Durante o século I d.C., uma seita de judeus em Jerusalém afirmou que o seu mestre, Jesus de Nazaré, era o "messias" de Israel. "Messias" significava "o ungido", ou alguém escolhido pelo Deus de Israel para liderar quando Deus interviesse na história humana para trazer justiça ao mundo. Jesus foi crucificado por um magistrado romano, Pôncio Pilatos, por volta do ano 30 d.C., por proclamar um reino que não era o de Roma. Pouco depois da sua morte, os seus seguidores afirmaram que tinha ressuscitado dos mortos e estava agora no céu, à direita de Deus. Aqueles que seguissem os ensinamentos de Jesus ("Cristo", o termo grego para "messias") também obteriam a ressurreição na vida após a morte.
Esta mensagem (a "boa nova" (evangelho) do reino) foi difundida pelos seus seguidores nas cidades do Império Romano do Oriente e mais além. A reação inicial foi de choque e confusão. O herói da história não só estava morto, como tinha morrido por crucificação, o castigo romano para a traição. Paulo reconheceu o quão radical isto era ao referir-se ao "escândalo da cruz" (1 Coríntios 1:23).
Durante as suas viagens, os missionários encontraram não-judeus (os Gentios do Novo Testamento) que desejavam juntar-se ao movimento. Os apóstolos decidiram que os Gentios não tinham de se converter ao Judaísmo e, rapidamente, estes superaram em número os seguidores judeus. No entanto, estes Gentios tinham de cessar a idolatria, o que subverteu o conceito milenar de que a religião era a forma como se vivia a vida, os costumes dos antepassados transmitidos pelos deuses. Transferir a lealdade para o novo grupo não exigia apenas uma mudança no estilo de vida, mas frequentemente dividia famílias. Com base nas evidências das cartas de Paulo e dos Atos dos Apóstolos, tal ensinamento provocou distúrbios civis e, no final do século I, Roma começou a perseguir e a executá-las devido a este ensinamento.
Os Cultos de Heróis e o Culto Imperial
Por vezes metade humanos, metade divinos, os heróis gregos, como Hércules, tinham realizado grandes feitos em vida e, após a sua morte, acreditava-se que estariam entre os deuses ou nos Campos Elísios, no Hades. Este processo era conhecido como apoteose ("deificar"). Várias cidades afirmavam possuir os túmulos destes heróis, onde as pessoas faziam peregrinações para rezar. Estes locais incorporavam o aspeto social das relações entre patrono e cliente — as obrigações entre as classes sociais. Os heróis podiam servir como mediadores na corte dos deuses em benefício das suas comunidades; por isso, eram deuses patronos. Os romanos adotaram esta ideia pela primeira vez no túmulo de Cipião Africano, que derrotou Aníbal na Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.).
O culto imperial surgiu após o assassinato de Júlio César em 44 a.C., quando o povo comum deixou oferendas no local onde o seu corpo foi cremado, no Fórum. Júlio morreu sem um filho legítimo e nomeou o seu sobrinho-neto, Octaviano, como seu herdeiro legal adotivo — o futuro Augusto (reinou 27 a.C. - 14 d.C.). Quando um cometa apareceu sobre a cidade durante os jogos fúnebres, o povo e Augusto proclamaram que este era um sinal de que César era agora um deus vivo. O Senado Romano sancionou um culto oficial, o que também beneficiou Augusto, que era agora "filho de um deus". A partir deste momento, a maioria dos imperadores romanos passou a ser deificada após a morte.
Após a Batalha de Ácio e o fim das guerras civis em 31 a.C., os reis-clientes orientais solicitaram a Augusto permissão para lhe construírem templos e o adorarem. Reconheceu a vantagem fiscal e propagandística destes templos e, por isso, concedeu a autorização. Estes deveriam ser templos dedicados à deusa Roma, onde as pessoas pudessem rezar pelo bem-estar do Império Romano e da família imperial.
O Grande Incêndio de Roma e a Revolta Judaica
Nero (reinou 54-68 d.C.) tornou-se infame como o primeiro imperador romano a perseguir cristãos. Quando foi acusado de ter iniciado um incêndio devastador em Roma no ano 64, para aplacar as suspeitas, culpou os cristãos. Mandou prendê-los e convidou os pobres desalojados para um banquete e espetáculo onde os cristãos foram torturados e crucificados. Foi nesta altura que Pedro alegadamente morreu de cabeça para baixo numa cruz. Embora o local, a Colina do Vaticano, se tenha tornado mais tarde a basílica da Igreja de São Pedro, a história é problemática porque não possuímos testemunhos oculares destes eventos. A fonte mais antiga é o historiador romano Tácito (56-120), que escreveu por volta do ano de 110. Se, de facto, Nero o fez, agiu por iniciativa própria. Não existia uma política oficial relativa aos cristãos.
Quando os judeus se revoltaram contra o Império Romano no ano 66, Nero enviou o futuro imperador Vespasiano (reinou 69-79) para lidar com a situação. Vespasiano combatia na Galileia quando Nero se suicidou no ano de 68 d.C. Seguiu-se um período turbulento, conhecido como o "Ano dos Quatro Imperadores" (69 d.C.), e quando Vespasiano emergiu vitorioso, deixou o seu filho Tito encarregue da rebelião. No ano 70, Tito (reinou 79-81) cercou Jerusalém e destruiu o Templo Judaico. Os judeus tinham, por tradição, feito donativos para a manutenção do Templo; esse montante tornar-se-ia um imposto judaico que passariam a enviar para Roma como reparações de guerra.
O Crime de Ateísmo
O segundo filho de Vespasiano, Domiciano (reinou 81-96), renovou todas as antigas políticas que habitualmente levavam à morte dos imperadores. Esgotou rapidamente o tesouro e depois lembrou-se do imposto judaico do seu pai, cuja cobrança tinha sido negligenciada. Domiciano enviou a Guarda Pretoriana para vasculhar as habitações populares em busca de judeus para que pagassem. Foi muito provavelmente nesta altura que Roma tomou conhecimento oficial de pessoas que seguiam o deus judeu, mas que não eram judias nem seguiam a religião romana — os costumes dos pais.
Domiciano insistia em ser tratado como "Senhor e Deus" e ordenou que todos no Império prestassem culto nos templos do culto imperial, através de sacrifícios sob a forma de donativos em dinheiro. Os cristãos, porém, recusaram-se a obedecer a esta ordem e, como resultado, foram acusados de ateísmo. O ateísmo significava a descrença nos deuses e, ao mesmo tempo, era um crime civil contra o Estado. Não respeitar os cultos estatais significava que não se desejava a prosperidade do Império Romano. Irritar os deuses desta forma poderia atrair desastres naturais e guerras; por conseguinte, o ateísmo era equivalente a traição e a pena era a morte. É assim e por esta razão que os cristãos eram executados nas arenas. Os judeus foram isentos dos cultos do Estado por Júlio César (100-44 a.C.), como recompensa aos seus mercenários judeus nas suas legiões no Oriente.
Uma segunda acusação relacionava-se com as assembleias socio-religiosas romanas conhecidas como collegia. Tratava-se de grupos que partilhavam interesses comuns ou competências profissionais. Os membros reuniam-se sob a égide de um deus ou deusa para uma refeição partilhada; no entanto, os collegia tinham de ter autorização do governo. Os cristãos não possuíam esta licença para se reunirem e, por isso, tratava-se de uma religião ilegal.
A nossa primeira evidência de um julgamento cristão provém de Plínio, o Jovem (61-112 d.C.), governador da província da Bitínia por volta de 110. Numa carta ao imperador Trajano, relatou que, após prender alguns cristãos, mandou trazer algumas estátuas dos deuses e um busto do imperador. Aqueles que se recusaram a lançar uma pitada de incenso enquanto prestavam juramento foram executados. Trajano respondeu que, se os cristãos desafiassem abertamente o sistema, deveriam ser presos, mas não deveriam ser caçados.
As Crises e a Perseguição Romana
As histórias tradicionais do Cristianismo (bem como as litanias católicas) listam milhares de mártires cristãos. Existe pouca evidência histórica para esta afirmação; ao longo de 300 anos, temos evidência de perseguição talvez apenas sete ou oito vezes, e geralmente apenas nas províncias. Mesmo assim, temos apenas um punhado de nomes. Isto acontece porque a perseguição estava diretamente relacionada com uma crise. A fome, a seca, os terramotos, as pragas e os exércitos invasores eram interpretados como a ira dos deuses.
Na maioria das vezes, os cristãos eram tolerados. É apenas nos períodos de crise que se tinham de encontrar bodes expiatórios; eram esses cristãos que enfureciam os deuses. Toda a gente sabia onde os cristãos viviam — em cidades e habitações populares sobrelotadas — e eles eram notados por ficarem em casa durante os inúmeros festivais religiosos; assim, durante um período de crise, eram facilmente detidos.
Os dois maiores períodos de perseguição ocorreram durante os reinados de Décio (reinou 249-251) e Diocleciano (reinou 284-305). No ano de 250, o Império sofreu uma pletora de desastres — inflação, fome, exércitos invasores e uma praga. Décio emitiu um édito decretando que todos no Império deveriam comparecer nos templos imperiais e apaziguar os deuses. Além disso, as pessoas precisavam de um recibo que provasse que lá tinham estado. Um mercado negro de recibos floresceu, uma vez que os cristãos recusaram este édito.
Após o reinado de Décio, a perseguição cessou durante algum tempo. No entanto, a Crise do Terceiro Século trouxe instabilidade económica e militar. Numa competição constante pelo trono, de entre os 25 "imperadores de quartel" que se sucederam, apenas três morreram na sua própria cama. Nestes curtos períodos de poder, alguns deram o passo audaz de legalizar o Cristianismo, apenas com o intuito de recrutar cristãos para o exército romano. Sabemos que alguns cristãos se juntaram às legiões, mas a maioria manteve-se à margem. Como os magistrados e patronos tradicionais das cidades estavam ausentes na guerra, os cristãos assumiram as tradicionais obras de beneficência das urbes. Através da sua caridade, fornecendo comida e vestuário, e dos seus primeiros hospitais, estes cristãos tornaram-se populares junto das massas.
Em 284, Diocleciano empenhou-se em restaurar o Império. Em 302, durante um dos sacrifícios, um sacerdote descobriu entranhas horríveis nos animais. Diocleciano culpou os cristãos, ordenou a sua detenção e também que queimassem as suas escrituras sagradas. Este episódio ficou conhecido como "A Grande (e Última) Perseguição". Após a reforma sem precedentes de Diocleciano, vários indivíduos lutaram pelo poder imperial. No Ocidente, Constantino I (reinou 306-337) derrotou com sucesso Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvia, em Roma. Mais tarde, afirmou ter vencido a batalha graças ao deus cristão e tornou-se cristão. O Édito de Milão foi promulgado em 313, tornando o Cristianismo uma religião legal em todo o Império Romano.
As Arenas
Roma não possuía uma instituição estabelecida para criminosos condenados; não existiam períodos fixos de detenção ou penas de prisão perpétua. Cada cidade dispunha de celas de detenção para prisioneiros condenados até que o magistrado seguinte estivesse disponível, e a punição baseava-se na classe social. As classes mais altas, sob acusação de homicídio ou traição, sofriam decapitação; os criminosos das classes baixas eram executados nas arenas, que serviam como ferramentas de propaganda, proporcionando demonstrações públicas da lei e da ordem romanas.
A venatio (liderada pelos bestiarii, ou "homens das feras") era uma forma de entretenimento. Roma convertia literalmente as arenas com areia e palmeiras, e os bestiarii recriavam a captura de animais selvagens, tais como leões, panteras e ursos. Os animais eram também utilizados como carrascos do Estado. Alguns condenados eram forçados a participar nas caçadas, mas, na maioria das vezes, eram atados a uma estaca e depois despedaçados pelo animal.
Ao contrário do que dita a crença popular, os gladiadores não combatiam os cristãos nas arenas. Os jogos de gladiadores eram jogos fúnebres que tiveram origem na civilização indígena etrusca. Dois escravos lutavam até à morte, e o perdedor acompanhava o seu senhor na vida após a morte. Roma desenvolveu esta ideia, transformando-a numa indústria com escolas de gladiadores. Por vezes, os gladiadores lutavam até à morte numa honra fúnebre especial, a munera, mas isto era raro. Treinar gladiadores era dispendioso e ninguém os desperdiçava com criminosos comuns. Além disso, num sentido de desportivismo, um gladiador contra um condenado sem treino seria um espetáculo medíocre.
Os Críticos
Infelizmente, a literatura do mundo antigo provém de homens instruídos da classe alta, e não fazemos ideia do que os gregos ou romanos comuns, das classes baixas, pensavam do novo movimento. Entre a elite instruída, no entanto, havia críticas aos cristãos. Dois filósofos do século II, que leram as escrituras cristãs e entrevistaram cristãos, escreveram tratados contra o movimento. Celso, em A Palavra Verdadeira (tít. original grego: Λόγος Ἀληθής [latim: Logos Alēthēs]), retratou Jesus como um charlatão comum, usando magia para influenciar as multidões, e alertou que os cristãos eram perigosos porque ensinavam um estilo de vida alternativo que subvertia as convenções sociais e religiosas tradicionais.
Galeno, um médico do século II que serviu a casa imperial, elogiou bastante as práticas cristãs saudáveis (moderação na comida e na bebida e a contenção do apetite sexual), mas também criticou a sua lógica, particularmente na história da criação do Génesis. Galeno afirmou que era impossível criar se não houvesse matéria prévia. (Daí a posterior doutrina cristã contra Galeno, conhecida como creatio ex nihilo ou "criação a partir do nada"). A partir do século II, os bispos cristãos escreveram respostas a tais críticas, as quais acabaram por se tornar a teologia cristã.
Outro texto, conhecido como Octávio (Octavius), de Minúcio Félix (cerca de 197), é frequentemente mal interpretado como uma polémica comum contra o cristianismo. Trata-se de um diálogo entre dois amigos que discutem o que as pessoas pensam sobre os cristãos. Este contém a agora infame acusação de que a iniciação cristã envolvia o candidato matar um bebé não-cristão disfarçado em farinha e que, no final da cerimónia, cães treinados derrubavam as lâmpadas e todos apalpavam o vizinho mais próximo numa orgia sexual. Este texto, contudo, foi escrito por um cristão, muito provavelmente como sátira.
O Conceito de Martírio e o Culto dos Santos
Em 167 a.C., os judeus rebelaram-se contra o domínio grego de Antíoco Epifânio, que tinha proibido os costumes judaicos. Em 2 Macabeus, à medida que as vítimas eram torturadas, proferiam discursos finais. Sacrificavam voluntariamente as suas vidas porque Deus "as ressuscitaria" (anastasis em grego, ressurreição em português), e o termo "mártir" foi introduzido (significando "testemunha" em grego). A recompensa pelo martírio era a translação instantânea para a presença de Deus no céu. Os cristãos adotaram este conceito para todos os que morriam pela sua fé.
Ao longo dos séculos surgiram martirológios, histórias do sofrimento e morte dos mártires. O modelo foi extraído da paixão de Cristo e das provações de Jesus. O governo romano não fornecia serviços nas celas de detenção, que eram húmidas, escuras e cheias de ratos. A fome provocava alterações fisiológicas no corpo e o prisioneiro passava o tempo a refletir sobre a morte iminente, dando origem a visões. Muitas das visões funcionavam como formas válidas de resolver disputas contemporâneas nas comunidades. Além disso, os martirológios também forneciam detalhes sobre os milagres destes mártires. Existem histórias de mutilações de membros que voltam a crescer, da visão ser restaurada após a cegueira e histórias de mártires virgens que deveriam ter sido violadas antes da execução, porque a lei romana proibia a execução de uma virgem. Nestas histórias, os guardas não conseguiam executar o ato, para que a vítima permanecesse intacta ao ir para a morte.
Após a conversão de Constantino, as oportunidades para o martírio tradicional tornaram-se limitadas. Com o Cristianismo agora como religião legal, começaram a construir-se igrejas e a ocupar-se as basílicas municipais, originalmente edifícios cívicos. Na década de 380, o bispo de Milão, Ambrósio, resolveu o problema da sacralização destes espaços ao desenterrar os esqueletos de dois antigos mártires soldados e colocá-los, literalmente, nas paredes da sua nova igreja. Este período marca o início da ascensão do culto dos santos. Ao adotarem o conceito de deuses patronos e heróis, os túmulos dos mártires tornaram-se interseções entre o céu e a terra. Os peregrinos viajavam para pedir intercessão em seu nome, baseando-se no mesmo conceito da relação patrono/cliente, o que deu origem aos santos padroeiros da tradição católica.
Uma inovação neste sistema foi o culto das relíquias. Os ossos (e várias partes do corpo) eram agora considerados objetos sagrados e santos que podiam facilitar curas milagrosas. Esta inovação chocou novamente tanto judeus como gentios, por violar o conceito de contaminação por cadáver. No entanto, o comércio de relíquias (a maioria delas falsificações) tornou-se tão escandaloso na Idade Média que acabou por ser eliminado pelas reformas de Martinho Lutero contra o Vaticano, durante a Reforma Protestante.
Conclusão
O crescimento do Cristianismo e o seu triunfo final na Europa medieval é, atualmente, um dos principais temas de interesse para os historiadores. A visão tradicional defendia que o Cristianismo oferecia um sistema de moralidade e consolo a um mundo que estava espiritualmente desprovido. Tal não é, manifestamente, verdade; os antigos eram tão piedosos e espiritualmente despertos como os cristãos. O Cristianismo absorveu esta cultura, mas acrescentou inovações únicas que forneceram um novo significado e, num mundo sem certezas sobre a vida após a morte, o Cristianismo garantiu a existência de uma no céu. Quando Constantino, o Grande, se converteu, quantos terão visto os ventos da mudança política como uma forma prática de sobreviver e progredir?

