Telesila de Argos

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Erato (by Mark Cartwright, CC BY-NC-SA)
Érato Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Telesila de Argos foi uma poetisa lírica do século V a.C., catalogada por Antípatro de Salonica (cerca de 15 a.C.) como uma das nove grandes poetisas líricas da Grécia (a par de Praxila, Miro, Anita, Safo, Erina, Corina, Nócis e Mirtis). A ela se deve a inovação métrica da poesia lírica conhecida como metro telesileu. Antípatro escreve:

Estas são as mulheres de voz divina que foram criadas sob os hinos do Hélicon e o Penedo Piério da Macedónia: Praxila, Miro, Anita, a Homero feminina, Safo, o ornamento das mulheres lésbias de belas tranças, Erina, a ilustre Telesila, e tu, Corina, que cantaste o escudo marcial de Atena, Nócis de voz donzela e Mirtis de voz suave, todas elas artífices da página eterna. Nove Musas gerou o Grande Úrano, e outras nove a Gaia, para serem uma alegria perene para os mortais. (Antologia Palatina, 9.26).

Durante a juventude, padecia de uma saúde cronicamente débil, pelo que consultou os deuses procurando uma cura. O oráculo respondeu-lhe que se deveria consagrar às Musas; assim, Telesila dedicou-se ao estudo da poesia e da música. Em breve, não só se curou como também granjeou fama como uma grande poetisa lírica. Da vasta obra que produziu, restam apenas dois versos citados pelo antigo gramático Hefestião de Alexandria no seu Manual de Métrica (cerca de 96 d.C.). Contudo, surgem referências a seu respeito nas obras de Pausânias (cerca de 110-180), Plutarco (45-120), Ateneu (cerca de século III) e na obra Biblioteca, erroneamente atribuída a Apolodoro de Alexandria (século II), entre outros autores. Foi uma artista de enorme influência, invariavelmente citada com respeito por outros autores da Antiguidade, independentemente do tema abordado.

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Embora tenha sido famosa em vida pela sua poesia, foi igualmente respeitada por escritores tardios por ter repelido as forças espartanas da sua cidade natal, Argos, em 494/493 a.C.

Telesila e a Salvação de Argos

Embora tenha sido famosa em vida pela sua poesia, foi igualmente respeitada pelos autores posteriores por ter repelido as forças espartanas da sua cidade natal, Argos, em 494/493 a.C. Possivelmente, Telesila dedicava-se à poesia quando as hostilidades começaram. O rei espartano Cleómenes I consultou o Oráculo de Apolo sobre o que aconteceria se marchasse contra Argos, tendo recebido a garantia de que a capturaria. Cleómenes defrontou os argivos no campo de batalha em Sepeia e, recorrendo à astúcia, apanhou as tropas de surpresa, chacinou muitos soldados e perseguiu os sobreviventes para fora do campo de batalha. Estes soldados argivos refugiaram-se no bosque sagrado de Argos e clamaram pelo asilo do deus. Cleómenes interrogou os seus prisioneiros argivos sobre os nomes daqueles que se encontravam escondidos e, assim que obteve os nomes, enviou um arauto para os chamar individualmente, garantindo-lhes a segurança. À medida que cada homem saía do santuário, Cleómenes mandava-o executar. Este processo continuou até que um dos homens que permanecia no bosque sagrado trepou a uma árvore e viu o que se passava no exterior do santuário. Depois disso, como é óbvio, nenhum outro argivo respondeu ao apelo de Cleómenes. Incapaz de fazer com que mais argivos saíssem de livre vontade, ateou fogo ao bosque, queimando vivos os restantes homens. Heródoto relata que, enquanto as chamas subiam, Cleómenes perguntou a um dos desertores argivos a que deus era consagrado aquele bosque. Quando o homem respondeu que se tratava do bosque de Argos, Cleómenes gemeu e exclamou: «Apolo, deus da profecia, enganaste-me seriamente quando vaticinaste que eu capturaria Argos; creio que a tua predição se cumpriu agora» (Histórias, VI.80).

Embora parecesse que o oráculo se referira apenas à conquista do santuário de Argos, Cleómenes abandonou o bosque e marchou contra a cidade. Telesila soube do que acontecera aos homens do exército e mobilizou as mulheres, os jovens e os anciãos de Argos para a defesa. Plutarco escreve:

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Nenhuma ação levada a cabo por mulheres em prol do bem comum é mais famosa do que o combate das mulheres argivas contra Cleómenes, o qual travaram por instigação da poetisa Telesila. Quando Cleómenes, rei de Esparta, após ter morto muitos argivos (mas não, como alguns imaginaram, sete mil, setecentos e setenta e sete) marchou contra a cidade, uma coragem impulsiva, de inspiração divina, impeliu as mulheres mais jovens a defender a pátria contra o inimigo. Tendo Telesila como estratega, pegaram em armas e montaram a defesa guarnecendo as muralhas em redor da cidade, o que deixou o inimigo estupefacto. Repeliram Cleómenes após lhe infligirem pesadas baixas. Rechaçaram também o outro rei espartano, Demarato, que (segundo o historiador argivo Sócrates) conseguira penetrar na cidade e apoderar-se do Panfilácio. Salva a cidade, sepultaram as mulheres que tinham tombado em combate junto à estrada de Argos e, como memorial dos feitos das mulheres sobreviventes, consagraram um templo a Ares Eniálio... Até ao dia de hoje, celebram o Festival da Impudência (Hibrística) no aniversário [da batalha], vestindo as mulheres com túnicas e mantos masculinos, e calçando e pondo os homens em vestidos e toucas de mulher (Morália, 245c-f).

As ações de Telesila foram interpretadas pelos outros autores como o cumprimento de uma profecia do oráculo relativa a Argos, mencionada por Heródoto. Pausânias escreve:

Acima do teatro [em Argos] existe um templo de Afrodite e, diante da estátua sentada da deusa, encontra-se uma estela gravada com uma imagem de Telesila, a escritora de poemas. Estes jazem como que arrojados aos seus pés, enquanto ela própria contempla um elmo que segura na mão e que se prepara para pôr na cabeça. Telesila era famosa entre as mulheres pela sua poesia, mas ainda mais célebre pelo feito que se segue.

Os seus concidadãos tinham sofrido um desastre indescritível às mãos dos espartanos liderados por Cleómenes, filho de Anaxandridas. Alguns haviam tombado no campo de batalha e, dos restantes que procuraram asilo no bosque de Argos, uns aventuraram-se inicialmente a sair sob uma trégua, apenas para serem queimados vivos quando Cleómenes ateou fogo ao bosque. Através destes meios, avançando em direção a Argos, Cleómenes liderou os seus lacedemónios contra uma cidade de mulheres.

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Mas Telesila reuniu todos os escravos e todos os cidadãos do sexo masculino que, pela sua juventude ou idade avançada, tinham sido incapazes de pegar em armas, e fê-los guarnecer as muralhas; e, juntando todas as armas de guerra que tinham sido deixadas nas casas ou que se encontravam penduradas nos templos, armou as mulheres mais jovens e organizou-as num local por onde sabia que o inimigo teria de passar. Ali, sem se deixarem amedrontar pelo grito de guerra, as mulheres mantiveram-se firmes e combateram com a maior determinação até que os espartanos, ponderando que o massacre de um exército de mulheres seria uma vitória equívoca, e que a derrota às mãos destas seria tanto uma desonra como um desastre, depuseram as armas. Ora, esta batalha fora vaticinada pela Sacerdotisa Pítia, e Heródoto [VI. 77], quer o compreendesse ou não, cita o oráculo da seguinte forma:

Quando o macho pela fêmea for posto em fuga

E o nome de Argos brilhar com honra,

Muitas esposas argivas mostrarão

Ambas as faces marcadas por cicatrizes de dor.

Esta é a parte do oráculo que se refere às mulheres.

Theatre of Argos
Teatro de Argos Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

O Debate Histórico sobre a Batalha

A historiadora Jane McIntosh Snyder cita a estudiosa Lisi, que defende ter sido a poesia marcial de Telesila a inspirar a cidade de Argos a resistir aos espartanos, e não um ato físico real da sua parte ou por parte das mulheres que alegadamente a seguiram. Lisi cita o autor do século II, Máximo de Tiro, que escreveu que «os esparciatas eram inflamados pelos poemas de Tirteu, e os argivos pelas canções de Telesila» (pág. 62). Snyder, contudo, descarta esta possibilidade, invocando o facto de não haver registo de Telesila ter composto poesia marcial e de que «a sua esfera principal era a poesia religiosa e não os cantos de guerra» (Idem). Snyder salienta ainda que Máximo de Tiro nunca afirma que Telesila compôs poesia marcial, apenas que os argivos foram inspirados pelas suas canções. É também interessante notar por que razão Máximo de Tiro mencionaria qual o poeta que inspirou cada um dos lados no conflito se esse conflito nunca tivesse ocorrido. O historiador Marcel Piérat concorda com Snyder, escrevendo que a história de Telesila e da sua derrota dos espartanos:

... não carece inteiramente de paralelos realistas. No escudo de Aquiles, as mulheres, as crianças e os anciãos permaneciam nos parapeitos e defendiam-nos enquanto os homens saíam para combater fora das muralhas. Textos históricos mencionam mais do que um combate travado a partir dos telhados por mulheres que arremessavam telhas e pedras sobre os atacantes. O facto da sua presença [das mulheres de Argos] nas muralhas constitui em si mesmo uma proeza menor do que o facto de vestirem a armadura dos homens e tomarem o seu lugar após a aniquilação da infantaria argiva (Heródoto e o Seu Mundo, 278-279).

Snyder conclui que não existe «nada de inerentemente improvável no relato de Pausânias» (pág. 62) e salienta que «no século II d.C., os seus poemas ainda se encontravam em circulação, cerca de setecentos anos após a sua morte» (pág. 59). O facto de o seu nome ter sido famoso tanto pela sua obra escrita como pelas suas proezas em Argos contra os espartanos sugere, com forte probabilidade, que o relato de Telesila a liderar as mulheres da cidade na batalha se baseia num acontecimento histórico.

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Acropolis of Argos
Acrópole de Argos Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

O Rescaldo da Batalha e o Legado de Telesila Plutarco observa que, após a batalha:

Para restabelecer o equilíbrio dos sexos na cidade, não casaram as mulheres com escravos (apesar da alegação de Heródoto), mas sim com os melhores homens das cidades vizinhas, os quais tornaram cidadãos de Argos. As mulheres pareciam não demonstrar respeito pelos maridos e desprezavam-nos quando com eles se deitavam, como se fossem inferiores; por isso, fizeram uma lei que estipula que as mulheres que põem barbas falsas devem passar a noite com os seus maridos.

Pensa-se que a referência a «mulheres que põem barbas» signifique aquelas mulheres que combateram pela cidade como se fossem homens. As veteranas parecem ter recusado regressar ao seu estatuto anterior de submissão aos desejos dos maridos, pelo que tiveram de ser promulgadas leis para reconduzir a comunidade aos costumes tradicionais que existiam antes da batalha e da insurreição das mulheres na defesa de Argos. Marcel Piérat salienta que, após a batalha, os «papéis de género e os papéis das classes sociais foram invertidos» (282), e o caos que ameaçara a ordem social teria de ser remediado por algum tipo de édito.

Desconhece-se o que aconteceu a Telesila após o confronto com os espartanos, mas ela continuou a servir como modelo de heroísmo durante séculos. Clemente de Alexandria (cerca de 150-215 d.C.) preservou um poema anterior sobre o seu heroísmo, o qual contém os versos: «Dizem que as mulheres de Argos, sob a liderança da poetisa Telesila, puseram em fuga os espartanos fortes na guerra, pela sua simples aparição, e tornaram-se destemidas face à morte». A sua reputação de coragem era tal que, quase setecentos anos após o evento, continuava a ser recordada e honrada por isso.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

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Estilo APA

Mark, J. J. (2026, abril 26). Telesila de Argos. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12534/telesila-de-argos/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Telesila de Argos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 26, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12534/telesila-de-argos/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Telesila de Argos." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 26 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12534/telesila-de-argos/.

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