Mito de Etana

A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O Mito de Etana é a história do rei sumério antediluviano de Quis (Kish), que ascende ao céu montado numa águia para pedir aos deuses a Planta do Nascimento, para que possa ter um filho. Etana é referido como o primeiro rei de Quis na Lista dos Reis Sumérios, que afirma que reinou no início do terceiro milénio a.C. O texto foi identificado pela primeira vez em 1894, a partir de fragmentos encontrados nas ruínas da Biblioteca de Assurbanípal.

De acordo com a Lista dos Reis Sumérios, Etana era conhecido como «aquele que estabilizou as terras» depois de os deuses terem criado ordem a partir do caos e estabelecido os conceitos de realeza e governo entre a humanidade. Etana era, portanto, uma figura bem conhecida e altamente respeitada e terá sido escolhido como personagem central precisamente por esta razão.

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Uma mensagem central do mito é que se deve confiar nos deuses e Etana, um grande rei, teria sido escolhido pelo autor desconhecido como o melhor exemplo para transmitir essa mensagem.

A Mensagem Central

O facto de o mito ser muito antigo é atestado por selos cilíndricos que retratam Etana nas costas de uma águia, datados do reinado de Sargão de Acádia (reinou 2334-2279 a.C.). O Museu Britânico possui, entre os seus acervos, um fragmento do Mito de Etana proveniente da biblioteca do rei Assurbanípal em Nínive, datado do século VII, mas, como salienta G.S. Kirk:

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A versão neo-assíria da biblioteca de Assurbanipal é, por acaso, o texto que melhor se conservou, mas nos pontos em que se sobrepõe a uma versão da Antiga Babilónia, de mil anos anterior, corresponde-lhe de forma muito próxima, por vezes palavra por palavra. Um breve fragmento do assírio médio mantém a mesma precisão.

(pág. 25)

A história contém muitos motivos presentes nos mitos de todas as culturas: uma grande cidade criada pelos deuses, a busca por um governante digno, animais falantes, juramentos quebrados, intervenção divina e uma missão que leva o herói à terra dos deuses. O mito pode ter tido como objetivo transmitir uma mensagem política relativa à realeza, bem como à relação entre os deuses e o rei, conforme observado pelo estudioso A. Leo Oppenheim:

Os deuses dotam o rei de força, inteligência superior, boa saúde e sucesso; assim, o rei atribui rendimentos e oferendas aos santuários; pastagens às cidades e poder executivo aos administradores do seu reino; e, da mesma forma, o cidadão comum dispõe dos seus bens a favor dos seus filhos e herdeiros.

(pág. 202)

O dever do rei não se limitava, contudo, ao seu povo, mas estendia-se aos deuses que lhe tinham dado a vida e o tinham colocado na sua posição. De acordo com a crença suméria (e a crença mesopotâmica em geral), os deuses tinham criado a humanidade como colaboradores para manter a ordem e controlar as forças do caos. O rei era responsável, tanto perante os deuses como perante os seus súbditos, por garantir que a vontade dos deuses fosse compreendida e posta em prática.

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Ele não poderia desempenhar esta tarefa se não tivesse ele próprio fé nos deuses e, por isso, o mito, para além dos seus muitos outros temas, teria enfatizado a fé de Etana nos deuses, mesmo quando parecia que as suas orações não tinham sido atendidas.

O Resumo

A história começa com a fundação e a construção da grande cidade de Quis, onde os deuses rodeiam a cidade com muralhas altas e, em seguida, iniciam uma busca cuidadosa por um rei para governar a cidade. Etana é finalmente escolhido por Ishtar/Inanna para governar e constrói um santuário dedicado ao deus Adad. Perto deste santuário cresce um choupo, nos cujos ramos uma águia construiu um ninho e nas raízes uma serpente fez o seu lar.

Legend of the Hero Etana Inscription
Lenda da Inscrição do Herói Etana Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A águia e a serpente fazem um juramento de lealdade, tendo Utu-Shamash, deus do sol e da justiça divina, como testemunha, de que serão amigas e cuidarão dos filhos uma da outra. A águia cuidará dos filhos da serpente quando esta sair em busca de alimento, e a serpente fará o mesmo pela águia. Este acordo funciona bem até que, um dia, quando os filhos da águia já estão crescidos, a águia decide comer os filhos da serpente, sem dar ouvidos aos gritos de aviso dos seus próprios filhos, que lhe imploram para não o fazer.

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Quando a serpente regressa a casa com a comida do dia, descobre que os seus filhos desapareceram, que o seu ninho foi destruído e que as marcas das garras da águia estão na terra à volta do que outrora foi o seu lar. Ela clama a Shamash por ajuda para punir a águia e é instruída a esconder-se dentro da carcaça de um boi selvagem e, quando a águia vier comer a carne, a agarrá-la, cortar-lhe as asas e as penas da cauda, depená-la e atirá-la para um fosso.

A serpente faz o que lhe foi ordenado e a águia, indefesa na fossa, clama agora ao próprio Shamash, pedindo ajuda. Shamash diz à águia que o que esta fez aos filhos da serpente foi um ato horrível, mas que o deus enviará Etana para a ajudar.

Entretanto, Etana também está a implorar ajuda a Shamash, porque a sua mulher é estéril e ele desespera por não ter um filho e herdeiro do seu trono. Shamash encaminha Etana para a fossa onde a águia está a sofrer e Etana cuida da ave até esta recuperar a saúde. A águia e Etana tornam-se amigos íntimos e a águia chega mesmo a interpretar-lhe os sonhos.

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Num desses sonhos, Etana ascende ao céu montado na águia e recebe a Planta do Nascimento das mãos de Ishtar. A águia acredita que este sonho é uma mensagem dos deuses para que ambos empreendam esta aventura e diz a Etana para se agarrar às suas asas, encostando o peito ao peito da ave.

A história de Etana contém muitos motivos presentes nos mitos de todas as culturas.

Agarrado à barriga da grande águia, Etana é levado até aos céus. Está tão alto que, quando olha para baixo, não consegue ver a terra e fica com medo.

Ele grita para a águia: «Olhei, mas não consegui ver a terra! Nem os meus olhos foram suficientes para encontrar o vasto mar! Meu amigo, não vou subir ao céu. Põe-me no chão, deixa-me ir para a minha cidade» e, em seguida, solta-se da águia e mergulha em direção à terra. A águia desce em picada atrás de Etana e resgata-o.

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Os dois regressam à cidade de Quis, onde Etana e a sua mulher têm ambos sonhos, e a águia interpreta o sonho de Etana como uma ordem para fazer uma segunda tentativa de chegar aos céus. A segunda tentativa é bem-sucedida, na medida em que alcançam as alturas do céu e chegam à morada dos deuses para se curvarem juntos, mas o resto da história perdeu-se.

Como Etana teve um filho, Balikh, que o sucedeu como rei (e diz-se que reinou durante 1500 anos), entende-se que o sonho que Etana teve, em que Ishtar lhe concedia a Planta do Nascimento, se tornou realidade.

O Texto

A tradução infra é da tradução inglesa é da autoria de Benjamin R. Foster, extraída da sua obra From Distant Days: Myths, Tales and Poetry from Ancient Mesopotamia (De Dias Distantes: Mitos, Contos e Poesia da Antiga Mesopotâmia), utilizada sob Licença Creative Commons do sítio web Gateways to Babylon e complementada pela tradução de Stephanie Dalley, parafraseada pelo autor deste artigo por palavras próprias, próximo da conclusão.

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TABLETA I
Eles planearam uma cidade [ ]
Os deuses lançaram as suas fundações
Eles planearam a cidade [Quis?]
Os Igigi-gos ergueram a sua alvenaria [ ]
«Que [ ] seja o seu (do povo) pastor,
«Que Etana seja o seu arquiteto...»
Os Grandes deuses Anunnaki, determinadores dos destinos,
Sentaram-se a deliberar sobre a terra,
Os criadores das quatro regiões do mundo, os fundadores de todas as formas físicas,
Por ordem de todos eles, os deuses Igigi
determinaram um festival para o povo
Não estabeleceram nenhum rei sobre os povos em abundância,
Naquela altura, ainda não se tinha confecionado nenhum cocar, nem coroa,
nem sequer se tinha feito um cetro com lápis-lazúli.
Não se tinha construído qualquer tipo de estrado de trono,
Fecharam as portas ao mundo habitado...
Os deuses Igigi cercaram a cidade com muralhas
Ishtar desceu do céu para procurar um pastor,
E procurou um rei por todo o lado.
Inninna desceu do céu para procurar um pastor,
e procurou um rei por todo o lado.
Enlil examinou o estrado de Etana,
O homem a quem Ishtar, com determinação... Ela tem procurado incessantemente...
«Que a realeza se estabeleça na terra,
Que o coração de Quis se regozije»
A realeza, a coroa radiante, o trono [ ]
Ele (?) trouxe e [ ]
Os deuses das terras...
(grande lacuna)

TABLETA II
[ ] a que ele chamou [ ]....
a Grande Cheia
[ ] ele tinha construído uma torre (?) [ ]
[ ] santuário dedicado a Adad, o deus [ ],
À sombra desse santuário crescia um choupo [ ],
Na sua copa, uma águia pousou,
Uma serpente instalou-se na sua raiz.
Diariamente, observavam as bestas do vento.
A águia preparou-se para falar, dizendo à serpente:
«Vem, vamos fazer amizade,
sejamos companheiros, tu e eu».
A serpente preparou-se para falar, dizendo à águia:
«Se, de facto... se trata de amizade e [ ]
Então vamos fazer um juramento poderoso em nome de Shamash.
Uma abominação para os deuses [ ]
«Vem, então, partamos e subamos à montanha alta para caçar.
«Façamos um juramento pelo submundo».
Perante Shamash, o guerreiro, prestaram o juramento:
«Quem quer que transgreda os limites de Shamash
«Que Shamash o entregue, como infrator, nas mãos do carrasco,
«Quem quer que transgrida os limites de Shamash,
«Que as montanhas afastem os seus louvores dele,
«Que a arma que se aproxima se dirija diretamente a ele,
«Que a armadilha e a maldição de Shamash o derrubem e o persigam!»
Depois de terem prestado juramento pelo submundo,
Partiram, subindo as altas montanhas,
a cada dia, por turnos, vigiando os animais selvagens,
A águia caçava bois selvagens e gazelas,
a serpente comia, afastava-se e, depois, os seus filhotes comiam;
A águia caçava carneiros selvagens e auroques,
A serpente comia, afastava-se, e depois os seus filhos comiam.
A serpente caçava os animais do campo, as criaturas da terra,
A águia comia, afastava-se e, depois, os seus filhotes comiam a comida,
Os filhotes da águia cresceram e prosperaram.
Depois de os filhos da águia terem crescido e prosperado,
o coração da águia, de facto, tramou o mal,
O seu coração tramou, de facto, o mal!
Decidiu devorar os filhotes do seu amigo!
A águia preparou-se para falar, dizendo aos seus filhotes:
«Vou comer os filhotes da serpente, a serpente [ ],
«Subirei e habitarei no céu,
«Se eu descer da copa da árvore, ... o rei.»
O filhote mais novo, extremamente sábio, disse estas palavras à águia, seu pai:
«Não comas, meu pai!
A rede de Shamash irá caçá-lo,
A malha e o juramento de Shamash derrubar-te-ão e perseguir-te-ão.
Quem transgredir os limites de Shamash,
Shamash entregá-lo-á como criminoso nas mãos do carrasco!»
Ele não lhes deu ouvidos, nem escutou as palavras dos seus filhos,
Desceu e devorou os filhotes das serpentes,
Ao anoitecer do mesmo dia,
a serpente chegou, carregando o seu fardo,
À entrada do seu ninho, atirou a carne para baixo,
Olhou à sua volta, o seu ninho tinha desaparecido
Olhou para baixo, os seus filhotes não estavam [ ]!
A águia tinha escavado o chão com a sua garra,
A nuvem de poeira que subia do chão escureceu o céu.
A serpente... a chorar perante Shamash,
Perante Shamash, o guerreiro, as suas lágrimas escorriam,
«Confiei em ti, ó guerreiro Shamash,
Fui eu quem deu provisões à águia,
Agora o meu ninho [ ]!
O meu ninho desapareceu, enquanto o ninho dele está a salvo,
Os meus filhotes foram destruídos, enquanto os dele estão a salvo,
Ele desceu e devorou os meus filhos!
Tu sabes, ó Shamash, o mal que ele me fez,
Na verdade, ó Shamash, a tua rede é a vasta terra,
A tua armadilha é o céu distante,
A águia não deve escapar da tua rede,
aquele Anzu maligno que nutria maldade contra os seus amigos!»
Depois de ouvir o lamento da serpente,
Shamash preparou-se para falar e disse-lhe:
«Segue o teu caminho e atravessa a montanha,
capturei para ti um boi selvagem.
Abre-lhe as entranhas, rasga-lhe a barriga,
prepara uma emboscada no seu ventre,
todo o tipo de aves do céu descerá para comer a carne.
A águia descerá com elas para comer a carne,
pois não saberá do mal que lhe está reservado,
Ela procurará a carne mais suculenta [ ], andará por fora,
E abrirá caminho até à membrana que envolve os intestinos,
«Quando ela entrar, agarrai-a pelas asas,
Cortem-lhe as asas, as penas das asas e as da cauda,
Depenai-o e atirai-o para um abismo sem fundo,
Deixai-o morrer ali de fome e sede».
Tal como Shamash, o guerreiro, ordenou,
a serpente partiu e atravessou a montanha.
Então, a serpente alcançou o boi selvagem,
abriu-lhe as entranhas, rasgou-lhe o ventre.
Arranjou uma emboscada no seu ventre.
Todo o tipo de aves do céu desceu para comer a carne.
Será que a águia sabia do mal que lhe estava reservado?
Ela não quis comer a carne com as outras aves!
A águia preparou-se para falar, dizendo aos seus filhotes:
«Vinde, desçamos e comamos também nós a carne do boi selvagem.»
O pequeno filhote, extremamente sábio, disse estas palavras à águia, seu pai:
«Não desças, pai, sem dúvida que a serpente está à espreita dentro do boi selvagem».
A águia disse para si mesma:
«Será que as aves têm medo? Como é que conseguem comer a carne em paz?»
Ele não lhes deu ouvidos, não deu ouvidos às palavras dos seus filhos,
Desceu e pousou no boi selvagem.
A águia olhou para a carne, examinando-a à frente e atrás.
Pela segunda vez, olhou para a carne, examinando-a por diante e por trás,
Contornou-a por fora, abriu caminho até à membrana dos intestinos,
Quando entrou, a serpente agarrou-o pelas asas,
«Intrometeste-te... intrometeste-te...!
A águia preparou-se para falar, dizendo à serpente:
«Tem piedade de mim! Vou dar-te um presente tão valioso quanto o resgate de um rei!»
A serpente preparou-se para falar, dizendo à águia:
«Se te libertar, como responderei a Shamash lá em cima?
A tua punição recairia sobre mim,
sobre mim, que fui quem te infligiu a punição!»
Cortou-lhe as asas, as penas das asas e as da cauda,
arrancou-lhe as penas e atirou-o para um poço,
Para que morresse ali de fome e de sede.
Quanto a ele, a águia,.....[ ]
Continuou a implorar a Shamash dia após dia:
«Será que vou morrer numa cova?
Quem saberia como é que a tua punição me foi imposta?
Salva a minha vida, a águia!
Deixa-me fazer com que o teu nome seja ouvido para sempre».
Shamash preparou-se para falar e disse à águia:
«És perverso e cometeste um ato repugnante.
Cometeste uma abominação aos deuses, um ato proibido.
Não estavas sob juramento? Não me aproximarei de ti.
Calma, calma! Vou enviar-te um homem que te ajudará.»
Etana continuou a implorar a Shamash dia após dia:
«Ó Shamash, alimentaste-te das minhas ovelhas mais gordas!
Ó Submundo, bebeste do sangue dos meus cordeiros sacrificados!
Honrei os deuses e reverenciei os espíritos,
Os intérpretes de sonhos esgotaram o meu incenso,
Os deuses esgotaram os meus cordeiros no sacrifício.
Ó Senhor, dá a ordem!
Concede-me a planta do nascimento!
Revela-me a planta da descendência!
Alivia-me do meu fardo, concede-me um herdeiro!»
Shamash preparou-se para falar e disse a Etana:
«Encontra uma cova, olha para dentro,
Há uma águia lançada lá dentro.
Ela revelar-te-á a planta do nascimento».
Etana seguiu o seu caminho.
Encontrou o poço, espreitou para dentro
A águia estava lá dentro
Ali estava ela, à espera que ele a tirasse de lá!

TABLETA III
A águia olhou para ele...
Ele disse [ ] a Etana:
«Tu és Etana, rei dos animais selvagens,
Tu és Etana, [ ] entre (?) as aves.
Tira-me desta cova
Dá-me [ ] a tua mão,
«..... [ ],
cantarei os teus louvores para sempre».
Etana disse estas palavras à águia:
«Se eu te salvar a vida, [ ]
se te tirar da cova,
a partir desse momento teremos de ser .........."
«[ ] para mim [ ]
«Desde o nascer do sol até [ ]
«..... [ ]
«Conceder-te-ei a planta da vida».
Quando Etana ouviu isto,
encheu a parte da frente do poço com [ ]
Em seguida, atirou para dentro... [ ]
Continuou a atirar [ ] à sua frente,
A águia... do poço
Quanto a ele, bateu as asas,
Uma primeira vez e uma segunda vez... a águia na cova,
Quanto a ele, bateu as asas...
Uma terceira vez e uma quarta vez... [a águia... no? O fosso
Quanto a ele, bateu as asas
Uma quinta e uma sexta vez...
(versos fragmentados, seguidos de uma lacuna)
(de outra versão)
Ele pegou-lhe na mão no seu sétimo mês na cova,
No oitavo mês, levou-o para fora do poço,
A águia devorou a comida como um leão voraz,
Ele ganhou forças.
A águia preparou-se para falar e disse a Etana:
«Meu amigo! Sejamos amigos, tu e eu!
Pede-me o que desejares e eu dar-to-ei».
Etana preparou-se para falar e disse à águia:
«Os meus olhos... revelem o que está oculto.
(lacuna)
Etana e a águia tornam-se amigos. Etana tem sonhos, que conta à águia.
[ ] acima
[ ] aos meus pés
A águia fez com que Etana compreendesse o sonho,
[ ] sentada diante dele,
«[ ] o teu sonho é auspicioso,
«[ ] o fardo é trazido,
«Eles darão [ ]
«Fizeste [ ] ao povo
" Vais agarrar... na tua mão,
" O laço sagrado [ ] acima
" [ ] aos teus pés."
Etana disse-lhe, à águia.
«Meu amigo, tive um segundo sonho,
" [ ] juncos [ ] na casa,
Em toda a [ ], toda a terra,
«Amontoaram montes deles em pilhas,
«[ ] inimigos, eram serpentes perversas,
«[ ] vinham na minha direção,
«[ ] estavam de joelhos perante mim».
A águia fez com que Etana compreendesse o sonho
[ ] sentada levou-o
"[ ] o teu sonho é auspicioso"
(lacuna)

TABLETE IV
A águia preparou-se para falar, dizendo a Etana:
«Meu amigo... aquele deus...»
«Atravessámos os portões de Anu, Enlil e Ea,
Atravessámos os portões de Sin, Shamash, Adad e Ishtar,
Prestámos homenagem juntos, tu e eu,
vi uma casa com janelas, não tinha selo
Eu... e entrei.
Uma jovem notável estava sentada lá dentro,
Ela era imponente... de traços belos.
Havia um trono, o chão estava pisado,
debaixo do trono [ ] havia leões agachados,
Assim que entrei, os leões lançaram-se sobre mim.
Acordei de sobressalto e estremeci [ ]».
A águia disse-lhe, a Etana:
«Meu amigo, o [ ] é óbvio,
Vem, deixa-me levar-te até ao céu,
encosta o teu peito ao meu,
coloca as tuas mãos contra as penas das minhas asas,
coloca os teus braços contra os meus flancos».
Ele encostou o peito ao peito dele,
colocou as mãos contra as penas das minhas asas,
colocou os braços contra os meus flancos,
Grande era, de facto, o fardo que sobre ele recaía.
Quando o levou para o alto, a uma légua de distância,
A águia disse-lhe, a Etana:
«Olha, meu amigo, como está agora a terra.
Observa o mar, procura os seus limites
A terra é composta por colinas...
O mar tornou-se um rio».
Depois de o ter levado para o alto mais uma segunda légua,
a águia disse-lhe, disse a Etana:
«Olha, meu amigo, como está agora a terra!
A terra é uma colina».
Quando o levou mais uma légua para o alto,
a águia disse-lhe, disse a Etana:
«Olha, meu amigo, como está agora a terra!»
O mar tornou-se uma vala de jardineiro».
Depois de terem subido ao céu de Anu,
atravessaram os portões de Anu, Enlil e Ea,
a águia e Etana fizeram uma reverência juntos,
No portão de Sin
A águia e Etana fizeram uma reverência juntos
(lacuna, versos fragmentados)
(outra versão deste episódio)
«Pelo poder de Ishtar [ ]
«Coloca os teus braços contra os meus flancos,
coloca as tuas mãos contra as penas das minhas asas».
Ele colocou os braços contra os flancos,
colocou as mãos contra as penas das minhas asas.
Quando já o tinha elevado uma légua,
«Olha, meu amigo, como está agora a terra!»
«A circunferência da terra ficou reduzida a um quinto do seu tamanho.
«O vasto mar tornou-se como um pequeno prado.»
Quando o levou para o alto mais uma segunda légua,
«Olha, meu amigo, como está agora a terra!»
«A terra tornou-se um canteiro de jardim [ ],
«E o vasto mar tornou-se um bebedouro».
Quando o levou para o alto mais uma terceira légua,
«Olha, meu amigo, como está agora a terra!»
«Olhei, mas não consegui ver a terra!
«Nem os meus olhos bastaram para encontrar o vasto mar!
«Meu amigo, não vou subir ao céu
«Põe-me no chão, deixa-me ir para a minha cidade».
Deixou-o cair uma légua (?)
Depois, a águia mergulhou e agarrou-o nas suas asas.
A uma segunda légua, deixou-o cair (?)
Então a águia mergulhou e apanhou-o nas suas asas,
Uma terceira légua depois, deixou-o cair (?)
Então a águia mergulhou e apanhou-o nas suas asas,
A três côvados do solo [deixou-o cair],
A águia mergulhou e agarrou-o nas suas asas,
A águia [ ] e... enquanto ele, Etana [ ]

Conclusão

Nesta altura, de acordo com a tradução de Stephanie Dalley, existe uma «lacuna de duração incerta» e, em seguida, a sua tradução prossegue a história do regresso de Etana e da águia à cidade de Quis. Em Quis, Etana tem uma série de sonhos que «o encorajam a fazer uma segunda tentativa para chegar ao céu».

O resto da obra narra os sonhos de Etana, a interpretação da águia, o sonho da esposa de Etana (no qual ela parece vislumbrar um longo reinado para Etana) e o segundo voo de Etana e da águia até ao céu, onde «atravessaram o portão de Sin, Shamash, Adad e Ishtar» e se curvaram juntos. Como a última linha do texto diz «Ele empurrou-o para abrir [e entrou]», Dalley conclui que esta segunda tentativa de chegar aos céus é bem-sucedida e que Etana recebe a Planta da Vida de Ishtar.

Entre as suas muitas mensagens para um público antigo, o mito de Etana teria assegurado ao povo que os deuses estavam cientes das suas necessidades e ouviam e respondiam às suas orações — mesmo que isso pudesse não lhes parecer assim à primeira vista. O mito enquadra-se perfeitamente no género conhecido como literatura naru mesopotâmica — histórias que retratam uma figura bem conhecida (geralmente um rei) num conto ficcional que desenvolve e promove algum valor cultural importante.

Etana, apesar de ser rei, é retratado como tendo problemas como qualquer outra pessoa e, tal como aqueles que teriam sido o público original da história, os deuses asseguram-lhe que tudo correrá bem desde que confie neles. Embora a sua primeira tentativa de escalar as alturas do céu falhe, ele acredita na veracidade do seu sonho e na bondade dos deuses, tenta novamente e é recompensado pela sua fé.

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Perguntas & Respostas

O que é o «Mito de Etana»?

O» Mito de Etana» é um antigo poema religioso da Mesopotâmia que narra a história de Etana, rei de Quis, e a sua viagem ao céu montado numa águia para ir buscar a Planta do Nascimento, para que a sua esposa lhe pudesse dar um filho e herdeiro.

Quando é que o «Mito de Etana» foi composto pela primeira vez?

Desconhece-se quando o «Mito de Etana» foi composto pela primeira vez, mas as imagens de Etana e da águia datam do reinado de Sargão de Acádia (2334-2279) e os textos datam do Período da Antiga Babilónia (cerca de 1894-1595).

Quando é que o «Mito de Etana» foi descoberto pela primeira vez?

O «Mito de Etana» foi identificado pela primeira vez em 1894, a partir de fragmentos da Biblioteca de Assurbanípal, do século VII a.C., encontrados nas ruínas da cidade de Nínive.

Qual é a mensagem central do «Mito de Etana»?

A mensagem central do «Mito de Etana» é a importância da fé nos deuses, mesmo quando parece que estes não estão a responder às nossas orações.

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Estilo APA

Mark, J. J. (2026, setembro 27). Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 27, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Mito de Etana: A Fé e a Realeza na Antiga Mesopotâmia." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-224/mito-de-etana/.

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