Pestes do Próximo Oriente, 562–1486

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por , traduzido por Filipa Oliveira
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A doença faz parte da condição humana desde o início da história registada — e, sem dúvida, desde antes — dizimando populações e provocando agitação social generalizada. Entre as piores infeções registadas está a peste, que se encontra razoavelmente bem documentada no Ocidente, começando com a Peste de Justiniano (541–542) e continuando com a Peste Negra (1347–1352). Os surtos de peste que se seguiram à Peste Negra já dispunham de um conjunto de literatura em que se basear e, por isso, no Ocidente, também se encontram bem documentados.

Plague in an Ancient City
A Peste numa Cidade Antiga Los Angeles County Museum of Art (Public Domain)

O mesmo não se pode dizer das pestes do Próximo Oriente, que ceifaram milhões de vidas entre 562 e 1486 por toda a região atualmente conhecida como Irão, Iraque, Síria, Turquia, Líbano, Israel, Arábia Saudita e Egito, entre outras. Acredita-se que a peste inicial tenha sido uma continuação da Peste de Justiniano, embora tenham sido sugeridas outras teorias quanto à origem, e as epidemias que se seguiram são consideradas quer um recrudescimento desta peste quer uma estirpe diferente trazida para a região através do comércio ou do regresso de tropas em campanha. Estes surtos são mencionados esporadicamente nas histórias da peste devido a vários fatores, incluindo:

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  • A relutância dos escritores do Próximo Oriente, autores de fontes primárias, em abordar o assunto;
  • A terminologia utilizada por estes escritores, que confundia a peste com o cólera;
  • A tendência dos escribas do Próximo Oriente para ignorar as regiões afetadas para além das suas próprias;
  • A interpretação religiosa dos surtos, que descurava os detalhes práticos;
  • A falta de traduções de documentos primários para línguas ocidentais;
  • A dependência dos historiadores ocidentais em relação a historiadores ocidentais ou escritores de viagens anteriores.

Embora posteriores escritores muçulmanos árabes tenham tentado registar os surtos, trabalhavam com material de origem escasso e frequentemente confuso, pelo que as suas obras são incompletas. Assim, a maioria dos estudiosos atuais concentra-se nos períodos dentro dos anos de peste que estão melhor documentados, sendo o mais famoso a Peste de Xeroe (Plague of Sheroe), entre 627 e 628, que ajudou a derrubar o Império Sassânida (224–651) e contribuiu para a desestabilização da região. Ainda assim, existe material de origem suficiente para permitir traçar a história das pestes no Próximo Oriente até 1486, altura em que já se mantinham registos mais completos da doença.

A Primeira Peste Registada

A peste é definida como uma doença bacteriana contagiosa que, desde o século XIX, se sabe ser provocada pela bactéria Yersinia pestis, a qual só foi isolada e identificada em 1894. Antes dessa data, ninguém sabia o que causava a peste, sendo habitualmente atribuída à ira dos deuses ou de Deus devido aos pecados da humanidade.

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Procópio descreve a peste como tendo tido origem no oriente e viajado para o Egito antes de chegar a Constantinopla.

Os sintomas da peste incluem febre, dores no corpo, náuseas e vómitos, diarreia, desidratação e, no caso da peste bubónica, a presença de bubões, que são gânglios linfáticos inflamados e inchados. Os três tipos de peste são a bubónica, a septicémica (que infeta o sangue) e a pneumónica (que infeta os pulmões), sendo todas habitualmente fatais.

O primeiro surto definitivo de peste foi a Peste de Justiniano, conforme registado pelo historiador Procópio (cerca de 500–565), que matou cerca de 50 milhões de pessoas. Embora esta peste seja habitualmente datada de 541–542 — o período em que atingiu Constantinopla com maior intensidade —, continuou até cerca de 750. Deve o seu nome ao reinado do imperador bizantino Justiniano I (527–565), e Procópio culpou-o pela doença, alegando que ele tinha enfurecido Deus com as suas ações injustas e caprichosas.

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Na sua obra História das Guerras (tít. original: Ὑπὲρ τῶν πολέμων λόγοι; transliterado: Hyper tōn poleōn logoi), Volume II, Procópio descreve a peste como tendo tido origem no Oriente e viajado para o Egito antes de chegar à capital bizantina, Constantinopla, a partir da qual se propagou ainda mais. Procópio descreve a doença como não poupando nenhuma região e não respeitando nenhuma estação do ano:

Parecia mover-se segundo um plano preestabelecido e demorar-se por um tempo determinado em cada país, sem poupar nenhum com a sua praga, mas espalhando-se em todas as direções até aos confins do mundo, como se temesse que algum canto da terra pudesse escapar-lhe. Pois não deixou nem ilha, nem gruta, nem cume de montanha que tivesse habitantes humanos; e se passasse por alguma terra, quer sem afetar os homens dali, quer tocando-lhes de forma indiferente, mais tarde voltava; e então aqueles que habitavam nas imediações dessa terra, a quem outrora afligira com maior severidade, não os tocava de todo, mas não saía do lugar em questão até ter entregue a sua justa e devida quota de mortos, de modo a corresponder exatamente ao número destruído anteriormente entre aqueles que habitavam nas redondezas.

(II.xxii. 7-11, Lewis, pág. 470)

Os sintomas começavam com uma febre — que Procópio descreve como parecendo ligeira ao princípio e dificilmente percetível pelos médicos — seguida de fadiga, desidratação, aparecimento de bubões, delírio ou coma, e depois a morte. Escreve ele:

A morte ocorria nalguns casos imediatamente, noutros após muitos dias; e nalguns o corpo cobria-se de pústulas negras do tamanho aproximado de uma lentilha, e estes não sobreviviam sequer um dia, sucumbindo todos imediatamente. Em muitos ocorreu também um vómito de sangue sem causa visível, que conduzia de imediato à morte. Além disso, posso declarar o seguinte: os médicos mais ilustres previram que muitos morreriam que, de forma inesperada, escaparam inteiramente ao sofrimento pouco depois, e declararam que muitos seriam salvos que estavam destinados a perecer quase de imediato. Assim aconteceu que, nesta doença, não houve nenhuma causa que se incluísse no domínio do raciocínio humano.

(II.xxii.30-36, Lewis, pág. 473)

Este seria o paradigma que definiu os surtos posteriores da peste no Próximo Oriente. A doença parecia abater-se sobre uma população rapidamente, ceifar muitas vidas e prosseguir caminho. Procópio deixa claro que, quando abandonou Constantinopla, se deslocou para a terra dos persas, onde matou muitos mais do que no Império Bizantino.

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O Surto de Jazira de 562.

No entanto, a peste já tinha estado presente no Oriente antes de chegar a Constantinopla. O estudioso Michael G. Morony, citando o historiador João de Éfeso (cerca de 507 – cerca de 588), refere:

Sempre que invadia uma cidade ou aldeia, abatia-se com fúria e rapidez sobre ela e os seus subúrbios até uma distância de três milhas. Não prosseguia enquanto não tivesse cumprido o seu ciclo num lugar. Depois de se enraizar firmemente, avançava lentamente. Isto permitia que a notícia da peste precedesse a sua chegada. O povo de Constantinopla soube do avanço da peste por rumores ao longo de um período de um ou dois anos.

(Little, pág. 64)

Three Doctors Attend a Man with the Plague
Três Médicos Atendem um Homem com a Peste Historical Medical Library of The College of Physicians of Philadelphia (CC BY-NC-SA)

No entanto, os bizantinos de Constantinopla pareciam achar que a peste do Oriente não lhes dizia respeito, e só perceberam o seu erro quando já era tarde demais. Quando deixou Constantinopla, regressou ao Oriente — seguindo o rumo descrito por Procópio — e atingiu a Mesopotâmia, embora o local exato seja desconhecido. Os escritores árabes posteriores descrevem-no como a Peste de Jazira (também grafada como Jazeera, «ilha»), que era o nome que davam à Mesopotâmia («a terra entre dois rios»). Desconhece-se onde atingiu primeiro e quanto tempo perdurou, mas, em 562, matou 30.000 pessoas na cidade de Amida (a atual Diyarbakir, no sudeste da Turquia) e voltou a atacar em 599. Morony refere como «houve outro surto de peste bubónica em 600, altura em que muitas casas ficaram sem habitantes e os campos ficaram por colher, mas não nos é dito onde» (Little, pág. 65). Isto é característico dos relatos de pestes no Oriente, uma vez que muitos escritores registavam notícias da peste sem especificar onde esta tinha ocorrido, a menos que fosse nas imediações.

É por esta razão que a maioria das discussões sobre a peste no Próximo Oriente se foca na Peste de Xeroe, pois, embora os detalhes da própria epidemia sejam frequentemente pouco claros, os seus efeitos são certos.

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A Peste de Xeroe de 627–628

A Peste de Xeroe deve o seu nome ao monarca sassânida Cavades II (reinado em 628), cujo nome de nascimento era Xeroe (também grafado como Shiroe). Cavades II chegou ao poder na sequência das desastrosas guerras do seu pai, Cosroes II (reinado de 590 a 628), que esgotou os recursos sassânidas nos seus esforços para destruir o Império Bizantino. A nobreza sassânida acabou por depor Cosroes II e coroou o príncipe Xeroe como Cavades II em seu lugar.

A peste de Xeroe é reconhecida por ter contribuído para o declínio e queda do Império Sassânida.

Cavades II mandou matar todos os seus irmãos, meios-irmãos e irmãos por afinidade para que não pudessem contestar a sua pretensão ao trono, iniciando de seguida negociações de paz com os bizantinos e a reconstrução de muitas das cidades danificadas ou arruinadas durante as guerras de Cosroes II. No entanto, não teve tempo para concretizar nenhum dos seus planos, uma vez que a peste — que vinha a varrer a região desde 627 — o matou no outono de 628, poucos meses após o início do seu reinado. Tendo executado todos os herdeiros do sexo masculino legítimos que poderiam ter tomado o trono, foi sucedido pelo seu filho de sete anos, Ardesir III (reinou 628-629), cujo reinado foi administrado pelo vizir Ma-Adur Gushnasp, que foi rapidamente deposto, tendo tanto este como o jovem imperador sido assassinados.

A morte de Cavades II e as suas consequências desestabilizaram o Império Sassânida, que ainda tentava recuperar das perdas sofridas com as guerras de Cosroes II e com a peste. Quando os muçulmanos árabes invadiram durante o reinado de Iasdegerde III (632–652), o Império Sassânida não tinha forças para os repelir, razão pela qual a peste é reconhecida como tendo contribuído para o declínio e queda do império.

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As Pestes Posteriores como Prelúdio da Peste Negra

A peste continuou a grassar pela Mesopotâmia mais tarde e irrompeu novamente em 688–689, altura em que apenas a cidade de Baçorá perdeu 200.000 pessoas em três dias. Em 698–699, a peste varreu a Síria e, em 704–705, regressou ao noroeste da Mesopotâmia. Esta tendência manteve-se ao longo do século até ao Grande Surto de 749–750, em que a peste bubónica matou milhões de pessoas.

Infelizmente, os pormenores sobre os locais exatos onde estas pestes atingiram nem sempre são fornecidos, tal como os números de mortos, para além de referências vagas a «muitos», «a cidade inteira» ou «a região», que nem sempre especificam qual a cidade ou região, nem quantas pessoas se perderam. Houve um recrudescimento da peste bubónica entre 746 e 749 — referida como o Grande Surto — em Constantinopla, na Grécia e em Itália, com um número de mortos que ultrapassou os 200.000, mas em 750 a doença pareceu desaparecer; é por esta razão que o ano de 750 é habitualmente apontado como o fim da peste, embora atualmente se acredite que apenas permaneceu latente antes de ressurgir novamente como a infame Peste Negra. Contudo, a última data apontada para as pestes na Pérsia e no Próximo Oriente é 689. O investigador Ehsan Mostafavi escreve:

Pelo que sabemos, não existe documentação concreta sobre os surtos de peste e o seu impacto na Pérsia entre 689 e 1270; parece, no entanto, que a peste continuou a propagar-se por toda a Pérsia, mantendo-se endémica após os surtos de 689, até meados do século XIII.

(pág. 5)

A razão pela qual a peste adormeceu cerca de 689 no Oriente e cerca de 750 no Ocidente permanece desconhecida. As teorias relativas aos efeitos das condições climatéricas sobre a população de ratos e à forma como estes foram — ou não — transportados para mais ou menos locais parecem insustentáveis, uma vez que Procópio afirma claramente que a peste não era afetada pelo clima nem por qualquer ação humana.

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A Peste Negra de 1346 – cerca de 1360

Por qualquer motivo, a peste permaneceu dormente até 1218, ano em que ocorreu um surto no Egito que vitimou 67.000 pessoas antes de desaparecer novamente (Ben-Menahem, pág. 663). Quando a peste regressou em 1332, atingiu primeiro áreas isoladas e, em seguida, ganhou ímpeto para engolir o Oriente a partir de 1346, espalhando-se pela Europa até 1347. Tratava-se da peste bubónica, mas a epidemia — que se transformou numa pandemia — trouxe também consigo os outros dois tipos, a septicémica e a pneumónica, tendo tido origem na Ásia Central, muito provavelmente na China.

Spread of the Black Death
Disseminação da Peste Negra Flappiefh (CC BY-SA)

Os sintomas começavam, tal como na Peste de Justiniano, com febre, dores no corpo e fadiga antes de os bubões surgirem na virilha, nas axilas e em redor das orelhas da pessoa infetada. A peste atingiu também cães, gatos e outros animais — até ratos —, tal como também fora relatado na Peste de Justiniano. A taxa de mortalidade foi impressionante, com registos de números diários de 20.000 ou mais mortos e contagens finais entre 20 a 30 milhões de pessoas. Morony comente os números fornecidos:

Podemos tomar literalmente os números registados nas fontes [primárias]? Não se pode descartar a presença de hipérbole retórica nestes relatos, nem o facto de os grandes números redondos apresentados só poderem ter sido, na melhor das hipóteses, estimativas. Há pelo menos duas considerações a ter em conta ao lidar com este tipo de informação. Uma é que o registo do número de vítimas mortais era uma das formas que estes autores utilizavam para tentar exprimir a magnitude do desastre. A outra é que o número de vítimas mortais carece de significado em termos demográficos se não conhecermos a dimensão da população total.

(Little, pág. 72)

Embora esta observação tenha mérito, em nada diminui a devastação generalizada da população humana no Próximo Oriente. As pessoas morriam tão rapidamente, e em números tão elevados, que os rituais funerários adequados tiveram de ser abandonados e os mortos descartados o mais rapidamente possível. Ainda assim, à medida que o número de mortos aumentava, os corpos eram simplesmente atirados para fora das portas, enfiados nos cantos dos edifícios ou deixados em becos, nos alpendres de igrejas e mesquitas, ou arrastados para os campos. Os que morriam na rua ficavam lá porque os outros tinham demasiado medo de se aproximar deles. Os cadáveres que eram despejados junto a ribeiros ou canais de rega infetavam a água, propagando depois a doença rio abaixo. O fedor dos corpos em decomposição e o medo da morte iminente tornavam impossível qualquer semelhança de regresso à rotina diária anterior, e as pessoas tendiam a evitar tanto as ruas de qualquer cidade como uns aos outros.

Conclusão

A peste viajou do Oriente para o Ocidente em 1347 para devastar a Europa através de navios genoveses provenientes da cidade portuária de Caffa (também grafada como Kaffa), no Mar Negro (a atual Feodósia, na Crimeia). Caffa tinha estado sob cerco pela Horda de Ouro mongol, que trouxera a peste consigo, sob o comando do cã Djanibek (também grafado como Jani Beg, reinado de 1342 a 1357). À medida que os soldados mongóis começavam a morrer da peste, Djanibek ordenou que os seus cadáveres fossem catapultados por cima das muralhas de Caffa, infetando a população da cidade. Os navios mercantes de Caffa fugiram então da cidade em direção a Itália, parando na Sicília, depois em Marselha e em Valência, a partir de onde a peste se espalhou por toda a Europa.

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The Triumph of Death
O Triunfo da Morte Museo del Prado (Public Domain)

Acredita-se também que a doença tenha chegado à Europa através da Rota da Seda com comerciantes vindos do Oriente, e esta teoria sobre o ponto de origem, juntamente com o relato dos navios genoveses, forneceu aos cronistas europeus o ponto de partida para as suas narrativas sobre a Peste Negra. Não houve necessidade, por exemplo, de o autor da Crónica da Peste Negra (tít. original: Chronicle of the Black Death - cerca de 1350) despender esforço a investigar a origem da peste na Europa, uma vez que era evidente que tinha vindo «do oriente» e quaisquer pormenores adicionais eram considerados irrelevantes, visto que os autores se focalizavam nos efeitos da peste. Os escritores europeus basearam igualmente as suas teorias sobre o ponto de origem em escritores de viagens anteriores que relatavam que regiões como o Irão estavam livres da peste. A obra do viajante e escritor marroquino Ibn Battuta (1304–1368/69) — que relatou sobre a peste no Oriente — não estava disponível para os escritores ocidentais.

Mesmo que os escritores europeus medievais e renascentistas se tivessem dado ao trabalho de pesquisar as pestes no Oriente, é duvidoso que tivessem tido muito sucesso devido aos motivos já citados. Conforme referido, os documentos primários do Próximo Oriente nem sempre mencionam os surtos e, por vezes, a informação sobre a devastação de uma região provém apenas de registos municipais ou urbanos, ou de relatos de escritores muçulmanos muitos séculos mais tarde. De acordo com os investigadores Ahmad Fazlinejad e Farajollah Ahmadi, uma das dificuldades em determinar onde e quando a peste atingiu o Oriente é a terminologia utilizada:

Os historiadores antigos utilizavam a palavra 'peste' para se referirem a qualquer doença epidémica com um elevado número de mortos. Os escritores muçulmanos utilizam geralmente a palavra árabe ta'un para peste, mas parece que não conseguiam distinguir a peste do cólera porque, em muitos casos que descrevem a Peste Negra, o termo é utilizado de forma alternada com a palavra árabe vaba (cólera).

(pág. 56-57)

Outra dificuldade em definir onde e quando a peste atingiu, como já foi referido, é simplesmente a tendência de um escriba para ignorar áreas para além da sua própria vila, cidade ou região circundante. A interpretação religiosa da peste também afetou a forma como esta foi registada no Próximo Oriente, uma vez que, por se pensar ter sido enviada por Deus, os escribas tendiam a concentrar-se em como se devia responder no plano espiritual e não no físico; além disso, o local exato onde a peste grassava, ou durante quanto tempo, era considerado menos importante do que discutir como um crente se devia comportar perante ela. A questão de saber se Deus pretenderia que alguém fugisse de uma terra assolada pela peste ou que nela permanecesse, por exemplo, é longamente debatida, ao passo que o que se deveria fazer a um nível prático para evitar a doença é ignorado e, pelo que parece, nem sequer era ponderado, uma vez que a peste tinha uma origem sobrenatural, enviada por vontade divina.

A peste continuou até 1486, embora numa escala muito menor (excetuando recrudescimentos periódicos) do que em 1346 – cerca de 1360, e continuaria a fazer aparições no Próximo Oriente até aos séculos XVIII, XIX e início do século XX, antes de a sua causa ser compreendida e de se poderem tomar medidas para a controlar. Ainda assim, e contrariamente à opinião popular, a peste continua a afetar significativamente as populações em todo o mundo nos dias de hoje, muitas das quais continuam a atribuir a doença à vontade de Deus e a ignorar as medidas práticas que salvariam vidas.

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Bibliografia

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Estilo APA

Mark, J. J. (2026, agosto 27). Pestes do Próximo Oriente, 562–1486. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1532/pestes-do-proximo-oriente-562-1486/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Pestes do Próximo Oriente, 562–1486." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 27, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1532/pestes-do-proximo-oriente-562-1486/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Pestes do Próximo Oriente, 562–1486." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1532/pestes-do-proximo-oriente-562-1486/.

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