições de gatos tornaram-se cada vez mais populares após este evento e o interesse na criação e exibição de gatos espalhou-se por toda a Europa e América do Norte. A primeira exposição de gatos na América (em 1895) foi tão popular que se realizou no Madison Square Garden, em Manhattan. De agentes de controlo de pragas a criaturas divinas ou semidivinas, a encarnações do mal e, finalmente, a animais de estimação, os gatos têm sido companheiros próximos dos seres humanos há séculos. Continuam a ser companheiros valiosos para pessoas em todo o mundo atual e, ao fazê-lo, estes indivíduos dão continuidade ao legado dos antigos na sua devoção e apreço pelo gato.

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Mark, J. J. (2026, maio 03). Gatos no Mundo Antigo. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-466/gatos-no-mundo-antigo/

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Mark, Joshua J.. "Gatos no Mundo Antigo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 03, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-466/gatos-no-mundo-antigo/.

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