Ishtar

Louise Pryke
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Ishtar Standing on a Lion (by Osama Shukir Muhammed Amin, Copyright)
Ishtar Pisando um Leão Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Ishtar (Inanna nas fontes sumérias) é uma importante e poderosa deusa mesopotâmica associada ao amor e à guerra, sendo a primeira divindade conhecida para a qual temos evidências escritas. Embora amplamente desconhecida nos dias de hoje, esta poderosa divindade antiga teve um papel complexo e influente nas religiões e culturas do Antigo Oriente Próximo.

No mundo antigo, é difícil exagerar a importância de Inanna/Ishtar; como a deusa mesopotâmica mais famosa, a sua considerável influência estava incorporada em muitos aspectos da vida dos seus adoradores, e foi reverenciada em toda a ampla extensão geográfica do Antigo Oriente Próximo por um período histórico que se estendeu por milhares de anos. Ishtar vem de uma época muito antiga na história das civilizações complexas, com o seu culto atestado em Uruk já no final do século IV a.C.

Remover publicidades
Publicidade

Importância

As evidências sobre Ishtar vêm da Mesopotâmia, uma área do Antigo Oriente Próximo geralmente considerada como situada geograficamente entre os rios Tigre e Eufrates. Embora se discuta sobre a extensão territorial exata da Mesopotâmia, considera-se que corresponde aproximadamente ao atual Iraque, Kuwait e partes da Síria, Irão e Turquia. A Mesopotâmia foi o berço de muitos dos primeiros grandes impérios do mundo, incluindo os impérios acádio, babilónico e assírio.

Remover publicidades
Publicidade
A influência de Ishtar no mundo antigo desvaneceu-se em paralelo com a escrita usada para registrar os seus mitos e profecias.

Ishtar teve uma influênica significativa nas imagens e cultos de muitas deusas posteriores, incluindo a famosa deusa grega do amor, Afrodite, e outras deusas bem conhecidas, como Astarte. Muitas deusas do período clássico, como Afrodite, Ártemis e Atena, continuaram a ser importantes símbolos culturais. Ishtar, comparativamente, não desfrutou da longevidade semelhante à sua imagem. De estar entre as divindades mesopotâmicas antigas mais comummente atestadas, caiu em quase completa obscuridade.

O declínio de Ishtar para o anonimato moderno provavelmente resultou de uma miríade de causas, mas pode estar, mais plausivelmente, relacionado com o desaparecimento do sistema de escrita cuneiforme, que por mais de 3.000 anos foi o principal meio de comunicação em todo o Antigo Oriente Próximo e em certas áreas do Mediterrâneo. Caiu em desuso por volta do ano de 400, embora os processos envolvidos nesta mudança permaneçam um mistério. A influência de Ishtar no mundo antigo diminuiu junto com a escrita usada para registrar os seus mitos e as suas profecias.

Remover publicidades
Publicidade

Fontes

Inanna/Ishtar é frequentemente apresentada antropomorficamente nos mitos. Na poesia amorosa suméria, é retratada como uma jovem que mora com a mãe, Ningal, o pai, Nanna (o deus da lua mesopotâmico, Sin), e com o irmão gémeo Utu (Shamash semítico), a divindade solar, que está ligado ao conceito de justiça. A própria Ishtar também é associada a um corpo celeste: Vênus, a estrela da manhã e da tarde. O parceiro amoroso da deusa é Dumuzi (Tammuz semítico), que aparece nos mitos como um rei pastor. A mãe de Dumuzi é a deusa Duttur, e sua irmã é Geshtinanna.

Ishtar Clay Mould
Molde de Argila de Ishtar Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

As fontes antigas sobre Ishtar, embora extensas, são fragmentárias, incompletas e difíceis de contextualizar. A natureza problemática dos indícios sobre Ishtar é surpreendente quando considerada à luz do elevado estatuto da deusa e da sua influência duradoura no mundo antigo. As dificuldades com os indícios podem ser considerados em grande parte (embora não exclusivamente) como resultado da sua antiguidade. Entre as fontes literárias antigas, a deusa é mais conhecida pela sua aparição em dois dos mitos mais famosos da Mesopotâmia: a Epopeia de Gilgamesh e a Descida de Ishtar ao Submundo.

A Epopeia de Gilgamesh

A Epopeia de Gilgamesh é uma das primeiras obras conhecidas da literatura épica mundial, sobrevivendo em várias versões. A história conta a odisseia do jovem herói Gilgamesh, rei semidivino da cidade de Uruk. Na versão padrão babilónica da Epopeia de Gilgamesh, Ishtar aparece com mais destaque na Tabuleta VI, onde Gilgamesh é descrito a banhar-se e a limpar as armas após lutar contra o Guardião da Floresta, Humbaba, num ponto anterior da narrativa. Ishtar vê a beleza do jovem rei e olha-o com cobiça, propondo-lhe casamento e oferecendo alguns incentivos agradáveis para adoçar o acordo. Gilgamesh, ao que parece, não se quer casar com Ishtar e toma a decisão questionável de rejeitá-la com palavras duras e pouco lisonjeiras.

Remover publicidades
Publicidade
Pendant of Ishtar
Medalha de Ishtar Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Ao recusar a proposta de Ishtar, Gilgamesh compara a deusa a uma porta dos fundos com correntes de ar, um aríete defeituoso e um sapato que machuca os pés de quem o calça. Este último insulto pode ser visto como sinistro, pois na adivinhação antiga, uma abrasão causada por uma sandália mal ajustada era considerada um presságio com consequências potencialmente fatais.

Ishtar é retratada como muito angustiada pela rejeição cruel de Gilgamesh. Viaja aos céus para visitar a divindade celestial, Anu, e por meio de ameaças e chantagem emocional, a deusa convence o deus mais velho a lhe emprestar o Touro do Céu. O plano é usar o poderoso guerreiro bovino para se vingar de Gilgamesh. Quando Anu finalmente concorda, Ishtar regressa à Terra com o Touro cósmico (associado à constelação de Touro) que luta contra Gilgamesh e o seu companheiro, Enkidu. Os dois heróis conseguem matar a grande besta, e Ishtar chora sobre o seu corpo com as mulheres da cidade.

A Descida de Ishtar ao Submundo

Ishtar e o marido pastor, Tammuz (Inanna e Dumuzi, na mitologia suméria), são os protagonistas divinos de uma das mais antigas histórias de amor conhecidas no mundo. Apesar de terem um relacionamento íntimo e amoroso na poesia suméria, o romance do casal não termina na felicidade eterna. Depois da união de Ishtar e de Tammuz, logo se separam pela deslealdade, pela morte e por alguns demónios do submundo.

Remover publicidades
Publicidade

O mito da Descida de Ishtar ao Submundo conta a história da viagem da deusa ao submundo, a casa de sua irmã, Ereshkigal. Embora tenham sido sugeridas inúmeras razões para a viagem de Ishtar, a que parece mais provável é que tenha sido motivada pelo desejo ambicioso de aumentar os seus próprios poderes. A deusa atravessa os sete portões do submundo, despindo uma peça de roupa em cada portão, chegando nua diante da irmã, Ereshkigal, que é a rainha do submundo, e é morta.

Goddess Ishtar descent to the underworld tablet
Tábua da descida da Deusa Ishtar ao submundo Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A morte da deusa do amor deixa-a presa no submundo e necessitando de resgate. Com a ajuda de sua fiel companheira, Ninshubur, Ishtar é ressuscitada através da inteligente trama do deus da sabedoria, Ea (Enki sumério). O lugar de Ishtar no submundo não pode ficar vazio, e a divindade conjuntamente com um grupo de demónios procura um substituto. Após uma longa busca, enviam o seu consorte, Tammuz, para a substituir no submundo.

Outros Mitos

Além do mito da Descida e de Gilgamesh, há uma riqueza de outras provas textuais sobre a divindade: Inanna/Ishtar aparece em hinos reais, vários mitos, textos proféticos, feitiços mágicos e até provérbios. Os primeiros poemas dedicados a Inanna/Ishtar foram escritos por Enheduanna (cerca de 2300 a.C.), a primeira autora conhecida no mundo a ser identificada individualmente, geralmente considerada uma figura histórica que viveu em Ur, um dos centros urbanos mais antigos do mundo, era sacerdotisa do deus da lua e filha de Sargão da Acádia (ou Sargão de Akkad) ("Sargão, o Grande", 2334-2279 a.C.). Muitos dos mitos menos conhecidos envolvendo Inanna só foram publicados nos últimos 50 anos. Foi somente em 1983, com a publicação de Inanna, Rainha do Céu e da Terra, que a deusa se tornou mais conhecida fora dos círculos académicos.

Remover publicidades
Publicidade

Representação na Arte

Nas obras artísticas, a imagem da deusa é um motivo dominante nos objetos funerários, e aparece ao lado de reis na iconografia real. Barrett argumentou de forma convincente que o famoso Relevo de Burney, com a representação da deusa nua e alada, representa uma "forma subterrânea" de Ishtar. Várias características do Relevo indicam que a deusa está a ser apresentada no contexto da sua visita ao submundo. A divindade segura o bastão e o anel da liderança, um turbante e um colar, e possivelmente usa uma peruca. A dupla fileira de formas ovais na base do relevo representam montanhas, que têm associações com a morte, assim como as corujas. Embora não faça parte do mito, o posicionamento da figura nas costas de dois leões reforça a ligação com Ishtar, assim como a apresentação frontal da figura. A nudez da deusa sugere a fase do mito da Descida em que está perto da morte — talvez no caminho de volta do reino dos mortos. As garras e asas da figura podem mostrar a deusa regressando do submundo visando vingança — levando à morte o seu amado Tammuz. Em muitos mitos, a deusa está intimamente associada à vingança, à justiça e à manutenção da ordem cósmica.

Queen of the Night or Burney's Relief, Mesopotamia
Rainha da Noite ou Relevo de Burney, Mesopotâmia Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Em retratos pode ser acompanhada pelo seu animal emblemático, o leão, e frequentemente armada. A suméria Inanna, em particular, é frequentemente representada com um leão ou em pé sobre um leão. Ela também aparece na iconografia no seu aspecto celestial, como uma estrela de oito pontas, e é associada em fontes visuais a rosetas. A estrela de Ishtar é frequentemente retratada ao lado de um disco solar e de um símbolo lunar em forma de crescente, representando o irmão, a divindade solar Shamash (sumério Utu), e o pai, a divindade lunar Sin (sumério Nanna). A associação de Ishtar com o emblema astral duma estrela de oito pontas é encontrada em selos cilíndricos do Período Dinástico Arcaico (2900-2300 a.C.) e permanece intimamente ligada à divindade ao longo de milhares de anos da história da Mesopotâmia, até o período neobabilónico.

A deusa é por vezes apresentada ao lado de imagens de escorpiões, como nos selos cilíndricos babilónicos. Esta ligação artística aos escorpiões também pode ser vista em fontes literárias, onde Inanna luta contra um escorpião gigante num mito sumério que retrata a sua usurpação do deus do céu, An (semítico Anu). Ishtar pode ser retratada ao lado do rei mesopotâmico e é mostrada participando em rituais ou cerimónias religiosas, como no famoso Vaso de Warka, um vaso de alabastro esculpido descoberto no complexo do templo de Inanna em Uruk. O vaso mostra a deusa em pé na porta do templo, recebendo uma procissão, e é um dos exemplos mais antigos conhecidos de escultura narrativa em relevo, datando de cerca de 3000 a.C.

Remover publicidades
Publicidade

Realeza e Legado

Ishtar tinha uma relação especial com os governantes humanos da Mesopotâmia. Na sua associação com os reis mesopotâmicos, Ishtar/Inanna é representada como mulher, amante, irmã e mãe — por vezes, tudo numa única composição. Embora o seu papel mostre flexibilidade, as evidências textuais estão tematicamente ligadas por meio de uma ênfase na fisicalidade da deusa, especialmente a sua forma feminina. O afeto da deusa tinha uma função legitimadora para os reis, com o conceito de "rei pelo amor de Inanna" podendo ser rastreado até às origens mais remotas da hierarquia política.

Os afetos da deusa eram considerados protetores daqueles que amava, unindo famílias, comunidades e impérios em laços poderosos que perseveravam mesmo após a morte.

Ishtar não é muito conhecida nos dias de hoje, e o que resta da sua imagem tem sido frequentemente obscurecido por preconceitos historiográficos. A controvérsia em torno da imagem moderna de Ishtar pode ser vista de forma mais evidente na fixação distorcida na sexualidade da deusa encontrada em muitos estudos académicos do século XX. Embora a sexualidade de Ishtar seja um aspecto vital da sua imagem, a ênfase no seu lado erótico ofuscou muitos outros elementos importantes da imagem da divindade, como a sua ligação com a guerra e a aplicação da justiça, a associação com a música, a alegria e a abundância, e os seus laços religiosos com a morte e a vingança.

De um modo geral, a obscuridade dos mitos da deusa nos dias de hoje resultou por a sua imagem ser encontrada principalmente em obras com forte influência mítica, particularmente nos géneros de ficção científica e fantasia. Vislumbres da antiga divindade podem ser encontrados em séries de televisão como Stargate, SG-1, Hércules (Hercules, the Legendary Journeys) e Buffy - A Caçadora de Vampiro (Buffy the Vampire Slayer). Os mitos de Ishtar também aparecem nas obras escritas de Neil Gaiman, Richard Adams e Robert A. Heinlein.

Nos dias de hoje, uma das divindades mais antigas conhecidas do mundo foi reimaginada como personagem de banda desenhada moderna. Inanna apareceu pela primeira vez na revista Conan, o Bárbaro #40, da Marvel, em 1974, intitulada "The Fiend from the Forgotten City" (O Demónio da Cidade Esquecida). Na história o herói bárbaro Conan é ajudado pela deusa enquanto luta contra os saqueadores numa antiga "cidade esquecida". A Inanna da Marvel possui poderes semelhantes aos de sua contraparte mítica, incluindo a capacidade de curar. Ishtar também apareceu na DC Comics, junto com o marido Tammuz. Em Madame Xanadu Special #1.1 (1981), os antigos amantes são ressuscitados, mas apenas temporariamente.

Remover publicidades
Publicidade

Amor e Relações Sociais

Ishtar, a primeira deusa do amor conhecida no mundo, está ligada a muitas formas de intimidade emocional. Embora esta associação certamente inclua o amor sexual, abrange uma variedade de outros tipos de laços amorosos. A deusa tem relações carinhosas com a sua família divina e a sua serva, Ninshubur. O amor ligou a deusa ao rei mesopotâmico histórico, num vínculo único que misturava os papéis de mãe, mulher e irmã. Os afetos da deusa eram considerados protetores daqueles de quem ela cuidava, unindo famílias, comunidades e impérios em laços poderosos que persistiram mesmo além da morte.

Nos mitos, Ishtar usa o seu estatuto como deusa do amor e as suas habilidades extraordinárias para relações sociais de forma a aumentar o seu poder. Embora geralmente não esteja na lista dos deuses mais dominantes da Mesopotâmia (em diferentes épocas, seriam mais provavelmente: Enlil, Ea, Marduk, Assur ou Anu), a competência de Ishtar em usar as suas relações sociais ao serviço das suas ambições proporcionou-lhe um papel distinto no panteão. De fato, esta notável capacidade da divindade para relações sociais é um dos aspectos mais constantes da sua imagem. A identidade de Ishtar como uma poderosa divindade feminina, juntamente com seu domínio de relação social, torna a apreciação desta deusa antiga particularmente atual para o público moderno.

Remover publicidades
Publicidade

Bibliografia

A Enciclopédia da História Mundial é uma Associada da Amazon e recebe uma contribuição na venda de livros elígiveis

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Louise Pryke
Dr. Louise Pryke is an Honorary Research Associate and Lecturer at the University of Sydney. She is the author of Scorpion (2016), Ishtar (2017) and Gilgamesh (2019).

Cite Este Artigo

Estilo APA

Pryke, L. (2025, novembro 08). Ishtar. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-271/ishtar/

Estilo Chicago

Pryke, Louise. "Ishtar." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 08, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-271/ishtar/.

Estilo MLA

Pryke, Louise. "Ishtar." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 08 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-271/ishtar/.

Remover publicidades