Argos Antiga

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Theatre of Argos (by Mark Cartwright, CC BY-NC-SA)
Teatro de Argos Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

A antiga Argos, situada no Peloponeso, na Grécia, foi um importante povoado micénico na Idade do Bronze Tardia (1700-1100 a.C.) e manteve a sua importância ao longo dos períodos grego, helenístico e romano, até à sua destruição pelos visigodos em 395 d.C. O teatro, outrora o maior da Grécia, e as ruínas dos banhos romanos do século II são os exemplos de arquitetura antiga mais bem preservados do local.

Período da Idade do Bronze

Argos situa-se no lado ocidental da fértil planície da Argólida, no Peloponeso oriental, na Grécia. A planície, que mede cerca de 250 km² (95 m²), era bem irrigada graças aos rios que desciam das montanhas ocidentais próximas. O rio Charadros (hoje chamado Xerias) passava por dois lados de Argos. O local tem sido habitado desde a pré-história (3000 a.C.) até aos dias de hoje. A antiga Argos foi construída no final da Idade do Bronze em duas colinas: Aspis e Larissa, com 80 m (262 pés) e 289 m (948 pés) de altura, respetivamente. Prosperou como um centro micénico, mas era, naquela época, menor do que as suas vizinhas Micenas e Tirinto. Data deste período uma necrópole, que inclui túmulos de câmara do tipo tholos, e a cidade parece ter atingido o seu auge na Idade do Bronze nos séculos XIV e XIII a.C.

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A cidade atingiu talvez o seu maior apogeu no século VII a.C., sob o reinado de Fídon de Argos.

O Período Arcaico

Na mitologia grega antiga, a cidade recebeu o seu nome de Argos (também conhecido como Argus), filho de Zeus e Niobe, que reinou como rei da cidade e era famoso por estar coberto de olhos ou por ser «onividente». A Ilíada de Homero conta que a cidade de Argos enviou homens para lutar na Guerra de Tróia, sendo governada por Diomedes, que serviu como vassalo do rei Agamenon de Micenas, e sendo um local famoso pela criação de cavalos. A cidade é também descrita por Homero como sendo especialmente querida pela deusa Hera, a quem foi ergirido um santuário protetor a cerca de 10 km (6 milhas) de distância da cidade, que acolhia um importante festival anual, a Heraia Pan-helénica, a partir do século VII a.C.

Map of Classical Greece
Mapa da Grécia Clássica US Military Academy (Public Domain)

A cidade entrou em declínio após a queda da civilização micénica, por volta de 1100 a.C., mas continuou a ser habitada na colina de Larissa e arredores durante toda a chamada Idade das Trevas, entre os séculos X e VIII a.C. Argos atingiu então talvez o auge do seu domínio no século VII a.C. sob o reinado de Fídon de Argos, a quem alguns escritores antigos atribuem a criação: de um sistema padrão de medidas e pesos; a introdução na Grécia continental de inovações militares como as táticas dos hoplitas e os escudos de dupla pegada; e o facto de ter sido o primeiro governante a cunhar moedas de prata (embora os estudiosos acreditem que esta última inovação só tenha sido introduzida no século VI a.C.). Fídon é desacreditado por outros, nomeadamente Aristóteles, por ter acabado por se tornar um tirano, mas Argos tornou-se de facto a cidade mais poderosa da Grécia com a derrota de Esparta por Fídon, uma posição que este celebrou ao presidir aos Jogos Olímpicos. É a contribuição da cidade com hoplitas para os exércitos gregos — cerca de 7.500, incluindo cavaleiros — que dá uma ideia do tamanho da população da cidade nesse período, talvez cerca de 12.500 cidadãos adultos do sexo masculino. O governo da cidade passaria por várias fases ao longo dos séculos seguintes, sendo, em algum momento, uma democracia, uma oligarquia, uma monarquia e uma tirania.

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Entre os séculos VII e V a.C., a pólis ou cidade-estado dominou o vale circundante e tornou-se uma rival de longa data de Esparta pela supremacia na Argólida. Argos prosperou em grande parte graças à agricultura e à pecuária. Outra razão para o crescimento da cidade foi um sistema de longa data de arrendamento de terras, de modo que as receitas pudessem ajudar a pagar as defesas da cidade e edifícios públicos, tais como um templo dedicado a Apolo, a principal divindade da cidade, e santuários dedicados a Zeus e Atena, entre outros. Contudo, Esparta detinha habitualmente a supremacia na região, tendo adquirido Tireia por volta de 545 a.C. e obtido uma vitória decisiva na batalha de Sepeia por volta de 494 a.C.

Heraion of Argos, Greece
Heraião de Argos, Grécia Carole Raddato (CC BY-SA)

O Período Clássico

O papel de Argos durante as Guerras Persas do século V a.C. é ambíguo; a cidade recusou um convite para aderir à Liga Helénica dos estados gregos em 481 a.C. e, a partir daí, manteve-se neutra ou até demonstrou sentimentos pró-persas. No entanto, foi durante este período, e talvez devido à agitação na Grécia, que Argos começou a assimilar estados vizinhos mais pequenos, como Tirinto, Micenas e Nemeia. Em 451 a.C., foi assinado um tratado de paz entre Argos e Esparta, que se manteria durante os 30 anos seguintes. A posição mais proeminente de Argos entre as cidades-estado gregas significava que era a candidata ideal para assumir a organização dos Jogos Pan-helénicos bienais, originalmente realizados em Nemeia, primeiro entre c. 415 a.C. e c. 330 a.C., e novamente de forma definitiva a partir de 271 a.C.

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A herança mítica da cidade fez com que Argos gozasse de um certo prestígio mesmo na época romana.

Uma personalidade ilustre de Argos no século V a.C. foi a poetisa Telesila de Argos, tida como uma das maiores expoentes da poesia lírica da antiga Grécia. O historiador grego do século II d.C. Pausânias atribui mesmo a Telesila o mérito de ter armado um grupo de mulheres e de as ter liderado para enfrentar uma força espartana que atacava a cidade por volta de 494 a.C., mas não há provas disso em fontes mais contemporâneas. Algumas das obras da poetisa talvez tivessem um tema marcial (existem apenas fragmentos escassos), e estas podem ter inspirado os seus compatriotas argivos na batalha, em vez de Telesila se ter envolvido pessoalmente.

O Período Romano

Argos manteve-se neutra durante as guerras de Filipe II da Macedónia (reinou 359-336 a.C.), aproveitando a cidade novamente a agitação política para, desta vez, recuperar Tireia. Contudo, em 272 a.C., a cidade caiu sob o domínio de tiranos pró-macedónios. Argos abandonou então a sua política isolacionista e tornou-se membro da Liga Aqueia (cerca de 281-146 a.C.), uma confederação de cidades-estado no norte e centro do Peloponeso. A Liga permitia aos seus membros utilizar um sistema de justiça e monetário comum e unir-se em caso de ameaça militar. Isto, no entanto, não impediu Filipe V da Macedónia (reinou 221-179 a.C.) de entregar Argos a Nabis (reinou 207-192 a.C.), o tirano espartano durante a Segunda Guerra Macedónica entre a Macedónia e Roma. Felizmente, os romanos saíram vitoriosos e insistiram para que Esparta devolvesse a Argos o seu estatuto de membro independente da Liga Aqueia em 196 a.C. Meio século mais tarde, esta independência terminaria quando Roma assumiu o controlo da Grécia a partir de 146 a.C. Argos ficou sob a jurisdição do governador da Macedónia e acabou por se tornar parte da província romana da Acaia. No entanto, pelo menos, o património mítico da cidade significava que Argos gozava de um certo prestígio mesmo na época romana. O imperador romano Adriano (reinou 117-138 d.C.), em particular, foi generoso para com a cidade, construindo, entre outras coisas, um aqueduto e banhos.

Acropolis of Argos
Acrópole de Argos Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Argos foi saqueada pelos visigodos quando estes devastaram a região em 395 d.C., mas continuou a ser habitada na Antiguidade Tardia e ao longo de todo o período medieval, com adições notáveis, incluindo um castelo do século X e muralhas duplas de fortificação construídas na colina de Larissa, acima da cidade. O castelo, que foi inicialmente construído pelos francos, foi posteriormente ampliado pelos venezianos e, mais tarde, pelos turcos otomanos. A ocupação contínua de Argos e a tendência para destruir e reconstruir no mesmo local tornaram as escavações arqueológicas muito mais problemáticas do que noutros sítios, como Micenas e Tirinto, que foram abandonados.

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Os Vestígios Arqueológicos

Argos foi escavada principalmente pela Escola Francesa de Arqueologia, e os vestígios arqueológicos visíveis hoje incluem estruturas micénicas, gregas e romanas. Existem túmulos micénicos (séculos XIV a XIII a.C.), um odeão para espetáculos dramáticos e musicais (século V a.C.), o santuário de Afrodite (430-420 a.C.), as fundações e paredes da ágora (século V a.C.) e uma grande estoa ou recinto colunado. O impressionante teatro data dos séculos IV-III a.C., mas inclui modificações dos séculos II-IV d.C. Particularmente bem preservado, inclui 81 filas de assentos que lhe teriam conferido uma capacidade para 20 000 espectadores — a maior de qualquer teatro grego. Existem também ruínas dos banhos romanos ou termas (thermae século II d.C.) e, em torno da cidade, partes das antigas muralhas ciclópicas da cidadela (incorporadas nas fortificações da fortaleza medieval na colina de Larissa).

Kouroi by Polymedes
Curos de Polimedes Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Diversos artefactos significativos foram encontrados no sítio arqueológico, incluindo estatuetas de terracota (século XIII a.C.), muitos exemplares soberbos de cerâmica de estilo geométrico (séculos IX-VIII a.C.) descobertos em sepulturas, várias figuras de mármore da escultura romana e dois pavimentos de mosaico dos séculos IV-V d.C., retratando Dioniso num deles e os meses do ano no outro. Este último mosaico apresenta figuras que seguram objetos representativos de um mês em particular, como um cordeiro para abril e trigo para junho. Um achado excecional foi uma couraça de bronze e um elmo de crista com guardas de faces, descobertos num túmulo do final do século VIII ou início do século VII a.C. A maior parte destes artefactos encontra-se atualmente no Museu Arqueológico de Argos.

Podem ser encontrados por todo o Mediterrâneo exemplos da produção artística de Argos. Argos foi a terra natal de um dos mais célebres escultores da Grécia Antiga, Policleto (Polykleitos), que esteve ativo na segunda metade do século V a.C. Além de criar grandes esculturas em bronze como o Doríforo (O Lança-Lanças), que foi amplamente copiado nas épocas helenística e romana (sobrevivem hoje pelo menos 50 dessas cópias, sendo talvez a melhor a de Nápoles), ele também escreveu um tratado, o Cânone (Kanon), sobre técnicas de escultura, onde enfatizava a importância da proporção correta. Outro escultor famoso de Argos foi Polímedes, que criou os dois kouroi (curos) em tamanho real de Cléobis e Bíton. Exemplos excecionais da escultura grega arcaica, foram criados por volta de 580 a.C. e depois dedicados em Delfos, onde ainda permanecem no museu arqueológico do sítio.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, abril 26). Argos Antiga. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-694/argos-antiga/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Argos Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-694/argos-antiga/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Argos Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-694/argos-antiga/.

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