Estrabão de Amásia

Autor da 'Geografia' do Século I

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Rosie Sykes
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Strabo (by Brian Boru, Public Domain)
Estrabão Brian Boru (Public Domain)

Estrabão de Amásia (cerca de 64 a.C. – cerca de 24 d.C.) foi o autor da Geografia (tít. original: Γεωγραφικά; transliterado: Geōgraphika), uma obra geográfica em 17 livros sobre o mundo tal como era conhecido pelos gregos e romanos da época, estendendo-se desde a Ibéria e a Mauritânia, a ocidente, até à Índia, conforme registado pelos companheiros de Alexandre o Grande, e desde a Etiópia até à "Ultimíssima Thule" (ou Tule), uma ilha não identificada a norte da Bretanha. Estrabão viveu durante os séculos I a.C. e I d.C., tendo assim testemunhado de fora algumas reviravoltas políticas marcantes, incluindo as guerras civis de Roma e a ascensão de Augusto a imperador.

Os Primeiros Anos

A cidade natal de Estrabão, Amásia (Amasya, na atual Turquia), era a antiga capital da região do Ponto. Estrabão regista o envolvimento direto dos seus antepassados com a família real do Ponto, incluindo a sua amizade com os reis Mitrídates Evergeta V e Mitrídates Eupator VI. No entanto, estes antepassados tentaram por diversas vezes trair Mitrídates em favor dos romanos invasores. Embora tenham acabado por cair em desgraça tanto junto dos líderes pônticos como dos romanos, o cognome romano de "Estrabão" poderá sugerir a adoção por uma familia romana ou a atribuição de cidadania romana a certa altura, quer ao próprio Estrabão, quer a um membro da sua família.

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O nome romano de Estrabão e a sua herança aristocrática grega refletem a sua posição entre dois mundos: um helenístico e dominado por monarquias de expressão grega, e outro condicionado pelo império romano como uma força cada vez mais ímpar no Mediterrâneo e além. Estas circunstâncias moldam também a obra Geografia, na qual o autor se revela tanto como um orgulhoso herdeiro da tradição literária grega, como disposto a posicionar a Itália como o novo centro cultural e geográfico de um mundo em profunda transformação.

A Geografia traça um percurso no sentido horário à volta do antigo Mediterrâneo.

Ao longo da sua vida, Estrabão viajou muito para além de Amásia. Recebeu educação de vários filósofos peripatéticos em locais como Nisa, embora tenha acabado por optar pela filosofia estóica, referindo-se ao estoicismo como "a nossa escola" e ao seu fundador como "o nosso Zenão". Pode inferir-se da sua obra que passou algum tempo da sua idade adulta tanto em Roma como em Alexandria, tendo inclusivamente viajado rio acima pelo Nilo no séquito de Élio Galo, o prefeito do Egito que mais tarde liderou uma expedição através do Mar Vermelho contra a Arábia Félix, a qual falhou drasticamente nos seus objetivos de explorar a região e de conquistar aliados ou súbditos entre os seus habitantes. Estrabão menciona a extensão das suas próprias viagens:

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Viajei para ocidente desde a Arménia até às regiões da Tirénia opostas à Sardenha, e para sul desde o Ponto Euxino [Mar Negro] até às fronteiras da Etiópia. E não conseguiríeis encontrar entre os escritores de geografia outra pessoa que tenha percorrido distâncias muito superiores às acabei de mencionar do que eu...

(Geografia, 2.5.11)

Map of the Roman Republic on the eve of the Mithridatic Wars
Mapa da República Romana nas Vésperas das Guerras Mitridáticas Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O Mundo Mediterrânico

Desta forma, Estrabão possuía conhecimento pessoal de muitos dos locais que descreve. Quanto a outros, como a Ibéria e a Índia, socorre-se dos relatos de terceiros. Estrabão regista centenas de fontes que utilizou para compilar a obra Geografia, que vão desde a epopeia homérica até Eratóstenes, o geógrafo helenístico e bibliotecário-chefe de Alexandria. O seu interesse por Homero manifesta-se tanto na tendência para considerar infalível a informação geográfica contida no poeta, como no recurso a comentadores da geografia homérica — como Apolodoro de Atenas, que debateu as implicações geográficas do "Catálogo dos Navios" e Hestiaeia de Alexandria, uma erudita, que escreveu sobre a topografia da Ilíada (tít. original: Ἰλιάς; transliterado: Iliás). A Geografia de Estrabão preserva inúmeras citações e paráfrases destes autores, embora por vezes possa ser difícil separar as opiniões e as contribuições do próprio Estrabão daquelas que são veiculadas por terceiros.

A Geografia traça um percurso no sentido horário à volta do Mediterrâneo, começando e terminando nas Colunas de Hércules (o Estreito de Gibraltar). Este método segue o estilo dos guias de navegação escritos da época, conhecidos por periploi. Estrabão interessava-se essencialmente pelo "mundo habitado" (ou oikoumenē), tal como o concebia, em detrimento da disposição de todo o globo, considerando esta última uma preocupação demasiado abstrata para uma obra que pretendia que fosse prática e útil para os líderes políticos e militares:

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A maior parte da geografia serve necessidades políticas: pois o cenário das atividades dos Estados é a terra e o mar que habitamos... Além disso, os maiores generais são homens capazes de dominar a terra e o mar, e de unir nações e cidades sob um único governo e administração política. É, portanto, evidente que a geografia, no seu todo, tem uma relação direta com as atividades dos comandantes.

(1.1.16)

O género da corografia (uma descrição escrita de um determinado lugar ou região) é também relevante para o empreendimento de Estrabão: a sua obra pode ser encarada como uma sequência de corografias que abarcam o mundo conhecido.

Corbita Sailing
Navegação de Corbita Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

A Geometria, a Astronomia e as Ciências Naturais

Estrabão encarava a geografia como uma disciplina composta, constituída por várias vertentes. Os seus principais componentes eram a geometria e a astronomia, fundamentais para determinar o tamanho e a posição dos lugares no globo com base na respetiva latitude, estabelecida a partir de projeções como os meridianos e o Círculo Ártico. No entanto, Estrabão considerava também que a geografia estava profundamente interligada com a história: na sua perspetiva, o mundo habitado era relevante porque constituía primordialmente o palco da ação humana. A determinado passo, exprime como monumentos de importância suficiente, associados a histórias marcantes, se podem tornar quase num elemento "natural" de um lugar:

Diferentes lugares exibem diferentes atributos bons e maus... uns devidos à natureza e outros resultantes do engenho humano... Destes últimos [os atributos resultantes do engenho humano], deve fazer-se questão de mencionar aqueles que conseguem perdurar por muito tempo, ou então aqueles que não perduram por muito tempo e que, ainda assim, possuem uma certa distinção e fama, as quais, ao perdurarem até aos tempos posteriores, tornam a obra do homem, mesmo quando esta já não existe, numa espécie de atributo natural de um lugar.

(2.5.17)

Estrabão refere-se frequentemente a fontes históricas, tais como a história universal de Éforo e a história da ascensão de Roma ao poder da autoria de Políbio. O próprio Estrabão escreveu obras históricas (atualmente perdidas) antes de se dedicar à sua Geografia: refere que os seus Esboços Históricos (Historika Hypomnemata) foram concebidos como uma continuação de Políbio (11.9.3), cuja obra terminava em 146 a.C.

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Map of the Trade Networks of the Roman Empire
Rotas Comerciais Romanas (Séculos I - III) Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A história, para Estrabão, englobava tanto o mito racionalizado como a história mais recente. A Geografia inclui narrativas breves sobre "grandes homens", de Alexandre a Pompeu, mas também sobre mulheres poderosas ao longo da história e até aos seus próprios dias, incluindo a sua contemporânea Pitodoris, a rainha-vassala do Ponto, da Cilícia e da Capadócia:

Mas os tibarenos e os caldeus, estendendo-se até à Cólquida, assim como Farnácia e Trebizonda, são governados por Pitodoris, uma mulher sábia e capacitada para superintender os negócios do Estado...

(12.3.29)

Estrabão não via a história humana isolada do mundo natural. O seu estudo da geografia envolvia a moldagem mútua entre a natureza e a cultura: a sua obra demonstra curiosidade acerca dos efeitos dos fatores ambientais sobre as comunidades humanas, bem como do impacto dos seres humanos nos respetivos ambientes. A etnografia e a história natural constituem, assim, outros focos da obra, registando Estrabão uma profundeza de pormenores sobre plantas e animais. Aqui, Estrabão relata a história de como as tropas de Alexandre o Grande confundiram um grupo de macacos-langures de cauda longa com homens armados nas montanhas Emodi (provavelmente as regiões mais ocidentais dos Himalaias):

Eles relatam o número avultado e o tamanho incrível dos macacos naquela floresta. Isto levou, certa vez, a que os macedónios ficassem com a impressão de que se tratava de um exército, ao verem um aglomerado deles em cima de colinas nuas, alinhados como uma linha da frente. Pois este animal é semelhante aos humanos no seu comportamento, não menos do que o elefante. Partiram para o ataque, como se fossem inimigos, mas Táxiles, o rei na altura, informou-os da verdade, e eles desistiram.

(15.1.29)

Map of the Cities Named Alexandria by Alexander the Great
Mapa das Cidades Denominadas Alexandria por Alexandre, o Grande Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A Geografia oferece informações sobre a história da erudição, o estado do conhecimento geográfico num importante local e momento, e os usos culturais a que esse conhecimento foi sujeito. É também uma fonte importante sobre histórias de seres humanos e animais em ambientes naturais: Estrabão refere-se a esta subdisciplina como "história terrestre", entendendo por tal as variações nas plantas e nos animais ao longo da terra e do mar que considerava caracterizarem os diferentes locais.

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O Legado

Embora a Geografia pareça ter permanecido votada ao esquecimento e por publicar durante algum tempo após a morte de Estrabão, por volta de 24 d.C., surgem referências à mesma na obra de Ateneu de Naucratis (sécs. II-III). Juntamente com Cláudio Ptolomeu, o geógrafo do século II, Estrabão exerceu uma enorme influência sobre as ideias da escrita geográfica bizantina.

Tanto Estrabão como Ptolomeu foram também largamente consultados nos séculos XV e XVI, representando respetivamente os modos "histórico" e "matemático" da geografia. No século XVI foram impressa várias edições da Geografia, incluindo as de Aldo Manúcio em Veneza, Marcus Hopper em Basileia e Isaac Casaubon em Genebra. Desde o humanista florentino Francesco Berlinghieri até aos editores de Estrabão, Hopper e Casaubon, os eruditos comentaram o benefício prático da leitura de tal texto, refletindo as opiniões do próprio Estrabão sobre a utilidade da obra Geografia: Estrabão adaptava-se claramente aos ideais humanistas de uma vida civil informada e ativa, muito em voga no pensamento renascentista. As burocracias europeias da época procuravam também informações correntes e históricas para a produção de corografias regionais: os Estados alemães e suíços que embarcaram em tais projetos, em particular, viram na Geografia de Estrabão um modelo de como alcançar estes objetivos.

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Sykes, R. (2026, agosto 19). Estrabão de Amásia: Autor da 'Geografia' do Século I. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-28931/estrabao-de-amasia/

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Sykes, Rosie. "Estrabão de Amásia: Autor da 'Geografia' do Século I." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 19, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-28931/estrabao-de-amasia/.

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Sykes, Rosie. "Estrabão de Amásia: Autor da 'Geografia' do Século I." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 19 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-28931/estrabao-de-amasia/.

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