Enlil no E-kur (incipit: en-lil2-e ĝu3-de3-a-ni mah-a: cerca de 2000 a.C.) é um hino sumério que louva o deus do céu Enlil, o seu templo/zigurate em Nipur e a sua consorte Ninlil, retratando ambos e Enlil em termos sumamente laudatórios, sendo este último apresentado como um deus criador. A obra é grandemente apreciada tanto como um trabalho importante da literatura mesopotâmica como pela sua influência em livros da Bíblia.
O hino era quase certamente entoado em festivais na antiga Mesopotâmia em honra de Enlil, cujo complexo de templos em Nipur figurava entre os mais opulentos da Suméria. Nipur foi sempre considerada uma cidade sagrada, sede do culto de Enlil, e os reis do período dinástico primitivo na Mesopotâmia (cerca de 2900 a cerca de 2350/2334 a.C.), do período acádio (2350/2334–2154 a.C.) e do período da Terceira Dinastia de Ur (cerca de 2112 a cerca de 2004 a.C.) — assim como monarcas posteriores — fizeram dela uma prioridade nos seus projetos de construção, renovação e restauração.
Os reis do período da Terceira Dinastia de Ur, a começar por Ur-Nammu (cujo reinado decorreu entre cerca de 2112 e 2094 a.C.) e pelo seu filho Shulgi de Ur (reinado de 2094 a cerca de 2046 a.C.), prestaram especial atenção a Nipur, uma vez que reivindicavam a sua autoridade para governar a partir de Enlil e Ninlil. Pensa-se que o poema data do reinado de Shulgi, tal como acontece com outras obras semelhantes, incluindo o poema Shulgi e a Barca de Ninlil.
Enlil no E-Kur (também conhecido como Enlil A, Hino a Enlil e Hino ao E-kur) era claramente popular, a julgar pelo número de cópias encontradas em Nipur e noutros locais. A peça estava incluída no currículo da edubba («Casa das Tabuletas»), a escola de escribas mesopotâmica, como parte do curso avançado de estudos conhecido como a Década (grupos de dez composições), perto do fim da educação formal de um estudante.
As tabuletas cuneiformes foram encontradas em fragmentos no início do século XX, e a obra foi traduzida e publicada pela primeira vez entre 1918 e 1928. Hoje em dia, figura entre as obras mais populares da literatura da antiga Mesopotâmia devido à sua descrição detalhada do E-Kur (o templo), à representação de Enlil como a fonte de toda a criação e à influência que se crê ter exercido sobre os livros posteriores da Bíblia, em particular o Livro dos Salmos.
O Resumo e o Comentário
Enlil começou por ser o deus sumério do ar, filho de An (Anu), o Senhor dos Céus, mas acabou por substituir o seu pai como rei dos deuses, formando também uma tríade divina com Anu e Enki, o deus da sabedoria. Em alguns mitos, Enlil surge como subordinado a Anu, a Enki ou à sua consorte Ninlil, mas na maioria é a divindade mais poderosa do panteão mesopotâmico, guardião das Tábuas do Destino — que continham os fados de deuses e humanos — e criador e preservador da ordem universal. Foi venerado desde cerca de 2900 até cerca de 141 a.C.
Enlil no E-kur aborda esta visão do deus como sumamente poderoso e enfatiza constantemente a sua grandeza e o esplendor da sua morada em Nipur ao longo de todo o texto, concluindo com um verso final de louvor. O académico Jeremy Black oferece um breve resumo do desenvolvimento do texto:
A estrutura alterna entre descrições na terceira pessoa (1-64, 100-130) e endereços diretos à divindade (65-99, 131-171). Imagens de retidão (18-25), festividade (44-55), brilho visual (65-73), imponência (74-83), fatalidade (100-108) e justiça (139-155) predominam em grande parte do poema. Numa passagem extraordinária (109-130), o poeta tenta imaginar o mundo sem Enlil: conclui que absolutamente nada existiria.
(págs. 320-321)
O deus é também referido como um «pastor fiel» (verso 93) e o «príncipe do céu» (verso 100), o que, aliado a outros epítetos e atributos conferidos ao longo da obra, levou alguns estudiosos a apontar a influência deste texto sobre os Salmos da Bíblia (notadamente o famoso Salmo 23, que começa com «O Senhor é o meu pastor...»), bem como sobre outros livros bíblicos, incluindo partes de Isaías, os evangelhos e o Livro do Apocalipse.
O Texto
O texto infra foi extraído The Literature of Ancient Sumer (A Literatura da Antiga Suméria) e de The Electronic Corpus of Sumerian Literature (ETCSL O Corpus Eletrónico da Literatura Suméria) traduzido para inglês pelo estudioso Jeremy Black et al. As elipses indicam palavras ou linhas ausentes, enquanto os pontos de interrogação sugerem traduções alternativas para uma palavra. O hino dirige-se a Enlil sob vários nomes, incluindo Nunamnir e Grande Montanha, enquanto o seu templo é designado como a Casa da Montanha, entre outros termos, como Dur-an-ki, o local de encontro entre o céu e a terra. A deusa Ninhursag surge aqui como Nintu, sendo também mencionado o filho de Enlil, Nuska. Nipur é referida como Nibru, e o abzu remete para o reino aquático situado sob a cidade sagrada de Eridu, considerado uma fonte de vida em alguns mitos.
1-9: As ordens de Enlil são de longe as mais sublimes, as suas palavras são sagradas, os seus pronunciamentos são imutáveis! O destino que decreta é eterno, o seu olhar inquieta as montanhas, o seu... alcança (?) o interior das montanhas. Todos os deuses da terra inclinam-se perante o Pai Enlil, que se senta confortavelmente no estrado sagrado, o estrado sublime de Nunamnir, cuja senhoria e soberania são sumamente perfeitas. Os deuses Anuna comparecem perante ele e cumprem obedientemente as suas instruções.
10-17: O poderoso senhor, o maior no céu e na terra, o juiz perito, o sábio de sabedoria abrangente, tomou assento no Dur-an-ki e fez do Ki-ur, o grande lugar, um prodígio resplandecente de majestade. Estabeleceu residência em Nibru, o sublime vínculo (?) entre o céu e a terra. A fachada da cidade está carregada de um temor terrível e de fulgor, as suas traseiras são de tal ordem que nem o mais poderoso deus ousa atacar, e o seu interior é o gume de um punhal afiado, uma lâmina de catástrofe. Para as terras rebeldes, é um laço, uma armadilha, uma rede.
18-25: Corta a vida daqueles que falam com demasiado poder. Não permite que seja proferida nenhuma palavra má em julgamento (?). ..., a falsidade, a linguagem inimiga, a hostilidade, a impropriedade, o mau trato, a maldade, a transgressão, o olhar de sossego (?), a violência, a difamação, a arrogância, a linguagem licenciosa (?), o egoísmo e a jactância são abominações não toleradas dentro da cidade.
26-34: As fronteiras de Nibru formam uma grande rede, no interior da qual a águia hurin abre largamente as suas garras. O homem mau ou ímpio não escapa ao seu alcance. Nesta cidade dotada de firmeza, para a qual a retidão e a justiça foram tornadas uma possessão duradoura, e que está trajada (?) com vestes puras no cais, o irmão mais novo honra o irmão mais velho e trata-o com dignidade humana; as pessoas prestam atenção à palavra de um pai e submetem-se à sua proteção; a criança comporta-se com humildade e modéstia para com a sua mãe e alcança uma provecta velhice.
35-43: Na cidade, o povoado sagrado de Enlil, em Nibru, o santuário amado do pai Grande Montanha, ele fez erguer do solo o estrado da abundância, o E-kur, o templo brilhante; fê-lo crescer em terra pura tão alto como uma montanha imponente. O seu príncipe, a Grande Montanha, o Pai Enlil, tomou lugar no estrado do E-kur, o santuário sublime. Nenhum deus pode causar dano aos poderes divinos do templo. Os seus ritos sagrados de purificação das mãos são eternos como a terra. Os seus poderes divinos são os poderes divinos do abzu: ninguém os pode contemplar.
44-55: O seu interior é um mar largo que desconhece o horizonte. No seu... a resplandecer como um estandarte (?), os vínculos e os antigos poderes divinos são aperfeiçoados. As suas palavras são preces, os seus encantamentos são súplicas. A sua palavra é um presságio favorável..., os seus ritos são preciosíssimos. Nos festivais, há abundância de banha e nata; estão repletos de abundância. Os seus planos divinos trazem alegria e regozijo, os seus veredictos são grandiosos. Diariamente há um grande festival e, ao fim do dia, uma farta colheita. O templo de Enlil é uma montanha de abundância; estender a mão, olhar com cobiça e apoderar-se são abominações nele.
56-64: Os sacerdotes lagar deste templo, cujo senhor cresceu com ele, são peritos na bênção; os seus sacerdotes gudu do abzu são adequados para os vossos ritos de purificação; os seus sacerdotes nuec são perfeitos nas preces sagradas. O seu grande agricultor é o bom pastor da Terra, que nasceu vigoroso num dia auspicioso. O agricultor, adequado para os campos vastos, traz oferendas copiosas; ele não... para o E-kur resplandecente.
65-73: Enlil, quando demarcaste os povoados sagrados, também construíste Nibru, a tua própria cidade. Tu (?) ... o Ki-ur, a montanha, o teu lugar puro. Fundaste-a no Dur-an-ki, no meio dos quatro quartos da terra. O seu solo é a vida da Terra e a vida de todos os países estrangeiros. A sua obra de tijolo é ouro vermelho, a sua fundação é lápis-lazúli. Fizeste-a resplandecer no alto da Suméria como se fossem os chifres de um touro selvagem. Ela faz tremer de medo todos os países estrangeiros. Nos seus grandes festivais, o povo passa o tempo na abundância.
74-83: Enlil, a sagrada Urac é agraciada com beleza para ti; és imensamente adequado para o abzu, o trono sagrado; refrescas-te no submundo profundo, a câmara sagrada. A tua presença espalha uma imponência sobre o E-kur, o templo resplandecente, a morada sublime. A sua tremenda força e o seu fulgor elevam-se até ao céu, a sua sombra estende-se sobre todas as terras estrangeiras, e as suas ameias chegam até ao meio do céu. Todos os senhores e soberanos fornecem ali regularmente oferendas sagradas, aproximando-se de Enlil com preces e súplicas.
84-92: Enlil, se olhas com benevolência para o pastor, se enalteces aquele que é verdadeiramente chamado na Terra, então os países estrangeiros ficam nas suas mãos, os países estrangeiros ficam aos seus pés! Até os países estrangeiros mais distantes se submetem a ele. Fará então com que rendimentos colossais e pesados tributos, como se de água fresca se tratassem, cheguem ao tesouro. No grande pátio, fornecerá oferendas regularmente. Para o E-kur, o templo resplandecente, trará (?) ...
93-99: Enlil, o pastor fiel da multidão fervilhante, o boieiro, líder de todas as criaturas vivas, manifestou a sua categoria de grande príncipe, adornando-se com a coroa sagrada. À medida que o Vento da Montanha (?) ocupava o estrado, estendeu-se pelo céu como um arco-íris. Tal como uma nuvem flutuante, moveu-se sozinho (?).
100-108: Ele, por si só, é o príncipe do céu, o dragão da terra. O deus sublime dos Anuna determina ele próprio os destinos. Nenhum deus o pode contemplar. O seu grande vizinho e comandante Nuska aprende com ele as suas ordens e as suas intenções, consulta-o e depois executa em seu nome as suas instruções de longo alcance. Reza-lhe com preces sagradas (?) e poderes divinos (?).
109-123: Sem a Grande Montanha Enlil, nenhuma cidade seria construída, nenhum povoado seria fundado; nenhum curral de vacas seria construído, nenhum aprisco de ovelhas seria estabelecido; nenhum rei seria enaltecido, nenhum senhor daria à luz; nenhum sumo sacerdote ou sacerdotisa realizaria a extispícia; os soldados não teriam generais nem capitães; as águas pejadas de carpas não... os rios no seu caudal máximo; as carpas não... viriam diretamente do mar para cima, não dardejariam por aí. O mar não produziria todo o seu pesado tesouro, nenhum peixe de água doce poria ovos nos todais de caniços, nenhum pássaro do céu construiria ninhos na terra espaçosa; no céu, as nuvens espessas não abririam as suas bocas; nos campos, o cereal sarapateado não encheria as terras aráveis, a vegetação não cresceria viçosa na planície; nos jardins, as árvores frondosas da montanha não produziriam frutos.
124-130: Sem a Grande Montanha, Enlil, Nintu não mataria, não abateria mortalmente; nenhuma vaca deixaria cair a sua cria no curral, nenhuma ovelha traria à luz... cordeiro no seu aprisco; as criaturas vivas que se multiplicam por si mesmas não se deitar-se-iam nos seus...; os animais de quatro patas não propagar-se-iam, não acasalar-se-iam.
131-138: Enlil, a tua engenhosidade tira o fôlego! Por natureza, é como fios entrelaçados que não se podem desatar, fios cruzados que o olho não consegue seguir. Pode confiar-se na tua divindade. És o teu próprio conselheiro e assessor; és um senhor por direito próprio. Quem pode compreender as tuas ações? Nenhum poder divino é tão resplandecente como o teu. Nenhum deus te pode olhar nos olhos.
139-155: Tu, Enlil, és senhor, deus, rei. És um juiz que toma decisões sobre o céu e a terra. A tua palavra sublime é tão pesada como o céu, e não há ninguém que a possa levantar. Os deuses Anuna... perante a tua palavra. A tua palavra tem peso no céu, é um alicerce sobre a terra. Nos céus, é um grande..., que se estende até ao firmamento. Na terra, é um alicerce que não pode ser destruído. Quando se refere aos céus, traz abundância: a abundância jorrará dos céus. Quando se refere à terra, traz prosperidade: a terra produzirá prosperidade. A tua palavra significa linho, a tua palavra significa cereal. A tua palavra significa a cheia primordial, a vida das terras. Cria as criaturas vivas, os animais (?) que copulam e respiram alegremente na verdura. Tu, Enlil, o bom pastor, conheces os seus caminhos (?). ... as estrelas cintilantes.
156-166: Casaste com Ninlil, a consorte sagrada, cujas palavras brotam do coração, ela de nobre semblante envergando uma veste ma sagrada, ela de bela forma e membros, a senhora de confiança da tua escolha. Coberta de encanto, a senhora que sabe o que convém ao E-kur, cujas palavras de conselho são perfeitas, cujas palavras trazem conforto como óleo fino para o coração, que partilha contigo o trono sagrado, o trono puro, ela toma conselho e debate assuntos contigo. Decide os destinos a par contigo no lugar virado para o nascer do sol. Ninlil, a senhora do céu e da terra, a senhora de todas as terras, é honrada no louvor da Grande Montanha.
167-171: Ilustre cuja palavra está firmemente estabelecida, cujo comando e apoio são imutáveis, cujos pronunciamentos têm precedência, cujos planos são palavras firmes, Grande Montanha, Pai Enlil, o teu louvor é sublime.
Conclusão
O hino termina com um louvor final a Enlil, afastando-se da tradição de louvar Nisaba, a deusa da escrita, no final de uma obra escrita, de modo a enfatizar a grandeza do deus. A mensagem central de Enlil no E-kur, de facto, resume-se aos versos 167-171, uma vez que o louvor anterior prodigalizado ao seu templo só tem sentido porque se acreditava que Enlil residia ali.
A sua morada é elogiada porque a sua presença a eleva e, para lhe proporcionar uma residência digna dessa elevação, não se pouparam despesas na construção e ornamentação do E-kur. Black comenta:
Na cosmologia suméria, o santuário de Enlil, Dur-an-ki, foi conceptualizado como o elo entre o céu e a terra — que é precisamente o que o nome significa. A sua imensa torre em socalcos, ainda hoje proeminente na paisagem desértica, decerto constituiu um marco dominante e inspirador de profunda reverência também na Antiguidade.
(pág. 321)
O louvor do hino ao templo funcionaria como um espelho da própria estrutura, cuidadosamente composto para elevar as almas da assistência, tal como o complexo arquitetónico fazia. Enlil no E-kur, entoado em festivais, recordaria ao povo — tal como o altíssimo zigurete — que, quaisquer que fossem os desafios ou lutas que enfrentassem, o seu deus estava no controlo, guiando-os e ajudando-os.
